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terça-feira, 16 de abril de 2019
[0627] In memoriam de Maria Alberta Meneres
MARIA ALBERTA MENÉRES, UMA PIONEIRA
De seu nome completo Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres, nasceu em Mafamude, Vila Nova de Gaia, em 1930, e faleceu em Lisboa, em 2019. Professora, jornalista, escritora, dramaturga e poeta, foi esposa de E. M. Melo e Castro e obteve o Prémio Internacional de Poesia Giacomo Leopardi em 1960. Dirigiu a revista “País”.
AS PEDRAS
As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?
As pedras cantam nos lagos,
choram no meio da rua,
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cei.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou fonte
que saiba matar a sede.
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e outra nos céus voou.
As pedras falam? pois falam.
Só as entendem quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
CÂNTICO DE BARRO
Inquieta chuva, inquieta me dispersa,
esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto
como se as ervas fossem arrancadas
ou se esgotasse a dor por que se chora.
Na grande solidão me basta, e a contemplo
para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem me sinto
o que vem a dormir ou a morrer
na mesma angústia que o silêncio envolve.
PRETEXTO
Por que não cai a noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.
Por que não cai a noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam
(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas)
domingo, 30 de dezembro de 2018
[0527] Eduardo Guerra Carneiro, a poesia quotinocturna
Nasceu em Chaves em
1942 e faleceu em Lisboa em 2004. Jornalista, escritor, cronista, tradutor,
argumentista e poeta, cofundador da revista “Setentrião”, cujo movimento
integrou. Foi ainda cooperante na Guiné-Bissau.
AUTO-RETRATO
Quantas horas não choras a pensar
em ti - quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado - assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.
Quantas horas não choras a pensar
em ti - quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado - assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.
AFINAL ACABO SEMPRE
POR FALAR DE TI
Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia no regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.
Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia no regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.
O CAROÇO DO REMORSO
«Ele estava cada vez mais cansado e
lá fora as maçãs caíam das árvores»
Peter Handke
)
Voltava-lhe outra vez aquele remorso:
a maçã de Adão não lhe cabia
na camisa. Mais do que o medo era
esse tal remorso: o ter deixado a meio
qualquer coisa que podia ter feito.
Procurava razões e nem bolsos tinha
onde as encontrar; fingia esquecer
e outra vez, anda, o remorso batia
no seu cansado peito. Não falemos
de sentidas dores, mágoas, mesmo
da sentimental lágrima: o sentido
é outro. Assim: remoía o caroço.
Mas estava cada vez mais cansado
e lá fora as maçãs caíam das árvores.
sábado, 15 de dezembro de 2018
[0495] António Sousa Freitas, o som do mar
Nascido em Buarcos em 1921 e falecido em Lisboa em 2004, letrista e poeta, foi galardoado com o Prémio Antero de Quental de 1951 e o Prémio Camilo Pessanha de 1958. Estudante coimbrão, fundador do jornal “Saúde” e do Gabinete Português de Medalhística.
SEM TÍTULO
Não estou só, meus irmãos,
tenho o céu por horizonte
e a morna luz de uma estrela
em meus olhos amanhece.
Tenho as flores que me rodeiam
E este silêncio caído
Na vida que permanece.
Tenho os bichos, tenho os pássaros.
Tenho as sombras que passeiam
sempre no mesmo sentido
que em mim próprio vive – e cresce.
Tenho a certeza também
de encontrar o meu senhor,
filho de Deus. Sua mãe
O gerou cheio de amor.
POEMA
Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior
Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor
Acho inúteis os sorrisos
Quando a noite nos procura
Inúteis são minhas penas
P'ra te falar de ternura
Acho inúteis nossas bocas
Quando voltar o pecado
Inúteis são os meus olhos
P'ra te falar do passado
Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza
Inúteis são minhas mãos
Nessa hora de pureza.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
[0472] Álvaro Feijó, a força neo-realista
Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó nasceu em Viana do Castelo em 1916 e faleceu em Coimbra em 1941. Poeta, foi um dos vultos do neo-realismo português.
NAU PERDIDA
Pobre, lá vai! Que rombo no costado!
Como a água a peneta aos borbotões!
Açoita-a, em fúria, o Mar. Adorna ao lado.
Anda à mercê das vagas, dos tufões!
Mas segue, segue em frente. O vento a ajuda!
Galga nas ondas, que doidinha, olhai!...
Julga-se, ainda, a nau que dantes era,
por levar, no porão, uma quimera,
por ir, do vento na refrega aguda,
ovante e sem saber par’onde vai!
Julga-se, ainda, a nau que dantes era…
- o que passa não torna…
Na pobre nau perdida
a água entra e adorna.
Vai sendo, aos poucos, pelo mar sorvida.
Na agonia estrebucha. Num desejo
de vida e luz, arfante, desesperada,
busca furtar-se ao comprimento beijo
do Mar que a envolve. – Após, é o Mar e nada…
Doirado como um astro,
haste esquecida em campo onde as mondas
colheram tudo, o topo do seu mastro
fica esperando ainda sobre as ondas.
Na rota pelo mundo
- ao deus-dará na vaga azul e infinda -
nós vamos – nau perdida em Mar profundo –
joguetes do tufão;
mas conservando, ainda,
na última Esperança a última Ilusão.
SONETO DE AMOR DA HORA TRISTE
Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro
do que tu – não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro
como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem
fecha-me os olhos com um beijo.
Eu, Marco Pólo,
farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca
nele o mar inteiro, o porto, a ria…
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.
VARINA
Eu mudei de pincel e de paleta
- embora seja a mesma tinta com que escrevo –
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das linguetas
- o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
- “Quem merca os camarões”…
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne.
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar…
A Senhora d’Agonia…
A quentura de Agosto…
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta…
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro…
e… “até mais ver”…
Vês! Eu sei a tua história…
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto.
dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia,
tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
[0465] Carlos de Oliveira, o vértice do neo-realismo
Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu em Belém do Pará (Brasil) em 1921 e faleceu em Lisboa em 1981. Escritor, crítico, tradutor e poeta, ganhou o Prémio Bordalo em 1971 e o Prémio Cidade de Lisboa em 1978. Veio para Portugal criança ainda (dois anos de idade), estudou em Coimbra onde se licenciou em Histórico-Filosóficas em 1947 e aí integrou o grupo neo-realista (“Novo Cancioneiro”). Foi director da revista “Vértice”.
ACUSAM-ME DE MÁGOA E DESALENTO
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
TEMPO
O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.
E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.
Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbedo de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.
CANTIGA DO ÓDIO
O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?
domingo, 2 de dezembro de 2018
[0462] Amândio César, a poesia do antigo regime
Nasceu em Arcos de Valdevez em 1921 e faleceu em Lisboa em 1987. Professor, jornalista, escritor e poeta. Apologista do salazarismo, exilou-se em Espanha em 1975 e depois no Brasil
TUDO
Em surdina chegaste
E em surdina te vais:
— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!
E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses
— Por nada!
QUE HORA É ESTA?
É em vão que o sol doura
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra
Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.
Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.
Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.
Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.
PAR OU PERNÃO
Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
[0456] Al Berto, a poesia de um refractário
De seu nome Alberto Raposo Pidwell Tavares, Al Berto nasceu em Coimbra em 1948 e faleceu em Lisboa em 1997. Pintor, animador cultural, editor e poeta, obteve em 1988 o Prémio do PEN Clube Português de Poesia. Refratário militar fugiu para a Bélgica em 1967. Regressou a Portugal em 1974.
FORAM BREVES E MEDONHAS AS NOITES DE AMOR
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
RUMOR DOS FOGOS
hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos...
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir... o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco... como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas
CORPO
corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
[0455] António Feijó, diplomata e poeta
António de Castro Feijó nasceu em Ponte de Lima em 1859 e faleceu em Estocolmo em 1917. Diplomata, escritor e poeta, dirigiu a “Revista Científica e Literária”. Exerceu cargos diplomáticos no Brasil, na Dinamarca, Noruega e Suécia.
A CIDADE DO SONHO
Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.
Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Prometida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...
Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.
Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!
Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...
O LIVRO DA VIDA
Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia...
— Lia o «Livro da Vida» — herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.
Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.
Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça,—
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!
Cada página abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.
Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.
Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!
Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que iluminou todo o caminho andado..
Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
— Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.
Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou...
HINO À MORTE
Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
— Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu ânimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!
Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem dó me tortura e sufoca,
É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas afeições,
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada,
Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Só então, da tua asa a sombra formidável,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondável,
Noite de soledade em que nunca amanhece...
Só então, sucumbindo à dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é dum Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
Inflexível e cego, o poder do teu ceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza ele faz um espectro
De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.
Mas se nessa tortura, exausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contrito,
Passa diante de mim, como um deslumbramento
Constelando o teu manto, a visão do Infinito.
E de novo, ao sair dessa angústia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Eutanásia serena em cujo olhar clemente
Arde a chama em que toda a escória se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida
— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva
Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
A CIDADE DO SONHO
Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.
Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Prometida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...
Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.
Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!
Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...
O LIVRO DA VIDA
Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia...
— Lia o «Livro da Vida» — herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.
Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.
Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça,—
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!
Cada página abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.
Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.
Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!
Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que iluminou todo o caminho andado..
Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
— Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.
Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou...
HINO À MORTE
Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
— Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu ânimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!
Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem dó me tortura e sufoca,
É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas afeições,
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada,
Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Só então, da tua asa a sombra formidável,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondável,
Noite de soledade em que nunca amanhece...
Só então, sucumbindo à dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é dum Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
Inflexível e cego, o poder do teu ceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza ele faz um espectro
De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.
Mas se nessa tortura, exausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contrito,
Passa diante de mim, como um deslumbramento
Constelando o teu manto, a visão do Infinito.
E de novo, ao sair dessa angústia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Eutanásia serena em cujo olhar clemente
Arde a chama em que toda a escória se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida
— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva
Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
[0454] Goulart Nogueira, a voz da extremíssima direita
Florentino Goulart Nogueira nasceu em Belém do Pará (Brasil) em 1924 e faleceu em Lisboa em 2015. Veio para Portugal aos seis anos de idade. Aqui foi jornalista, encenador, crítico de teatro, editor, tradutor e poeta. Independentemente da sua posição de extrema-direita, assumiu a crítica ao salazarismo e mereceu a admiração de intelectuais oposicionistas, como Jorge de Sena
SÓ ATÉ O ALGARVE
Caminhemos com decência,
E não em passo de alarve:
Vamos com V. Exª.
Mas somente até o Algarve…
Há distâncias desmedidas;
Não fomos feitos p`ra elas…
Não estamos para corridas,
A querer caçar estrelas.
Terra-a-terra, e não pivetes
Temos muita previdência.
Deixemo-nos de foguetes:
Caminhemos com decência.
Há p`ra aí boca taurina
E há pernaltas! – Só p`ra mofa… –
Nós temos a boca fina,
A perna curtinha e fofa…
Não somos galgo novato,
Nem um cavalo que escarve.
Nosso passo é moderato
E não o passo do alarve.
Temos os foles cansados;
Pode faltar-nos o ar…
Encargos muito pesados
Não pudemos sustentar.
Florir nas terras maninhas
É contra a nossa potência.
Para vénias… palmadinhas…,
Vamos com V. Exª.
Dar um giro cá na quinta
- Até faz bem à saúde!
E pôr ovos que dão tinta
De um oiro que nos ajude…
Depois saem pintainhos,
Brasis fora desse alarde…
Somos muito jeitosinhos,
Mas somente até o Algarve.
ANIVERSÁRIO DE TIA HILDA
Abençoada minha tia Hilda
Que oitenta e oito anos faz agora!
A minha voz perante si se humilda
E o brilho meu ao pé do seu descora.
Que prodígio, meu Deus, anda, desanda,
Passinho velho e lépido e constante,
Formiga, abelha, fala, mexe, manda,
E sobe e desce e não descansa um instante
E vigia e ouve tudo e é um lufa-lufa;
Corrica, corre, corre, azanga, voa.
E sai e entra e reza e estende e bufa
E aia e geme e arranja e come e é proa.
Ai! terrífica tia! Não perdoa!
Com tais quezílias, é mazinha e é boa.
A minha tia que me dá boroa.
À escola me levava ao colo. E mimos
Me fez quando eu, inda pequeno estava
Órfão de Mãe, e escuso, e sem arrimos,
Fechado em mim, com noite adentro cava.
Rapariga-mulher… Me lembro, lembro.
No lábio superior um buço havia.
E ia à lareira, de Janeiro a D’zembro,
Passar ao lume as pernas à tosquia.
Casou. Dois filhos. O menino, um anjo,
Meu afilhado, lá morreu, o infante.
Ficou a filha que me dá um arranjo,
Que ao colo eu trouxe, terno, radiante.
O tempo corre. Nem por ele damos.
Uns vão, uns vêm. O afecto é o mesmo.
A tia é grande e já botou seus ramos:
Tem quatro netos, por ‘í fora, a esmo.
Guarda e refina o medo que atravanca
Mulher’s da nossa gente onde congregam.
A sete chaves fecha e trincos, tranca;
E o quarto e o chão. Cem mil ladrões não chegam!
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
[0452] Afonso Duarte, um saudosiste pré-modernista
De seu nome completo Joaquim Afonso Fernandes Duarte nasceu na Ereira em 1884 e faleceu em Coimbra em 1958. Professor, etnógrafo e poeta, dirigiu a revista “Rajada”.
NOITE DO ROUBO
A quem foram roubar os pobres trapos:
A mim, que sou humilde pobrezinho?
Olhem bem que o valor desses farrapos
Está em ter minha avó fiado o linho.
Ó rocas a fiar, contos de fadas!
Eu tinha-lhes amor e a simpatia
Que vem das saudades de algum dia,
Longe, das velhas noites seroadas.
Bragais de minha casa, e as roupas feitas
Por mãos de minha mãe, muito me assusta
Que os tomassem perversas mãos suspeitas.
Ah! mãos do furto, olhai, trazei-me à justa
Os meus linhos — suor dumas colheitas —
E amor dos meus que a mim muito me custa.
PAISAGEM ÚNICA
Olhas-me tu: e nos teus olhos vejo
Que eu sou apenas quem se vê: assim
Tu tanto me entregaste ao teu desejo
Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim.
Em ti, que bem meu corpo se acomoda!
Ah! quanto amor por os teus olhos arde!
Contigo sou? — perco a paisagem toda...
Longe de ti? — sou como um dobre à tarde...
Adeuses aos casais dessas Marias
Em cuja graça o meu olhar flutua,
Tudo o que amei ao teu amor o entrego.
Choupos com ar de velhas Senhorias,
Castelo moiro donde nasce a Lua,
E apenas tu, a tudo o mais sou cego.
VITRAL
Franzina, é como um choupo à luz da Lua;
É a noite escura o seu olhar de mágoa.
Uma ogiva os seus braços quando amua,
Modelo foi dos cantarinhos de água.
Dizem os seios que a farão mãezinha;
Oh! Que linda menina casadoira!
São os seios da virgem donzelinha,
Dois novelos saltando à dobadoira.
Seus lábios, duas pétalas de rosa;
Abrem as rosas como a boca enlaça…
Em beijo a boca é uma flor ciosa.
Num lago a Lua: o seu andar embala;
São suas mãos às que eu imploro a graça,
Seu corpo esguio, uma ânfora com fala.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
[0448] Políbio Gomes dos Santos, uma breve cintilação
Políbio Gomes dos Santos nasceu em Ansião em 1911 e faleceu igualmente em Ansião em 1939. Poeta, internado num sanatório da Guarda devido à tuberculose que o afectou, integrou o grupo do Novo Cancioneiro que marcou o neo-realismo português
POEMA DA VOZ QUE ESCUTA
Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
TESTAMENTO ABERTO
Só para ver curar minhas pernas partidas
Nas dores eternas
Dos saltos gorados,
Eu amo a aparente inconsciência dos loucos,
Embora fique aos poucos nos meus saltos
Desabridos e falhados.
Apraz-me, no espelho, esta face esmagada,
À força de querer transpor o além
Da minha porta fechada...
Porém,
Seja o que for, que seja,
Se uma CERTEZA alcanço
E uma mulher me beija.
Que importa
Que eu fique molemente olhando a minha porta
Aberta,
Ou que eu parta e a morte me espreite
Num desfiladeiro?...
E quem virá chorar e quem virá,
Se a morte que vier for a de lá
Certeira e minha...
E merecida como um sono que se dorme
Após a noite perdida?...
E que piedade anda a escrever um frágil,
Na embalagem dos ossos
Que trago emprestados...
Que deixarei ficar ao sol e à chuva
E que serão limados
No entulho dos calhaus que também foram rocha?...
Para quê, se mil vezes provoco
Os tombos do chegar e do partir?!
- A minha fragilidade
Foi-me dada
Para me servir.
EPITÁFIO
Menino, bem menino, fiz o meu balão
Papel de seda às cores...
- Tantas eram!
Ai, nunca mais as vi, nos olhos se perderam.
Quando a tarde morria o meu balão subiu
E tão direito ia, tão veloz correu
Que eu disse: "Vai tombar a Lua
E talvez queime o céu."
Anoiteceu.
E no horizonte o meu balão era uma rosa
Vermelha, não minha, aflitiva,
Murchando,
Poisando na água pantanosa
De além.
Ninguém o viu.
Ninguém colheu a angústia dum balão ardendo.
Somente a água verde rebrilhou acesa,
Clamorosa e podre,
Como nos incêndios de Veneza
E rãs, acreditando o mal mortal e seu
Foram fugindo, pela noite fria,
Do balão que ardeu.
Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
[0446] João José Cochofel, a ascensão do neo-realismo
João José de Mello Cochofel Aires de Campos nasceu em Coimbra em 1919 e em Coimbra faleceu em 1982. Ensaísta, crítico literário e poeta, foi um dos animadores do chamado “Grupo de Coibra” e do “Novo Cancioneiro” e director da “Gazeta Musical e de Todas as Artes”.
POSSE
Lá fora
o sol passava as fronteiras
de horizontes longuínquos,
e dentro do quarto tombava
uma luz vaga…
Deitado
o teu lindo corpo espraiava-se
brando,
num abandono morno
que a luz sem arestas afagava.
Tudo em ti era uma espera
dos teus seios suaves de menina
e do teu sexo em flor.
Minhas mãos escorregaram lentas…
Tu lentamente cedias
e os olhos eram poços fundos e escuros
na noite que descia.
RESGATE
Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.
Tudo isto
- moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.
UMA VIDA PEQUENA
Uma vida pequena
para que é que serviu?
Rasto de poeira
em tarde de estio.
Que sonhos, que pragas,
que fogos em vão
calcados de terra
reacenderão?
Chora a infância, chora.
Não a que tiveste.
Mas a que na troca
do tempo apetece.
domingo, 25 de novembro de 2018
[0444] Fernanda de Castro, o situacionismo
Maria Fernanda Telles de Castro de Quadros Ferro nasceu em Lisboa em 1900 e em Lisboa faleceu em 1994. Tradutora, escritora e poeta, foi especialmente distinguida no período salazarista por ser casada com António Ferro que dirigiu o seu Secretariado Nacional de Propaganda. Ganhou o Prémio Nacional de Poesia de 1969.
MEDITAÇÃO
Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.
Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!
Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.
Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.
Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.
Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.
No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!
DISTÂNCIA
Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.
Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!
Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.
Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!
Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
URGENTE
Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.
É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.
Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.
sábado, 24 de novembro de 2018
[0442] Orlando Neves, o poeta multifacetado
Orlando Loureiro Neves nasceu em Portalegre em 1935 e faleceu na Senhora da Hora em 2005. Documentalista, jornalista, dramaturgo, encenador, tradutor, escritor e poeta, fundou em 1975 a Cooperativa Editorial Diabril
A ÁREA
Tudo o que houve, permanece, proeza do corpo
como um sulco bárbaro da memória dos dias,
ritos, remorsos, sementes futuras, a mudez.
Tudo aconteceu nas lágrimas e nas veias,
na precisão das luzes, no lugar móvel da ordem,
no gelo e no lume que entre as coisas navegam,
na palavra deflagrada, na paz das páginas.
Para onde vai o que não se move, o que é
dogma de cal, madeira, pedra ou ferro?
Como chamar à alma, à linguagem, às cores
que de amor pela morte morrem caladas,
na área eterna da casa, a que permanece
na velhice dos anos e dos ossos consumada,
como uma gota do tempo para além dos séculos?
O MEDO
Que não se confunde. Por existir se ganha
e nos pertence. Sílabas ou linguagem,
busca o centro nas mãos, nos olhos, o contacto
incessante. Percorre os muros da memória,
na penumbra da palavra se instala. Nada
partilha. Como um monólogo se mascara
de gemas, rumores e gotas de ervas. Flui
e estilhaça as pálpebras, domina as casas,
abala os sismos. Ara o corpo, viva árvore
em ascensão, ronda a pele e os jorros do ar.
Até que nos toma e molda o ventre, descobre
o preço diário da invisível folhagem
solar. É o que se oculta. Livor, sílaba,
margem eterna da inicial prudência.
TODAS AS NOITES ME SINTO
Todas as noites me sinto
igual aos desconhecidos.
Sou a criança que sou,
só quando o tempo pára.
Fico em mim,
fora dos músculos.
Por que se movem os deuses
quando o sol cresta as formigas?
Lendas da luz da noite
secam todo o movimento.
Seguro a vida
por desespero.
[0441] Rodrigo Emílio, "nacionalista irrecuperável"...
De seu nome Rodrígo Emílio de Alarcão Ribeiro de Melo nasceu em Lisboa em 1944 e em Lisboa faleceu em 2004. Jornalista e poeta, nacionalista identificado com o Estado Novo, foi considerado, em Abril de 1974, “irrecuperável para a democracia”, saneado da televisão portuguesa, exilando-se para Espanha e depois para o Canadá e Brasil. Regressou a Portugal em 1980
POR PORTUGAL – E MAIS NADA
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Quem do alto
de tanta sela e montada,
tanta vez, em sobressalto,
pôs Castela em debandada …
- … Pode lá ver, pela frente
pode lá ter, por diante
apenas gente aparente
… Gente de sangue rafeiro
(sem que se exalte e se zangue
o seu Rompante Guerreiro).
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Na imagem de vitral
do 'spiritual cavaleiro -
medalhão medieval,
aos pés do qual me consterno …
- Está ou não
Portugal de Portugal? …
Está ou não
Portugal, inteiro, e Eterno?! …
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Do alto, lá do seu posto,
atenda Ele, ao recado
que me foi lançado em rosto,
derramando o Seu desgosto
sobre a data já remota,
- Dia 14 d’ Agosto:
quadrado d' Aljubarrota!
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
E ali, a mim me reúno
à sombra de uma Bandeira
Que me quis sagrar aluno
de D. Nuno Álvares Pereira
Que do Alto
de tanta sela e montada
pôs Castela em debandada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Arraial, Arraial (de porrada)
Por Portugal - e mais nada.
Saia, de novo, a terreiro
- d' atalaia e a dar ajuda -
todo o povo. O povo inteiro outra vez
contra o estrangeiro
nos acuda:
Ponha a andar d' aqui o Andeiro
a tal arraia-miúda!
Arraial, Arraial
(de porrada )
Por Portugal
- E mais nada.
POEMA ANTI-YANKEE À BOLSA DE NOVA IORQUE, WITHOUT LOVE.
Ó idolatras dos dólares,
energúmenos dos números:
-Guardai as vossas esmolas
para a Europa dos chulos...
E ficai-vos com os trocos;
ou cambiai-os em rublos!...
LÁPIDE
Não vos escondo
que quando vim
a capital do meu sonho
era Berlim.
Só que Berlim
Já 'stava a arder
e eu, por mim,
não Lhe pude valer.
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
[0438] Edmundo Bettencourt, o libertário
Edmundo de Bettencout nasceu no Funchal em 1889 e faleceu em Lisboa em 1973. Poeta e cantor, funcionário público, delegado de propaganda médica, celebrizou-se cantando o fado de Coimbra. Integrou o grupo fundador da “Presença”, de que se dissociou em 1930, quase que se antecipando ao que foi o surrealismo (embora dele se aproximando, colaborando na revista “Pirâmide”)
AR LIVRE
Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
APARIÇÃO
A mulher que por mim passou na rua, há pouco,
foi uma coisa diáfana, gentil,
cedo, a pairar
na sombra dum jardim
com flores, em baixo, ajoelhadas,
ao senti-la na altura,
e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito,
para mantê-la em uma nuvem branca...
Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho,
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem,
num ápice, trucidada pelo vento!
O SEGREDO E O MISTÉRIO
Mistérios a pouco e pouco vão morrendo
e extenuados de vigília os anjos
são afinal a sussurrantes sibilinas vozes
que desvendam adivinham segredos
atrás de sentinelas
cuja ferocidade é uma ironia de ternura…
Na palidez da luz
cercando uma velha cabeça
a quem um sono de embrião já tolda os olhos
sorriem enigmáticos os sonhos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
[0433] José Branquinho da Fonseca, poeta presencista
António José Branquinho da Fonseca, que também usou o pseudónimo de António Madeira, nasceu em Mortágua em 1905 e faleceu em Cascais em 1974. Escritor e poeta presencista, foi um dos fundadores das revistas “Tríptico”, “Presença” (de que foi director) e “Sinal”
LAGO
Com duas tábuas fiz
o barco onde navego
e onde sou tão feliz
que nunca chego...
Vou sonhando e cantando,
tão alto, que não sei se o mar e o céu vão bons
ou se vão mal...
Só quero ir sempre andando
e reparando
nas diferenças
da paisagem sempre igual...
SONHO DA ROSA
Se me recordas entristeço e faço
porque o teu vulto sensual me esqueça
e o teu olhar, a tua boca, e essa
graça de graça que tu pões no passo.
Sonho-fumo esgarçando-se no espaço-
nas mãos em concha amparo-te a cabeça,
e sem que a minha boca desfaleça
beijo-te a boca e cinge-te o meu braço.
Já, no jardim deserto da tristeza,
vens aos meus olhos como a luz acesa
que uma penumbra dolorida apaga...
Vai-se extinguindo o meu desejo... Olha:
tu foste a rosa que ao abrir se esfolha,
nuvem perdida que no céu divaga...
NAUFRÁGIO
A rua cheia de lua
Lembrava uma noiva morta
Deitada no chão, à porta
De quem a não soube amar.
Já não passava ninguém…
Era um mundo abandonado…
E à janela, eu, tão Além
Subia ressuscitado…
Vi-me o corpo morto, em cruz
Debruçado lá no Fundo…
E a alma como uma luz
Dispersa em volta do mundo…
Mas à tona do mar morto
Um resto de caravela
Subia… E chegava ao porto
Com a aragem da janela.
[0432 João Travanca-Rego, uma voz marginal
João Orlando Travanca-Rego nasceu em Vila Boim em 1940 e faleceu em Elvas em 2003.Poeta, codirigiu a revista da Associação Sol XXI.
SIDERAÇÃO
Há uma aguda faca de cansaço
contra o meu lado esquerdo, coração e cérebro:
“Serão as pegadas de mais tempo?
“Será o universo tresmalhado?
(Será um assassinato a quem se ama).
Regresso a uma casa e arde o tempo:
Aqui habito. Aqui transpiro. Aqui desapareço.
- E é de voltas a sítios num espaço
que os astros uns aos outros se consultam.
Na Terra nasço, e na terra eu durmo
Na Terra ocupo o espaço e a fala canta
- Despi os Astros
e reúno dúvidas...
A vida é como eu digo – acaba cedo;
E o sentido de sê-lo nem um credo,
extraído às raízes da Ciência,
vem revelar às portas da razão
um anjo transportado sobre os séculos...
UM LUGAR: TRÊS MOMENTOS
Aqui eu estive. A vida irrepetível…
Mesmo que eu volte, o tempo será outro!
- Não tenho abraço para unir dois ventos
para além da memória em que os retive
RAZÃO SAGRADA
“Terão de ter sido,
uma razão mais nítida
aqueles que –
cumprindo o humano ciclo –
não tenham bebido (horror da História)
as facas de seu Gólgota?”
São perguntas que faço e que me guardo
para quando as palavras sufocarem:
- Sei por memória, quantas vezes
nenhuma razão achei para teatro
de vazias personagens que podemos ser
brandindo o g(l)á(u)dio de buscar razões:
Nem o Abstracto do mundo, nem, de um homem,
o seu concreto animado coração
emite(m) resposta que satisfaça, esfacelando-os
com a lança da água de um poema quando
a razão-humana foi sa(n)grando absurda
terça-feira, 20 de novembro de 2018
[0429] Fernando Couto, a voz cheia de vozes
Fernando Leite Couto nasceu em Rio Tinto (Porto) em 1924 e faleceu em Maputo em 2013. Regressou a Portugal com a descolonização, onde trabalhou num jornal portuense, mas regressou a Moçambique. Jornalista, tradutor, editor e poeta, fundou a Editora Ndjira. Viveu durante algum tempo na cidade da Beira destacando-se a sua intervenção na rádio local. Usou também o pseudónimo de Pai Fernando. É uma referência da poesia moçambicana.
CORAÇÃO DA RAZÃO
Eu sei da sua solidão,
Como entendo meu coração,
Eu busco nossa união,
Nada é ilusão,
Compreendo sua razão,
A razão tem um sentido de ser,
Uma intenção em busca da emoção,
Pois entendo a sua solidão,
No seu espaço feito coração.
ALMA NEGRA
Me perco na imensidão de um céu cravejado de estrelas,
A noite é quente, mas o frio da alma me assusta!
Fecho os olhos e tento entender o porque de tanta amargura.
As estrelas me olham tentando entender a minha falta de emoção.
A resposta assusta!
A estrela cai, riscando o céu negro, o negro de minha alma,
Chorando a minha dor.
A imensidão negra chora a amargura de minha alma.
MORRO AOS POUCOS
Não quero mais sair,
O dia me queima,
A noite me assusta,
A lembrança do teu cheiro
Me consola,
A sua falta,
Me mata aos poucos.
CONTINUAREI
Mesmo que o som acabe...
Continuarei ouvindo os colibris...
Mesmo que a noite acabe...
Continarei vendo estrelas...
Mesmo que a vida acabe...
Continuarei sentindo sua falta...
Mesmo que o mundo acabe...
Continuarei...!
domingo, 18 de novembro de 2018
[0422] Torquato da Luz, a sensibilidade
Torquato da Luz nasceu em Alcantarilha em 1943 e faleceu em Lisboa em 2013. Jornalista, professor e poeta, director dos jornais “Jornal Novo” e “A Tarde e da RTP 2, pertenceu à Alta Autoridade para a Comunicação Social
PAIXÃO
A vida ou é paixão ou não interessa,
tudo o mais é somente imitação
e, por mais que dês voltas à cabeça,
não acharás outra razão
que dê sentido a esta caminhada
de aparente rumo ao nada.
Apenas a paixão sabe explicar
o que não tem qualquer explicação:
esta urgência de se dar
sem supor compensação.
APENAS AFLIÇÃO
Apenas aflição e nada mais.
Um arrepio correndo o corpo todo.
Estar aflito é um modo
de estar com os demais.
Aflito. Como se um rio
de súbito saído do seu leito
afogasse o navio
do corpo a que estou sujeito.
Não temas. É aflito que escrevo.
Aflito realizo
ser de tudo o que vejo o dono e o servo.
Tudo o mais que preciso
é saber que me devo
um permanente aviso.
O QUE DER E VIER
Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.
QUANTAS VEZES TE ESPEREI NESTE LUGAR
Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.
Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.
Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.
PRESENÇA
Já não estás onde estavas, já não estás
onde sempre te vi.
Mas, olhando o lugar, sinto-te aí
e recupero a paz.
O que conta não é o que se sabe,
tão-pouco o que se vê.
O que conta é aquilo que não cabe
dentro dos olhos, mas se crê.
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