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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

[0334] Um monumento, um poema (3) FLORBELA ESPANCA, Coimbra

Têm sido feitas diversas homenagens escultóricas públicas à poetisa alentejana de "Charneca em Flor", cuja biografia (ver AQUI) é por demais conhecida. Évora (a primeira), Vila Viçosa (sua terra natal), Oeiras, Matosinhos... e Coimbra, pela qual começamos. Trata-se de uma iniciativa do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, presidida então por Mário Nunes e foi erigido no Parque Dr. Manuel Braga, com inauguração a 8 de Dezembro (dia e mês do suicídio da poetisa) de 1994. Em pedra de Ançã, a peça é da autoria do escultor galego Armando Martinez (ver AQUI). O conjunto estilizado das duas figuras simboliza a poetisa e a sua obra.



TARDE NO MAR

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

domingo, 21 de outubro de 2018

[0309] MÚSICA PARA O DOMINGO (5). Hoje, "Ser poeta", Trovante ("Ser Poeta" ou... "Perdidamente") Rock in Rio 2010, Música de João Gil sobre poema de Florbela Espanca, voz de Luís Represas


SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

terça-feira, 2 de outubro de 2018

[0234] Florbela Espanca


Batizada como Flor Bela Lobo e autonomeada Florbela d’Alma da Conceição Espanca, nasceu em Vila Viçosa em 1864 e faleceu em Matosinhos em 1930. Terá sido a mais espantosa sonetista, foi jornalista, tradutora, contista, epistológrafa e professora. Tentou por duas vezes o suicídio antes de sucumbir a uma “overdose”.


AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!


ALMA A SANGRAR

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...