IM estará presente e dará notícia do lançamento, como seria de esperar. Quanto ao caderninho, é delicioso e já lido e relido há semanas por nós. Tem o esquisito preço de 4,10€ mas isso só lhe dá mais sabor. Um grande pequeno livro, na verdade.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
[0686] Novo livro de Nuno Rebocho está pronto e prestes a sair
Com 14 poemas-memória da sua passagem pela Córsega, prefácio de Mário Matos e desenhos de João Prates, Sairá no final deste mês, em Lisboa, no Centro InterculturaCidade, em Lisboa. Iremos dando notícias.
terça-feira, 23 de julho de 2019
[0681] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (31) Nuno Rebocho, o amor cabo-verdiano
Do seu pequeno-grande livro "Rotxa scribida", ed. Rosa de Porcelana, 2019, o poema 6.º.
6.
de uma ilha a outra: as ilhas todas
nos mares que criamos
dentro do sentimento. mãos insulares
buscam istmos para o continente aquele
que os olhos solfejam
nas escarpas procuradas.
bocas insulares escancaradas de vontades
mesmo que agarradas
de uma ilha a outra. neguem os mares
a liberdade da viagem
que o pensamento passa e o vento passa
sobre as ilhas. sobre as ausências
nem a chuva arrefece a coragem.
mas ficamos nas ilhas. e nas ilhas ficamos
criando os mares. navegamos todavia.
terça-feira, 16 de julho de 2019
[0677] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (30) Nuno Rebocho, a constante viagem
Porque é terça-feira, recordamos um poema de Nuno Rebocho, extraído de “Canções Peripatéticas”.
NOITES ANDALUZAS
1.
vai a morte calçada de trinta pés
e cerzida no choro das viúvas -
ela vai a molhar-se mais de chuvas
que de cruzes ou de incensos ou de fés.
como um clamor sobre um soluço de clarinetes
a morte destapa-se do suor dos cansaços
com que a transporta a raiva de trinta braços
com que a desejam na batalha mil ginetes.
vai a morte. lá vai lenta e roxa
ondulada e lenta quase coxa.
atrás vem a voz e vem a virgem
e um coro branco: a cor da origem.
passo a passo o lamento alcança
a semente que desperta em regaço verde:
é o senhor da morte que caminha e balança
sobre pés sem limites a própria sede.
2.
abandonaste a morte entre as oliveiras
onde os grãos da primavera humedeciam:
as culpas zelavam e pariam solteiras
com as dores amarelas que os olhos escureciam.
em cada etapa a vida era vinho novo,
goles de alegria que as gargantas assolavam.
na vida todas as mortes todas se apagavam
e trôpegas de tão fartas envileciam.
e as bocas? as brasas cantavam e despertavam
em ocos murmúrios de grossos rios
que nas ruas com traves de silêncios se barricavam
dos assaltos das paixões nos olhos claros;
morria então a morte em tanto vício e canto
que o baile adormecia. que já era vida a morte
e era sal o sol com rouco espanto
da noite que no dia mergulhava e esmorecia
3.
(o jardim dos perfumes)
atiro o problema para trás das costas
mas as macieiras descobrem-me: sou a sombra
e o murmúrio. e se calço as alpergatas do silêncio
sobra-me o espanto. por então falo
das coisas corriqueiras que me acontecem
- ou o tépido beijo da morte
a limpidez das madrugadas sóbrias
os olhos dos planetas que escurecem
ou a morte súbita dos rios amarelos.
4.
corria o cometa na noite de andaluzia e era febre
enquanto o tempo se consumia no sofrimento da memória.
a noite e o plaino era a parede de fechar o mundo
à angústia do corpo vivido. o caminho encurta
quando agarramos a felicidade com desconfiança
(e devemos confiar ou morder a língua?).
o cometa era indiferente à noite de andaluzia
e eu queria falar-lhe dos campos secos
do sangue das batalhas de outrora
do corpo desgastado pelas palavras da ausência
mas o cometa era luz e corria - corria para lá dos olhos
na noite de andaluzia.
desde então eu quis casar
com a filha do rei
e desde então fiquei à espera
que entrasses na minha casa
e me dissesses a palavra mágica
para que a minha alma fosse salva.
desde então eu estou à espera
que me digas aquela palavra mágica.
terça-feira, 9 de julho de 2019
[0669] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (29) Nuno Rebocho, no seu mais recente livro, "Rotxa Scribida"
POEMA 10
o sardão acaricia a pedra: com a pele do silêncio
indaga o sol até à memória. nem lhe sobra
musgo ou arrependimento: esgueira-se
para a imodéstia da poeira. o sardão é sábio
quando troca o rabo pela coragem do dia.
sábio é quem tem a razão do sacrifício
e medonha mais que a acácia a sua sombra.
aprendo no jeito do sardão a necessária
esquiva e desafio o astro para a contabilidade
dos dias e dos silêncios. vou envilecendo:
no resguardo do contrário me defendo.
terça-feira, 2 de julho de 2019
[0662] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (28) Nuno Rebocho, o cabo-verdiano adoptivo
Do seu último livro, “Rotxa Scribida”, fica aqui um dos poemas
AS PALAVRAS SÃO A MEDIDA DO TEMPO
quando buzinam os táxis da tristeza
digo-te irmã rabidante
que é duro o pão
da solitude. falo-te das coisas
que o horizonte esconde
e o sol oculta: o sal da insularidade cresta
a pele e o corpo adoça-se na praia
da malícia; o verde queima o interior
na aurora da chuva
e a clandestinidade dos sonhos
rega a liberdade.
eu sei que as palavras morrem camaradas.
as lápides da memória adejam
como gaivotas e são as cicatrizes dos dias.
irmã rabidante
o sangue da internet percorre as artérias
deste silêncio desde o pulmão da saudade
das coisas que nunca acontecem
enquanto o bolor vigia
a doença em cada ilha e tu adormeces
como bolacha de s. vicente
no balcão da padaria:
o mercado não vende a terra longe.
eu sei que as palavras vivem companheiras.
então o som da mandioca desperta-me para ti
irmã rabidante
e eu percebo que é mais amargo o teu pão
do que a minha tristeza - o sabor
da camoca não apaga os vazios que separam
as dores diferentes: eu sofro ausências
e tu quebras os dentes na pedra dos dias.
tu contabilizas o porco
e eu filtro a paisagem
com o minucioso cuidado do sentimento
entre um golo de uísque e as melancolias.
eu sei que as palavras são a medida do tempo
terça-feira, 21 de maio de 2019
[0657] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (27) Nuno Rebocho, a carta de rumos
Viajando pela ilha do Maio, Nuno Rebocho encontrou a memória dos piratas que no passado ali fundearam, convertendo-a numa espécie de “santuário” e de “nova Tortuga”. À beira da belíssima salina de Porto Inglês, o poeta construiu o poema que aqui nos traz.
na gávea desfibro o horizonte
com a alma à cintura pronta a espadeirar
coragens inglórias e frenesis de medos:
à abordagem! grito e desperto o mar
e a meninice dos poetas: eles sabem
as dores do mundo e mordem a vida
com a clarividência dos profetas
- eles sabem o que custa parir
e continuar a sorrir
e de maio parto para as ilhas dos meses
que todas com o coração se escrevem
e com a mesma chacina dos dias:
na vigia da vela que se descortina
ou na ânsia da chuva que afaga ou
de quando a esperança se reescreve
sobre o mapa de tudo recomeçar e o mundo
- levantar âncoras estimula a vontade
de valer mais que cada golpe a liberdade
confesso: já fui pirata no corso dos desejos
- o que ficou foi o imenso mar nunca alcançado
e a suspeita de outros mares e outros. fundeei
para o alimento das tabernas: só restou
a mortalha da memória e a sede
de nunca renunciar. e sobrou o mar.
eu sei que é nos tombadilhos que a noite adormece
e a água espreita o sobressalto do combate
mas não temo alguma vez naufragar
trago da salina o curativo das feridas
e as mãos curtidas pelo astro mouro. já doeu.
já não dói. mesmo que as lágrimas rasguem
as rugas outonais garanto que não dói:
icem as velas para largadas novas
e lá vou eu – para outras refregas e novas saudades
lâmina na boca e peito exposto:
a novidade nunca cansa quando a esperança é gosto
e a carta de rumos saboreia a liberdade
domingo, 19 de maio de 2019
[0655] Nuno Rebocho vai ser homenageado em Santa Catarina, ilha de Santiago, Cabo Verde
A Câmara Municipal de Santa Catarina vai homenagear na próxima quarta-feira, 22, a partir das 16h00, no Centro Cultural Norberto Tavares, o escritor e jornalista Nuno Rebocho, que atualmente reside em Portugal mas viveu durante 17 anos em Cabo Verde, onde desenvolveu intensa atividade como jornalista e intelectual.
Nuno Rebocho é um grande amigo de Santa Catarina, tendo utilizado a sua influência e contactos internacionais na área da Cultura para abrir portas à autarquia e trazer grandes eventos para Assomada.
Sarau e apresentação de livro
Um Sarau de Homenagem a Nuno Rebocho, com a participação do grupo de Batucadeiras Raiz Fincado (de Nhagar), de David Rocha (guitarra e voz) e leitura de poemas do autor, constam da programação que coincide com o lançamento do último livro de Rebocho, ROTXA SCRIBIDA, que conta com a apresentação de António Alte Pinho, António Sérgio Barbosa, Inês Ramos e Tchalê Figueira.
O livro de poemas, levado à estampa pela Rosa de Porcelana Editora, é uma viagem pelos dezassete anos de passagem de Nuno Rebocho por Cabo Verde, através do arguto olhar do poeta e do jornalista, numa narrativa apaixonada e envolvente.
«Dezassete anos em Cabo Verde impregnaram-me de cabo-verdianidade. Foram usos e costumes, foram hábitos e tradições, foi toda uma cultura crioula e até mesmo o seu linguajar muito especial que em quase duas décadas moldaram o meu ânimo e espírito tal como a terrível bruma seca que, por longos períodos durante o ano, sobrevoa as ilhas e me deixou sequelas na respiração», escreve o escritor à laia de explicação.
O Autor
Jornalista, poeta e escritor, Nuno Rebocho nasceu em Queluz (Portugal), mas cresceu e estudou em Moçambique, e viveu cerca de uma década na cidade da Praia, capital de Cabo Verde.
Ex-jornalista da imprensa escrita e da rádio, tanto em Portugal como em Cabo Verde, Nuno Rebocho desempenhou funções de chefe de redação da RDP – Antena 2, foi assessor do ministro da Habitação, Obras Públicas e Transportes do VI e VII governos constitucionais de Portugal e assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago, em Cabo Verde. É, ainda, Cidadão Honorário da Cidade Velha e foi nomeado assessor lusófono da Korsang di Melaka.
sábado, 4 de maio de 2019
[0647] Novo livro de Nuno Rebocho, prestes a sair na ilha de Santiago e, para breve, também em Lisboa
É apresentado pelo poeta Filinto Elísio e pelo também poeta e pintor Tchalé Figueira no Instituto de Língua Portuguesa (Casa Cor de Rosa), às 18h00, a 9 de Maio, quinta-feira, na cidade da Praia (ilha de Santiago, Cabo Verde), o mais recente livro de poesia de Nuno Rebocho, “Rotxa Scribida” (edição Rosa de Porcelana). O mais recente livro de Nuno Rebocho será depois apresentado na Assomada (a 22 de Maio) e em Lisboa (a 29 de Maio), por altura da Feira do Livro.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
[0646] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (26) Nuno Rebocho, o discurso do método
Habitualmente com Nuno Rebocho "on air" às terças-feiras, IM guardou o presente poema do autor para o 1.º de Maio, saindo portanto em vez de terça à quarta (o que também fica bem...).
“Discurso do Método” representou o início de uma nova caminhada do poeta. Fica aqui um dos seus poemas indicativos, uma reflexão sobre a intimidade e o discurso.
OS SONS DA ILHA
1
aliás o movimento é tudo. é a tensão entre o som
e o seu conteúdo apesar das palavras brancas
a enrolar os dias com sorrisos e hipocrisias.
e apesar dos silêncios que são a cólera da cal sobre o corpo
é no centro do cromeleque que as tensões se sentem
porque em volta estão os despojos (os sentimentos adormecidos
pela rotina dos discursos redondos
em volta) estão as desvontades e é assim
que os neurónios se dinamitam.
o movimento é tudo: o gesto e as palavras rubras
o rubor da face e o enlace dos corpos
as suas rugas - o aquecer das fugas
no exercício dos desejos. o movimento é tudo:
naufragam os marasmos no movimento do mar.
a maravilha é torcer o mar com as mãos calejadas
e trazer na boca o travo das madrugadas
e palavras azuis para beijar as namoradas.
o movimento é tudo e tudo é movimento:
o aroma e o consentimento o ódio e o comprazimento
um avião a correr na pista
um golpe de asa um golpe de vista
um golpe uma falha a casa toda e toda a tralha.
o movimento é o cerne e o que concerne
é o contexto: o texto o pretexto é o fogo que molda o metal
é o braço a perna é o músculo
é o agudo é o grave é o esdrúxulo.
o movimento é tudo. e assim sendo
o mar espeta as orelhas e inquieta o entusiasmo.
eu pasmo.
2
o mágico governa os objectos mais do que as palavras
e dá-lhes o secreto caminho para a estranha intimidade por dentro:
são sólidos e ausentes da gordura dos nomes.
que os nomes se colam à superfície dos objectos e
designam-nos na curiosa arbitrariedade das mentes
: o objecto cadeira não necessita a palavra cadeira:
a palavra cadeira é que precisa do objecto. é
assim a estranha intimidade por fora.
assim disserto sobre este facto de estar sentado
sobre a arbitrariedade dos sons
e aconchegado na almofada das palavras.
eu sei que a mão pesada do sentimento disfarça a ambiguidade.
mas como explicar que as coisas simples acabem por ser complexas quando as vergasta a perplexidade? deixo que a magia
(da água e do ar) penetre na intensa relação do que me envolve
e agarro as perguntas com o incómodo silêncio das tardes sábias:
o que pensa e sente um objecto se as palavras lhe são alheias? bem
eu queria ser imóvel quanto eles os objectos presentes e desculpar-me:
afinal sentir é um projecto de palavras sem a solidez dos objectos.
assim disserto sobre este facto de ficar vazio no perene
sentimento da quase eternidade sobre a rasa superfície do imóvel.
3
entender é ter asas: no templo dos nomes vários fomos donos das coisas
e do
corpo
e dos sótãos e dos vocabulários.
fomos mandatários
das casas e das asas.
no jardim das palavras
as abelhas eram aforismos
e até de cada dedo
fazíamos algarismos.
muito marchámos e murchámos
através da ponte dos séculos. muito secámos a língua na mica dos olhos
e muito desfolhámos
nas coisas os seus nomes para que os choutos fossem geeira
e fossem âncoras.
então: assim aprendemos a sabedoria do mutismo
e trocámos as palavras e truncámos os gestos
e burlámos com os gestos as palavras
(actos fossem ou impactes
sem a restrição dos dias).
temos portanto os sons: agora os sons agarrados e monossilábicos
cada som preso a cada coisa e cada coisa presa
mas nem despimos as roupas da ambiguidade. sequer atalhámos
os caminhos pelos corta-fogos de esquecer
a jeira dos volfrâmios quando cessámos de garimpar
a pulcra sintonia dos olhos
já manietados pelo ritmo.
4
estes são os sons que significam a ilha: onde os silêncios
são rocha e os pressentimentos são limos
onde recomeçamos o que já conseguimos
onde inteiros somos de tantos nos repartirmos
onde desaguamos sempre que dela partimos.
os símbolos valem o que valem: a noite
não é a morte nem o ventre da criação.
é a consequência da rotação do planeta.
terça-feira, 23 de abril de 2019
[0637] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (25) Nuno Rebocho, o inquiridor
Rebocho perscruta-se sem remorso, num constante mergulhar na sua intimidade, sem desculpas se desnuda, expondo-se com insistência. È exemplo este poema de “Canto Finissecular”
O CADÁVER ADIADO
tarde de sexta-feira: aberto vinte e quatro horas, como quem mastiga rusticidades, com o mundo da moda esquecido na rua dos possíveis. convido-te. vamos construir.
Há um som de trompete aqui perto e
as escalas funcionam a partir do dó. O
trompete (o som) salta para a rua desde
uma janela na berma de uma casa. Está
lá dentro: é suposto. O som inaugura-se
a quem passa dentro dos ouvidos: adivinho
do lado íntimo da parede o objecto trompete
e adivinho mãos e lábios, isto é, o prenúncio
de um corpo. O som é a pegada do invisível
e o trompete o seu pretexto.
Assim se constroem as coisas com as mãos dos ouvidos.
A casa é o bolor da atenção. Dentro da casa
escolhemos os sabores e o teatro
faz-se de ressonâncias. Aqui me dispo. Um
pardal seduz-me desde a rua na berma
da janela. É um som que marca a presença
do exterior e bole com a intimidade alcançada
e impede de dar ouvidos ao que o sangue diz.
As paredes definem o espaço e limitam o eu:
estou na piscina dos meus pensamentos.
Assim se constroem as coisas com as mãos dos olhos.
Portanto escrevo. Cada caracter tem o carácter
dos sons e agarra os átomos da sensação: o murex
desenha-se a partir do manto e logo se expõe. Fibra
a fibra a carne desmancha-se sobre o papel
e os ossos aceitam-lhe a forma e logo a linfa
adeja como um sopro. A atenção dispersa-se
no labirinto e só as letras inauguram
o acontecimento de escrever.
Assim se constroem as coisas com as mãos das mãos.
Meu caro: perguntas o que é a arte e tens medo
do vento quente. Se a vida é o diverso e
o contrário, porque limitas o acontecimento?
Vive e não te escandalizes: se uma pedra
cair de baixo para cima, acontece porque pode
e não te mandes ao mar se alguma vez.
Vai ao mar se queres, não te justifiques: o mar
não precisa das tuas razões.
manhã de sábado: um anjo do senhor anuncia que o nevoeiro se dissolve e posso aligeirar as pernas pelas alamedas da alegria. não importa que os castanheiros se despejem das folhas. a manhã há-de clarear pela vontade dos olhos e o sol denuncia-te em parte incerta. convido-te. vamos destruir.
Há um som de um cão aqui perto e
a paisagem assusta-se. O canídeo é o trânsito
único na única rua de eu estar sentado a ouvir. Surge
depois a mentira de um canto de canário. Subversivo
o trinado que não respeita a gaiola e incomoda
o ladrar do cão que assusta a rua. Sentado a ouvir
sou cúmplice do canto que sai da gaiola e do
canário. E sou cúmplice do canídeo. O outro lado
das ausências (o da intimidade) mora
na explicação dos sons.
Assim se destroem as coisas com as mãos dos ouvidos.
A casa é de onde se parte. Está fora da estrada. Está
fora de onde os sons vêm e não se vêem. A casa impede
a visibilidade e por isso se diz que é opaca e por isso
me dispo para lobrigar o interior de mim mesmo. E me
refastelo. São horas de aparições e aborreço-me
que outras danças apaguem o horror
de esgrimir as sombras. Aborreço-me porque quero
ser exacto. Sobretudo aborreço-me dos porquês quando
descubro que as paredes são a pele da minha ausência.
Assim se destroem as coisas com as mãos da pele.
Portanto escrevo. As palavras são o vício
e substituem o sofrimento: dizemos o receio sem vírgulas
e atascamos onde as palavras implodem as lamas
do esquecimento. Escorregamos até ao aconchego
das imperícias para nos rasgarmos - esse é o prazer
das carícias. Nunca as mãos libertam
já que são elas que constroem as redomas: temos
o nojo da liberdade e escrevemos para ser exactos.
E dizemos.
Assim se destroem as coisas com as mãos da boca.
Meu caro: se não gostas de me
ler, não discutas. A minha eternidade
dispensa-te. Fecha o livro que te amarga
e escolhe outro pois essa é a tua razão.
As palavras minhas não se obrigam
a deleitar-te. Preferem adormecer no tempo
até que alguém algures num outro calendário
as maneje num monstruário de curiosidades.
Saberei nesse tempo da minha eternidade.
tarde de sábado: de súbito o trovão destrói a ilusão de quietude. as ameaças arrastam os pés com o reumático das descobertas e alinham-se para o golpe dos cheiros inacabados como as formigas teimam no transporte dos restos. convido-te. vamos reconstruir.
Há um cheiro de quem chega ao limite e a casa
esfarela-se enquanto o telefone toca.
Uma palavra inscreve-se
no tutano da tarde: ansiedade. Mas nada de perguntas.
Graças a deus protegemo-nos porque não temos
a ubiquidade e conservamos os porquês na algibeira
das retóricas. Está decidido: limpo a casa. O aspirador
desfaz o pó do meu estar. O detergente apaga-me as
pegadas. Quando me separo dos aromas as superfícies
brilham sem as manchas do meu convívio.
Assim se reconstroem as coisas com as mãos dos hábitos.
E há um quadro que é uma cana de pesca. E
há um copo que é uma guilhotina.
E há um sapato desbraguilhado.
E há uma cadeira que é uma roda. E a capa de um livro. E
um candeeiro sem olhos: o que as coisas podem ser
despidas do outro lado enquanto me visto de conveniências.
E me revisto de sorrisos que outrem atraem
ao mel das circunstâncias. Estamos encadernados
nas prateleiras do dia a dia dos outros.
Assim se reconstroem as coisas com as mãos das normas.
Por isso digo e escrevo: porque me defendo. O rabo de
um porquê salta do esconso da imensidão
e fere o totalitarismo das companhias. Aqui não há
desculpas: há que ser assim. O templo está alugado
à hora para o deus que primeiro chegar
ao espaço que sobeja. Depois amanhamo-nos
de preces necessárias e de beatitudes
escolhidas no prontuário das felicidades. Amanhã
é outro dia e estaremos prontos para a sequência.
Assim reconstruímos as coisas com as mãos do zelo.
Meu caro: não retenhas as urinas à higiene
da solidão. Deixa-te envolver como as árvores
obedecem ao curso das estações. Desiste do
convencimento das tuas lágrimas que pesam
como chumbo e resguarda-te e sobrevive. Hão
de transcorrer os dias sobre os edemas e tu
serás flor. Outra vez flor com a morte aquecida
terça-feira, 16 de abril de 2019
[0628] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (25) Rebocho, a luta de gerações
Por vezes, a luta geracional ressalta como tema de Rebocho, como o mostra este poema publicado em “Canto Finissecular”
CANTO FINISSECULAR
começamos pelo começo: são agiotas os deuses
e pagamos as suas dádivas com língua de palma e meio. desafiamos
os preconceitos divinos quando jogamos na dívida e logo
os juros.
o que tem um milénio que outro não tenha?
de modo assumido:
o que do assobio do tempo me fica no ouvido?
cada ano perdemos e ganhamos. o que perdemos?
o que ganhamos? em cada século perdemos e ganhamos.
o que perdemos? o que ganhamos?
perdemos e ganhamos em cada milénio.
o que ganhamos? o que perdemos?
esta a contabilidade das dificuldades
e nela perdemos a cabeça.
quanto a mim
não me preocupa o futuro que me é ausente
ou disso me convenço; cá dentro há uma fezada de que o mundo
não acaba
- é uma fezada quase certeza de dúvidas e insistências: não acaba
não acaba. mas que mundo?
se já torrentes
nadei e delas me enxaguei,
aterro-me das enxurradas por que não passei
ou me entropeço nesse alvoroço que quisera recolher no peito
e ser todo o mar. amargos de boca de quem sabe que tudo
é só o possível e é defeito.
não me exijam ou isto ou aquilo que eu passo ao lado
porque escolher é perder. o troço é o jeito de ir até onde
recusar regressar ou ficar a ver a onda a enrolar o desejo
inesgotado na praia: quanto deste tempo me fica no ouvido?
e o que sobra deste tempo? que plásticos sobrevivem na água?
que lixos sobrepesam os dias?
canso-me do milénio que não dormirei quando as almofadas
ajeitam o passado e tentarei ir com os ventos
sobre o negrume das marés: contarei os mortos.
esses são os números do porvir os números
inalterados das gerações das certezas. recolherei os sismos
e os estragos: contarei os mortos. esses são os números inalterados
das gerações das dúvidas. oh, sim, deixem-me coçar o milénio que chega
e cheirar o começado mesmo
com os olhos adornados na praia enquanto a lua aquece alucinações.
deixem-me. sei lá o que sobra para o outro milénio
e o que dirão as más línguas os críticos os historiadores
(meto-os na mesma molhada). sobrará alguma coisa?
o meu nome? a minha foto? um papel? uma memória? um osso?
quero convencer-me de que me estou nas tintas
para o que possam pensar da minha poesia que afinal
são os meus dias e desassossegos. estou-me nas tintas
para o que possam pensar ou dispensar de pensar
porque nenhum poeta é poeta, apenas é oráculo
dos silêncios e das vozes e do círculo. e que pensem
que isto é profundo ou é ridículo: estou-me nas tintas.
o que virá virá a seu tempo. eu cá sei o que me leva a pensar
por estes neurónios e não por outros e os pontos cerebrais
das minhas melancolias e se o futuro os autopsiar
muito me hei-de rir: analisem então as gargalhadas
que dos meus poemas, se um dia lhes buscarem os originais
só encontram as águas poluídas nos canais.
mas hoje, quase ao virar de século, na leveza
dos meus sessenta anos, não vou mentir. confesso: detesto a forma,
a poesia engravatada. prefiro investigar, minuciosamente investigar, à lupa, com bisturi, chafurdar no absurdo se for preciso, investigar
mesmo que chegue a nada. abaixo as regras, auden, os tratados,
essas coisas todas. sento-me no sentimento vestido
com a minha pele (escrevo nu), sento-me no pensamento
e vou pelos meus dedos em busca de um horizonte qualquer
nas minhas artérias. eu sei porque vejo:
o horizonte são os barcos - e a viagem? abaixo as regras: quero falar alto se me apetecer, mijar se me apetecer, tirar macacos do nariz se me
apetecer ou se me apetecer mergulhar em qualquer arte menor
desde que me dê gozo. a regra é esta, só esta, única:
estar vivo enquanto estiver e ter o gozo todo
que na poesia couber. e desobedecer.
e se, num golpe de rins, eu dissesse: milénio novo, agarro-te
pelos tomates?
e se eu, de pelo na venta, lhe exigisse a imortalidade?
se há por aí planetas e coisas e maquinetas e remédios e conjunções
e laboratórios e investigações e invenções porque há-de o milénio
passar sem mim? e porque hei-de eu passar? por fatalidade?
porra para a fatalidade! um vírus, um bacilo, valem mais do que homem?
e para quê a imortalidade? por dó, por pena, pelo amargo de boca
de não levar comigo a vida (não me envergonho de dizer que isso me arrefenta), para ver, para continuar a ver,
continuar a sentir com as minhas sensações e com elas ganhar a certeza,
a minha certeza, de que o mundo continua, continua sempre
porque continua comigo. e para quê? nem eu sei
se este solilóquio é poesia e que outra poesia possa haver
para além da dor de costas das nossas dúvidas
e da dor de barriga do nosso limite.
querem metáforas quando isto quando isto é tão simples?
pois é, meus caros, constrói-se o futuro com as mãos vazias
mas capazes de torcer os cornos da cor de esperança.
desfolham-se calendários e colocam-se memorandos nas páginas dos augúrios. assaltam-se as datas para contabilizar propósitos
(se ao menos o milénio fosse uma convenção)
e os nervos em franja adormecem nos silêncios como as moscas
estoiram nos infravermelhos: os séculos são a consciência
dos limites quando aprendemos, no dia a dia aprendemos
que vivemos de mortes, que não as dispensamos:
somos os cangalheiros das nossas ilusões
a apodrecer em certezas, a adubar as dúvidas.penso em mim
- onde está o corpo que tive, a dor de dentes de há dez anos,
o sangue que já correu para os lenços, onde estão as feridas,
as folhas que caíram das árvores? os meus filhos estão na idade
das paixões e das despaixões que já não tenho
- são as coisas deles, não as minhas. dia virá em que repetirão
as perguntas e estarão maduros para outro século
enquanto os seus filhos terão paixões e despaixões próprias
que não serão deles. minhas muito menos que estarei
fora da contabilidade. tudo isto para vos dizer: chegais ao tempo
e a poesia merece a pena. Recusai os cartazes: proibida a entrada
a pessoas estranhas à obra. que sabemos capatazes?
que obra nos pode ser estranha? forçai a entrada - isso é poesia.
recusai as teorias: as palavras têm preceitos.
que sabemos teóricos? montai os cavalos das palavras
- isso é poesia. respirai - isso é poesia. comei - isso é poesia.
falai - isso é poesia. amai e odiai - isso é poesia.
vivam e morram - isso é poesia.
matai se for preciso - isso é poesia. desobedecei - isso é poesia.
nunca, nunca por nunca ser, aceiteis as marradas do touro do futuro:
agarrem-no pelos cornos
que eu, nos escombros do meu século, vos abençoo.
terça-feira, 9 de abril de 2019
[0620] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (24) Nuno Rebocho, o viajante
Três poemas de “Canções Peripatéticas”, recordando velhas poéticas de quem sempre gostou de pôr em verso as suas peregrinações, neste caso Espanha.
A LIÇÃO DAS DORES
não desesperemos que sempre um tempo
precede outro tempo e uma sombra
oculta outra sombra. os desassombros
também murcham como as papoilas
e podem ser tão efémeros mas a chuva os resgata
: servem para isso as sementes adormecidas
nos torrões e as vespas que nos viços os sugaram.
até os silêncios servem mesmo quando são lágrimas
e as noites são cansaços. as trufas
também se acolhem onde os sobros choram
na lição das dores - que são mestras
e tecem os dias felizes
com os fios das saudades. são penélopes
entretendo os calendários dos úteros envilecidos.
são os regatos que no seu percurso serão mares
e ensinam às bocas a vontade de cantar.
EM CASA DE GARCIA
fui a tua casa, Federico Garcia. mas tu não estavas,
nem o Horto era o que então havia. a porta fechada
escondia lendas vendidas com sobranceria. tu não
estavas, Garcia, só o cicerone da casa que não tiveste
enquanto vagueavas em busca da tua morte, mesmo
a que não querias. a tua casa, Federico, não é a tua
casa: é uma porta por onde se entra para um vão de
escada e uma escada por onde se trepa até aos silêncios.
granada nada sabe dos sortilégios nem por onde rumam
rotos de mortes, nem por onde sonham despidos
de mágoas. a tua casa, Garcia, já é branca e os curiosos
enfilam-se à porta com senhas nas mãos: matam-te
todos os dias, salvo nos de descanso. e às cinco da tarde
respeitam-te. valem outras balas estas bulas de ironia
a cem pélas por visita, Federico Garcia. e os touros
que então havia e matavam como lhes cabia são agora
mansos ou embolados ou enojados. crescem no Horto
nem nardos, nem cardos - só flores sem fantasia.
fui a tua casa, Federico Garcia. mas tu não estavas.
os cicerones levavam-te para outra morte
em grupos de cinco. e cobravam a entrada.
EM NOME DE GOYA
pintava o Surdo o silêncio do sangue
(ah, charneca de amarelos touros)
e crestava a romaria em san isidro
mais uma chusma de arrolados mouros.
pintava o Surdo a tristeza do vidro.
- de zaragoza que cores alvorotaram para as searas?
de onde roçaram os aromas infantis em bregas de pele
e morderam o pó das apressadas feiras? que bandarilhas
desfraldaram as extremas para o vício dos combates?
pintava o Surdo o negrume das chamas
(ah, charneca de rubros touros)
e fuzilavam-se peitos sobre la moncloa
por onde se esvaíam dobras de tesouros.
pintava o Surdo o que o olhar não perdoa.
- que vim à sorte de cara lavada por lides de crestadura
que sobestava o que pimpilar se não podia. e em nome
do nome que o tempo dava, o tempo fazia a carne.
sortes de paleta nas muletas se escondiam. era em nome.
pintava o Surdo os dentes de saturno
(ah, charneca de azulíneos touros)
quando na arena se desconjuntavam muros
pelos disparates de sacrílegos louros.
pintava o Surdo os cornos do futuro.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
[0615] Nuno Rebocho, o redespertar, em repetição de um poema sempre bom de relembrar
Nuno Rebocho e Guillaume Apollinaire
Foi um poema que renovou toda a sua poética, este “Santo Apollinaire (meu santo)”. Pode mesmo dizer-se que houve um antes e um depois.
SANTO APOLLINAIRE (meu santo)
chuva de cascais. a cabeçorra de apollinaire entra pelo tugúrio e dói-me as costas, dói-me a paciência & o piano que toca dentro um nocturno em si maior (paulo salgado). e dói-me o piano nos olhos de apollinaire, cabeçorra entrapada de branco. e dói-me o inverno que chega & a nudez das árvores. chove em cascais - é isso. não é em santiago (que se lixe santiago). chove aqui. caraças
chove
o
sentimento
dentro
da
casa
que
é
sala
chove
dentro
dos
ouvidos,
das
letras,
dos
números
paciência: cascais é o mar. cascais é o que está aqui por dentro da chuva.
impermeável
mar apollinaire em algum lado possível
como peixe-porco em volta do anzol
e que só não é bom porque é temível
e só não é ronha porque é sol
meu santo, santo apollinaire apolíneo,
(entra na cabeça o som de palmas - o pianista ataca)
são guilherme circundante
(entra pelos ouvidos o convent garden - o pianista ataca)
ruivo de raiva & azulíneo,
(chopin distrai-me, distrai-me sempre - o pianista ataca)
amante de nenhum amor amante
(porquê chopin esta insistência nos agudos? o pianista ataca)
de onde basta o silêncio
algum castigo de viagem,
basta o que não basta
& já é bastante
que eu vou contigo,
apollinaire santo
hei-de ir de olhos fechados
mas com paisagem
e então
mordemo-nos com o cio dos lobos
e o usufruto da alcateia
cuidado: saltam à arena
os bobos se o mar
se afunda na areia
mar que dissolve os braços
desbragado. cuidado
consome verdes & azuis,
descuidado. cuidado
mar que arrebenta na boca,
desbocado. cuidado
mar que é merda e é vida,
desamordaçado. cuidado
desAMORdaçado
sacrifica o mar as algas na terra firme
- oceano guilherme, quem te redime?
eu não que de gripes não morro.
eu não que não me mancho nem me desmancho.
eu não que sonhos não percorro
sem bracque, sem jarry, sem socorro
ah, temos obrigações:
temos a obrigação de destruir a arte
para que os homens não tenham a falsa consciência da sua infelicidade
temos a obrigação de destruir a forma
para que os homens não tenham o falso sentimento da sua eventualidade
temos a obrigação de destruir o som
para que os homens não tenham o falso pressentimento da sua identidade
temos a obrigação de destruir o discurso
para que os homens não tenham a falsa inocência da sua imensidade
temos a obrigação de destruir o silêncio
para que os homens não tenham a falsa comoção da sua humanidade
somos humanos, xiça, e
neste mar de corpos construídos
como cheiros domesticados
me escondo eu preso pelos sentidos
mar por outros mares nunca navegado,
som à margem do rito dos ouvidos,
sons ganhos, sons perdidos, naufragados
ó grande acrobata. ó mestre das cantigas
num mundo construído de anversos
fica a realidade para além das lombrigas,
ficam povos para lá das conversas
queria dizer-te: como tu tivemos muitos
(já passaram, ninguém se lembra.
e quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará das nossas dores, dos nossos risos?
quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará de nós?
de nós no pó da história? de nós no pão da história?
que deus aí nos conserve
e te conserve a ti na mesma memória)
tu és ilustre, tu és soberbo,
(agora o piano castiga a fantasia húngara, cansado dos oboés. & eu cansado. piano, piano, flauta doce, címbalos, contrabaixos, piano, maestro de tudo, que fazes aí? piano, piano, a tarde avança, quase noite, cigarros, bênçãos, piano, fagote, neura, computador, cadeira, som, objectos, horas, oras, horas, tempo, tarde, noite, piano, cigarros,
apolinére mastiga as palavras sem chuígame - turva-lhe a imaginação
e lá está o piano, o piano, o piano, o piano
tutítitutitutitutitutitutututututu vralllálálalá alguém tosse
prrilipriliprliprlitutátutátutátutáprláprláprláTIITITITITI
oh dentro da cabeça, dentro da cabeça, dentro da cabeça
meu santo)
ó grande desamado
tu és poeta, tu és soldado
(que raiva, que raiva)
tão soberbo como o mar do outro lado,
tão soberbo como as rochas incapazes
neste estádio, sem mais, a aparição de santo apollinaire aos três sons,
a GRANDE REVELAÇÃO, assim mesmo em caixa alta. e disse o santo:
a chuva que cai em cascais, já é esta diferente desta como é outra diferente
esta chuva que cai já não é esta chuva que cai
a chuva de cascais não é a chuva de birre, não é a chuva de juso
o agora não é o antes nem o depois nem o agora
o agora só é uma parte do agora, a micronésima parte.
aprendei que tudo é efémero e o efémero mais que tudo.
é preciso construir o efémero. com minúcia. com sabedoria.
sobretudo aprendei a destruí-lo
estremunhei:
pescador de baleias
vai-te embora
vai-te embora, rapaz, fazemos as pazes,
ó ilusionista, ó artista de circo,
ó corno, meu cantor de sentimentos
faz uma pirueta de adeus,
dá um salto em frente, mas deixa-me por amor de deus.
já tenho o que me baste,
pra quê mais tormentos?
desconto vidas,
mais curtas outras, umas mais compridas
nem lhes meto dentro o sal,
mar salgado,
que quanto é melindre está começado
que quanto já é carne está sentido,
que quanto já é sangue faz sentido
uma brisa aconchega-me o ouvido
e tu surges quando a tarde apodrece
porque apollinaire, meu santo, acontece
a baba da tarde não tem perdão.
o mundo talvez. eu não
(GRANDE FINAL: TCHAC. meu santo apollinaire
meu compère)
terça-feira, 12 de março de 2019
[0607] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (23) Nuno Rebocho, viajante de mundos
Nas suas peregrinações pelo mundo, o autor relata assim a sua chegada à Córsega: um dos poemas do seu livro “A Ilha de Amianto”.
O PLANETA INVISÍVEL
o planeta invisível. a bruma come
o tempo mas a bexiga natatória dos sentidos garante a realidade. à tona das rugas
(quando, onde) onde o silêncio silfa
como olhos na barriga da memória descubro a confusa mancha
das coisas por acontecer. aos poucos,
no jeito de desarvorar roupas,
a montanha sacode a névoa.
a ilha poisa sobre o mar.
o planeta visível. permanece a ausência quando os olhos se atarefam na manhã. olhos que iniciam a timidez dos gestos
e definem missões para os momentos. por exemplo: além uma cidade, um monte. além o casario arrepela-se de lixeiras
e as gaivotas triunfam sobre os restos. esta é a ilha. os contornos encerram nítidos
os olhos das ausências. então, o silêncio guardado nas orelhas uiva como apelo.
a ilha descobre-se. e o mar acaba.
segunda-feira, 4 de março de 2019
[0597] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (22) Rebocho, um incansável viajante
Nos seus périplos pelo mundo, o autor viveu a Páscoa andaluza e vibrou com o seu especial ambiente, apesar de ser, por tradição e formação, um afirmado ateu.
NOITES ANDALUZAS
1.
vai a morte calçada de trinta pés
e cerzida no choro das viúvas -
ela vai a molhar-se mais de chuvas
que de cruzes ou de incensos ou de fés.
como um clamor sobre um soluço de clarinetes
a morte destapa-se do suor dos cansaços
com que a transporta a raiva de trinta braços
com que a desejam na batalha mil ginetes.
vai a morte. lá vai lenta e roxa
ondulada e lenta quase coxa.
atrás vem a voz e vem a virgem
e um coro branco: a cor da origem.
passo a passo o lamento alcança
a semente que desperta em regaço verde:
é o senhor da morte que caminha e balança
sobre pés sem limites a própria sede.
2.
abandonaste a morte entre as oliveiras
onde os grãos da primavera humedeciam:
as culpas zelavam e pariam solteiras
com as dores amarelas que os olhos escureciam.
em cada etapa a vida era vinho novo,
goles de alegria que as gargantas assolavam.
na vida todas as mortes todas se apagavam
e trôpegas de tão fartas envileciam.
e as bocas? as brasas cantavam e despertavam
em ocos murmúrios de grossos rios
que nas ruas com traves de silêncios se barricavam
dos assaltos das paixões nos olhos claros;
morria então a morte em tanto vício e canto
que o baile adormecia. que já era vida a morte
e era sal o sol com rouco espanto
da noite que no dia mergulhava e esmorecia
3.
(o jardim dos perfumes)
atiro o problema para trás das costas
mas as macieiras descobrem-me: sou a sombra
e o murmúrio. e se calço as alpergatas do silêncio
sobra-me o espanto. por então falo
das coisas corriqueiras que me acontecem
- ou o tépido beijo da morte
a limpidez das madrugadas sóbrias
os olhos dos planetas que escurecem
ou a morte súbita dos rios amarelos.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
[0593] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (21) Nuno Rebocho, a grande "revolução"
Foi uma verdadeira revolução na arte de poetar do autor. Chovia em Cascais (Rua dos Navegantes) e o poeta explodiu, Galego editou (“Non nova, sed nova”). A edição esgotou – 100 exemplares. Começou uma no fase do seu “poetando”.
SANTO APOLLINAIRE (meu santo)
chuva de cascais. a cabeçorra de apollinaire entra pelo tugúrio e dói-me as costas, dói-me a paciência & o piano que toca dentro um nocturno em si maior (paulo salgado). e dói-me o piano nos olhos de apollinaire, cabeçorra entrapada de branco. e dói-me o inverno que chega & a nudez das árvores. chove em cascais - é isso. não é em santiago (que se lixe santiago). chove aqui. caraças
chove
o
sentimento
dentro
da
casa
que
é
sala
chove
dentro
dos
ouvidos,
das
letras,
dos
números
paciência: cascais é o mar. cascais é o que está aqui por dentro da chuva. impermeável
mar apollinaire em algum lado possível
como peixe-porco em volta do anzol
e que só não é bom porque é temível
e só não é ronha porque é sol
meu santo, santo apollinaire apolíneo,
(entra na cabeça o som de palmas - o pianista ataca)
são guilherme circundante
(entra pelos ouvidos o convent garden - o pianista ataca)
ruivo de raiva & azulíneo,
(chopin distrai-me, distrai-me sempre - o pianista ataca)
amante de nenhum amor amante
(porquê chopin esta insistência nos agudos? o pianista ataca)
de onde basta o silêncio
algum castigo de viagem,
basta o que não basta
& já é bastante
que eu vou contigo,
apollinaire santo
hei-de ir de olhos fechados
mas com paisagem
e então
mordemo-nos com o cio dos lobos
e o usufruto da alcateia
cuidado: saltam à arena
os bobos se o mar
se afunda na areia
mar que dissolve os braços
desbragado. cuidado
consome verdes & azuis,
descuidado. cuidado
mar que arrebenta na boca,
desbocado. cuidado
mar que é merda e é vida,
desamordaçado. cuidado
desAMORdaçado
sacrifica o mar as algas na terra firme
- oceano guilherme, quem te redime?
eu não que de gripes não morro.
eu não que não me mancho nem me desmancho.
eu não que sonhos não percorro
sem bracque, sem jarry, sem socorro
ah, temos obrigações:
temos a obrigação de destruir a arte
para que os homens não tenham a falsa consciência da sua infelicidade
temos a obrigação de destruir a forma
para que os homens não tenham o falso sentimento da sua eventualidade
temos a obrigação de destruir o som
para que os homens não tenham o falso pressentimento da sua identidade
temos a obrigação de destruir o discurso
para que os homens não tenham a falsa inocência da sua imensidade
temos a obrigação de destruir o silêncio
para que os homens não tenham a falsa comoção da sua humanidade
somos humanos, xiça, e
neste mar de corpos construídos
como cheiros domesticados
me escondo eu preso pelos sentidos
mar por outros mares nunca navegado,
som à margem do rito dos ouvidos,
sons ganhos, sons perdidos, naufragados
ó grande acrobata. ó mestre das cantigas
num mundo construído de anversos
fica a realidade para além das lombrigas,
ficam povos para lá das conversas
queria dizer-te: como tu tivemos muitos
(já passaram, ninguém se lembra.
e quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará das nossas dores, dos nossos risos?
quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará de nós?
de nós no pó da história? de nós no pão da história?
que deus aí nos conserve
e te conserve a ti na mesma memória)
tu és ilustre, tu és soberbo,
(agora o piano castiga a fantasia húngara, cansado dos oboés. & eu cansado. piano, piano, flauta doce, címbalos, contrabaixos, piano, maestro de tudo, que fazes aí? piano, piano, a tarde avança, quase noite, cigarros, bênçãos, piano, fagote, neura, computador, cadeira, som, objectos, horas, oras, horas, tempo, tarde, noite, piano, cigarros,
apolinére mastiga as palavras sem chuígame - turva-lhe a imaginação
e lá está o piano, o piano, o piano, o piano
tutítitutitutitutitutitutututututu vralllálálalá alguém tosse
prrilipriliprliprlitutátutátutátutáprláprláprláTIITITITITI
oh dentro da cabeça, dentro da cabeça, dentro da cabeça
meu santo)
ó grande desamado
tu és poeta, tu és soldado
(que raiva, que raiva)
tão soberbo como o mar do outro lado,
tão soberbo como as rochas incapazes
neste estádio, sem mais, a aparição de santo apollinaire aos três sons,
a GRANDE REVELAÇÃO, assim mesmo em caixa alta. e disse o santo:
a chuva que cai em cascais, já é esta diferente desta como é outra diferente
esta chuva que cai já não é esta chuva que cai
a chuva de cascais não é a chuva de birre, não é a chuva de juso
o agora não é o antes nem o depois nem o agora
o agora só é uma parte do agora, a micronésima parte.
aprendei que tudo é efémero e o efémero mais que tudo.
é preciso construir o efémero. com minúcia. com sabedoria.
sobretudo aprendei a destruí-lo
estremunhei:
pescador de baleias
vai-te embora
vai-te embora, rapaz, fazemos as pazes,
ó ilusionista, ó artista de circo,
ó corno, meu cantor de sentimentos
faz uma pirueta de adeus,
dá um salto em frente, mas deixa-me por amor de deus.
já tenho o que me baste,
pra quê mais tormentos?
desconto vidas,
mais curtas outras, umas mais compridas
nem lhes meto dentro o sal,
mar salgado,
que quanto é melindre está começado
que quanto já é carne está sentido,
que quanto já é sangue faz sentido
uma brisa aconchega-me o ouvido
e tu surges quando a tarde apodrece
porque apollinaire, meu santo, acontece
a baba da tarde não tem perdão.
o mundo talvez. eu não
(GRANDE FINAL: TCHAC. meu santo apollinaire
meu compère)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
[0582] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (20) Nuno Rebocho, as palavras necessárias
No “Discurso do Método” do seu poetar, o autor debate-se com o esquecimento que alguns bem desejam que um triste passado faculte, desafiando “o lugar sagrado dos testemunhos”. Quis sempre passar ao “outro lado das paredes da vida”, dilatando os momentos já vividos (e nunca esquecidos). O poeta o afirma: “a escrita é um risco, um assalto, um crime” onde há um cadáver em cada verso e um mistério à espera de decifração”.
A CELEBRAÇÃO DO ESQUECIMENTO
estilhaçam-se as ravinas dos segredos quando as vozes atravessam
o calcário da intimidade: o sagrado lugar dos testemunhos
onde as presenças cheiram. é aí que o esquecimento dói e eu passo
ao outro lado das paredes da vida coada do salitre
desvendando os lugares. sempre queremos
a dilatação dos momentos ou as palavras mudas e murchas
como baterias de mortes (as mortes que vão acontecendo dentro
dos dias); as palavras mudas como plantas adormecidas
nas águas paradas; as palavras mudas das retaliações e dos tratados
como arames farpados nas fronteiras existentes; as palavras mudas
que se mudam nos núcleos cerebrais e deixam o rasto.
no calcário da intimidade desbravamos as loucuras e passamos
(como eu passo) ao lado das paredes para desvendar os lugares.
fecho os portais para a necessária pudicícia
de me buscar: a escrita é um risco um assalto um crime.
como podem saber que há um cadáver em cada verso
e um mistério à espera de decifração? e que fariam
aqui as polícias quase incólumes à corrupção do tempo?
é desnudo que escrevo como faço amor
e depois me liberto do sangue e dos vestígios: o crime
perfeito com bacanais de interrogações e de buscas.
deixo que a penumbra feche o quarto este quarto
dos meus segredos por onde os papéis navegam
e os dedos se perdem na procura das dúvidas.
se os meus senhorios soubessem destas poucas vergonhas
davam-me ordem de despejo e perdia o lugar de me esquecer.
é na claridade que as coisas se confundem: as coisas
são indefiníveis e múltiplas porquanto a unidade é o esquecimento
por onde a luz entra pelas janelas a indicar-nos as rotas onde
as coisas se fazem objectos e pessoas onde os lugares
se definem no breve momento da memória. tudo é disperso
e o esquecimento constrói-se como um traço de união
com a eternidade (seja ela qual seja) por onde a luz
é apenas a velocidade do possível (seja ele qual seja).
é na claridade que as coisas se destroem e se definem
e se preparam para o estonteante. na claridade
preparamos a memória para o esquecimento.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
[0569] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (19) Nuno Rebocho e a constante liberdade
Retirado em Cabo Verde, Nuno Rebocho manteve a constante sedução pela liberdade, ainda que a paisagem à sua volta parecesse ser pouco convidativa da não cansativa “sagrada esperança”: sempre a liberdade vadiava.
ENTREMENTES
quando as acácias rugiam
aos alísios e as galinholas grasnavam
sua solidão por entre as ramagens
eu era feliz
apesar de exilado
era feliz
chamava pedra às pedras
enquanto o mar molhava esperanças
chamava vida à vida
enquanto roía as unhas de algumas mágoas
chocalhavam as agruras
onde a liberdade agoniava sedições
- a liberdade vadiava
mas não cansavam as emoções
antes voltasse ao que já foi
que sentir cair os dentes
e vomitar presentes
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
[0557] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (18) Nuno Rebocho, as "Canções Peripatéticas"
Publicamos os tradicionais poemas (às terças-feiras) deste autor. Do seu livro “Canções Peripatéticas”, recolhemos a “Lição das Dores”.
A LIÇÃO DAS DORES
não desesperemos que sempre um tempo
precede outro tempo e uma sombra
oculta outra sombra. os desassombros
também murcham como as papoilas
e podem ser tão efémeros mas a chuva os resgata
: servem para isso as sementes adormecidas
nos torrões e as vespas que nos viços os sugaram.
até os silêncios servem mesmo quando são lágrimas
e as noites são cansaços. as trufas
também se acolhem onde os sobros choram
na lição das dores - que são mestras
e tecem os dias felizes
com os fios das saudades. são penélopes
entretendo os calendários dos úteros envilecidos.
são os regatos que no seu percurso serão mares
e ensinam às bocas a vontade de cantar.
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