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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

[0779] De Nicolau Saião, um poema e um desenho de Natal


RECEITA PARA UM NATAL


Primeiro, ficar parado

durante um momento, de pé

ou sentado, numa sala ou mesmo

noutra dependência do lar.

Depois preparar

os olhos, as mãos, a memória

e outros utensílios indispensáveis. A seguir

começar a reunir

coisas, por ordem bem do interior

do coração e do pensamento:

a ternura dos avós, uma mancheia;

rostos de primos distantes, uma pitada;

sons de sinos ao longe, quanto baste;

a recordação duma rua, uns bocadinhos

um velho livro de quadradinhos

duas angústia mais tardias, alguns restos de azevias,

a lembrança de vizinhos   ainda vivos mas ausentes

e de uns já passados.

Quatro beijos de seres amados ou de parentes

um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados

e um pouco de azeite puro e fresco

igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.

Mexe-se bem, leva-se ao forno

e fica pronto e saboroso


- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.


sábado, 12 de fevereiro de 2022

[0757] Nicolau Saião, ataca de novo (com levantamento de rancho)


LEVANTAMENTO DE RANCHO


O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos

Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia

Doce como os sonhos o meu sargento desculpe

Mas é tão estúpido tão escalabitano tão

A norte de Bafatá ou mesmo 

Castelo Branco o meu sargento é um nabo

Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha

O meu coronel desculpe mas tive de o abater

O gajo não entendia que os sonhos eram os outros

Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias

E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores

Há um ar em silencio extremamente melancólico

O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura

De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a

Já havia muitos meses que me lavava a roupa

Junto ao mercado do Pixiguiti   chorava

Era sofrida como uma mulher

Doce e tão calada como um objecto partido

O meu capitão desculpe mas tive que o abater

É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos

O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão

De serviço   o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras

O meu major desculpe mas era chegada a hora 

Tantos anos depois ficaram todos em fila

A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado

Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda

De modo que foi assim   fiz levantamento de memórias

E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar

Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão

Ficaram todos em fila pois então

Mesmo que em sonhos   e agora estes não são

De ovos e farinha como almejava nesse tempo

Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar

Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba

E já agora que estamos com a mão na outra massa

Que é como quem diz com a pata na G3

O meu general vá à fava   palavra de civil tão sem galões

O meu general é um nabo como na caserna se dizia.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

[0756] Um poema "anunciativo", de Nicolau Saião



ANUNCIAÇÃO


As mulheres do vento   parado como um planeta extinto

as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa

o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha

as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

entre mim e o céu

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante

ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios

Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos

junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando

estremecendo como uma pétala sobre a água

Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis

escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza

Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval

mulheres de pernas como lírios rosados

andando ao longo duma estrada francesa

as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias

a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos

a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou

na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra

Vós sois o sustento dos pontos cardeais

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste

e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda

o fumo espalhado no parque abandonado

os olhos tranquilos frios

A rua solitariamente sob a noite de Junho

e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura

à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal 

a morrer.


sábado, 25 de abril de 2020

[0707] Nicolau Saião volta à carga em Ibn Mucana com excepcionalíssimo poema de 1986


COMO O OUTRO QUE DIZ (ao Mário Cesariny)

I

O que os meus olhos seguem nesta vida
tem mais perversidade do que manha.
Não está sempre perdida
não é sequer estranha.
É um pescoço
rodando lentamente para o lado da sombra
para o lado da barca dos primos de Cacilda
franja por franja correndo o espaço morto
tão depressa coitados como se fossem de mota
ou sobre o rio
sem margens
sem o batuque doido extremamente caligráfico
da água interior
dos nomes.

E os cabelos   os cabelos do mundo
estão sobretudo aqui
nesta cadeira branca simulando o silencio
a quinhentos quilómetros a oeste do mar
equidistante   gélida   submissa
detendo-se de súbito na sua própria agonia
muito perto   demasiado perto
do jardim diurno dos réprobos cuja candura
acende
e se dissolve
se dissolve sem mágoa
uma e outra vez   e ainda uma outra vez
no colo amarelíssimo de Rosaíris.

Escuta   por favor
escuta
não os enganemos    nunca
A voz que me sopra junto ao tímpano
vem de muito longe    vem de muito longe
tão morta como viva
e em vez de dizer arcano diz madrugada
e em vez de dizer o mundo diz fogo-fátuo
virgem    montanha    almofada
diz os catorze nomes que é proibido ouvir
diz o dia e a hora de todos os demónios
e um corpo que se agita por baixo das arcadas
no Alentejo da Europa dos automóveis por dentro
buscando a clareira imprecisa dos cemitérios
em Sintra   na Ericeira   nas ruas de Lisboa
nos locais onde canta a raparigataúde
imersa em claridade
em cuspo
em chuva.

No entanto, no entanto
é preciso sim senhor desesperar
digam lá por favor que é preciso
andar de novo ao longo da estrada de tijolo
adormecer cantando nos túneis    que maçada
e defecar do alto duma árvore
para cima da moleira de Adonai
depois olhar as estrelas que surgem dessa vasa
e recuar para o sítio onde o barco dissimula
a sua rama suja do Oceano
esperando a tardinha   o vento morno
a negra Primavera e o rei do bosque maldito
com barbas adejando como um estandarte louco
no seu retrato igual ao rosto do emparedado
na selva da distancia
que ninguém
nem mesmo nós
conhecemos.


II

Todavia o homem-mosca bate que bate
a a mulher-gafanhoto sopra que sopra
e o senhor-fantasma rema que rema
entraram já na casa inconquistável
e nada deixaram de pé
e eis que de repente há alguém que se interrompe
perto do braço-bandeira a oriente da aurora
e tudo fica escuro, serenamente
como colunas raras de cimento
na cauda sexual do elefante por fora
cujas presas bem limpas desfizeram o dia
levemente atmosférico
sobre a areia do universo   no país onde o choro
é só até ao estômago
e alguém espera   tremendo   que o fresco sangue de Alceste
o outro sangue
seja a calamidade e a angústia
que não vão de avião para nenhum deserto
nenhum glaciar horrificado
nenhuma cama especiosa nenhum comboio sem lágrimas
nenhuma taberna de Alcântara onde o sarro dos anos
se descobre no salto da pantera
que galga o passeio de azeitona na boca
de axilas escurecidas
cujo suor excessivamente espesso
é bem o resultado fiel do habitante da cubata
com um diamante escondido numa ferida
o filho infiel da oração dos marinheiros de outrora
a rua do mundo que desemboca numa laje circular
em frente do lago pútrido
aguardando sem minutos desaproveitados
os que gemem  os que se cobrem de negrume
os que nada querem imenso
e só sabem sonhar em termos de ave ou de horizonte
de rato semimorto encontrado num jardim
de árvore
de meio-homem de Epaminondas os sustos
duma Lisboa sem língua
de janela de um país efémero
de constelação trepa que trepa, enfim
de mancebo de pouco futuro desaparecido
de todos os barulhos da Terra.

Mas convém, ó meus amigos de infinito
que tudo seja aquilo que sabemos
e fazemos
o perfil ardente sorvendo o rio trovejante do mundo
a garganta trémula dos lobos ao longo dos carris
sob os tectos
da cidade repleta de ferrugem
e cal tocando o horizonte
ferido como o braço rasgado arrastando sangrentos
embrulhos para a campina solitária
para a babugem da praia na linha de água do mar
onde os peixes ficaram nessas pedras nesses recantos
tão conhecidos por Ahab, o capitão louco
e o seu tubarão vermelho.

Entretanto o poeta cabisbaixo os bantus e as aves
lá vão ao longo das avenidas
nesses táxis que usávamos sob um trémulo firmamento
na Praça do Intendente onde numa noite de repente
as palavras mais simples se velaram nos nossos lábios
como os de Bulgakov, como se fossem de Margarita.

E uma luz assombrada
abominável     aos solavancos
crescia em todos os pontos cardeais
em todas as coisas que se divisavam
ao vicejar da treva
entre os degraus dum largo sem nome e sem lugar
na mão tremeluzente, na chave de novo achada
para trespassar todos os símbolos
quando o homem de cinzento erguia no seu chapéu
entontecido e prestes a partir
uma agonia lírica, clássica, regionalista

para todos os rostos destroçados.


NICOLAU SAIÃO
[na folha volante de Agosto.1986 do “Bureau Surrealista Lisboa Alentejo” de MC/ns]


sexta-feira, 24 de abril de 2020

[0706] Um poema "abrílico" de Nicolau Saião, em cima da data


ABRIL ANTECIPADO

Em Lisboa, na rua
do Alecrim, recordo-me como
se fosse hoje: uma casa
sombria, onde foi bom ficar
minutos e minutos entre memórias
quotidianas de velhos alfarrábios, livros
para passeios vulgares de compra e venda. Ali
parei. Como um barco, uma nuvem, uma presença
obscura de gentes para sempre perdidas, nessa
humilíssima loja me detive: o pó, o ping-pong
da conversa. E veio a esperança saltando sobre nós
como se o oceano nos tocasse nos olhos, lembranças
de Índias sem pimenta e sangue. E logo, por acaso
um estrondo lá fora. Mistério. Cumplicidade. E assim
tive tempo de Abril antecipado na fala do colega
de amargura: “Ainda não é a bernarda, caro amigo. Podes continuar
a ver os livros que aí estão. Ainda (que chatice!)
está por anos!”. Nessa tarde, numa
vendedeira de rua, comprara pêssegos. Era
em Julho. Nas caras que passavam pareceu-me distinguir
por entre o resto todo, agonia e raiva. Homens, mulheres
crianças como em todos os tempos. Senti então, enquanto
no Tejo tombava um sol devastado, que um dia
um estrondo não seria apenas o dum pneu que estoira. O coração
tivera, pobre dele, Abril antecipado e, aberto
ficava de conserva mais uns tempos, criando
talvez outras janelas para todos os lados, esperando
para todas as horas a hora enfebrecida como um sulco de lume
nas espáduas dos amantes. A hora
ardente e dura como cimento secular. Foi isto em
setenta e dois. Depois
a vida continuou, vaga e solene, tenaz e sonolenta. Tive
amores e amigos mortos, alguns suicidados, outros
feridos de pasmo e solidão. E rochedos erguidos
nos caminhos do mundo. E quando Abril chegou
com seus favos, seus deuses, suas flores
suas praias, seus bosques, sua chuva benigna
a memória da esperança não morrera. O poeta fala
no tempo. É seu o tempo imenso
dos vivos e dos mortos, dos que nunca
contemplaram face a face o seu destino. Por ser um espelho
ardido, é a palavra. O signo do instante destruído. Foi
o Abril dos ombros curvados que me deu Abril.
Mesmo que Abril nada me desse, senão
senão esta tristeza de tão pouco
Abril ter sido para uma sede de primaveras, feitas
para o pão, para o riso, para o tempo intacto
do livre Verão dos homens sob as estrelas de Agosto.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

[0705] "Relíquia", de Nicolau Saião


RELÍQUIA

Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?
Não neste braço   sujo   cortado
Não neste tapete espesso   neste bloco de apontamentos
onde se cruzam insultos   rimas
Não no pequeno perímetro das veias

- afinal tudo tudo entre nuvens de carbono
semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve
onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo
O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

Onde  em que ilha de desolação
sufocado  incerto  esse silêncio soberano
onde jaz    cerzido por traços de faca de pedra
Não   não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto
saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem
Brilhante como celofane

O silêncio que respira
Sim o silêncio morno de quem procura o vazio
ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada
da mão faminta    de muitos negrumes alheios

O silêncio que se recolhe
que se desdobra
que nos relembra de momentos e perdas
O silêncio que permutamos
O silêncio para além da luz   entre os olhos de uma fera morta.

quinta-feira, 19 de março de 2020

[0702] Um belo poema de Nicolau Saião, o bardo de Portalegre


ANUNCIAÇÃO
Nicolau Saião


As mulheres do vento   parado como um planeta extinto
as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

entre mim e o céu

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal
a morrer.
                                                                                           (Bruxelas, 1999)

Pablo Picasso, "Les demoiselles d'Avignon", 1907

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

[0683] Mais um interessante contributo do nosso confrade de letras Nicolau Saião

Nicolau Saião e Juan Ramón Jiménez

1.ª edição, 1914
Faz neste Agosto 20 anos que recebi, pela primeira vez, convite para participar em Moguer - terra natal de Juan Ramón Jiménez - numa celebração do grande autor de "Platero y yo" e de tantas outras obras de concepção superior que chegaram a granjear-lhe o Nobel.

Edição portuguesa, 1967
Nesses tempos salubres em que eu ainda me dava a percorrer a Estremadura e a Andaluzia tanto quanto o podia fazer, com fortuitas incursões por outros lugares mais afastados da España que sempre tenho estimado como ibérico que sou, lá fui eu à alegre terra das figueiras e dos dias ensolarados onde paira a sombra do nobre escritor de "Voces de mi copla", homem de firme querer e duma só cara que, por mor da sua oposição ao regime franquista, foi obrigado a exilar-se nos EUA (Porto Rico) e aí faleceu em 1958 com 77 anos. 

Recordando essa viagem e esse evento, eis que aqui vos deixo, com a estima e o abraço cordial de sempre, um belo e comovente poema que traduzi por essa época, bem como uma obra plástica que constituiu a minha participação nessa celebração - e que depois foi transformada num painel de azulejos de razoáveis dimensões (135 cm X 210 cm) patente num dos quartos de baixo da Casa da Muralha, em Arronches.
Nicolau Saião

Juan Ramón Jiménez (Moguer, 1881 – Porto Rico, 1958)

A DERRADEIRA VIAGEM
Tradução de Nicolau Saião

…E partirei. E ficarão os pássaros
cantando;
e ficará o meu quintal, com a sua árvore verde
mais o seu poço branco.

O céu, todas as tardes, estará azul e calmo;
e tocarão, como esta tarde estão tocando
os sinos do campanário.

Irão morrendo aqueles que me amaram;
e a cada ano se fará novo o meu povoado;
e no tal recanto do meu quintal florido e calado
o meu espírito vagueará,  nostálgico…

Eu partirei; e ficarei só, sem lar, sem a árvore
verde, sem o poço branco
sem o céu azul e calmo…

E ficarão os pássaros, cantando.


EL VIAJE DEFINITIVO

… Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros
cantando;
y se quedará mi huerto, con su verde árbol,
y con su pozo blanco.

Todas las tardes, el cielo será azul y plácido;
y tocarán, como esta tarde están tocando,
las campanas del campanario.

Se morirán aquellos que me amaron;
y el pueblo se hará nuevo cada año;
y en el rincón aquel de mi huerto florido y encalado,
mi espíritu errará nostáljico…

Y yo me iré; y estaré solo, sin hogar, sin árbol
verde, sin pozo blanco,
sin cielo azul y plácido…
Y se quedarán los pájaros cantando.


De «Corazón en el viento», em Poemas agrestes, 1910-1911.



segunda-feira, 15 de julho de 2019

[0676] Mais uma visita de Nicolau Saião, mais um poema seu...


LEONOR FINI

Qual é a voz que me canta
que me chama e desafia
a ir pela estrada onde o sofrimento do mundo
está guardado   como para uma boda?

O doido penar da minha alegria
na sala dos sem coração
grita para todos os pássaros que me conheceram

Lâmpada, lâmpada de todas as desgraças
eu sei que o teu semblante me aterrorizou
e os lamentos estão neste lugar
como uma bela mulher de areia e neve

E eu adoro-te todavia
pois tu és como eu sou
como eu sempre fui
uma criminosa
a criminosa das horas flamejantes
doridas e sem medo

A tua mão tocou-me
bailando sobre tudo o que era nosso
a tua mão que se aproxima dos seios
das estátuas que crescem nos soalhos

E entre nós e o tempo das suas mágoas
sòmente está aquilo que não fomos.

O teu corpo, desfeito, recusa-se
o teu corpo, sem o ser, é a luz
mas o terror destrói a luz, na luz apodrece o riso
tudo o que existente foi para além do sacrifício

Os golpes do fogo tiveram a coragem de soar
uns contra os outros
anilhas de infinita ternura
e eu sei que o jogo não mais findará

A claridade da rosa ainda está escondida
nas formas das palavras ao acaso perdidas.

                                                        in “Fábrica Nocturna”

Pintura de Nicolau Saião

segunda-feira, 1 de julho de 2019

[0660] Nicolau Saião oferece-nos uma balada de Portalegre


ESTAÇÃO

De Portalegre? Sei onde fica...
Fui lá um dia
co'a tia Anica!
Tinha lá primos
e uma cunhada.
Conheço bem.
Vale a jornada...!

Tem coisas belas
simples, singelas
de nobre terra:
a volta à Serra,
a fonte nova
e uma grande árvore
cheia de brio
quer esteja quente
ou faça frio
lá no Rossio

Tem a Corredoura
mais o Bonfim
(e alguns fulanos
assim-assim...)

E tem o Corro
e a grande Sé
que é imponente
p'ra toda a gente
quer tenha ou não
(queira-o ou não)
a sua fé.
E tem comércio
bem aviado
mais a indústria
de fiação
com bom mercado
p'ra dar o pão
afiambrado!

Vale bem a pena
viver-se lá:
tem gente grada
bondosa, amena
(calva ou barbada)
como não há…
         
        ***

Olhe o comboio que vem chegando!
Então adeus. Tive prazer
em conversar. Céus, que está frio
neste lugar!
                                                 
Sim. Portalegre... Sei onde fica!
Fui lá um dia... Co'a Tia Anica.

Tem a Corredoura
mais o Bonfim
(e alguns malandros
assim-assim...).   

sexta-feira, 10 de maio de 2019

[0652] O poeta-pintor Nicolau Saião "barrica-se" na Casa da Muralha em Arronches e "dispara" 24 desenhos digitais sobre papel

Palavras do poeta-pintor, por ele próprio:

Como o dia tem 24 horas, achei bem partilhar - e estão patentes na Casa da Muralha (sala grande) até dia 15 do corrente - 24 obras pela técnica digital, em papel cavalinho tamanho A3 de que, com v/ licença, vos envio cópia anexa para uns minutos de eventual contemplação com a v/ proverbial gentileza.

E como tudo é possível neste blogue, inauguramos hoje em estreia mundial a Galeria IM, aberta 24 horas, e nela reproduzimos os vinte e quatro trabalhos do artista. Veja também AQUI sobre Nicolau Saião e a sua Casa da Muralha.

A casa
Amores
Aurora
Aventura dos continentes
Cesariny
D. Quixote
Dormitório
Entardecer
Exodus
Génesis
Histórias
Imagem 1
Imagem
Images
Natureza-morta
O apelo dos séculos
O lobisomem
O verão
Passeio
Pietá
Satan
Segredo
Sinais do dia
Um pouco de Paraíso

sábado, 30 de março de 2019

[0613] Mais um café com Nicolau Saião, desta vez acompanhado por Max Ernst

Relembrando Max Ernst, grande pintor e poeta.

Nicolau Saião
Pintura de Nicolau Saião


A MORTE NO JARDIM


Hoje os pássaros não cantam como dantes
nem as portas batem como antigamente

nem os gatos, que tanto amavas
como dantes vagueiam no lar dos homens.

Partiste
e algo terminou, que não era
simplesmente o teu vulto de príncipe renano
traçando a rota primordial
ou apenas
a tua boca sussurrando nas planuras encantadas
les hommes n’en sauront rien.

Foi aqui que tu morreste, Max
nesta rua portuguesa onde as crianças brincam
neste pátio de casa provinciana a que as plantas conferem
a dignidade e o medo
a beleza interior de algo humilde que se evoca
foi bem aqui
nesta Cidade Inteira
repleta de inocência e de amargura
neste Café que se alonga como se quisesse devorar o espaço
neste quarto alugado onde os amantes se encaram
como se se vissem pela primeira vez
nesta praia policiada pela maldição das pátrias
neste silêncio
neste espanto
nesta ignomínia.

Alguém um dia desenhará nas paredes derruídas
o coração escondido da tua Ninfa Echo
com o ar de quem volta de uma grande viagem
com as mãos humildes e já serenas
sem que ninguém lho impeça
Algum dia, no doce recanto duma madrugada
alguém entenderá porque sabias tu que é bem real a Vila Petrificada
e então será possível o caminho até ao mar
e os homens saberão finalmente
qual a melhor mais bela delirante floresta
guarida para os cavalos e os animais nocturnos
E que será na penumbra das ruas desse mundo
onde cantamos, comemos, bocejamos, padecemos
que a alegria submersa se haverá de descobrir
paciente e subtil como uma estrela abrindo
sobre uma antiga casa.

Há gente que fala, dizias tu. Há gente que fala
mas as palavras sabem a azebre e a limalha
e a tristeza e o remorso percorrem-nos os ombros
como um pedaço de um qualquer metal maldito
pois a cidade violenta devora a sua própria cauda
como se fosse ainda existir centenas de anos.

É nas coisas reais que morres em cada minuto.

Neste pedaço de pão a que uns dentes ofereceram um sinal de fogo
nesta janela aberta como se aqui tivesse sido posta para um acto teatral
neste incrível Abril de vozes sonolentas
chamado muitas vezes a ultrapassar o tempo
É aqui que tu morres com as palavras por companhia
em cada hora de desespero organizado
nas vagas caravelas sulcando o mar oculto
para as ilhas para os momentos para os sonhos.

Não morreste pela razão das armas
como essoutro teu irmão Garcia Lorca
nem te foste pelo postigo octogonal
que Jacques Rigaut escolheu lucidamente
partiste, apenas partiste como um fruto demasiado maduro
como um ovo que se quebra no minuto habitual
como uma cama revolvida pelos espasmos da solidão
e que já nada dará  nunca mais   a quem a abriu.

Por isso Max para ti não tenho mais que um olhar longínquo
ou um breve uivo de raiva à altura do coração
para a tua fresca libertação
para a tua máscara e para o teu cinzel que soube construir
e desconstruir de seguida
todos os Napoleões do Deserto
mas mesmo assim dói
e persiste
porque ficámos mais sozinhos ante a solenidade e a ganância
e não mais nos dirás que a vida reside no segundo degrau.

Porque quase ninguém tem a coragem de brincar
como tu a sério dizias defronte ao teu chemin mistérieux, debaixo
da tua eternité des mondes
nós continuaremos com os nossos frágeis cigarros
lançando o fumo da nossa dor revoltada de encontro às sombras
que já se vêem surgir no tempo
do derradeiro arrepio
como um tremor na montanha distante
no mundo que permaneceu

nesse teu universo adivinhado
tantas vezes sonhado, no plenilúnio

pintado e escrito. 
                                                                             ns
                                                                   in “Escrita e o seu contrário”
                                                      

Pintura de Max Ernst