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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

[0771] Dois poemas de Carlota de Barros


O SILÊNCIO DA PALAVRA 


Como é bom abrir a janela todos os dias

Dar com um céu azul  o sol brilhando  

A lua pálida vagueando pelo céu 

E o mar mirando-te incrivelmente belo


Como construir o poema sem recorrer ao mar         

À lua  ao céu de um azul tão fascinante e ao       

Sol dentro da tua mão?


E onde entra o amor? 

Li que ele vai entrando devagar  tão suave       

Como beijos ao luar até encontrar abrigo onde o anseiam


Vi Julieta vagueando por um campo de rosas bravas

E que procuraria Julieta tão longe de Verona? 

Ou estaria eu em Verona procurando Julieta?

Ou será que foi sonho? 


Não há vingança que faça esquecer o amor de Julieta

Nem as rosas bravas que colhia para o seu amado


Nos olhos de Julieta vi os olhos de seu amor

Assim  se olham os apaixonados

Os olhares entram um no outro e tudo 

Se resume a esse olhar


Como terminar o poema?


Vou pedir a Julieta que me dê uma rosa brava

Ou serei eu a própria rosa brava para que o

Poema seja o silêncio da palavra 


Carlota de Barros 

17 de  Agosto de 2022




E AMANHECE...


 

A noite cresce silenciosa

E nada acontece

Oiço o tic tac dos relógios

No silêncio das paredes da sala

E serena aceito que as horas passem


Desejo a manhã  as aves  as flores 

O vento  a luz  a ternura da brisa

Clamo pela doçura dos brilhos da manhã

Rente ao fulgor  à vibração das árvores


Com o coração sereno

Sonho com a alegria da casa

Rente ao brilho  à vibração do sol

À carícia do brilho da luz na pele

Crescem rumores alegres com a manhã

Pétalas de beijos abandonadas ao acaso

Deleitam os silêncios do amanhecer

E uma suave sensação de abandono cresce em mim

Enquanto o dia se acende como carícia desfolhada


Da luz morna do azul um afago nos meus olhos  rosto  e lábios

Enquanto entoo uma música lúcida  suave vinda do sul

Como folhas  pétalas riso beijos descendo pela colina nua

Memória do sonho  do silêncio  da carícia de um coração

Puro  luminoso  aceso num doce bom dia


E amanhece...


Carlota de Barros

Lisboa 7 de Agosto de 2022


terça-feira, 23 de novembro de 2021

[0750] "Melodia de Ouro", novo poema de Carlota de Barros

MELODIA DE OURO


Penso no Bailado

como Sílvia bailava no poema

seu sonho de amor    

leve melancolia esvoaçando

como colibris sobre flores adocicadas

rumor de pétalas ou de lágrimas submissas

gotejando peregrinas de seus olhos meigos 

nas mãos de seu par

que a acompanhava no seu voo de amor

elevando-a suavemente nos braços

leveza de luz    graça    alegria e felicidade


No bailado sensual e puro

bebe sua lágrima de mel

solidão baloiçando 

no seu sonho de amor


Eroticamente  Sílvia oferece-lhe seu voo

seu sonho   melodia de ouro

melancólica presença de si mesma

nas asas do sonho

mais sonho que vida vivida



Carlota de Barros

Lisboa, 17 de Novembro de 2021

terça-feira, 26 de outubro de 2021

[0748] Poema de Carlota de Barros com um ano, mas ainda inédito (até hoje)


PEDRA OU SINO

             NUM PENSAMENTO INOCENTE



Penso naquele inocente encontro de 

Herberto Helder com a pedra pedra

a pedra verde ou azul que não era pedra

mas talvez um sino sem pensamento

no seu pensamento inocente.


Ah! Sim. 


Lembrei-me do grande silêncio 

da chama que a noite alimenta.

A noite   lenha para a nossa 

leveza humana


Ter-me-ei também encontrado

com a pedra  pedra no silêncio

escaldante desta noite maravilhosa

em que a Lua Nova surge ligeira

com passos de algodão enquanto eu

beijava os meus lírios num gesto doce

de gratidão e de puro encantamento?


Será que também esbarrei na pedra  

pedra estática e dura no meu caminho?


Será que também me encontrei com a pedra pedra  

na pedra do tempo  pedra azul ou Lua Nova silenciosa 

pedra verde em jeito de sino sem pensamento nesta  

noite cadente do meu pensamento inocente? 



Ou será que a pedra  pedra de Herberto Helder  

é hoje a Lua Nova no meu pensamento azul  

quase verde  reflexo das árvores que povoam 

o meu campo   refúgio da lua nos lábios ainda 

acesos do crepúsculo onde o silêncio é música?


Será a pedra pedra não menos que esta noite 

escaldante em que o beijo é sonho ou o sonho é 

seda na delicada floração do beijo da Lua Nova?


Poderá ser a pedra pedra   sino sem pensamento 

ou casualmente sombra do meu pensamento no   

silêncio desta noite abrasada pelo fervor dos dedos 

do sol escorrendo lume pelos campos ou pelo asfalto 

onde doces folhas inocentes  seixos  fendas abertas

numa exaltação quase vulcânica aberta ao sonho?


Ou será sonho ou mesmo beijo da lua 

nos ruídos da noite em que talvez eu tivesse o 

pensamento no silêncio dos lírios a abrirem-se

ou no seu perfume errando pela sala ou    

no mar rebelde que frisou o meu cabelo 

e pintou os meus olhos de verde água

ou ainda no silêncio ruidoso das pedras 

da vida em que se vai esbarrando com dor?


Talvez termine o poema num degrau de pedra

mais alto que o silêncio mais sublime que as  

ondas silenciosas do meu pensamento  

ou talvez nem o termine  o deixe nos olhos da lua

que ainda sonha com beijos do sol ou o deixe

com o sonho que sonha ser o beijo da lua.


Ou quem sabe o deixe aguardando naturalmente

que alguém o termine ou então nunca o termine

mas que seja sempre beijo da lua ou sonho 

desse beijo da lua espreitando os meus lírios

perfumados como nesta noite abrasada de 

Lua Nova  noite de pedra   pedra verde ou azul  

sino ou silêncio  sem pensamento verde ou azul?


Carlota de Barros

Lisboa 22 de Julho de 2020 

 

sábado, 18 de setembro de 2021

[0744] Mais um belo poema (inédito) de Carlota de Barros


COMO É BELO O REINO DO SILÊNCIO

 

Como é belo o reino do silêncio

com o brilho da luz aloirando

cabelos encaracolados

o esplendor do sol

mergulhando em cachos doirados

no mar imenso

espalhando solenemente vida

sobre a nudez do denso areal

 

Penso na vida

nos anos que se foram

como a vivi

alma azul   tulipa rosa entreaberta

numa casa cheia de vozes macias   claras e vivas

num tempo de fulgor e tardes transparentes

 

De onde venho por onde andei...?

Venho das ilhas verdianas

onde o azul do mar profundo faz lembrar o mar de Creta

andei por terras com casas de madeira e zinco

e tantas outras de fachadas e jardins luxuosos

 

Ressurjo na luz do reino do silêncio

onde me recolho tantas vezes

de futuras tempestades em mares desconhecidos

minha vida é simples  meu riso sorriso alegre

é triste quando penso nos que morrem

com fome de um sonho de amor

 

Retorno ao reino do silêncio. Como é sereno!

O brilho da luz é branco como a luz dourada

do céu das nossas ilhas verdianas

penso na vida   no tempo que voou como o passar do vento

a minha pele enrugou-se   o meu cabelo embranqueceu  

mas meu riso sorriso ficou

no silêncio dos dias e das noites transparentes

 

Como é belo o reino do silêncio

silêncio azul que ilumina os dias que se vão

Minha vida é simples

creio no amor  no sonho  na poesia  na pureza do azul

amo o comum da terra

 

Anoiteceu...

ressurjo a pensar na vida

no tempo que se foi veloz

como a brisa fresca da Primavera

um gesto de ternura

a flor que dura uma noite

e penso feliz que o tempo voou

deixou marcas visíveis

mas quando eu morrer os meus poemas dirão

que meu riso sorriso foi sempre o mesmo

alegre   franco e leal

que a minha alma habitou jardins dos mais harmoniosos

e vivi para que o sonho   a poesia   o amor

a conquista de mim mesma   a purificação da minha energia

o respeito por mim elevassem a minha vibração

e purificassem as minhas energias

 

Ressurjo no reino do silêncio com o meu poema

tão límpido e sereno como a lua nova num céu azul

E o tempo voou célere pelos caminhos que fui...

 

Carlota de Barros          
Lisboa, 15 de Setembro, de 2021



terça-feira, 1 de junho de 2021

[0737] Um poema inédito de Carlota de Barros, nascido neste dia 1 de Junho... da Criança


CRIANÇAS


Há crianças felizes

brincando na relva

nos parques 

nos jardins

rebolando na areia quente

rentes ao mar

respirando alegria

tablet nas mãos

olhinhos curiosos

fixos nos jogos

nos seus filmes

predilectos

não há pai não há mãe

que os tire dessa postura

inclinados no sofá 

onde quer que seja

com os tablets nas mãos

olhos fixos no ecrã


Crianças felizes ....

tão distantes dos meninos de Cabo Delgado


Meninos de Cabo Delgado

sem um teto  apenas uma refeição por dia  

mas brincando na rua  com brinquedos  

fabricados por eles próprios

pedaços de pau   ferros abandonados

caricas de garrafas de cerveja

bolas de trapos   bonecas de barro

sem tablets   nem cama   nem sofá

para sentir o prazer de apreciar

um filme infantil  ou um jogo para crianças

mas com um sorriso frágil nos lábios

porque brincam com amigos


Menino de Cabo Delgado

que viu degolar a cabeça do pai ou da mãe

e fugiu para lugar nenhum

sem rumo  assustado  doído

sem dia de regressar 

sem casa   sem a concha familiar  

sem pai nem mãe nem avó  nem avô

e os irmãos  por onde andarão?

Apenas com a visão cruel que jamais esquecerá.


Como vai ser o dia da Criança para ti?

Poderás ser feliz   meu menino?

Talvez no teu coração de criança inocente

haja ainda lugar para a felicidade

vi-te sorrir   com os olhinhos travessos

como te vi brincar com teus amigos que sorriam para a câmara.


Sê feliz se puderes   meu menino!

Vi-te sorrir. Meu coração pulsou.

Já te amo muito  meu menino

mesmo sem te conhecer

acolhi-te no meu coração  

porque vi como é amargo

ser menino de Cabo Delgado

fugindo para o mato acossado 

e tão assustado.


Ah estas nossas crianças felizes

tão distantes de Cabo Delgado!


São os meninos de hoje   felizes em casa

na escola   no campo ou na praia

estas as crianças que vemos e tocamos

todos os dias olhando-nos curiosas

devolvendo-nos sorrisos luminosos

que nos farão felizes o dia todo


Sê feliz meu menino 

tens casa   pai e mãe  

visitas os avós

que te fazem todas as vontades

tens amigos da escola

com quem adoras brincar   saltar e correr.


Oh alegria!


Sê feliz meu menino

hoje é teu Dia

mas sê feliz todos os dias do ano

és criança    ser inocente

que sorris para mim sem me conhecer

porque te cativei com meu sorriso

afagos de longe   beijos de mãe ...


Sê feliz 

todos os dias do ano

meu menino!


Carlota de Barros

Lisboa, 1 de Junho, de 2021



terça-feira, 29 de dezembro de 2020

[0723] Carlota de Barros oferece-nos mais um poema, desta feita sobre os tempos de chumbo de hoje e uma nova esperança


UM JARDIM NOVO


À transparência de um pôr-do-sol dourado

que avisto neste momento da minha janela

embalada que me sinto pelo brilho de um sonho

de gestos fantasiados em jardins maravilhosos

a minha alma exulta e inventa novas maneiras

de enfrentar o real em que continuo a sentir-me

náufraga de um navio sem rumo


Numa procura incessante de novos gestos redentores

sinto o coração suspenso enquanto o desconhecido cresce

alucinado    enchendo o ar de incertezas e de tormento


Nessa busca contínua   a minha alma vai subindo com o vento

procurando novos caminhos   novos sonhos   um jardim novo

que chegará   mesmo que na agitação das horas   dos dias   

das ondas do mar   dos corações suspensos e das almas

que vivem hoje solitárias   amedrontadas   sem sonhos


Mas hoje chegou o sonho de todos    em carros escoltados de alegria e emoção

e as almas de inquietos gestos   pálidas de medo   no vazio da solidão

baloiçam agora de alegria   com o vento e as aves do céu pelas planícies

onde o sol brilha    dourando o ar como um poema de amor consentido


Um novo jardim   lírios azuis   rosas amarelas   novos sonhos escorrendo 

como a luz da Esperança que agora navega por mares de ondas mais calmas 

enquanto  as almas com gestos claros e serenos  dançam com delícia 

sua imensa alegria agitando os espaços   em silêncio  de regresso à claridade


Carlota de Barros

Lisboa, 27 de Novembro de 2020



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

[0722] Poema da poetisa cabo-verdiana Carlota de Barros dedicado ao seu patrício Teobaldo Virgínio

Carlota de Barros



Natural da ilha de Santo Antão, Teobaldo Virgínio Nobre de Melo nasceu em 21 de Maio de 1924 e faleceu em 2020. Aposentado, viveu com a família nos Estados Unidos da América do Norte, mas o rol das suas profissões incluiu a de pastor evangélico, poeta, ficcionista, director da revista "Arquipélago" (EUA) e colaborador em outros órgãos de imprensa como "Presença Crioula", "Morabeza", "Revue Noire", "Notícias do Imbondeiro" (Angola) e "Coluna do Norte" (Brasil). De temática cabo-verdiana, a sua fonte perene, publicou, em prosa e verso, cerca de uma dúzia de volumes. Convidado pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, na qualidade de filho da Vila da Ponta do Sol, para as festividades do Dia do Município/2010, recebeu das mãos do seu presidente, Engenheiro Orlando R. Delgado, a Placa Comemorativa do Evento com que foi distinguido.

POEMA SAGRADO                                                   

(ao poeta e amigo Teobaldo Virgínio)

                       

                       A luz branca

que se 

desprende 

das violetas 

abriga 

um segredo


a borboleta

orando pela nuvem

faz emergir

o poema da

verdade sagrada


                  também ela sagrada – a borboleta


                   o poema sagrado

abandona a gaveta excêntrica

do poeta

caminhando

pela nuvem

sem encontrar poiso