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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

[0466] Ed Mulato, de novo


Reincide em “Ibn Mucana”, a poesia do poeta brasileiro Edu Mulato. Traz o cheiro do samba e do brinca-na-areia. E agradecemos.


O LUTO E A LUTA

Luto contra a luta
de fazer, do luto, luta
todo dia, todo dia...

Luto contra o cheiro de carniça
que invade, inteiro, a missa,
mesmo estando o corpo ausente

Este cheiro, a gente sente...

... completamente...

Todo dia a gente morre;
todo dia se revive;
todo dia o sangue escorre...

todo dia...
todo dia...

to do dia...

Um tiro, um grito
Lá no chão, um corpo quente...
... e povo passa, indiferente...

perversa
mente

... essa a desgraça,
que a gente sempre sente

Profuun damente...

Todo dia a mesma luta.
Como é dura essa labuta!

Que é bruta,
e é diária,
é incerta,
inserta e vária,
deserta, pária,
porque perdida de saída:

é o fim da vida ainda em vida

Que culpa tenho de meu gene diferente?
Que culpa tenho se, também, me sinto gente?
Meu sangue corre, mas, também, é o mesmo, e quente...
Meu Deus, cadê a sua paz?
Onde estão meus orixás?
Será meu corpo entregue à terra?
Será incerta e infinda a mesma guerra?

Nem assim meu grito cala.
Minha voz, se muda, fala:
alguém irá levar meu luto à frente;
minha luta estará sempre presente

Eternamente...

A minh’alma assim o sente.

Minha luta? É ir em frente....

Com-pul-so-ria-mente...

... a paz ausente...

perenemente...

Este é o luto
que a gente sempre sente...

É sempre assim:
é quase o fim...

Tão simplesmente.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

[0102] Ed Mulato, a revisita de uma voz do Brasil


Enviado do Brasil, Ed Mulato (pseudónimo do poeta Ademir de Barros dos Santos) revisita este portal. Orgulhamo-nos de lhe dar guarida.


O QUE NOS ABALA

P´ra quem diz “não há racismo”,
e então vem, e fala, e fala, e fala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Peles brancas no sobrado,
peles pretas na senzala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Fartas negras, tetas fartas,
bocas brancas a sugá-las;
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Costa preta como escada,
perna branca que a escala.
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Corpos brancos lá na elite,
corpos pretos lá na vala...
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Na cadeia, a carne preta,
na favela, nem se fala;
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Com meu deus, meu compromisso,
o seu deus agride e cala.
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Se o racismo é mala leve,
então me ajude a carregá-la:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Gente preta, é o racismo,
o que, no fundo, nos abala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

[0047] Ed Mulato e as ressonâncias de África no Brasil

Ed Mulato, pseudónimo de Ademir Barros dos Santos, nasceu em S. Paulo (Brasil) em 1948 e aí reside (Sorocaba). 

Investigador, contista e poeta, autor de "Restos" e "África, nossa história, nossa gente" (entre outros), tem publicações espalhadas por diversos portais. 

A forte influência dos conceitos derivados da negritude, a sentirem-se no Basil, cruzam-se com pitadas de folclorismo e o halo poderoso da cultura tipicamente brasileira.


MÃOS NEGRAS

Mãos que vadias, vazias,
remontam estranhas estórias de seus orixás.
Mãos de iabás.

Mãos que arrancadas, recobrem, no Congo,
estórias do sangue que houve por lá.
 Mãos que não há. 

Mãos que amarradas, inúteis, são presas,
e perdem, na vida, seu tudo, seu lar.
Mãos de assustar. 
Mãos que apresadas em mastros, tumbeiros,
imóveis se vendem, por nada, aqui.
Mãos de zumbis. 

Mãos que se estendem ao negro cativo, perdido,
vendido, na Terra Tupi.
Mãos que não vi. 

Mãos brutas que rasgam o solo do eito,
arrancam do peito a dor de sonhar.
Mãos de plantar. 

Mãos bentas que curam, fazendo mandingas,
embalam cantigas p’ro dono sonhar.
Mãos de ninar. 

Mãos que revoltas, rabiscam idéias,
buscando revoltas nos sonhos da vez.
Mãos de malês. 

Mãos que se soltam no mato, no mundo,
reinventam Angolas da cor de sua tez.
Mãos de quem fez. 

Mãos que se perdem, vazias de emprego,
sem chance, sem leite, esperança ou ar.
Mãos de esperar. 

Mãos que se abrem, acolhem, enxugam
prantos saudosos de sua união.
Mãos que se dão. 

Mãos que se buscam, unidas na prece,
esperam a paz escondida entre irmãs.
Mãos de Iansãs. 

Mãos postas que buscam, em ato de fé,
a paz de sua raça e sua remissão.
Mãos de perdão. 

Mãos juntas que enxugam, acolhem e curam,
trabalham, procuram a paz entre irmãos.
Mãos Negras.

Minhas mãos!