Mostrar mensagens com a etiqueta Tere Tavares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tere Tavares. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de outubro de 2020

[0716] De Cascavel, Brasil, Tere Tavares revisita-nos com mais dois poemas/prosa


Moça com brinco de pérola. Em meio à escuridão os

lenços atados à cabeça envolvem tua ternura talvez o

teu receio. Creio ao ver a verdade límpida colorindo os

teus olhos [oleira da joia que te evidencia o rosto] que

nasceste para eternizar a beleza.


"Rapariga com brinco de perola" - Johannes Vermeer, c. 1665


Os livros devem ser partilhados para que não se tornem um

anel fatal numa única mão. Os poemas são delírios que

acendem retalhos para a alma. A palavra se redimensiona, se

reafirma quando a emitimos e pode ganhar qualquer outro

sentido, a metáfora inversa. Mas isso é do outro. Não de

quem escreve. A expressão prescinde das explicações.

Somente existe e acontece a partir da magia artística da

enormidade chamada Literatura.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

[0162] Tere Tavares revisitada


Economista, poeta e artista plástica, natural do Pará, Brasil, residente em Cascavel, Tere Tavares dá-nos a honra de revisitar este portal. Membro da Associação Cascavalense de Letras, tem sete livros publicados.


É PRECISO VOLTEAR O SOFRIMENTO

É preciso voltear o sofrimento subjugando-o de qualquer maneira e obter do que vive alguma alegria para suportar o que vier. Admito meu dever de abstrair ânimo para essa inversa rotina que de algum modo ambiciona dobrar-me soturnamente e roubar-me das palavras. Como se uma perenidade entre persistir e parar conflitasse identicamente no íntimo. Resta-me a aceitação para conduzir-me com suficiente veemência e tornar tudo mais suportável. Menos insidioso. Pois não coloquei na mente o que conheço. Senão no coração.


A MORTE É SÓ MAIS UMA PERSONAGEM

A morte é só mais uma personagem. Porém nada há de mais perverso que a mediocridade e sua nefasta presença. Se tenho sonhos mais altos é porque a noite me faz crer que há mais do que estrelas e uma lua no céu.


VEJO NESSE OLHAR

Vejo nesse olhar de um olho só o escudo de vários rostos.


TIVE MEDO DAS FALHAS

Tive medo das falhas. Das fagulhas. Do que poderia ser incêndio.
O resto de dignidade que possuo chama-se obstinação.


SOMOS  ÓRBITAS

Somos órbitas. Colmeias. Contudo não detemos a técnica de produzir o mel.


A AIROSA RAINHA

Que airosa rainha resiste ao sublinhar-se ao pé das lagoas com os remos de papel com a memória adormecida na álea dos brancos barcos sem âncora. Com apego à saudade que lhe fala invisivelmente do sucedido e do insucesso.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

[0045] Tere Tavares, o esplendor da poesia brasileira

Tere Tavares, escritora e artista plástica, radicada em Cascavel, no Pará, Brasil, é autora de sete livros publicados: "Flor Essência" (2004), "Meus Outros" (2007), "Entre as Águas" (2011), "A linguagem dos Pássaros" (Editora Patuá, 2014), "Vozes & Recortes" (Editora Penalux, 2015), "A licitude dos olhos" (Editora Penalux, 2016) e "Na ternura das horas" (Editora Assoeste, 2017). 

Conta com diversas publicações em antologias no Brasil e exterior. Integra a Academia Cascavelense de Letras e edita o blog a seguir indicado (clicar no link, para ver).

m-eusoutros


SABEMOS DO QUE NOS DEPURA OS DIAS

Sabemos do que nos depura os dias e por vezes fica dormente
até que um peso mínimo nos faça acordar
 novamente. Há embustes na terrível excelência do partir
sem chegada a desorientar o que não teve lugar.
Como um epitáfio não grafado na rocha perpétua.
De tanto auscultar a fundura resta-nos o farol o anel imóvel
 circundando a janela de ouro que desce pelos rios
e pelas nossas vestimentas ornadas de peixes e canoas de cedro.
Tudo o que muda é obscuro e balbuciante,
numa linguagem melódica
que alguém sopra metodicamente
irradiando-se na possibilidade de retorno
e ser argila furtiva e alva e pluvial.
Ainda que estivéssemos nas ausências repetíveis e pétreas.


TENHO BELEZA COMO TENHO HORRORES

Tenho beleza como tenho horrores.
Sou a gravura dos labirintos errantes.
Pintou os cabelos sem dar-se conta que descoloria a alma.
As mãos sem luvas asfixiadas num delírio inalterável
consumindo-se até sobrar-lhe somente as unhas.
Ocupou-se de sortes inacreditáveis aspergidas de um modo imprevisto
sobre as paredes e tetos. Depois confiou ao coração a escolha de cada textura
que revestiria suspeitas e incredulidades mascadas
e digeridas num muito obrigada para finalizar.


UMA PESSOA APARENTEMENTE FELIZ

Uma pessoa aparentemente feliz.
Talvez lhe faltasse autoestima algum amor.
O sorriso em desalinho. Os maltratados dentes.
Soube-a imediatamente ao conhecê-la da sua solidão agravada
pela dedicação à casa decadente e adoecida antiga
como a sua disposição para buscar
uma saída mais honrosa e vivificante.
Desilusões ao longo da vida não deveriam servir aos desânimos
ou aos desestímulos. As unhas por fazer as raízes brancas nos cabelos.
A maquiagem avessa. A tez seca. Queixas esquecidas.
Roupas sem uso. Puídas.  Abandono de egos e vaidades.
As agulhas ímpares e branquíssimas como se entremeadas por fios de caramelo. A cabeça nas nuvens só para destoar dos amanheceres e crepúsculos
mais ardentes. As choupanas que visitara numa juventude passada.
Machucada de lua. Não aprendera sobre as perdas.
Que só os que sabem do desapego
conservam a dignidade e resistem.