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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

[0111] De novo, Lopito Feijóo


J. A. S. Lopito Feijóo é um poeta e crítico literário angolano, Prémio da Lusofonia de 2017, que revisita este portal. A sua poesia tem particular importância na literatura contemporânea de Angola.


IMAGINAÇÃO    4

Ainda voltareis a matar a pura mbulunga
nas artérias do coração da embriagada cidade
complementarmente antes abastecida
por deuses dementes e  santos sarnentos.

Saireis calando bocas e  ajudando maridos
tirando biquínis de brancas Marias alemãs
e doutras atitudes longitudinais, com importadas
virtudes reconhecidas de fálica importância,
regando Roques e remarcados embondeiros
do Cazenga e da Calemba com novos toureiros...

Reciclando alucinado kuduro resta um tempo e,
no escuro futuro impuro, juro duro e maduro.
Atrofiados acabareis vendendo a mãe,
o pai e, aos montinhos, a própria pátria!


IMAGINAÇÃO    5

Imaginando mágoas de mar calado
sucessiva e agressivamente molhado

na ondulada e natural arrogância
das águias reais com asas salgadas.

Reformulada imaginação de seca amperagem
assente em pilhagem e robusta estiagem.

E o porvir não vem se além alguém
não o tem para nós  também aquém 
reciclados –enfim- por quase ninguém!


IMAGINAÇÃO    6

Acentuadamente invertida a pirâmide
dos mundos socias, de mãos encolhidas
pisamos o céu olhando para o chão.

O chão que já foi chão agora é céu
o céu agora céu transformaste em chão
suportando magoados e velhos sentimentos.

Insones insinuações e puras alucinações
na rota dos seculares movimentos cerebrais
enquanto luminárias de saudáveis reflexões. 

O mundo espiritual não é mais o mesmo
o céu e a terra têm outras diagramações
os povos de bem movem suas premonições!


IMAGINAÇÃO    7

Confirmada vibração ondulada
com sonora frequência modulada
reflectindo no brilho dos verdes olhos
da velha víbora encurralada
nos meandros da comunidade singular.

Veste-se nobre a esperança popular
novos são também os calados desafios
de quem sementes infiltrou nas mentes
de  tolos e tarados tarefeiros reclinados.

Confinada adivinhação de felicidade social
esperança é espiritual motivo sagrado
não morre qual desencantado canino
nas estradas da amargura implantada
em solos de visível infertilidade cultural.


IMAGINAÇÃO    8

Chuva querida chuva ferida
chuva imaginada chuva esperada

atrofiando o angustiado canto das rãs
moldando o destino de todos os fãs.

O canto das rãs e o destino dos fãs
sobrevivem amarrados à tua energia

revigoram a irreversível força anímica dos
comandos salutares de ancestrais maresias.

Chuva querida chuva ferida…
divina chuva –sagrada- chorada chuva!


IMAGINAÇÃO    9

Negligenciando não estendestes
os recados que deixamos solidificados
nas frias e cinzas manhãs do poder
sem paredes para arriscar simples subida.

Vamos  acreditar na incerteza
de quem por cima do velocípede
soluçando se olvidou da pedalagem.

Movimentamos nuvens transbordantes,
sinalizando catastróficas enxurradas e
nos lençóis de previsíveis abalos cénicos
agrafamos riscados, os muros que não lestes.

Agora os ventos de novos intentos
assobiam estridentes por entre os soltos
dentes talhados para novas esfregas
novos desafios novos e finos desatinos
novos destinos.     Outros destinatários!


IMAGINAÇÃO    10

Estranha tarde com teto colorido
depois da falecida manhã reaberta
vimos vislumbrar a noite amanhecendo
fecunda segundo a lenda das orgias.

Estranhas entranhas na fenda da funda
vala valendo dolorosos vales por pagar.

Estranhas montanhas entre tamanhas
desconfianças ali onde a confiança é
palavra de ordem na vida ou na morte
de fiéis combatentes e amantes da pátria! 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

[0041] Lopito Feijóo, uma presença angolana que "Ibn Mucana" repete



Lopito (José André da Silva) Feijóo é uma voz forte (e muito própria) da actual poesia angolana. Também crítico literário, assíduo frequentador deste portal, honra-nos com a sua vigorosa colaboração. Nasceu em Lombe (Malange) em 1963 e tem vasta bibliografia já publicada. É a primeira repetição de poeta que com todo o gosto fazemos em "Ibn Mucana" (ver post 0015 AQUI).


IMAGINAÇÃO    1

Em época de alta maré
e superlativa navegação arejada
depois da procurada terra à vista

simplesmente darão à costa e chegarão
com os suportes da emoção desejada
os foliões dos velhos carnavais emancipados.

E dos quantos espezinhados motivos
de referência total resistirão somente
os de possível sonoridade global actuante.

Chegarão embrulhados numa onda
com semblante azul e branco
rolando densa, onda magna azul e branda

massageando e amaciando intensos corações
predispostos para a prudente absorção
de matérias longitudinalmente cognitivas.    
  

IMAGINAÇÃO  2  

Nekesse é um mundo de futuros…
de futuras farturas e flexíveis
fluidos conhecimentos esvaziando
a desesperança dos anos alucinados. 

Novas sabedorias e digna sapiência
nas embalas dos ambundos, nos sobados
dos kuimbundos, bakongos  e nganguelas
nas regedorias ibindas das nossas constelações.

Em Nekesse restam somente cicatrizes
dos passados que já foram futuros
em presentes então horrorosos
que imbatível a História assume engolir!   


IMAGINAÇÃO    3

Entre nós consagrada a memória
Dos pessoais cérebros imortais
das nossas antes passadas guerras intestinais.

É reconhecida a maioria para lamentar       
dos nossos autênticos soldados
desconhecidos pelo atlântico
ou pacífico porvir ainda não concebido.

Horas inglórias dos heróis mortos heróis
cativos detetives de irreal investigação
esperanças maduras na incerta decantação.

O presente passa e regressa
aturado passado, no futuro
sonhado, passados que foram
os velhos e gloriosos anos de peste!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

[0015] Uma voz de Angola: Lopito Feijóo


Lopito Feijóo é uma das vozes que marcam a poesia angolana. 

Nasceu em Lombo (Malanje) e integrou a Brigada Jovem da Literatura. 

A sua poesia constrói-se a partir da realidade que o envolve, com uma linguagem directa, capaz por isso de facilmente chegar a um largo leque de leitores.



POEMA PRIMEIRO DA CAUSA

Não importa a cor não importa a dor
– viva a maciez do oiro.
Não importa a voz não importa a foz
– viva o caudal do riso.
Não importa o berço não importa a bênção
– viva a escavação do incauto.
(Extrair do humano o jorro bicôncavo do bicho-da-seda.
Assumir a sede de um outro irmão. Canalizar o milho
Entre nós abundante reconduzindo a lavoura à idade leal)
Não importa a malha não importa a falha
– importa a função do lema.
Não importa o galardão não importa a geração:
– importa a assumpção da causa. ÁFRICA!