Para além dos poemas publicados em "Ibn Mucana", os nossos visitantes poderão ler mais alguns, patentes em "Palavra Comum" (revista galega de artes e letras). Para ver os que temos no IM, basta escrever "José Pascoal" (sem aspas) no espaço existente no canto superior esquerdo do blogue ou em "ETIQUETAS", à direita, mais abaixo.
sábado, 8 de maio de 2021
[0732] José Pascoal, um poeta que desaparece; "Gazeta da Poesia Inédita", excelente blogue de poesia contemporânea portuguesa que se encerra
O meu conhecimento com ele concretizou-se por via do amigo comum, poeta, escritor, jornalista e radialista Nuno Rebocho, também já desaparecido, que o trouxe para o "Ibn Mucana", onde publicámos vários dos seus trabalhos, com grande gosto nosso, devido à qualidade dos mesmos. Apesar de nunca termos estado juntos ao vivo, nas conversas feitas por email revelou-se sempre pessoa muito gentil e afável e acabou por também publicar peças minhas no seu blogue "Gazeta da Poesia Inédita", onde divulgou centenas de espécimes da poesia portuguesa contemporânea.
A 13 de Abril, vi que o José Pascoal encerrava a GPI, agradecendo com "Um obrigado universal" aos amigos e confrades a participação no blogue que tão bons "produtos" exibira, ainda por cima inéditos, como o título revelava (de certo modo, o José despediu-se assim de nós). Pensei que a coisa se deveria a algum cansaço e não lhe perguntei o porquê do fecho do blogue, absorvido que estava com longo artigo para um jornal de Cabo Verde e outros assuntos similares.
Sabido agora o triste motivo do fim da "Gazeta", resta-me lamentar vivamente que mais uma luzinha da palavra se apague, tão necessárias elas são, quando ainda por cima o estro que as acende é de primeira água.
Um abraço ao José Pascoal e os sentimentos à sua família, amigos e colegas de escrita.
Joaquim Saial
Ver "GAZETA DA POESIA INÉDITA" AQUI
quarta-feira, 3 de julho de 2019
[0665] O regresso de José Pascoal ao Ibn Mucana
José Pascoal regressa a Ibn Mucana que está sempre pronta a acolhê-lo.
DÉDALO
A noite traz os barcos,
As últimas notícias,
Os vagabundos.
Descemos
Ao subsolo secreto
E desmemorizado.
Olhamos para dentro
Do labirinto em que perdemos
Os nossos passos inseguros.
PÁGINA EM BRANCO
O murmúrio dos muros,
A hera dos sentidos,
Quando te amo nua
Em noite branca e pura.
O lume das palavras
No limiar dos lábios
Ilumina os sinais
Do nosso desvario.
Nesta página em branco,
Neste passo cercado
Por sedento silêncio
Descobrimos o mundo.
LÂMPADA ACESA
Que faz iluminar o medo
Das palavras? Que silêncio
Cala a boca da memória?
Estamos sós neste mundo.
Estamos sós na voragem
E na vertigem dos dias.
Estamos perto de todas
As partidas. Conhecemos
Só a sílaba de luz
Que ilumina este desejo
De falecer sem feridas,
De partir sem despedidas.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
[0614] José Pascoal, de regresso
José Pascoal regressa a Ibn Mucana: uma colaboração sempre agradável. Três poemas de um dos seus livros, “Antídotos”.
UM DIA DESTES
Um dia destes a terra explodirá,
Um dia destes o quarto será
O quinto
E não teremos onde nos deitarmos,
Um dia destes o sangue será
Claro como água
E não haverá ninguém perto
Para as nossas vidas,
Um dia destes o mundo rirá
De nós
Como o menino ri do palhaço
E o assassino da vítima.
A PESCA ESPIRITUAL
S. Pedro foi amiúde
Representado
Com duas chaves na mão,
Ee que negou três vezes
Até ao cantar do galo,
Mas nessa representação
O que vale são as sandálias
Com que caminhou até Roma
E não a cadeira onde se sentou
Depois de lá ter chegado.
POEMA PRECISADO
Preciso duma dose
De precisão,
Um barco sóbrio,
Uma mulher ao leme,
Um sobretudo leve,
Um arame sem farpas,
Um calendário de luas,
Um caminho de luzes,
Uma balada nova,
Um novo coração.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
[0510] José Pascoal, revisitado
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.
sábado, 3 de novembro de 2018
[0365] De novo, José Pascoal
SAL GROSSO
No movimento piscatório,
Os pescadores sofrem
De hipotermia.
Navalhas frias
Enterram-se nos ventres
Vazios
E na terra parada
Há quem se aqueça
Com peixe assado
Na brasa.
CIRCULAÇÃO PROIBIDA
Ando à volta
De praças sem nome,
Teatros ausentes,
Arenas exangues.
Nos palácios
Em ruínas
Crescem números,
Letras inumanas
Estátuas
E árvores
Têm o mesmo corte
De cabelo
Guio-me
Pelo aspecto
Dum grito
Sem palavras.
INSTANTÂNEO DISTANTE
Compras tabaco e tinta
Escreves num caderno,
Trazes na cara negra pinta,
Nisso és pouco moderno.
Eternamente grato
Como um bicho-do-mato,
Dizes tudo em sentido lato,
Gostas da persistência do cacto.
Não fazes companhia,
Não levas alegria,
Esperas sempre pelo dia de amanhã.
E se chamam por ti
Para verificar um til,
Preferes devorar uma maçã.
VISÃO NOCTURNA
De noite, as árvores cantam
À sombra das suas copas
Enquanto as pedras choram
Sem alegria nem tristeza
Os animais deprimidos
Fecham-se nas suas casas
E as coisas desarrumadas
Cabem todas numa cela.
Dos sinos da liberdade
Não soa nenhuma fúria
E dos museus abandonados
Não foge nenhuma cor.
De noite, os sonhos congelam
Em arcas congeladoras.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
[0324] José Pascoal conclui tetralogia poética
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
[0202] José Pascoal, a poesia refugiada
CÓLERA
A palavra cólera
Tem dois significados,
Ambos doentios.
Deve ser a primeira vez
Que a escrevo num poema.
Há uma primeira vez para tudo,
Até para não voltar a escrever
A referida palavra.
LEITURA OBRIGATÓRIA
O gato passeia
Entre os livros de poesia
Espalhados sobre a mesa.
Acaba por se enroscar
Numa edição ilustrada
D`Os Lusíadas.
Não sei o que ele pensa das epopeias.
Eu também não penso nada
Das elegias.
Mal sabe ele que
Os livros de poesia estão cheios de gatos
Como os pratos da louça de Sacavém.
O LAGARTO PINTADO
Um lagarto pintado
No chão rosado
Vive ao sol sem perder
O sangue-frio,
Chama-se Onofre,
Nome de santo
Ou de catástrofe,
Ele não se aborrece
Com o nome que lhe dão
Os animais de sangue quente.
TÉCNICA DA TRISTEZA
Paradas,
As cadeiras esperam o convite
Para que nos sentemos nelas.
As cadeiras não têm coração.
São máquinas dispostas a tudo.
Sento-me numa e lembro-me
Como quem não respira.
Não tenho nenhuma palavra a deixar
Aos meus.









