sexta-feira, 7 de setembro de 2018

[0052] Viriato da Cruz e a grande poesia angolana


Viriato Francisco Clemente da Cruz nasceu no antigo Porto Amboim em 1928 e faleceu em Pequim em 1973. Ligado que esteve com o Partido Comunista Angolano nos anos 50 do passado século, em 1957 foi para Paris onde, com Mário Pinto de Andrade, esteve na origem do movimento independentista angolano, participando (em 1960) na fundação do que veio a ser o Movimento Popular de Libertação de Angola, de que foi seu secretário-geral, que abandonou em 1962. Em choque com Agostinho Neto – que acusou de “desviacionista” –, foi expulso do MPLA em 1963, tendo sido preso e espancado pelos “netistas” em Leopoldville e depois em Lufungula. Fixou residência na China Popular em 1966, aderindo às teses da revolução cultural proletária chinesa, da qual se haveria de distanciar. Foi encerrado nos campos de trabalho de Pequim, o mesmo acontecendo à sua família, em consequência de que acabou hospitalizado e no hospital morreu muito fragilizado. Foi uma das muitas vítimas da “revolução cultural” maoísta, deixando um último escrito no qual, escarrapachando os nomes de alguns dos seus torcionários antigos companheiros de luta, se afirma: “Não está no meu poder perdoar os actos de felonia, de perseguição e de falta de camaradagem que aqueles senhores e alguns dos seus sequazes praticaram, não só contra mim, mas também contra um certo número de angolanos. Parece-me ser altamente importante que tais actos sejam, em todos os tempos, condenados em Angola como criminosos e desonrosos”. Em 1990, os seus restos mortais foram trasladados para Luanda e sepultados com todas as honras, sendo considerado um herói nacional. Para alguns, Viriato da Cruz terá sido o maior poeta angolano.


MAKÈZÚ

O pregão da avó Ximinha
è mesmo como os seus penos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos

Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao su reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."

- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"

- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão…

E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".

- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"

- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."

[0051] Albino Magaia e a nova poesia moçambicana

Albino Fragoso Francisco Magaia nasceu na antiga Lourenço Marques em 1947 e aí faleceu em 2010. Jornalista, escritor e poeta, foi director do semanário "Tempo" e secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Com destacado papel na luta de libertação nacional, foi autor de "Assim no tempo derrubado", "Yo Mabalane!" e "Malungate". De poesia simples e directa, referente ao quodiano de um povo a edificar a sua própria identidade, foi um dos vultos de uma literatura que começou a afirmar-se vigorosamente na década de 40 do passado século.

INUNDAÇÃO

I

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado~
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão
Todos olha
Todos espera comer
Todos esperam matar fome


II

Vão encher barriga negra
Vão enchr palhota de reservas
Vão encher panela todos os dias
E vão também calar boca de crianças
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas


III

Engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou

Milho afogado e batata doce morreu
Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

[0050] De novo, Luís Filipe Sarmento



Do seu livro ainda inédito “KNK”, este portal publica cinco poemas de Luís Filipe Sarmento. Voz de visita obrigatória, “ibn Mucana” orgulha-se de dar repetida guarida à produção deste poeta português. Sempre bem-vindo. (ver também post 0024, AQUI)

4.

Entende-se como antecipação de uma experiência em si:
resguarda o passo, efectua o gesto, a sensibilidade expõem-no
ao pensamento, alimenta o ensaio possível. O sorriso dilacera
a obscuridade, ilumina a ciência que expande o desejo previsto.
Na sua intimidade reserva-se a razão pura: o entendimento
que o faz acontecer, desbravando entranhas até ao núcleo
onde fragmentos se dissipam na unidade.
Cofre de ideias possíveis, a combustão do seu motor
põe em marcha o traço no espaço e no tempo, projectando-o.
A ideia de si e do mundo é a crença que o transfigura
em cada passo, transcende-se quando entende o cosmos em si.

5.

Sabe que tudo é formado por coisas simples
e nada simples é
tudo é necessário e mortal. Do dogma à crítica transcendente,
o fragmento da totalidade no espaço e no tempo
é o que se intui, nem olho de deus nem arquitecto do universo
nem ser necessário, nega a sua necessária existência.
A razão de ser de todas as coisas não é deus, talvez a coisa
não se demonstre por impossibilidade da sua nudez ideal.
Do natural defeito ao erro irracional,
a refutação de uma falsa origem, o buraco negro e o seu esplendor
imaginariamente artístico. Onde as periferias são sugadas
e aniquiladas por uma potência teórica
da qual pouco se sabe. O movimento, sem roda nem deus,
faz da expansão a sua existência comum num lugar a haver.   

6.

Que lugar tem a ciência no mundo transcendente?
Pensa na água e na matéria do planeta, no sangue
e na mãe-fenómeno, a extensão do real à dilatação
dos olhos, o deslumbramento dos líquidos veneráveis,
a varanda suspensa sobre as interrogações
que navegam nos abismos dos mistérios concedidos
à observação; pensa nas coisas em si, na sua fulgurância
fenoménica, o que dos enigmas apreende,
o inexplicável na orografia da ciência,
o paradoxo de ser subterrâneo e aéreo a um tempo desconexo.
A razão especula (e ele ri no sossego do seu desassossego)
o que à existência a impossibilidade nega à resposta:
se a alma existe na eternidade
e se deus não é um auto-retrato do medo.   

7.

A causa daquele olhar foi a minha distração;
não houve recepção à lucidez daquela presença.
Inconscientemente omisso do mundo, a única existência
na abstração era a arquitectura do edifício da palavra.
Saber e acção, sem a ilusão quotidiana de um olhar,
razão e manifestação da ideia, texto em carne viva,
o sangue nas entrelinhas, o pulsar do ser,
a teoria da existência única.
Talvez a percepção do teu sinal
me levasse ao conhecimento desse olhar que questiona
o homem absorto da realidade dessa existência
que poderia escrever a quatro mãos
o que o presente desconhece do futuro. 

8.

Se inventou sinais, criou-lhe uma teoria
para que o conhecimento fosse completando com razão
o que autentifica o ser e a sede de sair de si.
Entre as árvores o seu aposento,
talvez a explicação das folhas, das veias, da resina,
a incógnita dos céus, sendo seu habitante.
A priori o tempo e nele a casa habitada de interrogações,
da seara ao pão, da paisagem ao destino da fome,
o fogo da besta, a perversão da propriedade do espaço
e da fronteira. Instrumentos de matar
solidificam a aridez das memórias, o deserto da ignorância.
Exposição ao perigo, a experiência do aventureiro
que, em território desconhecido, se entrega
ao mistério e imediatamente não diz
o que a reflexão aconselha como prova de existência
na descoberta do que entende de si. 

[0049] Rui Noronha, a ponte entre dois hemisférios

Nascido na antiga Lourenço Marques em 1909 e aí falecido em 1943, António de Rui Noronha foi, tal como Noémia de Sousa e Rui Nogar (já referidos neste portal), um percursor da moderna poesia moçambicana. Mestiço, filho de pai indiano, foi igualmente jornalista, usando o pseudónimo de Xis Kapa e de Carranquinha de Aguilar, distinguindo-se pela sua defesa da causa africana contra a dominação colonial e a discriminação racial. A sua obra poética está compilada em “Os Meus Versos”, editado em 2006. Duas vertentes fundamentais inscrevem-se na poesia moçambicana: uma, essencialmente de expressão colonial, mesmo que aberta a uma certa descolonização, e a outra herdeira de uma afirmação cultural africana em cujo alvorecer se destacam os nomes de Noémia de Sousa, Rui Nogar e José Craveirinha. Rui Noronha, com a sua poesia intimista e o seu recorte clássico, como que representa a ponte entre uma e outra, mas já de rotura com a tradição europeizante..


SURGE ET AMBULA

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo
O universo caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o sono teu infindo.

A selva faz de ti sinistro eremitério
Onde, sozinha, à noite, a fera anda rugindo
A terra e a escuridão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo.

Desperta. Já no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula

Desperta. O teu dormir já foi mais do que terreno
Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz - “África, surge et ambula!”

[0048] Mata Guillé e as vozes da Costa Rica


Poeta costa-riquenho, Álvaro Mata Guillé é também director de teatro, actor, promotor cultural e cineasta. 

Vive no México e, sem dúvida, é uma voz significante da poesia da América Central que “ibn Mucana” traduz um dos seus poemas com os devidos cuidados para não trair o original. 

As suas palavras transformam a realidade e constroem um universo insólito.



SEM TÍTULO

As borboletas
apareciam com as sombras
como as cintilações entre as nuvens que abaixavam
como espectros. Quisemos ir com elas,
mas um relâmpago,
que iluminava as afirmações da lua,
o ulular dos moxos e o arrastar das correntes
nos deteve. Não tinha aonde ir,
nem corria o sol, nem a água
nem sequer nos marca a névoa. Sentámo-nos
debaixo da copa das árvores
a esperar,
decifrando os ossos dos livros,
as suas vozes. Os olhos
molhados pela baba
perturbavam o sonho e a sombra,
as mãos aferradas aos aguilhões,
as enseadas negras e as olheiras,
os dentes cravados nas covas, afirmava Jorge,
dizendo que os nossos desagrados vinham de longe,
de um tempo sem tempo,
de outra parte,
do monólogo de Arvo no espelho,
do iluminar dos sótãos,
no deserto,
nos seixos,
ma outra costa,
de um lugar sem lugar.

Foi então
que não se lobrigava sem olhar
nem o vento
nem o medo,
só a indiferença. Foi
antes de chegar aos declives sombreados
onde as folhas se acantonavam
e as borboletas.

[0047] Ed Mulato e as ressonâncias de África no Brasil

Ed Mulato, pseudónimo de Ademir Barros dos Santos, nasceu em S. Paulo (Brasil) em 1948 e aí reside (Sorocaba). 

Investigador, contista e poeta, autor de "Restos" e "África, nossa história, nossa gente" (entre outros), tem publicações espalhadas por diversos portais. 

A forte influência dos conceitos derivados da negritude, a sentirem-se no Basil, cruzam-se com pitadas de folclorismo e o halo poderoso da cultura tipicamente brasileira.


MÃOS NEGRAS

Mãos que vadias, vazias,
remontam estranhas estórias de seus orixás.
Mãos de iabás.

Mãos que arrancadas, recobrem, no Congo,
estórias do sangue que houve por lá.
 Mãos que não há. 

Mãos que amarradas, inúteis, são presas,
e perdem, na vida, seu tudo, seu lar.
Mãos de assustar. 
Mãos que apresadas em mastros, tumbeiros,
imóveis se vendem, por nada, aqui.
Mãos de zumbis. 

Mãos que se estendem ao negro cativo, perdido,
vendido, na Terra Tupi.
Mãos que não vi. 

Mãos brutas que rasgam o solo do eito,
arrancam do peito a dor de sonhar.
Mãos de plantar. 

Mãos bentas que curam, fazendo mandingas,
embalam cantigas p’ro dono sonhar.
Mãos de ninar. 

Mãos que revoltas, rabiscam idéias,
buscando revoltas nos sonhos da vez.
Mãos de malês. 

Mãos que se soltam no mato, no mundo,
reinventam Angolas da cor de sua tez.
Mãos de quem fez. 

Mãos que se perdem, vazias de emprego,
sem chance, sem leite, esperança ou ar.
Mãos de esperar. 

Mãos que se abrem, acolhem, enxugam
prantos saudosos de sua união.
Mãos que se dão. 

Mãos que se buscam, unidas na prece,
esperam a paz escondida entre irmãs.
Mãos de Iansãs. 

Mãos postas que buscam, em ato de fé,
a paz de sua raça e sua remissão.
Mãos de perdão. 

Mãos juntas que enxugam, acolhem e curam,
trabalham, procuram a paz entre irmãos.
Mãos Negras.

Minhas mãos!

terça-feira, 4 de setembro de 2018

[0046] São Tomé e Príncipe: Costa Alegre, um percursor

Com Caetano da Costa Alegre, “ibn Mucana” complementa hoje o mostruário do advento da poesia santomense actual no qual se agigantam os nomes de Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo e Manuela Maria Margarido, todos já apresentados neste portal. 

Costa Alegra nasceu en 1864 e morreu em Lisboa em 1890, ainda bastante novo (apenas 25 anos), devido à tuberculose. Crioulo de origem cabo-verdiana, durante oito anos viveu em Portugal, e aí começou a poetar com relativo êxito. Verdadeiramente, foi um percursor dos poetas africanos lusófonos posteriores. 

É uma poesia marcada pela impressionante beleza das ilhas, pelo irromper das ideias independentistas e pela afirmação da negritude que começava a irromper em África e na América.

VISÃO

Vi-te passar, longe de mim, distante.
Como uma estátua de ébano ambulante.
Ias d luto, doce toutinegra
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra.
Depois, cativa de invisível laço
(O teu encanto, a que ninguém resista)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim distante.
Como uma estatura de ébono no ambulante.


O MENINO

A preta lavadeira já é mãe
e a sua primeira preocupação
foi mostrar o seu menino preto
ao patrão
e à senhora do patrão...

O seu homem veio também.

Ela vestiu panos estampados, novos, era mãe,
Ele trazia o menino ao colo, aconchegado.

Vinham contentes, ela gesticulando.

Por fim chegaram.
E discutiram entre os dois qual o primeiro a falar.

E sorriram para o seu menino preto.
Abriu a porta  a senhora do patrão.
E os dois apenas disseram:
O menino!

Estava feita a apresentação.

[0045] Tere Tavares, o esplendor da poesia brasileira

Tere Tavares, escritora e artista plástica, radicada em Cascavel, no Pará, Brasil, é autora de sete livros publicados: "Flor Essência" (2004), "Meus Outros" (2007), "Entre as Águas" (2011), "A linguagem dos Pássaros" (Editora Patuá, 2014), "Vozes & Recortes" (Editora Penalux, 2015), "A licitude dos olhos" (Editora Penalux, 2016) e "Na ternura das horas" (Editora Assoeste, 2017). 

Conta com diversas publicações em antologias no Brasil e exterior. Integra a Academia Cascavelense de Letras e edita o blog a seguir indicado (clicar no link, para ver).

m-eusoutros


SABEMOS DO QUE NOS DEPURA OS DIAS

Sabemos do que nos depura os dias e por vezes fica dormente
até que um peso mínimo nos faça acordar
 novamente. Há embustes na terrível excelência do partir
sem chegada a desorientar o que não teve lugar.
Como um epitáfio não grafado na rocha perpétua.
De tanto auscultar a fundura resta-nos o farol o anel imóvel
 circundando a janela de ouro que desce pelos rios
e pelas nossas vestimentas ornadas de peixes e canoas de cedro.
Tudo o que muda é obscuro e balbuciante,
numa linguagem melódica
que alguém sopra metodicamente
irradiando-se na possibilidade de retorno
e ser argila furtiva e alva e pluvial.
Ainda que estivéssemos nas ausências repetíveis e pétreas.


TENHO BELEZA COMO TENHO HORRORES

Tenho beleza como tenho horrores.
Sou a gravura dos labirintos errantes.
Pintou os cabelos sem dar-se conta que descoloria a alma.
As mãos sem luvas asfixiadas num delírio inalterável
consumindo-se até sobrar-lhe somente as unhas.
Ocupou-se de sortes inacreditáveis aspergidas de um modo imprevisto
sobre as paredes e tetos. Depois confiou ao coração a escolha de cada textura
que revestiria suspeitas e incredulidades mascadas
e digeridas num muito obrigada para finalizar.


UMA PESSOA APARENTEMENTE FELIZ

Uma pessoa aparentemente feliz.
Talvez lhe faltasse autoestima algum amor.
O sorriso em desalinho. Os maltratados dentes.
Soube-a imediatamente ao conhecê-la da sua solidão agravada
pela dedicação à casa decadente e adoecida antiga
como a sua disposição para buscar
uma saída mais honrosa e vivificante.
Desilusões ao longo da vida não deveriam servir aos desânimos
ou aos desestímulos. As unhas por fazer as raízes brancas nos cabelos.
A maquiagem avessa. A tez seca. Queixas esquecidas.
Roupas sem uso. Puídas.  Abandono de egos e vaidades.
As agulhas ímpares e branquíssimas como se entremeadas por fios de caramelo. A cabeça nas nuvens só para destoar dos amanheceres e crepúsculos
mais ardentes. As choupanas que visitara numa juventude passada.
Machucada de lua. Não aprendera sobre as perdas.
Que só os que sabem do desapego
conservam a dignidade e resistem.

[0044] Fernando Fitas, de novo


Fernando Fitas revisita este portal e a sua presença nos honra sempre. Laureado em Portugal e Espanha, a sua voz é uma das mais originais da poesia portuguesa contemporânea, ganhando nela um lugar muito próprio. Registam-se aqui mais três poemas. (ver anterior participação de FF no IM, AQUI).


EU NÃO TE CONHECIA
À memória de Marielle Franco

Eu não te conhecia antes dessa pistola vomitar quatro balas.
Sequer terei ouvido (alguma vez) o teu nome na rádio,
nem que emprestavas vida a ruas onde o medo e a morte
espreitavam nas esquinas,
como sombras deitadas, marcando território.
Espero que me desculpes a minha ignorância.
Há coisas que nos fogem sem nos apercebermos
e só delas sabemos quando nada mais há
do que um sorriso inteiro cravado na memória
e o silvo de um disparo abrindo-nos os olhos.
Neste lado de cá do enorme oceano
não chegavam notícias dizendo o que fazias.
Apenas chegou esta,
dizendo/ que um jagunço te havia assassinado.
Enganou-se, coitado,
porque a festa da luta - invencível, perene- ,
que mora nos teus lábios,
permanece contudo no povo e na favela.


HOJE NÃO HÁ PIPOCAS

Hoje não há pipocas para adoçar palavras;
o milho não medrou por efeito da seca
e o cinema fechou à falta de fregueses.
Ia passar um filme de poetas e pobres,
mas não houve dinheiro para pagar a luz.
As latas com a película encontram-se arrestadas
para pagar a dívida de rendas atrasadas.
O fundo imobiliário que detém o imóvel diz
não ter contemplações com quem não cumpre a horas
a sua obrigação
de honrar na data exacta a letra do contrato.
Os actores desertaram famintos de inacção
e andam pelas  arcadas sob o néon de bancos
reclamando salários de produções sem brilho ou glamour.
Mas para quê o brilho se os holofotes deixaram de ter préstimo numa sala às escuras
e a tela só reflecte a sombra da poeira sentada nas cadeiras?
A morte de uns e outros é sempre uma tragédia,
quando apenas se morre na mudez de uma máquina
que transmutara heróis em coisas descartáveis
travestindo vilões em donos disto tudo.


FÁTIMA, OUTRA VISÃO 

Este o lugar de encobertos dizeres, o ponto cardeal
daqueles que não partem mas vencem as distâncias
e concedem ao vento a pele por onde as caminhadas
rasgam os seus caminhos, esse fio de palavras que move
(os) peregrinos a ferir-se nos pés até o olhar sangrar/sangrar o olhar.
Não sei se isso é um culto ou um estranho desígnio
que mostrando promessas exibe (a) crueldade,
ou  apenas um modo de colher dividendos
de quem ébrio de litanias se arrasta de joelhos
supondo divindades.

[0043] Inês Ramos e a expressão poética


Inês Ramos, poeta, activista cultural e designer, portuguesa residente há anos em Cabo Verde é autora de “Meditações sobre o fim”.

Vem-se ocupando na preparação de antologias poéticas e na promoção do livro de poesia naquele país. 

Como designer e capista, trabalhou na comunicação social e, nos dias de hoje, numa das principais editoras de Cabo Verde.






SEM TÍTULO

Se ao menos fosse fácil morrer
estar calmo nessa hora
brincar com a memória
bater palmas
ler até um poema, se for curto.

Pegar no telefone
e ligar para o 112
anunciando uma morte iminente.
Reler mensagens de amor
guardadas no telemóvel.
Talvez até enviar uma
(com abreviaturas, obviamente).

Ver se há ovos no frigorífico
estrelar um
molhar o pão na gema
e deixar a clara, que não há tempo.

Se ao menos fosse possível
manter a calma
ir ao jardim colher margaridas
voltar para dentro
beber um cálice de Porto
acender um cigarro
e deixar sair o fumo num leve e longo sopro.

Se ao menos os ponteiros fossem silenciosos
e embarcássemos na morte
sem dar por ela.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

[0042] Paulino Vieira, "M'cria ser poeta". A poesia, na música cabo-verdiana



Natural da ilha de São Nicolau (Cabo Verde), Paulino Vieira é um dos mais conceituados músicos do país-arquipélago. Compositor, orquestrador e multi-instrumentista, trabalhou com grandes intérpretes das ilhas, entre os quais Bana e Cesária Évora, a cujas carreiras deu significativo impulso. Dada a base "filosófica" de "Ibn Mucana", aqui fica um poema seu, cujo desiderato foi atingido por este músico e de facto também poeta... "M'cria ser poeta" saiu originalmente no disco homónimo de 1984, Edições Monte Cara mas já foi interpretada por outros cantores cabo-verdianos, como Fantcha ou Ildo Lobo, por exemplo.

M'CRIA SER POETA (EU QUERIA SER POETA)

S`na mundo tem mornas e mornas dedicód
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.

[0041] Lopito Feijóo, uma presença angolana que "Ibn Mucana" repete



Lopito (José André da Silva) Feijóo é uma voz forte (e muito própria) da actual poesia angolana. Também crítico literário, assíduo frequentador deste portal, honra-nos com a sua vigorosa colaboração. Nasceu em Lombe (Malange) em 1963 e tem vasta bibliografia já publicada. É a primeira repetição de poeta que com todo o gosto fazemos em "Ibn Mucana" (ver post 0015 AQUI).


IMAGINAÇÃO    1

Em época de alta maré
e superlativa navegação arejada
depois da procurada terra à vista

simplesmente darão à costa e chegarão
com os suportes da emoção desejada
os foliões dos velhos carnavais emancipados.

E dos quantos espezinhados motivos
de referência total resistirão somente
os de possível sonoridade global actuante.

Chegarão embrulhados numa onda
com semblante azul e branco
rolando densa, onda magna azul e branda

massageando e amaciando intensos corações
predispostos para a prudente absorção
de matérias longitudinalmente cognitivas.    
  

IMAGINAÇÃO  2  

Nekesse é um mundo de futuros…
de futuras farturas e flexíveis
fluidos conhecimentos esvaziando
a desesperança dos anos alucinados. 

Novas sabedorias e digna sapiência
nas embalas dos ambundos, nos sobados
dos kuimbundos, bakongos  e nganguelas
nas regedorias ibindas das nossas constelações.

Em Nekesse restam somente cicatrizes
dos passados que já foram futuros
em presentes então horrorosos
que imbatível a História assume engolir!   


IMAGINAÇÃO    3

Entre nós consagrada a memória
Dos pessoais cérebros imortais
das nossas antes passadas guerras intestinais.

É reconhecida a maioria para lamentar       
dos nossos autênticos soldados
desconhecidos pelo atlântico
ou pacífico porvir ainda não concebido.

Horas inglórias dos heróis mortos heróis
cativos detetives de irreal investigação
esperanças maduras na incerta decantação.

O presente passa e regressa
aturado passado, no futuro
sonhado, passados que foram
os velhos e gloriosos anos de peste!

[0040] Maria Manuela Margarido e a denúncia da opressão colonial

Maria Manuela Carvalho Margarido nasceu em 1925 na ilha do Príncipe, na roça Olímpia, e faleceu em Lisboa em 2007. Descendente de judeus, indianos e angolanos, foi casada com o escritor português Alfredo Margarido. Uma das mais significantes poetisas santomenses, foi empenhadamente independentista, sendo uma destacada voz denunciadora do massacre de Batapá. Relacionado com a comunidade africana que vivia em Lisboa, foi membro e activista da Casa de Estudantes do Império. Foi presa pela PIDE e encarcerada em Caxias, esteve exilada com o marido em Paris, onde se licenciou e fez teatro. Depois da independência de S. Tomé e Príncipe, foi Embaixadora do seu país na capital francesa.


ALTO COMO O SILÊNCIO

A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.
Oh, a tarde clara
deste fim de inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e moral das cobras.


VÓS QUE OCUPAIS A NOSSA TERRA

É preciso não perdr
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derruba a árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem.
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?

[0039] Poesia de Morgado Mbalate

Morgado Henrique Mbalate (nascido na Matola, Maputo, em 1993), mais conhecido por Morgado Mbalate. É formado em Filosofia e especializado em Recursos Humanos pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). Teve curta passagem pela Escola Nacional de Aeronáutica onde estudou Electrónica e Telecomunicações. Poeta, autor de um livro de poesia “Odisseia da Alma”, publicado pela Edições Esgotadas. De entre prémios e distinções, destaque para as menções honrosas no Premio Mondiale di Poesia Nósside 2014 e no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa 2017 (Brasil). Está inscrito em diversas antologias internacionais e tem textos publicados em revistas e jornais de Moçambique e Brasil, com destaque para as revistas brasileiras Por dentro da África, Letrilha, e Oficina Poética.


MORADA

Teve um dia que tinha um rio correndo na palma da minha mão.
Peguei nesse rio pensando que de um lápis se tratasse.
E tentei escrever um poema na pele de um beija-flor encostado ao chão.
Tentei também fotografar a voz de uma borboleta.
Entretanto, só consegui beijar o corpo de uma luz.
Fiquei feliz por ter tentado construir uma casa com poesia na imaginação.
Nesse dia o pôr-do-sol se fez dentro de mim.
A partir desse dia minha alma passou a ser a morada do ciclo do vento.


O SONHO AFRICANO

Um sonho se guarda em volta dos meus passos.
África sonha quando escrevo.
Escrevo para incentivar o povo africano a sonhar.
Todos os meus escritos são tentativas de renascer-me África.
Ser africano é ser invadido pelo sonho de liberdade.
Sou um pouco da África que nasce.
Sou um pouco da África que morre.
Sou muito da África que sonha


ODISSEIA DA AMA

A alma é pássaro.
Multicolor e multiforme.
Ora assume a forma da terra e a cor do mar.
Ora assume ao mesmo tempo a cor e a forma do vento.
Em verdade, em verdade, o corpo é ramo no qual a alma decola.
Toda alma é pássaro terno e eterno.

[0038] Alte Pinho, incursões na poesia


António Alte Pinho é jornalista português que se fixou em Cabo Verde, onde dirige o Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago, Assomada. Com vida acidentada, foi na sua juventude militante do MRPP, aí se iniciando na sua actividade jornalística.


FRAGMENTO DE POEMA

Há um rio de magia
em teu sono manso
Há um porto de abrigo que espreita
Vou por aí
nessa estranha nebulosa
Na poeira dos tempos
é neste chão que me quedo

[0037] O lugar de Francisco José Tenreiro

Francisco José Tenreiro nasceu em S. Tomé em 1921 e faleceu em Lisboa em 1963. 

Foi geógrafo, professor e poeta. Veio muito jovem para Lisboa onde alinhou com o movimento neo-realista e identificando-se com as ideias de negritude chegadas vindas dos Estados Unidos e de França. 

De sua autoria, o livro de poesia “Ilha do Nome Santo” (1942) está inserido em “Poesia Negra de Expressão Portuguesa, 1953. 

A sua poesia exalta o homem africano na sua globalidade.


CICLO DO ÁLCOOL

1.
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio

A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.

Seu Silva Costa
Bebeu metade…

E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio

2.
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Màrinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
É o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum lar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!

3.
Mãe Negra contou:
“eu disse:
filhinho
beba essa coisa não…
Filhinho riu tanto tanto!...”

Nhá Rita calou-se
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.

- E depois Mãe-Negra?
Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele…”

Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.

Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!...

[0036] Memória de Rui Nogar

Pseudónimo de Francisco Ruiz Moniz Barreto, Rui Nogar nasceu na antiga Lourença Marques em 1935 e faleceu em Lisboa em 1994.

Integrou o núcleo reunido em torno de Noémia de Sousa, declarado inimigo do colonialismo português, o que lhe valeu ter sido preso pela PIDE. Poeta, contista e diplomata, depois da independência de Moçambique foi deputado à sua Assembleia Nacional, director do Museu da Revolução, director da Cultura e secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Procurou aproximar-se dos povos moçambicanos com a sua linguagem rasa, não temendo forçar a sua plasticidade.

O poema que hoje apresentamos foi musicado por Fausto (Fausto Bordalo Dias) e incluído no seu disco "A Preto e Branco", saído em 21 de Novembro de 1989.


XICUEMBO

eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quer dormir quer comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer
suruma dos teus ólho Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor

[0035] A voz de Agnelo Regala

Agnelo Regala, nascido em Campeane (Tombali, Guiné-Bissau) em 1952. Formado em jornalismo em França, Agnelo Regala – como a generalidade dos poetas associados ao movimento anunciadores do advento da poesia guineense (“Mantenhas para quem luta”) – está ligado à Comunicação Social: foi director da Radiodifusão Nacional e Secretário de Estado da Informação. Contestatário de Nino Vieira, optou por se assumir como oposicionista. Neste sentido, tomou partido pela irredenta juventude da Guiné: “Somos a juventude / Da Guiné e Cabo Verde / […] Parida do contacto secular / Com o chicote cavalo-marinho / / E da gravidez das nossas mãos / Violentadas pela palmatória”


O ECO DO PRANTO

Não me digas
Que essa é a voz de uma criança.
Não…
A voz da criança
É suave e mansa.
É uma voz que dança…
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Parece mais
Um grito sem esperança
Um eco
Partindo de fundo de um beco.
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Essa é doce e mansa
É uma voz que dança…
Esta parece mais
Um grito sufocado sob um manto
- O Eco do Pranto

[0034] Luís Patraquim e a poesia moçambicana actual

Luís Carlos Patraquim nasceu na antiga Lourenço Marques (hoje, Maputo) em 1953 e vive actualmente em Lisboa. Poeta, dramaturgo, roteirista e jornalista, esteve refugiado na Suécia para escapar à repressão colonialista. Foi um dos fundadores, sob a direcção de Mia Couto, da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Autor de “Vinte e Nove Formulações e uma Elegia Carnívora” (1992), “Mariscando Luas” (1992), e “O Osso Côncavo” (1997).

Foi Prémio Nacional de Poesia em Moçambique em 1995. 


METAMORFOSE

Quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade
os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor

tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato

falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze

as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas

falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim
percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo

a roda
e o sonho

das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste

AOS GRITOS

[0033] Alda Espírito Santo e a erupção da poesia santomense

Alda Espírito Santo (de seu nome completo Alda Neves da Graça do Espírito Santo) foi uma das moldadoras da poesia santomense. Empenhada combatente pela independência de S. Tomé e Príncipe, aí nasceu em 1926 e aí faleceu em 2010. Escritora e poeta, ocupou cargos governamentais no seu país após a independência: Ministra da Educação e Cultura, da Informação e Cultura, foi igualmente Presidente da sua Assembleia Nacional. Uma das fundadoras da União Nacional de Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe, de que foi Secretária-Geral, é autora da letra do hino nacional santomense. Autora de “O Jogral das Ilhas” (1976), “É Nosso o Solo Sagrado da Terra” (1978), “Cantos do Solo Sagrado” (2006), “O Coral das Ilhas” (2006), “Mensagens do Canto do Ossobó” (2008).  Teve especial participação na conservação e mesmo edição da literatura santomense contemporânea.


ILHA NUA

Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…


ANGOLARES

Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.
Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.
Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andante por sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.
E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.
P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
(É nosso o solo sagrado da terra)

[0032] Reinaldo Ferreira, nome a fixar

Autor de um único livro já publicado post-mortem, Reinaldo Ferreira (de seu nome completo Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira) nasceu em Barcelona em 1922 e faleceu na então Lourenço Marques, em 1959. 

Viveu grande parte da sua vida em Moçambique, desde 1941. 

Filho do celebrado Repórter X, Reinaldo Ferreira distinguiu-se como letrista de canções, sendo igualmente revisteiro. 

Nome grande da cultura portuguesa, Reinaldo Ferreira é também nome destacado da tradição poética moçambicana.


SE EU NUNCA DISSE QUE OS TEUS DENTES

Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.


RECEITA PARA FAZER UM HERÓI

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.


O FUTURO

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

[0031] Tony Tcheka e a revelação da poesia guineense

Foto RTP
Tony Tcheka (António Soares Lopes Júnior) é já um histórico da poesia da Guiné-Bissau. A sua poesia reflete a resistência do povo guineense à opressão que o martiriza. Vem desde o movimento anunciador de "Mantenhas para quem luta", com José Carlos Schwartz. Foi um dos fundadores da União de Escritores e Artistas da Guiné-Bissau. Como jornalista foi diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau e do jornal "No Pintcha", tendo dirigido a Associação Guineense de Jornalistas. Foi Prémio da Lusofonia em 2017. 


POVO ADORMECIDO

Há chuvas
que o meu povo não canta
Há chuvas
que o meu povo não ri
Perdeu a alma
na parede alta do macaréu
Fala calado
e canta magoado
Vinga-se no tambor
na palma e no caju
mas o ritmo não sai
Dobra-se sob o sikó
como o guerreiro vergado
cala o sofrimento no peito
O meu povo
chora no canto
canta no choro
e fala na garganta do bombolon
Grei silêncio
quebrado
nas gargalhadas de Kussilintra
em quedas de água
moldando pedras
esfriando corpos
esculpidos
no corpo do bissilão