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sábado, 16 de outubro de 2021
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
[0512] Olinda Beja, com votos de bom Natal
Para os Dezembros de qualquer ano, Olinda Beja faz chegar um poema muito próprio desta quadra.
APENAS UM SORRISO
Apenas um sorriso
aberto à flor do rosto
abelha mãe em favos de doçura
e será Natal no mês de agosto
ou em maio
ou em julho
ou em janeiro
desde que ames com ternura
desde que vivas
que sonhes
que sorrias
desde que te entregues aos outros
por inteiro
será Natal TODOS OS DIAS!
APENAS UM SORRISO
Apenas um sorriso
aberto à flor do rosto
abelha mãe em favos de doçura
e será Natal no mês de agosto
ou em maio
ou em julho
ou em janeiro
desde que ames com ternura
desde que vivas
que sonhes
que sorrias
desde que te entregues aos outros
por inteiro
será Natal TODOS OS DIAS!
sábado, 13 de outubro de 2018
[0277] Do novo, Olinda Beja
A poeta santomense residente em Portugal, Olinda Beja, regressa a este portal, trazendo vozes que nos reportam à sua ilha. Sempre bem-vinda. Agradecidos ficamos.
POEMA
rente a cada hibisco rosa como tua língua tempestuosa e doce
a palavra viaja entre adágios de tempo carregada de frutos
sabor a izaquente, a fruta pão no fogo, a água de coco
teu querer indómito, desregrado, desmesurado
água doce em meu salgado mar cascateando a infância
do nosso entardecer
solstício de tempo no eco dolente das nossas marés cheias de doçura
na interdição da mestiça voz com que rejeitas a palavra
esqueces teu porto de águas fundas. Velho sonho de Fernão Dias
no fogo fátuo das nossas madrugadas em nosso intocado
paraíso
na bandeja onde presenteias as longínquas cinzas dos avós
perpassa o vento quente do Shara
útero remoto em nosso aquático chão
volvidos que são sóis e luas e auroras boreais
só tu és o dia e a noite
o tempo e o instante
o minuto e a hora
INTIMIDADES
desces a grota
levas a tua e a minha roupa no quali das lembranças
e és a gravana vestida de saia e quimono
em tuas mãos rodopia o sabão bola bola
com que hás de lavar as nossas fragilidades
dilui-se tua esfinge por entre sombras de solano
o milho cresce no quintal de Sam Lili
a boca devora espigas de ouro na madrugada fresca
konobia sempre te acompanha nas margens do alvorecer
tanges mussumbas, chocalhos, canzás
enquanto de tua voz se soltam árias de um socopé de antanho
e teu corpo se balouça como se menina fosses na floresta virgem
no regresso a casa trazes milho doce e a luz de uma kafuka
bruxuleia em tua mão fremente
nunca vislumbrei o rio onde cantavas
ao meu peito chegavam apenas resquícios de tua voz dorida
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
[0256] De novo, Olinda Beja
A santomense Olinda
Beja regressa a este portal com a sua poesia leve-leve como a beleza da sua
ilha. É a assunção da sua lusofonia que já mereceu a justa distinção nos países
irmãos, que a comungam. “Ibn Mucana” honra-se em recebê-la.
MÃOS
límpidas mãos que na noite se erguem
pedintes de
óbolos que outras mãos espargem
na rota do sândalo buscam essas mãos
a essência
pura de África milenar
mãos esguias rudes mãos pretas de cor
lívidas de
pensamento
doridas mãos
que embalaram sóis
e luas e
estrelas
e vidas sem
porvir
mãos que
desenharam rostos e palavras
e todas as
cores das aves solitárias
mãos que
colheram café e gengibre e fruta-pão
mãos doces
como mel de abelhas em cresta de junho
profundas e
místicas como amêndoas do Shara
mãos que
acenderam lamparinas
para varrer
da noite a escuridão
mãos que
adormeceram como borboleta
em cima de
uma flor
mãos de avó,
de mãe, de irmã
mãos de todas
as mulheres que carregam nas costas
a
imortalidade do universo
para vós este
poema
perfumado de
cajamanga
SEM TÍTULO
o sol vai espreitando envergonhado
por entre as
cortinas do meu peito
estreito
velho
cansado
o sol não
quer entrar apenas
aquecer e
bordejar
os meus
poemas
o sol é o
mais fiel entre os fiéis
enquanto eu
escrevinho nos papéis
que me servem
de arrimo e confidência
ele sorri
finge que
parte... mas não parte
e assim vai
minorando a ausência
que me
avassala e me desflora
tal como um
gamo que à corça se declara
almiscarando
a folhagem de uma floresta rara
o sol ainda
me espera
ainda me
chama
raramente vai
embora!
RAÍZES
Há rumores de mil cores enfeitando o espaço
de gorjeios infantis
transportando aquele abraço de árias juvenis
árias que perduram na mensagem
da nossa voz e da nossa imagem.
São rumores de tambores
repercutindo a esperança de olhares inquietos
toada de lembranças
liturgia de afectos.
São rumores maternais
presos à terra que nos diz
que só o maior dos vendavais
arranca da árvore a raiz.
GERMINAL
Ó minha ilha queimada pelo sol
pelas lágrimas do vento que escorreram
das escarpas e das vidas de teus filhos
em ti
repousam as cinzas das esperanças
que outrora viveram no leito de teus rios
Malanza,
Manuel Jorge, Contador, Cauê...
Em ti
germinam vidas repassadas
de lua e sol
no cais do sofrimento
que as âncoras da vida vão soltando!
Ó minha ilha
adocicada pela chuva
lacrimejante e pura batendo na sanzala
de todos os
ilhéus sequiosos de amanhãs.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
[0243] Olinda Beja revisita-nos
A poeta santomense Olinda Beja dá-nos a honra de revisitar o nosso portal, o que sempre lhe agradecemos. A sua poesia escorre naturalmente, embrulhada na beleza das suas ilhas. E é bem-vinda.
SEM TÍTULO
À Milé Veiga
lavraste searas de ausência em teu outro húmus
teu pranto vago e terno em começo de recordação
tempo afeiçoado ao gesto
à simetria de teu corpo cambuto e gracioso
deserto de sons e horas
e diásporas de sofrimento
teceste fios de púrpura na estrada de Água Arroz
altivos mamoeiros no quintal de tua espera
e de ti nasceram risos
e abraços
e mãos de acenos fugazes
e palavras esculpidas em folhas de andala
teu ilustre papiro.
LUSOFONIA
Extensão imensurável
de raízes em solos longínquos
usos
costumes
sangues cruzados…
sonhos que ficaram perdidos nas pedras
a circundar o Globo das nossas vidas
estranhos?!
estranhos porquê?
talvez o sejamos na distância lusa
dos nossos palmeirais exóticos
panos garridos
gargalhar sensual e provocador
talvez o sejamos até no linguajar materno
que no berço ouvimos
mas se hoje procuramos a essência
de um passado comum
é porque aquele acento no coração de todos nós
é a ave migratória dos nossos mares entrelaçados
FERTILIDADE
nossa casa mãe é quali de goiabas
a projectar-se na floresta azul onde
o teu ventre se multiplica e se debate
em palavras molhadas de imensidão
tempos houve em que o teu rosto ausente
se embrenhou no plasma vigoroso que deteve
a morte inglória de teus frutos. Volto
à nossa casa mãe e o quali de goiabas
é o rosto de outras mães que saúdam as úluas
sozinhas e distantes na savana inquieta das ilhas
FRAGILIDADE
Frágil o mar o sonho a utopia
A nossa emergência transparente de viver
Frágil a sombra do ôká
A fiá gleza
As plantações
Café cacau
Frágil o caminho que leva à verde casa
Frágil a mãe que ergue o dumo da coragem
E ergue o rio em sua voz magoada
E ergue a encosta crivada de matabala
E desce a foz de seus passos
E enlaça o corpo todo
No sangue rubro das acácias
Frágil o som da nossa voz
O ténue abraço que nos separa do amanhã
A hibridez de nossa pele nossos costumes
Frágil a enseada onde aportam
As jangadas de todas as raças
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
[0207] Olinda Beja, a santomensidão na poesia
Olinda Beja, nasceu em Guadalupe, São Tomé e Príncipe em 1946. Estudou em Portugal onde reside, embora divida o seu tempo entre este país e São Tomé e Príncipe. Foi professora do ensino secundário em Portugal e de Língua e Cultura Portuguesas (e Lusófonas) na Suíça. Dedicou-se à escrita (poesia, contos e romances) desde muito jovem, tendo publicado diversos títulos. Entre outros prémios, recebeu em S. Tomé e Príncipe o Prémio Literário Francisco José Tenreiro de 2012-2013. Contadora de histórias, Olinda Beja tem divulgado, através de conferências e recitais de poesia, a cultura de S. Tomé e Príncipe por vários países nomeadamente Brasil, Austrália, Timor, Marrocos, França, Espanha, Suíça, Inglaterra, Luxemburgo, Cabo Verde.
EIS-ME AQUI
Estou aqui
a contar-te dos caminhos que percorro
velhos estreitos esventrados
caminhos de sulcos e de cabras onde
nossos avós colheram pão de côdea dura
estou aqui
a contar-te dos cheiros doces e acres
dos frutos tropicais
cheiros que se foram confundindo no sangue
que se afundou em docas e mares mas emergiu
mais vermelho que o chão da nossa terra
estou aqui inteira viva irrequieta como pássaro
que acasala no equilíbrio de um ramo
e como tu quero ferir meus pés
no lençol de pedras que atapeta o ôbô
inundar de algas azuis o corpo reflectido
no espelho das calemas
estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres
e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo
estou aqui como tu
borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas
e morre a ouvir histórias de um país calcinado.
SANTOMENSIDÃO
O poema está no ritmo
do nosso sangue cruzado. Na idade
da nossa santomensidão...
cheiros de terra quente
palmares de avó Sipinge
distância em distância entre
o leste e o oeste
o norte e o sul
o poema
é a única rota que deixa sulcos no cais
imensurável dos nossos atropelos
TRAVESSIA
pus a mesa no meio do quintal
Molembu se chamava a roça
regada com sangue de meus antepassados
invoquei os meus mortos
os espíritos todos que me antecederam
chegaram primeiro os oriundos do sul do Sahara
do Gabão, da Libéria, da Mina
outros vieram das ilhas áridas
outros das terras de D’Jinga
e outros ainda para lá do Ìndico
união de muitas raças e credos e danças
fado, marrabenta, puíta , manipuri
festa orgíaca que Sum Tômachi, o curandeiro
se comprometeu a montar
por fim vieram alguns do ocidente
lívidos e trémulos como a branca neve do seu longe
como o minuete das suas danças de salão
e o choro da guitarra e da viola
a mesa estava posta
iguarias atapetavam o robusto
tronco de mampiam que há muito alguém retangulou
e os espíritos todos provaram e se deliciaram
cozido de banana, molho no fogo
vuadô travessá, pescada com todos
angu, d’jogó, cozido à portuguesa
cachupa, funge, muamba,
arroz doce, canjica, paracuca
e os acepipes eram por todos sobejamente conhecidos
cafukas arderam até à exaustão da luz
tremelicaram vozes em cânticos hossânicos
em uníssonas línguas que se enovelaram felizes
e a torre de Babel ergueu-se una e majestosa
num pedaço de chão esquecido dos deuses
minha avó Dua espelhou seu rosto de água
em meu ombro anguloso e ressequido
e feliz adormeceu
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