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sexta-feira, 23 de novembro de 2018
[0439] Morgado Mbalate, a nova geração da poesia moçambicana
Morgado Henrique Mbalate nasceu em Maputo em 1993. Filósofo, escritor e poeta, foi Prémio Fernanda de Castro de 2017.
MINHA TERRA, MINHAS GENTES
Nasci no aconchego do azul das águas do Índico.
Sou da espécie do azul e do branco das estrelas e do céu do lugar onde nasci.
A pele da minha terra tem o cheiro do mar.
A pele das minhas gentes, o perfume de Deus.
Com letras de sangue
escrevo os sonhos das gentes do meu país.
Minha escrita grávida de sol.
Enche de beleza e poesia o coração de Moçambique.
Quando escrevo, traduzo os desígnios de Deus guardados no ventre da minha terra.
AFRICANIZANDO
Quando o meu sonho me ilumina eu escrevo África.
África me faz e me rodeia. Eu amo essa gente cheia de África.
O chão da África tem cheiro de mim.
Na África, todos os caminhos nos levam às fontes da terra e às origens do mundo.
E o que me torna africano?
É o amor pela terra e pela cultura. A terra me ilumina.
A cultura me encanta.
Minha alma é atravessada por imensos rios, como rio Nilo, que nasce no meu corpo.
Em mim, há quedas de águas, sobre mim, caminham cursos de rios.
A maioria dos rios da África nasce no planalto dos olhos.
Por isso, eu caminho de mãos dadas com a flora e a fauna.
Sou savana africana de mim mesmo.
A poesia africana é para se vestir dela e correr poemas pelo mundo.
E eu escrevo para justificar a poesia africana.
Não acredito na riqueza material fácil e rápida para todos os africanos.
Mas acredito no ideal de riqueza espiritual através da promoção da cultura.
Eu hoje escrevo o coração da África.
Nunca me separo da África porque a trago dentro de mim.
África é dentro de mim.
O MENINO QUE NASCEU GRANDE
Uma ave veste o meu ser
Minha arte maior é o meu jeito de ser.
Meu jeito de ser garça entre o pôr do sol e a lua.
Meu corpo é a metade do sol.
Eu caminho com todos os tempos e todas as eras.
Sou todas as pessoas do mundo de todas as raças.
Meu poema é uma morada que construo para Deus.
E o lugar onde construo minha felicidade.
Quero a palavra sagrada grávida de Deus.
África é o chão sagrado onde escrevo os meus sonhos.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
[0039] Poesia de Morgado Mbalate
Morgado Henrique Mbalate (nascido na Matola, Maputo, em 1993), mais conhecido por Morgado Mbalate. É formado em Filosofia e especializado em Recursos Humanos pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). Teve curta passagem pela Escola Nacional de Aeronáutica onde estudou Electrónica e Telecomunicações. Poeta, autor de um livro de poesia “Odisseia da Alma”, publicado pela Edições Esgotadas. De entre prémios e distinções, destaque para as menções honrosas no Premio Mondiale di Poesia Nósside 2014 e no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa 2017 (Brasil). Está inscrito em diversas antologias internacionais e tem textos publicados em revistas e jornais de Moçambique e Brasil, com destaque para as revistas brasileiras Por dentro da África, Letrilha, e Oficina Poética.
MORADA
Teve um dia que tinha um rio correndo na palma da minha mão.
Peguei nesse rio pensando que de um lápis se tratasse.
E tentei escrever um poema na pele de um beija-flor encostado ao chão.
Tentei também fotografar a voz de uma borboleta.
Entretanto, só consegui beijar o corpo de uma luz.
Fiquei feliz por ter tentado construir uma casa com poesia na imaginação.
Nesse dia o pôr-do-sol se fez dentro de mim.
A partir desse dia minha alma passou a ser a morada do ciclo do vento.
O SONHO AFRICANO
Um sonho se guarda em volta dos meus passos.
África sonha quando escrevo.
Escrevo para incentivar o povo africano a sonhar.
Todos os meus escritos são tentativas de renascer-me África.
Ser africano é ser invadido pelo sonho de liberdade.
Sou um pouco da África que nasce.
Sou um pouco da África que morre.
Sou muito da África que sonha
ODISSEIA DA AMA
A alma é pássaro.
Multicolor e multiforme.
Ora assume a forma da terra e a cor do mar.
Ora assume ao mesmo tempo a cor e a forma do vento.
Em verdade, em verdade, o corpo é ramo no qual a alma decola.
Toda alma é pássaro terno e eterno.
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