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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

[0576] Maria F. Roldão, compradora de metáforas


Alentejana, nascida em 1965, socióloga, professora e poeta, directora da revista “Nervo”


ANTES DE MORRER

Antes de morrer
é imperioso sossegar a brisa
e colher do céu retalhos de azul
para vedar a caixa das memórias

Deve libertar-se o som dos ossos
e enrolar um nome na última saliva

Por dentro do silêncio
cuspir o chão de uma estrela


CALIGRAFIA

As mãos procuram livrar-se
da pequena escrita
Soprar tinta para os olhos

Assuntos violentíssimos
submersos
na caligrafia

Impossível descrever o mundo
com uma caneta na mão.


PERCORRO-LHE O CORPO PEQUENO

Percorro-lhe o corpo pequeno
verificando as falhas
os excessos
Entro e saio inúmeras vezes
da loja das palavras
em busca de sinónimos
Compro metáforas
a peso de ouro

Fica caro o poema
– ruína do poeta.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

[0153] A. DASILVA O. ou a "Poesia suja"

Nome literário de António da Silva Oliveira que, a si mesmo, se define como um “agitador urbano”.

Poeta e editor de Edições Mortas (responsável também pelas revistas “Piolho”, nome por que é conhecido um café do Porto, e “Estúpida”), nascido no Porto em 1958, foi livreiro de “Pulga” e um dos promotores da rádio “Caos”.

Faz da poesia uma trincheira para “honrar o passado combativo, refractário e de conspiração".

Desafiador de convenções, na esteira de Luís Pacheco e da corrente abjeccionista, é uma voz insubmissa e resistente.



A POÉTICA DE ARISTÓTELES

Está nua sentada de pernas cruzadas
Está naquele dia sorri um sorry
À tua frente de joelhos
Abro-te as pernas e deliciado
Observo pensativamente o bolçar
Do meu coração


SOU UM OCEANO DENTRO DE UM GRÃO DE AREIA

As palavras abrem-se
Todas ao mesmo tempo
Os lobos vomitam insónias
Debaixo dos malhos
O lambedor de caralhos
Lambe a sua perna de pau
Um sorriso sem lábios
Morrer na praia
Saudades do campo
Do chilrear das bocas de incêndio
Das manif estações a imitar o inferno
Do dia-a-dia a partir montras
A respirar gás lacrimogéneo
E as bastonadas da lágrima do menino
A recuperação do sudário kitsch
Selfies selfies e mais selfies
me mordam como varejas
À volta do objecto artístico
E todo o seu processar no segredo dos deuses
Que ditam os horários do serviço
Público do acordo ou não acordo
Hortográfico
A noite branca não tem páginas
Nem língua que chegue para um linguado
Pontapés na gramática os assaltos dos bancos
O rosto coberto pelo arrefecimento nocturno
O sexo pode esperar que o seu fruto
apodreça no seu ventre


A AVE DO ENTARDECER DIZ O POEMA

O campo como arena de carros de choque
Vazios a voltearem-se no poço da morte
A rapariga ergue o top para mostrar que é real
Um choque em cadeia
É quem mais adquire bilhete
Para o último dia da sua vida
Engolira um pano de vela
Era um veleiro amador
Na sua banheira voadora
À luz da vela
Quem te dirá
Que feia és
Quando desertificas
O meu interior
Tenho a minha alma ao lume

sábado, 8 de setembro de 2018

[0059] Djami Sezostre, poeta multifacetado


Poeta, ator, dramaturgo e perfomer brasileiro, nasceu em Rio Paranaíba, em Minas Gerais, e vive em Belo Horizonte, onde promoveu as "Terças Poéticas", apoiadas pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, em parceria com a Fundação Clovis Salgado.

Criou a Anome Livros. Responsável por antologias que cobrem parte da poesia lusófona, foi Prémio Jorge de Lima de 1994, Prémio Blocos de Poesia de 1997 e Prémio de Sociedade de Cultura Latina do Brasil de 2004.

À sua expressão experimentalista junta-se uma afirmação neo-barroca.

Usa também o pseudónimo Djami Sezostre. 


FLAUTA AGRESTE

esculpo minha boca dentro de teus ouvidos
onde ninfas e duendes comentam o sonho
trilham o caminho da vertigem e vivem
à beira da estrada comendo verde poeira
as cores sobradas da última festa campestre
bichos e lendas no ermo dos seres
o olhar de ceres rompemdo o teu abandono
cansada de tanto cuidar dos campos
dos cereais e do gado que se perde