quarta-feira, 7 de novembro de 2018

[0383] João Lúcio, poeta algarvio esquecido


João Lúcio Pousão Pereira nasceu em Olhão em 1880 e aí falecido em 1918 (epidemia da gripe pneumónica). Advogado, deputado franquista (abandonou a actividade política com a implantação da República, em 1910) e poeta decadentista da “Renascença Portuguesa”, fundador do jornal “O Reino do Algarve” e director literário do semanário “O Sul”. Era sobrinho do pintor naturalista Henrique Pusão, nascido e precocemente falecido em Vila Viçosa.


SENSAÇÕES DESCONHECIDAS

Há tanta sensação que não conheço,
tanto vibrar de nervos que não sinto,
e, contudo, parece que os pressinto,
apesar de ver bem que os desconheço.

A sensação que tem, à noite, o ar.
quando o orvalho o toca, em beijos de água
é, porventura, irmã daquela mágoa
que sente, quando chora, o meu olhar?!

Tem, porventura, alguma semelhança
a sensação de um cravo numa trança
com a ânsia de quem morre afogado?

E fico-me a pensar o que sentirá
uma vidraça quando o Sol que lhe dá
e a rasga a mão da luz, de lado a lado?


A PAIXÃO DA COR
                           
                              a Manuel Teixeira Gomes

Cor, filha da Luz, é uma língua em tons
Que fala, sem rumor, á curva da retina...
Como há para o ouvido a palavra e os sons,
Nasceu para o olhar esta harmonia fina.

Escorre sobre o campo, empapuçando tudo
N'um brilho rumoroso, ardente de alegrias;
Palpita nos cetins, ondula no veludo
E fulge encarcerada em finas pedrarias.

Em toda a parte põe a aza transparente:
No mar, nos vegetais, nos montes, nos palores...
No nosso sangue a Cor murmura intensamente,
Sugam-na p'los jardins as sequiosas flores.

Faz o cenário rubro e amplo da alvorada,
Espalha pelo Ar um pó alado e loiro,
Torna a água do mar suave e azulada
E talha, no poente, arquiteturas de oiro.

Sonoramente vibra, em rubro, sobre os cactos:
Tem um ar de saudade, em roxo, nas violetas:
É meiga no azul dos lagos e regatos,
As azas de cetim salpica ás borboletas.

Ululou no pincel estranho de Rembrant,
O trágico da tinta, Ésquilo da pintura;
Foi triste e dolorosa em Cano e Zurbaran
E em Rubens tomou idílica frescura.

Com Velasques criou rajadas de epopeia
E em Raphael foi d'uma doce grandeza;
Miguel Ângelo pôs a Cor d'assombros cheia
Por forma que excedeu até a Natureza.

Murillo fê-la erguer, celeste e amorável,
Ao lirismo ideal da mística doçura,
Mergulhava o pincel fino e admirável
Dentro do coração, p'ra embebê-lo em ternura.

Oh Cor, que vais correr pelas veias das flores,
Voluptuosa cor que adora o algarvio,
Que fostes muita vez, em ardentes amores,
O colo desnudar nos braços de meu tio.

E porquê? Que razão nos acorrentará
Ao teu manto brilhante, ao teu manto fulgente?!
A volúpia, talvez, que dentro de ti há,
Minha linda pagã, sensual e ardente!


O MEU ALGARVE

Romântico torrão de doidas fantasias,
Namorado gentil, sensual e troveiro,
Onde o luar se orquestra em novas harmonias
E faz de neve em vez das neves de Janeiro…

Terra dos figueirais e das vinhas Formosas
Do luar novelesco, embriagante, albente,
Onde o Sol sensual cansa os nervos das rosas,
Numa volúpia de oiro intensa, absorvente…

Costas do meu Algarve, onde é tão terno o mar,
Dum veemente azul em ritmos de veludo,
Com neblinas de prata, ao nascer do luar,
Espumantes de luz, quando o sol cobre tudo

Tu vais cantar de noite à beira dos moinhos,
Das colinas, dos cais, das praias murmurosas,
Para embalar o sono às aves nos seus ninhos
E para destruir a insónia das rosas…

Quando perto de ti as namoradas choram,
Meu belo aventureiro azul, vais consolá-las;
Por isso, lindo mar, elas tanto te adoram:
Abrem-te o coração, sempre que tu lhes falas…

Tu vais adormecer sobre o barco, cantando,
O pobre pescador cansado de remar…
Pra poderes tornar o seu mais brando;
Nem o barco, sequer, lhe fazes oscilar…

Tu vais fazer vibrar as pequeninas ilhas,
Emergindo de ti, brancas, silenciosas,
Na melodia azul das vagas e das quilhas
E das velas correndo, alvas e luminosas.

 Vais fazer latejar, numa glauca harmonia,
As rochas junto a ti erguidas e soldadas,
Meu lindo mar do Sul, oh mar da Fantasia,
Da Aventura, do Amor, da Lenda e das Baladas!

Luar do meu Algarve, imaculado e fino,
Luar fluido, de neve, opalas e jasmins,
Romântico luar, transparente e divino,
Que inundas de Quimera as áleas dos jardins

Cai-me sobre o olhar: banha-me em teu fulgor,
Oh sol que pões no Céu um latejante azul:
Dá-me a tua alegria e dá-me o teu vigor,
Oh sol, imortal sol, do meu país do Sul…

Eu amo a vossa cor, o vosso brilho forte,
A fecunda alegria que de vós se evapora;
Detesto a palidez que cobre os céus do norte,
Onde a Cor se desbota e onde a Luz se descora.

[0382 Risques Pereira, a aventura do poeta


Henrique Risques Pereira nasceu em Lisboa em 1930 e faleceu nesta cidade em 2003. Engenheiro civil, desenhador e poeta, integrou o Grupo Surrealista de Lisboa. Com o falecimento do seu grande amigo António Maria Lisboa em 195, retirou-se da actividade artística. Após a sua morte, foi publicada a sua obra poética.


UM GATO PARTIU À AVENTURA

As palavras de vidro que tu depões em teus seios, para me ofereceres, raspam /estridentes na camada inacessível dos meus olhos;
Caem e eu sonho para espalhar plumas nos espaços;
Trago na mão esquerda, hermética, fechada duramente, as delicadas linhas epidérmicas,
Leio nesse rendilhado de sensações o roteiro da minha viagem livre, o meu voo /solitário, que eu inicio saltando dos telhados para as janelas;
É na abstracção hipnótica do rosa íris que eu te vejo acompanhar a estranha aventura /dum albatroz,
E é ao cair da noite que eu aceno longamente os meus braços;
É na harmoniosa vibração azul que eu transmito o Sol vermelho do poente e da tristeza, /e , quando as minhas mãos se transformam em pérolas puras, os teus olhos gelam para /serem os gigantes da noite;

Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encarnada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;

Abandono a terra da ilha para viver nos abismos, nas cidades que crescem, nos beijos /que enchem o vento,
E oiço a imensa máquina que esmaga o ferro da estrada construída, a cortina sedosa dos /teus cabelos, eu e tu,
e vejo o cego que avança com os braços levantados para o mundo incompreensível,
e liberta os corpos visíveis: os teus lábios, os teus seios, o teu sexo; e mães batem às /janelas e imploram: LAMA!,

A um canto morre em agonia o primeiro grito;

O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos sonhos.


POEMA

Sinto os desertos ondulados
e a tua carne,
desejo o céu cristalino
e os teus olhos.
Admiro o crepúsculo acre
e os teus lábios
e vivo em noite na magia
do desespero de quem sabe
que o amor se conta em anos de morte
e sabe que há um sinal
que marca a ruína infalível para a qual escorregamos
a sonhar o enigma das torres que emigram
presas a fios de aço
e que partem com o pensamento
em todas as direcções.
Para sempre e sem memórias.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

[0381] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (5) Nuno Rebocho, os verdes anos


Quando surgiu em Portugal (em 1963) o movimento literário chamado Desintegracionista (com Armando Ventura Ferreira, Costa Mendes, Fernando Grade, Hugo Beja, Júlio-António Salgueiro, o autor do poema aqui publicado e o artista plástico Mário Elias), Nuno Rebocho esbracejara nas águas surrealistas, como o prova o seu primeiro livro publicado, “Breviário de João Crisóstomo”.


DAS RIQUEZAS DO SIÃO

ei oba oba oba escaravelho da china    canto social do huang-ho:
os chineses estão felizes    fiz chichi no huang-ho
vou aos remos na barca
tschplão tschplão  das riquezas de cantão das riquezas do sião
da prata do sião   dos bebés do sião    dos rapazes do sião
a febre tifóide a tuberculose (também chamada tísica
ah a doença biológica)
dos cricris do sião dos grilos do sião

ei oba oba oba escaravelho da china    ei oba oba oba ribabarca ribachina
tschplão tschplão vou na barca
rouco de ti   rouco do mundo   rouco de gritar longe
o sinal proibido da minha face

ei oba oba oba escaravelho da china   escaravelho do sião
tschplão tschplão os corvos do sião     os corpos do sião
canto social dos narizes do sião   canto social do caixão
vão
agarrados à barra do canhão  agarrados à chuva de cantão
frio gelado nevão
ei oba oba oba riquezas do sião 

[0380]

[0379] Ana Paula Tavares, Angola, a voz de hoje

Ana Paula Ribeiro Tavares nasceu no Lubango em 1952. Escritora, historiadora e poeta, vive em Portugal onde lecciona. Por alguns considerada uma das melhores vozes da poesia angolana contemporânea.

AMARGOS COMO OS FRUTOS

                          “Dizes-me coisas tão amargas / como os frutos...” – Kwanyama


Amado, por que voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

Onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estradas

Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos


MUKAI

1  
Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala
resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
a cabeleira.


O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha pra dentro do silêncio milenar.

3
Um soluço quieto
desce
a lentíssíma garganta 
(rói-lhe as entranhas 
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo 
atravessam-lhe as pernas 
e fazem a ligação terra.
Estranha árvore de filhos 
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto 
navega de tristeza
as horas.

4  
O risco na pele 
acende a noite 
enquanto a lua
(por ironia
ilumina o esgoto 
anuncia o canto dos gatos) 
De quantos partos se vive 
para quantos partos se morre
um rito espera-se faca
na garganta da noite
recortada sobre o tempo 
pintada de cicatrizes 
olhos secos de lágrimas 
Domingo, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.

[0378] Ernesto Sampaio, um nome obrigatório


Ernesto Sampaio nasceu em Lisboa em 1935 e faleceu também em Lisboa em 2001. Jornalista, bibliotecário, professor, tradutor e poeta, recebeu o Prémio Jacinto do Prado Coelho de 1988. Foi um dos teóricos do surrealismo português.


ESTRADA

Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e da rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre


YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

O fogo despe-se cada vez mais cheio de alegria alisado no vento de cada poro da aurora
Começa-se a abrir o Sol em gotas de sangue tatuadas de esperma
Há uma flor de lava no fim de cada braço no fim de cada perna no fim os tempos
E uma chuva de cinzas e de espinhos caminha a meu lado onde começa o mar das /grandes lanças de água
É todo o teu ventre a cantar nas minas da catástrofe de noites sem véus de rios que /começam a vida de gestos no crepúsculo
São os teus olhos voando sobre os frutos da tempestade
É a cabeleira da Terra envenenando o ar de beleza ao ritmo alucinado com que abres as /pálpebras deixando sair os lagos da tua infância e a luz louca da crisálida que nos gerou /dissimulada em cada pedra em cada cama onde morremos juntos
Chicote ronronando por cima de nós em noites desmedidas na coragem de ver nascer /uma nova manhã e uma nova estrada e uma nova boca incrível
Monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus
pulmões Primaveras a recolher numa outra vida numa outra vida amante
Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de /fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável
Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da /raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra
Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio
que esmaga e canta e ninguém deterá
Fuzis do hálito esbraseado danados embraiados num sinal nos ares num sinal vermelho
Na cinta a pistola de cada injustiça nas costas a metralhadora da porrada que nos deram /no bolso um chacal a sorrir-nos no sexo tu
Tu meu avião de vinho minha rã no cérebro meu castelo de múmias minha jovem eterna /de mãos de radium minha fonte que enche a boca de estrelas meu grande ventre de /movimentos marítimos meu incêndio possuído numa cama de meteoros meu sopro de
/todas as potências minhas costas de Mar e de Terra minhas coxas de deboche minha
/mulher de movimentos de fuzilamento de movimentos loucos minha flor de sangue de /ferro de esperma minha destruição luminosa minhas nádegas de noite e de loucura /MEU AMOR

Habito a lealdade dos presságio
Começo a ser um bom leito para o meu sangue


PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último
A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias
No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

[0377] De novo, Maria Helena Sato

Maria Helena Sato nasceu em Cabo Verde (antes colónia portuguesa, hoje República de Cabo Verde, África - não confundir com o Cabo Verde do Brasil). É mestre em Comunicação, com pós-graduação em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Corporativa Internacional e especialização em Recursos Humanos, é bacharel em Letras. Após carreira na área corporativa (nas áreas de Comunicação, Responsabilidade Social e Memória Empresarial), exerce atualmente o ofício de Tradutora Pública e Intérprete Comercial (Inglês, Francês e Espanhol) nomeada para o Estado de São Paulo e participa de projetos socioculturais. 


CONSTELAÇÕES

Do timoneiro a casa,
do capitão,
marinheiro,
é sempre a casa do mar.
Aprendem letras em terra,
mas só entendem
de ventos,
horóscopos a decifrar.
A carta do canoeiro,
do viajor,
pescador,
é uma estrela
no céu.


ANOTAÇÕES

O guardião dos recifes
zela – diz – pela história do mar.
E o mar sem memória
passa o tempo a inscrever
na erosão das encostas
o que não quer
esquecer.


TECELÃ

Fios
trajeto do meu
olhar.
Caem sobre
os ombros,
desvelos,
voltam
medem
novelos se
entrelaçam
inexatos
prolongam
correm e
crescem
decibéis
sílabas
canções
para te alcançar.

[0376] Pedro da Silveira, os Açores como identidade


Pedro Laureano Mendonça da Silveira nasceu em Fajã Grande (ilha das Flores, Açores) em 1922 e faleceu em Lisboa em 2003. Poeta, crítico literário, investigador e tradutor, foi gestor da Biblioteca Nacional de Lisboa. Viveu na capital portuguesa desde 1951. Inconformista, foi voz incómoda para os poderes instituídos: um dos promotores da Enciclopédia Açoriana


POEMA 

Quando morrer em nós o último barco da emigração
e a ânsia das Américas perdidas;

quando os nossos olhos deixarem de voltar-se tristes
para o vapor sumindo-se na linha do pego;

quando descobrimos a força que ainda guardam nossos braços
cansados de querer abraçar as estrelas;

quando os dias deixarem de rolar sobre os dias
sem esperança nenhuma para erguer;

quando, enfim, nosso esforço de irmãos fizer brotar
uma outra vida no chão das nossas ilhas

- neste chão que ficou amorosamente esperando
os nossos corpos derrotados na aspereza dos caminhos do retorno –

então, pátria, será nosso o teu destino


ILHA

Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe à proa
Califórnias perdidas de abundância.


POEMA DA ANTEMANHà

Aqui,
longe,
num café de Lisboa,
quase a beira do Tejo turvo das fragatas,
a olhar um paquete que vai na direcção da barra,
subitamente é como se eu também partisse.
E só de pensar-me partindo
embarco e, deslumbrado,
imagino-me chegado às ilhas.

Todo um mundo familiar ressurge nos meus olhos!
E vejo-te, Mãe Terra; és tu,
de nuvens e de aves marítimas coroada,
no meio desse Atlântico - bravio
abraço de águas salgadas que nos atira para o mundo,
nos separa do mundo -. Sinto
o cheiro saboroso do teu chão de lavas verdes;
ouço mesmo o rumor surdo das ribeiras caindo das rochas abaixo
(ou será talvez o mar batendo nos baixios da costa?)...
Estou, Mãe Terra, nas tuas cidades,
nas tuas vilas mortas,
e, mais sobre oeste,
tanto que ali a Europa acaba,
na freguesia onde eu nasci.
Vejo nitidamente os campos de milho
e, no cimo, as relvas e o azul das hortênsias.
Sigo pelo caminho habitual da beira-mar
e uma figueira estende-me a sombra dos seus ramos.Com um molho de lenha à cabeça uma rapariga passa
e olha-me com a naturalidade de quem sabe que voltei.
Um menino leva as vacas para a relva
e, como sempre, os velhos estão sentados à praça.
Por caminhos de terra e mar
parto e, logo, chego. Estou
nas cidades e nas vilas, em todos
os lugares de cada uma das nove ilhas.
Os meus antigos companheiros,
tantos deles por aí dispersos,
outros, como eu, perdidos longe
- na Europa, em África, nas Américas -,
estão agora todos presentes. Penso
que alguma cousa diferente vai passar-se,
algum acontecimento extraordinário.
Vejo-te, Mãe Terra!
Vejo-te, mas eu sei,
é só de imaginar-te que te vejo.
É só de saudade a tua presença em mim.
Estou longe...
Longe, Mãe Terra!
E a tua madrugada
impede-a um muro hostil de braços estendidos cor de azebre

[0375] Mário-Henrique Leiria, o poeta do gin-tonic


Mário-Henrique Baptista Leiria nasceu em Lisboa em 1921 e faleceu em Cascais em 1980. Poeta e escritor, foi aluno da Escola Superior de Belas Artes de onde foi expulso por motivos políticos em 1942. Integrou o movimento surrealista. Preso pela PIDE em 1962, exilou-se no Brasil (fundou aí a Editora Samambaia). Regressou a Portugal em 1970. 


SINTOMA OU CAUSA? 

                              versos «futuristas» explicando uma ideia ainda mais «futurista» que o Né teve
Espirrei.
O nariz
entupido achei
. Sintoma ou causa?
Não sei.
Só o Né
Me dirá
o que é.

E ele explica
Com ar doutoral:
«Afinal, meu rapaz Isso, p’ra mim,
Tanto faz.
Ouve com toda a atenção:
Abriste a janela,
Entrou ar.
É o sintoma
Duma constipação.
Dói te o fígado,
Os rins, o baço até
¡está se mesmo a ver
o que é!
É a causa,
a causa somente,
Duma biliosa
Forte
E valente.

E agora tens de concordar
Com a explicação
Que acabei de dar.
Pelo que acabo de dizer,
Sintoma ou causa ~
Iguais têm de ser»

E o Né saiu satisfeito
E mesmo
Com ar imponente
Por me dar
Explicação
Tão  decente!


GIN SEM TÓNICA

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar

que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do Trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher

foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?

telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher

nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin


LISBOA AINDA REVISITADA EM 70!

Um pouco de sopa
uma posta de garoupa.
Mais uma vez
os alegres cadáveres do costume
e outra vez...
olha o Simões... olha o Armindo
é lindo... é lindo
(por favor
dá-me aí o RATOFINDO)
sô barbeiro
olhe que esqueceu a «pedra nua»

A ponte sobre o Tejo
(viva mais uma ode genial)
Que tal? Que tal?
Quando a vir pela primeira vez
vou com certeza ter saudade
do tempo em que acreditava
que nunca teria que rever
um trambolho
com molho
português,
o molho ribeirinho habitual.

Olha, o melhor parece ser
um pouco mais de sopa
e — porque não? — outra posta de garoupa.


A FAMÍLIA 

Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam um magnífico esturjão
que logo quiseram ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão

vamos para casa
disse o esturjão.

domingo, 4 de novembro de 2018

[0374] MÚSICA PARA O DOMINGO (7). Hoje, um clássico, "Construção". Chico Buarque canta poema seu



CONSTRUÇÃO

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

[0373 ] Dois blogues para colocar nos seus FAVORITOS


Ibn Mucana AQUI
Contos da tinta permanente AQUI
COLOQUE-OS NOS SEUS FAVORITOS

[0372] Lara Amaral, uma voz novíssima do Brasil


De seu nome Larissa Amaral Teixeira, nascida em Brasília em 1986, jornalista, escritora e poeta, é uma das vozes da novíssima poesia brasileira.


LETARGIA

Amo como quem morre
Não de tanta entrega
Mas de deixar-se corroer
Para restar o silêncio de um corpo
E a falta do sentir

Escrevo como quem vive
Reencarnando personagens
Possivelmente mais tristes
Até que eu seja só partícula
De algo que não me reconheça


ESTOPIM

Nunca sei o que será de mim
Pista de mão dupla sem
Desvio
Caixa de música sem
Corda
No pescoço
Dependurada
Como argola que prende cortina
Transparente
Por um fio
Enxergam-me através
Sem desa(r)mar
Como bomba de breve
Pavio


IN.VERTEBRADA

deitada na cama
a coluna é uma vértebra


desarticulada

para o lado que movo
o princípio da minha nuca
vai o corpo
todo

contorcionista

a pélvis ensaiando vida
dança

segue a alma: presa
a fibras óticas
movida a ninguém


VALE 

A rede presa entre dois morros
uma altura que não meço em palmos
balanço com pés e cabeça pendurados
equilibrando o frio tenso no estômago
meus cabelos não alcançam o chão
são os cílios que varrem a vegetação
quero dormir ali e ter daqueles sonhos
de vertigem em que se cai da cama
como quem cai no precipício.

[0371] Armando Côrtes-Rodrigues, um modernista convertido à açorianidade

Armando César Côrtes-Rodrigues nasceu em Vila Franca do Campo em 1891 e faleceu em Ponta Delgada (Açores) em 1971. Poeta, escritor, dramaturgo e etnólogo, usou também o pseudónimo de Violante de Cysneiros. Professor e activista cultural, esteve ligado ao grupo do Orpheu, podendo ser considerado um modernista moderado, o que mais tarde trocou por uma açorianidade de que se envolveu a partir de 1917. Um dos fundadores do Instituto Cultural de Ponta Delgada, dirigiu a revista “Insulana”. Recebeu o Prémio Antero de Quental de 1953.


SINFONIA DE COR

Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.

Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.

Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.

E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.

Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...

Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!

Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.

Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.

Partir!

Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.

Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...

– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.

Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...

E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.

Adormecer a vê-las...

Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.


ANOITECER

Ficou o céu descorado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.

Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.

Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando

A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.


PASSO TRISTE NO MUNDO

Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E místico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'Alma do profundo
    Abismo do seu Ser.

Vivo de Mim, em Mim, e para Mim,
E para Deus em Mim ressuscitado,
Sou Saudade do Longe donde vim,
E sou Ânsia do Longe, em que por fim
    Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus, e para Deus,
E minh'alma, sonâmbula, esquecida,
Nele fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sozinha, olhando os céus,
    No caminho da Vida.

Fui Outro, e, Outro sendo, Outro serei;
Outro vivendo a mística beleza,
Por esta humana forma que encarnei,
Por lágrimas de sangue que chorei
    Na terra da tristeza.

Espírito na Dor purificado,
Ser que passa no mundo, sem o ver,
Em esta pobre terra de pecado,
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.

[0370]

[0369] Antonio Machado, o poeta republicano

Antonio Cipriano José Maria y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz, de seu nome completo, nasceu em Sevilha em 1875 e faleceu em Collioure (nos Pirinéus franceses) em 1939. Foi um dos grandes poetas do modernismo espanhol que o falangismo forçou a fugir do seu país, depois de o colocar em regime de residência fixa em Barcelona. Pertenceu á chamada Geração de 98. Viveu em várias cidades de Espanha durante a Guerra Civil, procurando escapar aos combates. Com a derrota, refugiou-se em Paris. De regresso a Madrid, foi expulso pelos franquistas. 


LA SAETA

¿Quién me presta una escalera,
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Saeta popular
¡Oh la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos,
siempre con sangre en las manos
siempre por desenclavar!
¡Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz!
¡Cantar de la tierra mía,
que echa flores
al Jesús de la agonía,
y es la fe de mis mayores!
¡Oh, no eres tú mi cantar!
¡No puedo cantar, ni quiero,
a ese Jesús del madero,
sino al que anduvo en el mar!


EL POETA

Maldiciendo su destino
como Glauco, el dios marino,
mira, turbia la pupila
de llanto, el mar, que le debe su blanca virgen Scyla.

Él sabe que un Dios más fuerte
con la sustancia inmortal está jugando a la muerte,
cual niño bárbaro. Él piensa
que ha de caer como rama que sobre las aguas flota,
antes de perderse, gota
de mar, en la mar inmensa.

En sueños oyó el acento de una palabra divina;
en sueños se le ha mostrado la cruda ley diamantina,
sin odio ni amor, y el frío
soplo del olvido sabe sobre un arenal de hastío.

Bajo las palmeras del oasis el agua buena
miró brotar de la arena;
y se abrevó entre las dulces gacelas, y entre los fieros
animales carniceros...

Y supo cuánto es la vida hecha de sed y dolor.
Y fue compasivo para el ciervo y el cazador,
para el ladrón y el robado,
para el pájaro azorado,
para el sanguinario azor.

Con el sabio amargo dijo: Vanidad de vanidades,
todo es negra vanidad;
y oyó otra voz que clamaba, alma de sus soledades:
sólo eres tú, luz que fulges en el corazón, verdad.

Y viendo cómo lucían
miles de blancas estrellas,
pensaba que todas ellas
en su corazón ardían.
¡Noche de amor!

Y otra noche
sintió la mala tristeza
que enturbia la pura llama,
y el corazón que bosteza,
y el histrión que declama

Y dijo: Las galerías
del alma que espera están
desiertas, mudas, vacías:
las blancas sombras se van.

Y el demonio de los sueños abrió el jardín encantado de
ayer. ¡Cuán bello era!
¡Qué hermosamente el pasado
fingía la primavera,
cuando del árbol de otoño estaba el fruto colgado,
mísero fruto podrido,
que en el hueco acibarado
guarda el gusano escondido!
¡Alma, que en vano quisiste ser más joven cada día,
arranca tu flor, la humilde flor de la melancolía!


CANTE HONDO

Yo meditaba absorto, devanando
los hilos del hastío y la tristeza,
cuando llegó a mi oído,
por la ventana de mi estancia, abierta

a una caliente noche de verano,
el plañir de una copia soñolienta,
quebrada por los trémolos sombríos
de las músicas magas de mi tierra.

... Y era el Amor, como una roja llama...
?Nerviosa mano en la vibrante cuerda
ponía un largo suspirar de oro
que se trocaba en surtidor de estrellas?.

... Y era la Muerte, al hombro la cuchilla,
el paso largo, torva y esquelética.
?Tal cuando yo era niño la soñaba?.

Y en la guitarra, resonante y trémula,
la brusca mano, al golpear, fingía
el reposar de un ataúd en tierra.

Y era un plañido solitario el soplo
que el polvo barre y la ceniza avienta.

sábado, 3 de novembro de 2018

[0368] Fernando Fitas, a consagração em Almada, depois de Morille (Salamanca), no 40.º aniversário da carreira literária do poeta

Cartaz da próxima representação em Almada

Cartaz da apresentação em Morille, Salamanca, 21.07.2018

Grupo de tatro "O Grito" apresenta...

“SEMENTEIRA”

6 NOVEMBRO | TERÇA-FEIRA |22H00 | M/12 | 75’
PÁTIO DO PRIOR DO CRATO

Autor: Fernando Fitas
Dramaturgia: José Vaz
Encenação: Anabela Neves
Interpretação: Ana Tomás, Frederico Barata, Helena Barata, Jefferson Oliveira, José Vaz, Ricardo Fonseca
Cenografia e Desenho de Luzes: Jorge Xavier
Canções: Letra de Fernando Fitas e Música de Francisco Naia, João Fernando e Nuno Gomes dos Santos
Direcção Musical: Ana Tomás e Ricardo Fonseca
Figurinos: Mizé
Grafismo: Nuno Nascimento
©Renato Roque

O ESPECTÁCULO 

Fernando Fitas - Foto Joaquim Saial
“Sementeira” comemora 40 anos de vida literária de Fernando Fitas, único autor por duas vezes agraciado com o Prémio de Poesia e Ficção Cidade de Almada (2004 e 2014), entre muitos outros prémios. O trabalho de dramaturgia que nos confiou consistiu, tão só, no invasivo acto de nos apropriarmos das suas palavras para esboçar uma cronologia, sugerir uma narrativa de vida intensamente afectiva e pessoal. Não intentámos, porém, recriar a biografia do autor. Aqui se inserem múltiplas vivências: as de ganhões e malteses, em tempos de latifúndio e repressão, as de operários e sem-abrigo na grande cidade, em tempos de medo e obscurantismo, a festa do 25 de Abril e o sabor amargo que, depois, a Revolução deixou… E a vontade de reaver as nossas raízes mais primordiais.

SOBRE O GRUPO 

O Grito iniciou a sua actividade em 1995. Trouxe ao palco autores de referência do teatro europeu do século XX, de Jean Anouilh a García Lorca e de Sartre a Camus, bem como do teatro extra-europeu, do brasileiro Joracy Camargo ao chileno Ramón Griffero. O seu repertório inclui autores incontornáveis da história do teatro, como Anton Tchekhov ou Tennessee Williams, mas tem também dado a conhecer, em Portugal, importantes autores contemporâneos, alguns já reconhecidos internacionalmente como o espanhol Ernesto Caballero, o italiano Davide Enia ou o norueguês Jon Fosse, outros ainda inéditos, como o brasileiro Paulo Andress. Trouxe também para o palco, não só textos dramatúrgicos, mas também poesia e narrativa de grandes autores da língua portuguesa, como José Gomes Ferreira, Al Berto, Herberto Helder ou Natália Correia.
A par da criação de espectáculos, O Grito desenvolve regularmente oficinas de iniciação e formação nas diversas disciplinas ligadas às artes cénicas.

www.ogrito.pt

BILHETEIRA
Bilhete normal - €6.00
Jovens com idade inferior a 30 anos - €5.00
Seniores com idade superior a 65 anos - € 5.00
Grupos a partir de 6 pessoas – € 4.00

RESERVAS
CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA
Divisão de Programação e Atividade Cultural
Seg. a Sex.: 9h30 – 12h30 / 14h00 – 17h30
Tel.: 21 273 81 02
e-mail: pteixeira@cma.m-almada.pt

Levantamento dos bilhetes nos locais de realização das peças até 30 minutos antes do seu início.

[0367] "O que falta", de Adolfo Maria, lançado na UCCLA

Será lançado a  7 de novembro (quarta-feira) na sede da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) - Avenida da Índia, n.º 110, Lisboa (entre a antiga Cordoaria Nacional e o Museu Nacional dos Coches) às 18h30, o livro de poemas “O que falta” do poeta angolano Adolfo Maria, publicado pelas Edições Colibri (colibri@edi-colibri.pt)

[0366] Xozé Filgueira Valverde, uma referência do galeguismo


Nascido em Pontevedra em 1906 e em Pontevedra falecido em 1996, Xosé Fernando Filgueira Valverde foi escritor neotrovadoresco, arqueólogo e político galego que ficou conhecido como “o vello profesor”  (o velho professor”). Director do Instituto Padre Sarmiento de Estudios Gallegos e do Museu de Pontevedra, foi também Presidente do Consejo de la Cultura Gallega. Referência do galleguismo, encabeçou a chamada “direita galeguista”, colaborando com o franquismo durante a Guerra Civil de Espanha, chegando a ser alcalde de Pontevedra.


CANCIÓN DEL MAR IN MODO ANTICO

Porque non seca a morte a fonte das cantigas
eu vos chamo, segreles, que veñades cantar
onde os verdes loureiros gardan vellas ermidas,
cabo das sabias ondas sulcadas do luar,
das insuas da ribeira nun antigo lugar,
¡San Cremenço do mar!
Porque non tolla o frío o albre dos cantares
eu vos digo, rapazas, que vaiades bailar
onde os gayos loureiros quecen fríos fogares,
cabo das tolas ondas, cando o sol vai raiar,
das insuas da ribeira no máis ledo lugar,
¡San Cremenço do mar!

[0365] De novo, José Pascoal


Do poeta José Pascoal, este portal honra-se em difundir quatro poemas do seu recente livro “Excertos Incertos”: é um aperitivo a encomendar uma excelente leitura. Os livros não devem ficar nas livrarias. São para ser lidos e apreciados.


SAL GROSSO

No movimento piscatório,
Os pescadores sofrem
De hipotermia.

Navalhas frias
Enterram-se nos ventres
Vazios

E na terra parada
Há quem se aqueça
Com peixe assado
Na brasa.


CIRCULAÇÃO PROIBIDA

Ando à volta
De praças sem nome,
Teatros ausentes,
Arenas exangues.

Nos palácios
Em ruínas
Crescem números,
Letras inumanas

Estátuas
E árvores
Têm o mesmo corte
De cabelo

Guio-me
Pelo aspecto
Dum grito
Sem palavras.


INSTANTÂNEO DISTANTE

Compras tabaco e tinta
Escreves num caderno,
Trazes na cara negra pinta,
Nisso és pouco moderno.

Eternamente grato
Como um bicho-do-mato,
Dizes tudo em sentido lato,
Gostas da persistência do cacto.

Não fazes companhia,
Não levas alegria,
Esperas sempre pelo dia de amanhã.

E se chamam por ti
Para verificar um til,
Preferes devorar uma maçã.


VISÃO NOCTURNA

De noite, as árvores cantam
À sombra das suas copas
Enquanto as pedras choram
Sem alegria nem tristeza

Os animais deprimidos
Fecham-se nas suas casas
E as coisas desarrumadas
Cabem todas numa cela.

Dos sinos da liberdade
Não soa nenhuma fúria
E dos museus abandonados
Não foge nenhuma cor.

De noite, os sonhos congelam
Em arcas congeladoras.

[0364] Mário Contumélias, o poeta da serenidade

Mário Manuel da Silva Contumélias nasceu em Setúbal em 1948 e faleceu em Lisboa em 2017. Jornalista, poeta e escritor, presidente do Sindicato dos Jornalistas (1975/77), cofundador do jornal “Correio da Manhã”, empresário de Comunicação, professor e formador do CENJOR.


EMOÇÕES – PRIMEIRA LIÇÃO
         
                              para a ana bárbara, carinhosamente

1.
as emoções voam em ciclos
prendem-se aos retratos em silêncio
espreguiçam-se na memória quietas
escondem-se no segredo das lágrimas
sempre são alegria quando as vemos
tão distantes e serenas escorregam
nos anos já vividos demoram-se
esperam ser revisitadas... há quem
as guarde numa arca para quando os dias
forem longos há quem as gaste logo e
nada deixe para depois.

2.
ah! as emoções... fazem sempre chorar
sobretudo quando cheira a romãs e a noite
se fecha sobre o próprio ventre à espreita
do propício momento são flores numa velha
jarra mas não fenecem nunca recusam-se
a murchar antes ganham cor patine
[acho que é assim que se diz: patine]
vestem-se de luz e sombra disfarçam-se
com a roupa de outros tempos lavam a cara
deitam fora as rugas avermelham os lábios
rescrevem na face o rubor antigo.

3.
sabem tudo da música conhecem o pudor
das palavras mais secretas dançam nuas
nos corredores quando os gatos adormecem
coleccionam silêncios gestos impensados
pequenos objectos imprestáveis papeis
amarelecidos e dobrados discretas
disfarçam-se nas datas mais difíceis às
vezes cheiram a mar outras à lânguida
terra que a chuva possuiu reconstroem-se
renovam-se são assim as emoções
quando a serenidade nos deixa olhá-las perto.

4.
outras vezes não outras vezes
tomam-nos de assalto há mesmo
quem soçobre feche os olhos
e parta para o longe é então
que elas se revelam na sua forma
de aves sibilinas rompem o espanto
rasgam as veias predizem o futuro
exalam odores que pensáramos perdidos
sussurram em desconhecidos idiomas
mas logo se aquietam é esse
o seu ofício a quietude.

5.
ah!, as emoções...


O GATO

O gato espreita no azul Sereno
sabedor o gato espreita no azul
Esconde mistérios suspensos nos olhos
com que fita Nos olhos o gato esconde
Encostado a um canto silencioso o gato sabe tudo
Discreto sem metáfora
o gato é apenas um gato.


PEDRAS

Eu canto estas pedras de fio,
Este areal de aves esquecidas.
Passo por ti sem ver as rosas, a flor que pelos olho esvoaça.
Eu canto como se aqui fosse uma praça,
Uma praça coberta de cadáveres
E o teu rasgado pelo ventre
Fosse um cadáver mais por entre os dedos.
Por isso é que esta dor não pode ser poema.
Por isso é que não pode ser uma palavra.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

[0363] Nasceu hoje um irmão do "Ibn Mucana", o blogue "Contos da tinta permanente"

Vocacionado para contos de expressão lusófona mas também de língua castelhana e galega, o "Contos da tinta permanente", irmão mais novo do "Ibn Mucana", nasceu hoje. Recomendamos-lhe uma visita e que coloque o endereço nos seus favoritos, para melhor possibilidade de lá voltar. Encontra-o AQUI.


[0362] Ibn Mucana atingiu os 5 dígitos em visitas, em menos de três meses

[0361] Em Lisboa: mesa-redonda sobre a "Nova Largada"

No âmbito da realização da VII Quinzena da Cultura Cabo-Verdiana em Lisboa de Celebração da Cultura e das Comunidades Cabo-Verdianas e de Evocação e Homenagem da Geração da Nova Largada Político-Cultural,  decorre hoje (sexta-feira, 2 de Novembro) na Associação Caboverdeana de Lisboa (Rua Duque de Palmela, nº 2, 8º andar, Lisboa, ao Marquês de Pombal), a partir das 18h00, uma mesa-redonda com sessão de autógrafos sob o mote “Nós e a Nova Largada” com Carlota de Barros, Filinto Elísio Correia e Silva, José Luís Hopffer C. Almada, José Luiz Tavares e Mário Matos.

[360]

[0359] Mário Quintana, o poeta das coisas simples


Mário de Miranda Quintana nasceu em Alegrete (Rio Grande do Sul) em 1906 e faleceu em Porto Alegre em 1994. Jornalista, tradutor, escritor e poeta brasileiro, para alguns o maior poeta do século XX. Recebeu o Prémio Fernando Chinaglia de 1966, o Prémio Machado de Assis de 1980 e o Prémio Jabuti de 1981. Solitário, viveu em hotéis (“Eu moro em mim mesmo”).


EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…


A RUA DOS CATAVENTOS

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…


RELÓGIO

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede
conheço um que já devorou
três gerações da minha família

[0358] António Maria Lisboa, a enorme revolução na literatura portuguesa

Nasceu em Lisboa em 1928 e faleceu também em Lisboa em 1953 o poeta António Maria Lisboa. Com uma vida breve (25 anos), proporcionou uma autêntica revolução na literatura portuguesa, apesar dos ensaios em a esquecer ou silenciar até porque advogava a “insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos”. Ligado ao movimento surrealista, abriu caminho ao abjeccionismo e é um dos autores do manifesto do surrealismo. A sua adesão às ideias de André Bréton deu-se aquando da sua passagem por Paris, onde esteve dois meses, e o levou a recusar o surrealismo enquanto “escola” para se definir a si mesmo de “metacientista”. Após a sua morte, familiares destruíram grande parte dos seus manuscritos por os considerarem ofensivos para a bafienta “ordem” mental então existente - um imperdoável e cabotino atentado à Literatura e à Cultura portuguesas.


VÍRGULA

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.


RÊVE OUBLIÉ

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.


CONJUGAÇÃO

                              Para o A. Cruzeiro Seixas 

A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio
             e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente
             fino
Como Uma Agulha

A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS

é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto
             ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente

                            NUM TÚMULO EXAUSTIVO.

[0357] Camilo Pessanha, o ópio simbolista


Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra em 1867 e faleceu em Macau em 1926. Advogado, poeta, ensaísta e tradutor, foi Procurador Régio em Mirandela e, depois, professor e juiz em Macau, para onde se transferiu. A sua importante obra sobreviveu ao esquecimento porque foi publicada, à sua revelia, por Ana de Castro Osório


FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...


CREPUSCULAR

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
--- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.


VIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros

Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

[0356] É já depois de amanhã: Antologia "SETE", em Lisboa


É já no dia 3, sexta-feira, que é apresentada em Lisboa - na Livraria Poesia Incompleta (Rua de S. Ciro, 26, à Estrela, tel. 215981935 – poesia.incompleta@gmail.com) - às 18H30, a antologia “SETE” da editora Volta d’Mar (voltad’mar@gmail.com). Amadeu Baptista, Ana Horta, António de Miranda, Carlos Alberto Machado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Jaime Rocha, Jorge Vicente, m. parissy, Manuel de Freitas, Nuno Rebocho, Rui Almeida, Rui Tinoco e Sandra Costa são os poetas representados nesta antologia. É ilustrado por Alexandre Esgaio.

[0355] Maria Helena Sato, entre Cabo Verde e o Brasil

Maria Helena Sato nasceu em Cabo Verde (antes colónia portuguesa, hoje República de Cabo Verde, África - não confundir com o Cabo Verde do Brasil). É mestre em Comunicação, com pós-graduação em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Corporativa Internacional e especialização em Recursos Humanos, é bacharel em Letras. Após carreira na área corporativa (nas áreas de Comunicação, Responsabilidade Social e Memória Empresarial), exerce atualmente o ofício de Tradutora Pública e Intérprete Comercial (Inglês, Francês e Espanhol) nomeada para o Estado de São Paulo e participa de projetos socioculturais. 

Livros publicados
Prosa: "Esperança / Hope" (livro bilíngue, de contos, que faz parte do evento oficial em homenagem aos 110 anos da imigração japonesa no Brasil); "Uma dona de casa que não falava inglês" (Ed. Coruja, 2017); "Histórias da Vó Ná" (Ed. Komedi, 2015); "Elementos" (Ed. A Lápis, 2014); "A Garota Espacial" (Ed. Komedi, 2013); "Januário Leite, O Poeta Além-Vale" (com Luis Romano) (Ed. Komedi, 2005) ___ Poesia: "ponte@palavra.cv.br" (Ed. A Lápis, 2015) (foi organizadora e coautora; contou com duas outras cabo-verdianas convidadas: Maria Faria de Brito e Lavínia St. Aubyn); "Areias e Ramas" (Ed. Mosteiro da Santa Cruz, 2006); "Cristais" (Ed. Komedi, 2005); "Camaleoa" (Ed. Arx-Siciliano, 2004); "Caminho Orvalhado" (Ed. Mosteiro da Santa Cruz, 2004); "Presente do Mar" (Ed. Mosteiro da Santa Cruz, 2003); "Farol" (Ed. Mosteiro da Santa Cruz, 2003); "Recados de Mulheres para os Homens que as Amam" (2002); "Faíscas" (2001); "Bonsais e Haicais" (2000) ___ Livros traduzidos: "O lava-pés – um não sacramento" (Ed. Loyola, 2015) (original em francês); "As 7 Biorotas da Saúde, Bem-Estar e Longevidade" (Ed. Globo, 2006) (original em espanhol).


ENJEITADA

Para que não se
desmanche
não se desfaça jamais
nem solta
saltada flutue
ou perfure
canoas e ondas,
guardo-a, palavra,
em lábios 
de sal,
em lágrimas ardentes
de sol
e acrisolada a deponho
à soleira, casa de estrelas, 
estrelas
que moram
no mar. 


DESAPEGO

Poeta, pirata dos mares
Marujo de portos e esperas...
Mas nunca espera – só parte
Nas ondas, nas velas, luares...
E reparte em tesouros, no mar,
As rimas do seu versejar. 


INTIMIDADE

Antes,
foi a escrita.
Depois,
a poesia.
Quando a poesia
não tinha mais
não sabia mais
não cabia mais,
você chegou. 


IRREFLECTIDA

Botão em silêncio
a cor na seiva
sobe
extensa alcança]
espicha
a dor...

Longe o lago,
a flor não sabe
que virou flor. 


ANDORINHA

Se anuncia árias,
ordem os astros,
não sei. 
Mas é anterior 
ao movimento – 
e antes que se nomeie
vento,
bruma,
barlavento,
o nó da palavra
alada
lavra estação. 

[0354] Juan Ramón Jiménez, a voz que o falagismo não calou

Juan Ramón Jiménez Mantecón nasceu em Moguer (Andaluzia) em 1881 e faleceu em San Juan de Puerto Rico em 1958. Poeta español, ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1956. Estudou em Huelva e Sevilha. Razões de saúde e a falencia familiar obrigaram-no a ingresar em diferentes sanatórios. Foi um dos fundadores da revista literaria “Helios”, director das Edições da Residência de Estudantes, em Madrid. director literário da Editorial Calleja. Encabeçou o movimiento de renovação poética espanhol de fins da década de 10 do século pasado e tornou-se uma das referências da chamada Geração de 27. Apoiou a causa republicana na Guerra Civil de Espanha, o que o obrigou a exilar-se  em Washington, depois em Cuba, Miami, de novo em Washington, Argentina, Uruguai e, finalmente, Puerto Rico: sua casa em Madrid foi saqueada pelos falangistas.


PÁJARO DEL ALMA

Pájaro del agua
¿qué cantas, qué encantas?

A la tarde nueva
das una nostalgia
de eternidad fresca,
de gloria mojada.
El sol se desnuda
sobre tu cantata.

¡Pájaro del agua!

Desde los rosales
de mi jardín llama
a esas nubes bellas,
cargadas de lágrima.
Quisiera en las rosas
ver gotas de plata.

¡Pájaro del agua!

Mi canto también
es canto de agua.
En mi primavera,
la nube gris baja
hasta los rosales
de mis esperanzas.

¡Pájaro del agua!

Amo el son errante
y azul que desgranas
en las hojas verdes,
en la fuente blanca.
¡No te vayas tú,
corazón con alas!

Pájaro del agua
¿qué encantas, qué cantas?


EL POETA A CABALLO

¡Qué tranquilidad violeta
por el sendero a la tarde!
A caballo va el poeta...
¡Qué tranquilidad violeta!

La dulce brisa del río,
olorosa a junco y agua,
le refresca el señorío...
La brisa leve del río.

A caballo va el poeta...
¡Qué tranquilidad violeta!

Y el corazón se le pierde,
doliente y embalsamado,
en la madreselva verde...
Y el corazón se le pierde.

A caballo va el poeta...
¡Qué tranquilidad violeta!

Se está la orilla dorando.
El último pensamiento
del sol la deja soñando...
Se está la orilla dorando.

¡Qué tranquilidad violeta
por el sendero, a la tarde!
A caballo va el poeta...
¡Qué tranquilidad violeta!


LA MUERTE ES EL REPOSO

La muerte es el reposo,
del día de la vida;
para que despertemos descansados
en el día total del infinito.


YO ME MORIRÉ

Yo me moriré, y la noche
triste, serena y callada,
dormirá el mundo a los rayos
de su luna solitaria.

Mi cuerpo estará amarillo,
y por la abierta ventana
entrará una brisa fresca
preguntando por mi alma.

No sé si habrá quien solloce
cerca de mi negra caja,
o quien me dé un largo beso
entre caricias y lágrimas.

Pero habrá estrellas y flores
y suspiros y fragancias,
y amor en las avenidas
a la sombra de las ramas.

Y sonará ese piano
como en esta noche plácida,
y no tendrá quien lo escuche
sollozando en la ventana.

[0353] António Aragão, marco histórico da poesia experimental

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em São Vicente (ilha da Madeira) em 1921 e faleceu no Funchal em 2008. Poeta, escritor e dramaturgo, historiador, investigador e artista plástico. Estudou em Paris e Roma, depois de se formar na Faculdade de Letras de Lisboa e na Universidade de Coimbra. Inconformado e por vezes mesmo excêntrico, foi director do Arquivo Regional da Madeira e do Museu da Quinta das Cruzes (Funchal) - deixou um notável trabalho de investigação arqueológica e no domínio da etnografia. Teve papel essencial na afirmação da poesia experimental, dos visopoemas e da electrograia em Portugal e, a nível internacional, na chamada mail-art. 




A VIRGEM

um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca aberta

um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar