quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

[0584] Fernando Sabino, o consulado poético


Fernando Tavares Sabino nasceu em Belo Horizonte, em 1923 e faleceu no Rio de Janeiro, em 2004. Foi escritor, jornalista, nadador, cineasta e poeta, integrou o grupo Etienne. Viveu episodicamente em Nova Iorque e depois em Londres, onde exerceu a função de adido junto da Embaixada brasileira. Fundador da Editora do Autor e da Editora Sabiá.


CERTEZA

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!

[0583] José Batista de Queiroz, a arma da poesia


Natural de Patrocínio, Minas Gerais, Brasil. Militar de carreira, general e instrutor do Exército nos Estados Unidos, economista e poeta.


DE ONDE VENHO…

Venho de uma terra,
onde nos campos canta a seriema,
nas capoeiras pia o inhambu,
onde as montanhas são onduladas,
os vales cobertos de névoas.

Venho de uma terra,
onde o céu é mais azul,
o sol mais radiante,
a noite mais fagueira,
a lua mais graciosa.

Venho de uma terra,
onde a aurora é mais bela,
o crepúsculo mais dourado,
o arco-íris mais colorido,
os passarinhos mais cantantes.

Venho de uma terra,
dos doces e das quitandas,
do queijo com goiabada,
do berrante e das boiadas,
dos tropeiros nas estradas.
Venho de uma terra,
onde a dança é a catira,
o violão é a viola,
o fandango é o pagode,
a bebida é a pinga.

Venho de uma terra,
onde o povo diz uai e sô,
a prosa tem seu lugar,
as igrejas são centenárias,
as orações cheias de fé.

Venho de uma terra,
onde nasceu o paraíso,
onde o mar quis morar,
onde o céu tem estrelas,
a vida felicidade.

Eu venho das Minas Gerais,
uma terra sagrada,
que levo para onde vou,
dentro da alma  e do coração.


POEMA SER MINEIRO

Ser Mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer,
é fingir que não sabe aquilo que sabe,
é falar pouco e escutar muito,
é passar por bobo e ser inteligente,
é vender queijos e possuir bancos.
Um bom Mineiro não laça boi com imbira,
não dá rasteira no vento,
não pisa no escuro,
não anda no molhado,
não estica conversa com estranho,
só acredita na fumaça quando vê o fogo,
só arrisca quando tem certeza,
não troca um pássaro na mão por dois voando.
Ser Mineiro é dizer “uai”, é ser diferente,
é ter marca registrada,
é ter história.
Ser Mineiro é ter simplicidade e pureza,
humildade e modéstia,
coragem e bravura,
fidalguia e elegância.
Ser Mineiro é ver o nascer do Sol
e o brilhar da Lua,
é ouvir o canto dos pássaros
e o mugir do gado,
é sentir o despertar do tempo
e o amanhecer da vida.
Ser Mineiro é ser religioso e conservador,
é cultivar as letras e artes,
é ser poeta e literato,
é gostar de política e amar a liberdade,
é viver nas montanhas,
é ter vida interior,
é ser gente.


MEU SONHO

Meu sonho é ser
A brisa que acaricia seu rosto,
O vento que solta seus cabelos,
O mar que molha seu corpo,
A água que banha seus pés.

Meu sonho é ser
A luz que brilha em seus olhos,
O sol que queima a sua pele,
A lua que ilumina o seu sorriso.
A flor que perfuma a sua alma.
Meu sonho é ser
O jardim que você vê,
A rosa que você colhe,
O corpo que você toca,
A relva que você pisa.

Meu sonho é ser
O perfume que você usa,
A pétala que você beija,
A música que você ouve,
A oração que você reza.
 Meu sonho é ser
Um pingo de orvalho em suas mãos,
Um raio de luar em seus olhos,
Um grão de areia em seus pés,
Um instante de vida em sua vida.
Meu sonho é ser
Um sorriso em seus lábios,
Um sonho em seus sonhos,
Um amor em seu coração,
Uma eternidade em sua vida.

Meu sonho é ter a sua beleza, a sua meiguice, o seu coração, a sua alma.
Meu sonho é ser apenas um pedacinho de você, para sempre.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

[0582] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (20) Nuno Rebocho, as palavras necessárias


No “Discurso do Método” do seu poetar, o autor debate-se com o esquecimento que alguns bem desejam que um triste passado faculte, desafiando “o lugar sagrado dos testemunhos”. Quis sempre passar ao “outro lado das paredes da vida”, dilatando os momentos já vividos (e nunca esquecidos). O poeta o afirma: “a escrita é um risco, um assalto, um crime” onde há um cadáver em cada verso e um mistério à espera de decifração”.


A CELEBRAÇÃO DO ESQUECIMENTO


estilhaçam-se as ravinas dos segredos quando as vozes atravessam
o calcário da intimidade: o sagrado lugar dos testemunhos
onde as presenças cheiram. é aí que o esquecimento dói e eu passo
ao outro lado das paredes da vida coada do salitre
desvendando os lugares. sempre queremos
a dilatação dos momentos ou as palavras mudas e murchas
como baterias de mortes (as mortes que vão acontecendo dentro
dos dias); as palavras mudas como plantas adormecidas
nas águas paradas; as palavras mudas das retaliações e dos tratados
como arames farpados nas fronteiras existentes; as palavras mudas
que se mudam nos núcleos cerebrais e deixam o rasto.
no calcário da intimidade desbravamos as loucuras e passamos
(como eu passo) ao lado das paredes para desvendar os lugares.

fecho os portais para a necessária pudicícia
de me buscar: a escrita é um risco um assalto um crime.
como podem saber que há um cadáver em cada verso
e um mistério à espera de decifração? e que fariam
aqui as polícias quase incólumes à corrupção do tempo?
é desnudo que escrevo como faço amor
e depois me liberto do sangue e dos vestígios: o crime
perfeito com bacanais de interrogações e de buscas.
deixo que a penumbra feche o quarto este quarto
dos meus segredos por onde os papéis navegam
e os dedos se perdem na procura das dúvidas.
se os meus senhorios soubessem destas poucas vergonhas
davam-me ordem de despejo e perdia o lugar de me esquecer.

é na claridade que as coisas se confundem: as coisas
são indefiníveis e múltiplas porquanto a unidade é o esquecimento
por onde a luz entra pelas janelas a indicar-nos as rotas onde
as coisas se fazem objectos e pessoas onde os lugares
se definem no breve momento da memória. tudo é disperso
e o esquecimento constrói-se como um traço de união
com a eternidade (seja ela qual seja) por onde a luz
é apenas a velocidade do possível (seja ele qual seja).
é na claridade que as coisas se destroem e se definem
e se preparam para o estonteante. na claridade
preparamos a memória para o esquecimento.

[0581] Djami Sezostre, o neo-experimentalismo brasileiro biossonoro


Djami Sezostre, nasceu no Rio Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, em 1971, Criador da Poesia Biossonora e da Ecoperformance, espetáculos apresentados no Brasil e América, Europa e África. É criador/curador do projeto de pesquisa de poesia de língua portuguesa Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética e também criador/curador do Encontro Internacional de Leitura, Vivência e Memória de Poesia Terças Poéticas (Belo Horizonte/Brasil). Editor da Anome Livros. Ensaísta e poeta. Está pela segunda vez em Ibn Mucana.


MENINO JESUS É REI 

Alvez eu screva um oema epois do atal
E alvez eu screva um oema epois da assagem
E ode ser que o oema ale de uzes e ão de rzes
E do eregrino que asceu na strebaria e ndou
Luminado elo undo de elém e epois

Orreu na ruz ara alvar os omens Alvez
Eu screva um oema que ale de az Alvez
A az eja um írculo de strelas adentes
Aindo ozinhas ao éu huviscam a oite
Que é iva e ediviva de aga-umes

Leluia, enino esus é ei-
É ei, É ei, Ér Rei.


SUDÁRIO 

çim jeuss csrito ivev edntro de mmi
eel drome em mniha csaa em mniha cmaa
eu eo ajno de lux msorto os ohlos de lúzifer
e jeuss bieja mniha bcoa os libáos cehios de erestlas
eu o ajno de luaz vvio de parzser vvio e fmoe

fmoe e sdee de sxeo jeuss um

jeuss de ohlos mohlados
ohlando osm e usohlos mohlados
eu o ajno de luz com a sdee do mnudo
a sdee em mniha línuga

o
ajno de luz teprdao na curz
o sbulime o ajno ridevvio de lu

z
abra

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

[0580] Hellman Pardo, a jovem poesia colombiana


Nascido em Bogotá, Colômbia, em 1978, Herman Prado, contista e poeta, Prémio Eduardo Carranza em 2010; Casa Silva em 2011, Prémio do Festival Internacional de Poesía de Medellín em 2014 e Prémio Nacional de Poesia Eduardo Cote Lámus. Membro fundador da “Revista Latinoamericana de Poesía La Raíz Invertida” .


EL COJO BARRIOS, GUARDAGUJAS

El comisario de caminos dice que soy el empleado
                                               que ajusta los desvíos del ferrocarril.
La afirmación es vaga.
Es cierto que enlazo las bifurcaciones del día,
                                               las cargas que arrastran la ceniza de los torturados,
sin embargo,
prefiero que las buenas gentes me recuerden
como un anacoreta del olvido.
Lo destruido se ahúma en cada aguja removida.
Encarrilo los compartimentos que temen inclinarse
                                               por el peso de carbones recién extraídos en la desgracia.
Es tarde. El tren dejó de anunciarse hace cinco meses.
Aún espero sus vagones sonámbulos
                                                       en la línea que traza la distancia.


LORENZO CERCAS HIJO, POSADERO

Hace algún tiempo,
cuando la penumbra aún invadía los arrecifes,
llegó a mi posada un fabricante de camafeos.
                             
                Traía siete arcones cargados de piedras.
Malaquitas de Benín, ámbares de Letonia, obsidianas de Mozambique.
Al soplarlos,
según instrucciones precisas del comerciante,
                             
                los relieves de esas piedras
                             
             adquirían los rostros de antiguos emperadores.
Una María Estuardo tristísima,
más triste que el artesano,
tenía en la mirada una esquirla de oscuridad
                             
                 propia de los reyes decapitados.
     La barba del cónsul Lucio apenas se asomaba en una flor de mármol.

Sobre la cabeza de Erzsébet Báthory
                             
pendía una tiara hecha con la piel de sus sirvientas.
Los arcones del fabricante de camafeos
quedaron vaciados,
                             menos uno.
El séptimo, decía,
contenía los ajuares de Ana Bolena,
               sus seis dedos que tallaron las rocas de una isla.


LA LLORONA

En las Guerras del llanto
               solo persiste la sal en la lágrima.
Toda aldea conserva sus espantos,
               su manera de preguntarse
                              si lo irreal es también posible.
En Catalpa,
por ejemplo,
                              se oye el torpe rastro de La Llorona,
un ronroneo en los matorrales prohibidos
                                                   de lo lejano.
Por su espalda
       desciende el cabello
              como cascada de árboles,
tálamos de siemprevivas
                      que agitan los ángulos del río.
Un escapulario ampara
                              sus huesos húmedos.
Sumida en la vergüenza,
                              se envuelve con la túnica del arrepentimiento.
La Llorona tiende a chapolear el agua,
          a enlodarla con su grito culpable.
Cuando la medianoche se enmusga en el tiempo,
                                                             el llanto salta la planicie,
sus altas quejas profanando
                                              el tímpano de los durmientes.

[0579] Héctor J. Freire, o cinema da poesia


Nascido em Buenos Aires, Argentina, em 1953, professor, crítico literário e de cinema, fundador da Escola Literária do Teatro IFT, membro do Conselho de Redacção da revista “Topia (Psicoanálisis, Sociedad y Cultura)”  e director da revista cultural “La Pecera”, Prémio Fondo Nacional de las Artes. Está em Ibn Mucana pela segunda vez.


NATURALEZA MUERTA  

                                        (Canasta con frutas, Caravaggio)

Nada hace prever en el color de las frutas
su muerte próxima.
Sueñan al borde de la mesa
donde se agitan suavemente
en las ramas más altas y flexibles.
Instauran la armonía de los cuerpos blandos:
-lo bello suele estar cerca de lo corrupto-
Unidas por un hilo de luz,
esas frutas no son más reales
de lo que pueden serlo en una pintura.
En esta “naturaleza muerta”,
una luminosa cortina amarilla se deja caer
más allá de la espesura de los años.
Al amanecer los simulados árboles
se volverán a mostrar tras las sombras de las hojas.
Y sin embargo, en esta canasta con frutas pintada
en 1596, por el violento y fugitivo Caravaggio,
un claro resplandor se seguirá esparciendo:
el silencio de una escena única que se precipita
sobre el dibujo animado del horizonte.
“Su valor radica en el hecho de estar aquí y no allí”.
Ahora, el sol proyecta su dedo de sombra
sobre el lienzo y rompe la permanencia
con que se disfraza: es una luz íntima
y este instante es perpetuo.


CAMINO A EPIDAURO
                                                  El Espíritu es una cosa que dura.
                                                                               Henri Bergson
                                                     
Cada pedazo de tierra es una construcción en ruinas
que no se repetirá nunca,
una escritura cifrada detrás de la cual
plantas y animales se encuentran por primera y última vez.
Sólo la abundancia verbal para el saber sin nombre de las piedras,
mientras los Tholos de Asklepios* son el primer reflejo
de la eternidad en la luz, el silencio como aura: color marfil y oro,
fruto abundante entre los dientes de Artemisa.
Impasibles, los insectos se han detenido en el follaje
y sólo los árboles parecen estar vivos:
“Dionisio ha sido domesticado por la mirada de Apolo”.
Ahora, la sombra disminuye y los mismos árboles
conforman un único punto ante el vacío ficticio
de las manchas de sol del otoño.
Brillan negros y blancuzcos,
a la vez son frágiles y ricos en movimientos
que apenas se perciben.
Ningún sonido revela la proximidad de una presencia,
y a su alrededor parece duplicarse el silencio del mediodía.
En ese instante de lamento sonriente, el porvenir es traicionado:
-“Grecia es un fósil saturado de sol”-
Ahora reluce la niebla y tiende un velo palpitante sobre la lejanía.
Hay cambio e intercambio; en Epidauro
nada permanece y nada desaparece por completo.
-“¿Y qué otra cosa necesita este paisaje?”-
Se disipó el día. Se escucha un sonido desde la oscuridad.
Es la hora en que “la vida paga el óbolo de la hoja de olivo”.**
A lo lejos, entre los cipreses y los almendros,
mujeres de negro parecen flotar inmóviles.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

[0577] Nuno Júdice, poesia nascida das palavras


De seu nome completo Nuno Manuel Gonçalves Júdice Glória, nasceu em Meixoeira Grande, Portimão, em 1949. Professor universitário, ensaísta, dramaturgo, escritor, tradutor e poeta. Ex Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris, onde também dirigiu a delegação do Instituto Camões, foi director da revista “Tabacaria”, editada pela Casa Fernando Pessoa, e dirige a revista da Fundação Calouste Gulbenkian “Colóquio-Letras”. Obteve o Prémio de Poesia Pablo Neruda, o Prémio do Pen Club de 1985, o Prémio D. Dinis da Fundação Mateus de 1990 e da Associação Portuguesa de Escritores de 1994, o Prémio de Poesia Ana Hatherly, em 2003, o Grande Prémio de Literatura de 2007; o Prémio Internacional de poesia Argana, em Marrocos (2014), o Prémio de poesía Poetas del Mundo Latino Victor Sandoval no México, também em 2014, o Prémio Literário António Gedeão em 2016, e o Prémio Internacional de Poesia Camaiore, em Itália,  em 2017.


RECEITA PARA FAZER O AZUL

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.


NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.


A ROSA COM SEDE

Sedenta a chuva, a rosa caída esperava
que a regasse naquela tarde em que
o calor abrasava a terra. Ergui-a e,
enquanto as suas pétalas s abriam

para que a água escorresse por entre
elas, passei a mão pelo caule sem
espinho, suave como a pele da mulher
amada, até chegar à flor que me

revelava a sua cor. Assim, a tarde
passou, e a rosa já saciada ergueu-se
do seu lençol de folhas, renascida

no seu canteiro como corpo que desperta
para a vida, e ofereceu-me o seu rubro
botão, húmido dessa tarde de verão.

[0576] Maria F. Roldão, compradora de metáforas


Alentejana, nascida em 1965, socióloga, professora e poeta, directora da revista “Nervo”


ANTES DE MORRER

Antes de morrer
é imperioso sossegar a brisa
e colher do céu retalhos de azul
para vedar a caixa das memórias

Deve libertar-se o som dos ossos
e enrolar um nome na última saliva

Por dentro do silêncio
cuspir o chão de uma estrela


CALIGRAFIA

As mãos procuram livrar-se
da pequena escrita
Soprar tinta para os olhos

Assuntos violentíssimos
submersos
na caligrafia

Impossível descrever o mundo
com uma caneta na mão.


PERCORRO-LHE O CORPO PEQUENO

Percorro-lhe o corpo pequeno
verificando as falhas
os excessos
Entro e saio inúmeras vezes
da loja das palavras
em busca de sinónimos
Compro metáforas
a peso de ouro

Fica caro o poema
– ruína do poeta.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

[0575] Ana Barbeiro, a psicologia da poesia


Investigadora e docente em Psicologia e Ciências Socias na Universidade de Lausana e poeta.


AFERROLHAI

aferrolhai
as portas
aferrolhai

em duas
voltas
aferrolhais-vos


SEM TÍTULO

correndo
ao encontro
fujo
às arrecuas

lanço-me
em frente
se é para baixo
ou a sul do poente

descaio
e a estibordo
catapulto-me
ao sol

às vezes
em demasia
durmo


UM BICO DE GAIVOTA

um bico
de gaivota
com flores
no ninho

[0574] Rui Teixeira, a teologia da palavra


José Rui Teixeira nasceu no Porto, em 1974. Filósofo e poeta, é director e presidente do Conselho Científico da Cátedra Poesia e Transcendência [Sophia de Mello Breyner Andresen], na Universidade Católica Portuguesa no Porto. Membro da Asociación Latinoamericana de Literatura y Teología e da European Society for Catholic Theology.



SEM TÍTULO

Os filhos são insectos de alabastro
nas noites de insónia das mães
e os telhados deslizam para a parte
da frente das casas, anunciam a ruína.
Há dias em que os pressentimentos
perseguem-nos como cães, as noites
de verão, as prensas nos dedos,
os úteros dentro das mães.
Foi a tua morte que explicou a casa,
o modo como se dispõem geometricamente
as rosas sobre a terra.


DIÁSPORA

Houve um tempo em que eu desconhecia o medo.
Deus ainda amava os filhos dos homens
quando, anos mais tarde, parou de chover.
Caiu-te um livro nas mãos como um presságio.

É verdade que espero ainda o rumor branco
das planícies, a superfície da manhã,
a tua boca como o estio.


ÓBICE

O que fizeste, mãe. Pergunto
sobre o talude da infância.
Hoje escrevi três poemas.
Protesto, estrábico e ensimesmado.
Penso salmão velho contra as paredes.
Não é desolação, mãe. Na cama,
quando anoitece, é à erosão
que me aconchego, com a roupa
de rua. E fecho os olhos para ver.

[0573] Sessão de poesia na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa

Decorre amanhã - dia 15 de Fevereiro, a partir das 18H30, na Associação Caboverdeana de Lisboa (ACV), Rua Duque de Palmela, nº 2, 8º andar- uma sessão de poesia com o mote “Por um Mundo sem Muros – Contra Todos os Muros, Erga-se a Poesia!”. Trata-se de uma iniciativa do Movimento Poético Mundial a decorrer este mês, em mais de cem países e nela participam Luís Carlos Patraquim, Zetho Gonçalves, Ana Paula Tavares, Mário Máximo, Filinto Elísio, Regina Correia, Ozias Filho, Carlota de Barros, José Luís Hopffer de Almada, Valéria Carvalho, Luísa Fresta e Carla Correia.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

[0572] Novo livro de Jorge Carlos Fonseca

Publicado pela Rosa de Porcelana Edições, será divulgado no dia 18 de Fevereiro, pelas 17 horas na marina de Oeiras, em Portugal (restaurante Charkoal), o último livro do escrito Jorge Carlos Fonseca, Presidente da República de Cabo Verde: “A Sedutora Tinta de Minhas Noites”. 


[0571] Cristina Carvalho, quem sai aos seus...


De seu nome completo Maria Cristina Nunes da Gama Carvalho Meira da Cunha, é filha de António Gedeão e de Natália Nunes. Nasceu em Lisboa em 1949, é escritora e poeta


DESPREZO

De forma que, com o passar dos tempos
sem saber se os tempos se resumiram a anos, a dias, a momentos,
tudo se dissipou.
Ao olhar para aquele carro estacionado ali na encosta do passeio,
as ervas a crescer pelos interstício das jantes,
os vidros foscos, baça a carcaça, sem cor nenhuma e a culpa era do sol
da lua e do luz de todos os astros celestes,
não me revi nem consegui lembrar-me de como entrava, sacudida, leve, levíssima, /cigarro entre dentes, solta como uma música.
Já não me lembrava de nada que me ligasse a esse objecto,
o meu próprio carro.
E, no entanto, logo ao ver-te na mesma situação que eu em tempos tive, admirei-te e ao /admirar-te,
revi-me e ao rever-me,
lembrei-me e ao lembrar-me,
esqueci-me.

[0570] José Carlos Barros, a arquitectura do protesto


José Carlos Barros nascido em Boticas em 1963. É arquitecto paisagista, político (deputado) e poeta, recebeu o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2009. 


NÃO INVENTES

Não venhas cá com merdas. Não inventes.
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas.
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas.

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece;
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece.

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar.

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor.


A INVENÇÃO DA BICICLETA

Tudo o que fizemos no domínio
dos transportes desde a invenção da bicicleta
só contribuiu para melhor compreendermos
como a bicicleta é útil e bela
e comovente. E é mais bela e útil
e comovente quanto mais
os corredores aéreos enchem os mapas
dos controladores de voo e quanto
mais os viadutos se cruzam
e sobrepõem para dar vazão às filas
de automóveis nas pontes
dos feriados. As crianças
conhecem os segredos do vento numa
roda pedaleira. As bicicletas
e os bosques abrem no verão em simultâneo
os pequenos açudes luminosos
da infância. Depois do vidro e da roda
a bicicleta foi uma das mais
belas e inúteis e comoventes
invenções da história do homem.


MAIO DE 1942

Nos braços erguidos de Stevan,
no seu olhar confiado, nas suas pernas
firmes pisando o cadafalso
de tábuas, a morte reduz-se
a uma insignificância vergonhosa.
Stevan Filipovic morrerá
alguns segundos depois. Ainda assim é
confiante que cerra os punhos e
grita em nome do azul da jugoslávia
que permanecerá para além do apertar
de uma corda em redor do seu pescoço
jovem. A pátria é muitas
vezes um lugar imenso onde só os
carrascos choram no instante do crime.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

[0569] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (19) Nuno Rebocho e a constante liberdade


Retirado em Cabo Verde, Nuno Rebocho manteve a constante sedução pela liberdade, ainda que a paisagem à sua volta parecesse ser pouco convidativa da não cansativa “sagrada esperança”: sempre a liberdade vadiava.


ENTREMENTES

quando as acácias rugiam
aos alísios e as galinholas grasnavam
sua solidão por entre as ramagens
eu era feliz
apesar de exilado
era feliz

chamava pedra às pedras
enquanto o mar molhava esperanças
chamava vida à vida
enquanto roía as unhas de algumas mágoas

chocalhavam as agruras
onde a liberdade agoniava sedições
- a liberdade vadiava
mas não cansavam as emoções

antes voltasse ao que já foi
que sentir cair os dentes
e vomitar presentes

[0568] Adão Contreiras, um triturador de imagens


Nascido em Lagos em 1944, professor, artista plástico e poeta


PALAVRAS HIBERNADAS E EM CONTRA LUZ

Manhã      a manhã quente que devora os homens na superfície dos nomes
Voz      a voz que escreve nas ardósias o pulsar dos corações
Elástico      o elástico matinal onde o luar se esconde
Claustros      as abóbadas de ferro onde o som se torna denso
Realidade      a descrita realidade como uma pulga saltando do berço
Objecto      o objecto que não existe no lume de alguns diamantes
Sombra      a sombra das palavras negras inconstantes sem farmácias por perto
Sonora      a sonora manhã encostada às espigas dos homens com forquilhas /penteando os azedumes da palha


SEM TÍTULO

No grave socalco
embandeiram  as nobres flores
entre o ser e o seu nó côncavo
o amarelo limão oscila

adormecido na tristeza oca
embutido de raízes
velhas âncoras
o sólido degrau  cai

as pequenas hastes velejam
cântico balançado
loucura gracejando ao vento
de nervosa angústia de água

calculo a verdade do tempo limão
que me leva da raiz à flor
na aziaga nudez do fortuito amarelo

brinda a culminância das núpcias
o dorso da inquieta penetração da luz
o lume, o incêndio moço da vegetação
debruando  a orla das muitas pegadas

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

[0567] Vitor Oliveira Mateus, a poemasofia

Nascido em Lisboa, docente universitário e poeta, Prémio Eugénio de Andrade de 2013.


SEM TÍTULO

Nas cidades de onde venho
secam as árvores ao som das sirenes
e os pássaros, alucinados, buscam direcções
nas pupilas das crianças.
Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,
enquanto os homens, imprudentes, desaprendem
a sublime auscultação da terra;
nem sequer o coração dos outros podem ler
ou o rumor inconsolável das águas
– para eles aquilo que apenas vêem!
E com um nó no peito desatado
pintam de harmonia um novo Caos


SEM TÍTULO

Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã,
só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice,
as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso
alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde
das acácias e das palmeiras e as rosas de Jericó
alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,
as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma
janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é
o teu corpo nu, exausto, branco como um templo,
porque todos os corpos são um templo no solo
consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil
e dançante caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer


SEM TÍTULO 

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas, enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer um frágil aceno, como quem convoca, no rendilhado
das areias, a beleza de uma miragem; espécie de visão fulgurante
onde uma porta auspiciosa se firma


Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas, enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer um frágil aceno, como quem convoca, no rendilhado

[0566] António Gonçalves, conselheiro poeta

António Domingos Gonçalves nasceu em Luanda em 1960. Durante cinco anos combateu nas guerras de Angola. Integrou a Brigada Jovem de Literatura. Foi Secretário-Geral da União de Escritores Angolanos. Engenheiro, docente e poeta, foi conselheiro cultural da Embaixada de Angola em Cuba e adido cultural na mesma Embaixada, desempenhando o cargo de Director Adjunto do Instituto Nacional das Indústrias Culturais, 


SOBRE ASAS E FIOS DE ROSA

Apesar dos abutres
e espinhos no sendeiro
construirei um castelo arfante
sobre o ar
A ser observado por formigas algemadas.
Sobre asas e fios de rosa
Sobre lentes de ovos combinados
Sobre cabos de mentes oblíquas
E...
Este não é poema
falta-me pontaria!


CÃO ENGORDADO A DEDO

Cão engordado a dedo
cospe no prato
que não só engoliu
como até espinhas
saboreou ao desbarato
durante anos e descaradamente.

Os novos vilões
são como capim
nascem com as primeiras chuvas!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

[0564] Paulo José Miranda e a poesia surpreendente



Nasceu em Aldeia de Paio Pires em 1965. Escritor e poeta, Prémio Teixeira de Pascoaes em 1997 e Prémio SPA em 2014.


EXERCÍCIO 32

e um dia despertamos
há um inferno crescendo do estômago até à boca
as crianças gritam nas ruas
perseguindo uma bola e um sol pobre
que transforma as botas em vassoura

arrasta-se por todo o quarto uma dificuldade em respirar
os pássaros cantam
indo e vindo dos ninhos na varanda
e o homem procura uma janela dentro do seu corpo
abre uma parede
um pequeno corte na garganta

não há nem uma noite em que não adormeça com medo
não teme a morte senão ao despertar

arrastar uma enfermidade é alimentar um império


POEMA

Lembra a primeira noite do mundo
Aquela em que te abandonaram no escuro
Sequer a chama de uma vela
Para iluminar as coisas e o limite imposto
Não esqueças por favor a primeira noite do mundo
Não se saber nada e um choro profundo


SEM TÍTULO

Experimenta escrever uma linha
E depois dessa uma outra abaixo da primeira
Escreve ainda mais uma por debaixo da segunda já traçada
Com esforço faz agora a linha quatro ser maior do que qualquer das três primeiras
Continua a escrever sem parar nunca
Linha após linha após linha após linha
Até que te percas do número correspondente às linhas já traçadas
E não consigas sequer escrever nem mais um ponto
Depois de fazeres tudo isto
E talvez muito surpreendentemente
Podes ver que não acontece nada

[0563] Fernando Pinto do Amaral e a aventura da poesia


De seu nome completo Fernando José Branco Pinto do Amaral, nasceu em Lisboa em 1960. Poeta, crítico literário, ensaísta, ficcionista e tradutor, foi comissário do Plano Nacional de Leitura.


SOMBRAS

A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando,
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós connosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.


RELÂMPAGO

Rompe-se a escuridão quando ao olhar
para uma face o mundo se ilumina
com uma claridade repentina
capaz de, só por si, fazer brilhar

a substância tão irregular
de tudo o que se acende na retina
e através da luz se dissemina
por entre imagens vãs, até formar

um fluido movimento, uma paisagem
a que estes olhos quase não reagem
salvo se nesse instante o rosto for

transfigurado pela fantasia.
E às vezes é só isso que anuncia
aquilo a que chamamos o amor.


SÉCULO XXI

Falam de tudo como se a razão
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses são fáceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um preço acessível: emoções
& sexo & fama & outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
- matéria reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder não existe, como sabes
demasiado bem - apenas uma
inútil recidiva biológica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis aos comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras metástases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem já pouco espera dos seus genes.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

[0562] Correntes de Escrita reunem 140 nomes da literatura na Póvoa do Varzim

De 16 a 27 de Fevereiro na Póvoa do Varzim decorre a 20.ª edição das Correntes de Escrita (a maior de sempre) com a presença dos chefes de estado de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de Cabo Verde, o poeta e jurista Jorge Carlos Fonseca. Com a presença de 140 escritores de 20 países, entre os quais três Prémios Camões (Arménio Vieira, Germano Almeida e Hélia Correia), as Correntes de Escrita são o maior certame literário organizado em Portugal.

[0561] Inês Lourenço, a poesia das coisas simples


Nascida no Porto em 1942, fundou e dirigiu os “Cadernos de Poesia-Hifen” (1987/1999)


MAMOGRAFIA DE MÁRMORE

Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.

Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.


RUA DE CAMÕES

A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.


PORTUGUÊS VULGAR

O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.

[0560] Conceição Cristóvão, a engenharia das palavras


Conceição Luís Cristóvão nasceu em Malanje, em 1962. Engenheiro, consultor, docente e poeta, fixou-se em Luanda, integrando a Brigada Jovem de Literatura, da qual foi Secretário-Geral. 


ESPIRAL DA VIDA

As horas caminham em espiral
lúgubres com(o)vidas
em calafrios urdidos
vultos à espreita sonegam.
iminentes.
o mundo grita seu cancro
em mil silêncios. cortantes.
de vidro e agonia.


IDADE DA PEDRA

(há um discurso de facas nas fronteiras lívidas do rosto.
a madrugada morre de leucemia. e ainda as florestas
não revelam as crateras abertas.
línguas de fogo economizam tristezas. deslizam águas
na luz da pedra.
oh, vidas de pedra, náuseas de pedra. na dura frágil
idade da pedra.)


LÁ LONGE O MAR CANTA

Lá longe o mar canta
Lá longe o mar cansa:
quem canta sou eu
entre os rostos de noite e céu!
Lá longe o mar canta
lá longe o mar cansa:
quem lavrou em mim o sono
e a voz e o deserto da voz?
Lá longe o mar canta
lá longe o mar cansa:
quem me dera não ser o mar
o mar que em mim canta. E cansa!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

[0559] João Rasteiro, a ternura das palavras

De seu nome João Manuel Vilela Rasteiro, nasceu em Ameal (Coimbra) em 1965. Funcionário da administração local, escritor e poeta, obteve vários prémios, nomeadamente o Prémio Literário Manuel António Pina (2010). Membro da Accademia Internazionale Il Convivio (Itália), do Conselho de Redacção da revista “Ofício de Poesia”. Em 2003 recebeu a “Segnalazione di Merito” no Concurso Internacionale de Poesia “Publio Virgilio Marone”(Castiglione di Sicilia-Itália), em 2004 obteve o 1º prémio no Concurso de Poesia e Conto “Cinco Povos Cinco Nações” promovido pelo Congresso Internacional de Literaturas Africanas e o 1º prémio do "II Concurso de Poesia NEFLUC-Faculdade de Letras". Obteve ainda o 1º prémio absoluto, na categoria de Poesia para autores estrangeiros, no Concurso Internacional “Premio Poesia, Prosa e Arti Figurative-Il Convivio “2004 (Verzella-Itália).


O CANTO DA MELANCOLIA

                              A Pablo Neruda

Um chão corpo carne indecisa.a memória
natureza de mãos que se fundem.a pele sexo
amor físico da terra.há um dilúvio verbal
que goteja o assombro.sob a corola o sulco
melancolia dos frutos.as sílabas mais tristes
línguas faiscantes.a carícia do caos raízes
palavras reverberas infinitas.na boca golfos
menstruados de silêncio.confusas unidades
feixes na respiração do mel.a distância feérica
na indolência redimida.o amor prefigurado
fístula sílica do canto geral.subversivo.
Acendo no odre das águas a morte.a seiva
cicatriz varada redentora.a palavra.o eco.


AS CÓRNEAS

Toda a beleza da morte a carne
no dorso onde as palavras acariciam a mão
aspergindo sexos o amor inclinado
na casa das mulheres o malogro
dos códigos nos gânglios as pálpebras
sinalizando as águas o rosto
entre os seixos e os búzios a ameaça
na carícia dos corpos outra luz
no aço escrito o fruto despido
nas veias dos arrumadores de palavras.


CORPO DE CAÇA

Num corpo de caça sagrado
onde as palavras se devoram entre si
o silêncio surge sob uma mancha de iodo
vestindo a terra com as asas dos mortos
o poema debate-se com a sua própria volúpia
envenenando os sexos e as bocas brancas
com o sangue virgem das suas vitimas.

As palavras embebidas em golfos
despem-se de suas longas vestes de água
nesse sangue e amam-no eternamente.

[0558] Cistóvão Neto, a engenharia das palavras


Cristóvão Luís Neto nasceu em 1964 em Malange. Engenheiro, crítico literário e poeta. Na ex-URSS, colaborou activamente com o Núcleo local da Brigada Jovem de Literatura de Angola. 


A ESCADA DO SUICÍDIO

Às vezes
um homem senta-se no chão
braços cruzados sobre a encruzilhada do destino
a terra ensopada de lágrimas a lamber-lhe a esperança.
Às vezes
atira-se à loucura carnavalesca da cidade
escamoteando um que outro incauto viandante
na vã e derradeira tentativa de escapar
ao abraço antropofágico da escada do suicídio.
Às vezes
lamenta em pranto
porque não há pão para o filho
este botão de rosa que quer desabrochar
na madrugada vazia que cruelmente se avizinha.
Às vezes
chora desperadamente
ignorando a fatalidade do seu botão de rosa
que tão logo murchou
a alegre brisa levou
Às vezes
veste a alma de álcool
para sonhar-se milagrosamente morto
fugir veloz no encalço da alegre brisa.
Às vezes
quantas vezes
esse mesmo homem caminha ao nosso lado
subindo a pirâmide irreversível da morte?


ALARME

Hoje
voltou a sangrar
o aroma do dendém
nas falas da fotossíntese
Hoje
rebrilhou da cópula celeste
o desígnio cícilico das estrelas
a voz perdeu-se-me nas heresias
- o braseiro consumiu mais a minha alma.
Soltou-se
o alarme estridente do cosmos
o sol cadente não pode lavar as sombras
mãos ofereceram-me nuvens dúbias e lama
- a chuva ensopou mais ainda a minha alma!


AUTOCARRO DO PRENDA

Vou no autocarro do Prenda
Vou do Porto ao Prenda no autocarro carregado
cheio de gente, cheio de gente:
o cheiro dos corpos enrolados e uma cabeça encostada à dúvida!
Olho à volta e sinto-me triste e feliz
com o autocarro que sobe devagar a avenida
sofrendo tão humanamente:
quem sabe porque o autocarro vai assim descontente?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

[0557] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (18) Nuno Rebocho, as "Canções Peripatéticas"


Publicamos os tradicionais poemas (às terças-feiras) deste autor. Do seu livro “Canções Peripatéticas”, recolhemos a “Lição das Dores”.


A LIÇÃO DAS DORES

não desesperemos que sempre um tempo
precede outro tempo e uma sombra
oculta outra sombra. os desassombros
também murcham como as papoilas
e podem ser tão efémeros mas a chuva os resgata
: servem para isso as sementes adormecidas
nos torrões e as vespas que nos viços os sugaram.
até os silêncios servem mesmo quando são lágrimas
e as noites são cansaços. as trufas
também se acolhem onde os sobros choram
na lição das dores - que são mestras
e tecem os dias felizes
com os fios das saudades. são penélopes
entretendo os calendários dos úteros envilecidos.
são os regatos que no seu percurso serão mares
e ensinam às bocas a vontade de cantar.



[0556] Letícia Herrera, a irredenta poesia mexicana

Nascida em Monterrey (México) em 1960, Letícia Herrera é professora universitária, poeta, promotora cultural e editora (Ediciones Caletita). Obteve o Prémio de las Artes em 2011


PROPUESTA JUSTA

mezclemos nuestros vellos púbicos
porque hace frío y la noche ha caído
seamos por esta vez amigos entrañables
de esos que se estrechan como para fundirse
no voy a pedirte que me dejes
porque te quiero mucho
tampoco quiero que te quedes a vivir
adentro de mis huesos
el pubis me dolería al caminar
si te llevara puesto
pero mira te propongo dame un beso
deja que descubra tu pecho
que te muerda las nalgas
y cuando quieras entrar en mí
no diré nada
me quedaré como una esfinge que goza
en silencio
o si quieres grito


CONSUELO

pero los amargosos somos en realidad
la sal del mundo
propiciamos el enunciado magro o profuso
de nuestras rarezas y temores
alimentamos las risas de los otros
que así se colocan a salvo del desastre
y cuando al fin morimos
dicen que qué bueno que dejamos
libre el espacio para algún niño índigo
que viene a salvar al mundo


POETA POBRE

ayer me buscaba la policía de la escuela
que por haber faltado a los deberes
y sí
           falté
así lo confieso
a veces me llueve y a veces me llovizna
en esta ocasión fue el ventarrón
que al alba me anunció una herencia:
el árbol del vecino
lucía ya sin su rumor de pájaros
tendido en mi patio
           tan sin vida
y hube de acompañarlo en las exequias
cuando eres poeta y pobre
te toca hacer de todo
lavar la ropa los domingos
correr al super   contestar llamadas
espantar merolicos y ladronzuelos
sacar la basura a medianoche
pasar la escoba por los cuartos
escombrar la recámara y la sala
buscar las ofertas de cerveza
también despedir a los árboles
de su rumorosa fronda
tocarles los brotes y las hojas
(que el asombro vuelve esmeraldas
antes de lanzar su grito al amarillo)
mi vida no es glamorosa
(y huelga que lo diga)
no me dicen maestra en los eventos
cuando acudo a la ceremonia del verso
en cualquier país remoto
donde haga falta con urgencia
la esperanza del canto
tejo y tejo las rutas
que me protegen del invierno
me salgo a caminar al sol del mundo
porque me es menester alimentar los ojos
de llanuras
de cerros
de mares
                      de lagos que adormezcan
el cascabel del miedo
de voces y risas que se crecen al llanto
y con la cizaña se hacen chambritas
no sé de condolencias
que de todo yo sé tan poco
pero siempre estoy abierta
a las malas conductas
qué otra cosa podría quedarme
en la indigencia sino decir que no
y decirlo tanto como precisen los grilletes
no no no no no no
pero mañana debo reportarme sin más
con la policía escolar y convencerla
de que la muerte de un árbol es motivo
de sobresalto     de abismal tristeza
y que además tenía que sacarlo a la banqueta
mutilado
porque soy el departamento de limpia
de ornato y forestación
de compras
de ventas
estibadora 
institutriz de gatos
chef de los frijoles y el arroz
y unos cuantos oficios más
que ya no me caben en el pliego

sábado, 2 de fevereiro de 2019

[0555] Novo livro de Nuno Rebocho na calha

NUNO REBOCHO VAI LANÇAR UM NOVO LIVRO DE POESIA: “ROTXA SKRIBIDA”

Com capa de Tchalé Figueira e prefácio de Danny Spínola, Nuno Rebocho vai publicar brevemente na cabo-verdiana Rosa de Porcelana Edições, colecção “Rose is a rose is a rose”o seu novo livro de poemas com título bem crioulo, “Rotxa Skribida”: é a recolha dos poemas por si escritos em Cabo Verde durante a sua longa estada neste arquipélago. Já com uma vasta bibliografia poética (“Breviário de João Crisóstomo”, “Memórias de Paisagem”, “Uagudugu, seguido de O Onanista e de um Poema a Lenine”, “Poemas do Calendário”, “A Invasão do Corpo”, “A Arte de Matar”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Arte das Putas”, “Cantos Cantábricos”, “Manual de Boas Maneiras”, “Canto Poliédrico”, “Discurso do Método”, “Canções Peripatéticas”, “Canto Finessecular”, “A Papaia”), além da sua participação em antologias em Portugal, Brasil, Espanha e Argentina e na colectânea “Desintegracionismo”, Nuno Rebocho acrescenta um novo título à sua obra.

[0554] Amélia Dalomba estreia-se no Ibn Mucana


Amélia Dalomba é nome literário de Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral, nascida em Cabinda, em 1961. Ambientalista, poeta, escritora, artista plástica, compositora, intérprete e declamadora, foi locutora, redatora, repórter do então Emissor Regional de Cabinda, bem como do jornal “A Célula”, Boletim de Informação Interna em Luanda. Assistente de Direcção da UECA – União de Estudos Espirituais Cristão de Angola e membro da Academia Estudantil de Arte Contemporânea (AEAC), Rio de Janeiro.



A CANÇÃO DO SILÊNCIO

A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo

O olhar de uma santa de barro

A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel

A canção do silêncio


ESPIGAS DO SAHEL

Espigas
espigas brotam do Sahel
pioneiras da liberdade
a caminhar sem cautela
pela floresta carregada de espinhos

Pessoas
pessoas
cruzam o meu caminho
penetram lentas e vagarosas
como
térmitas
na sala de interrogatórios
descubro o travo da
traição

Prefiro as hienas
e os lobos
que uivam constantes
todos sabem
donde e onde estão

Do ventre do bosque
ainda que faça silêncio
imaginam meu pensamento
ainda que cerre os dentes
e digo não penso
há gente que diz: mente

Não falo
não penso
oh gente da terra quantas vezes
ofereceis
malavu sem provar


HERANÇA DE MORTE

Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

[0553] Jorge Velhote lança novo livro de poesia

Apresentado por Amadeu Baptista e Maria Bochicchio e leituras por Isaque Ferreira e Rui Spranger, vai ser lançado no Mira Forum (Porto), o novo livro de Jorge Velhote, “Âmago” (da Edições Sem Nome). Segundo o autor, estes poemas são dedicados a quantos com ele compartilharam a sua intensa actividade cultural.


[0552] N.º 4 da revista "Nervo"

Acaba de ser publicado o n.º 4 da revista de poesia “Nervo”, tendo como tema central nesta edição “O que andam a escrever os nossos poetas contemporâneos?”. Apresentada na Biblioteca Municipal do Entroncamento, a revista traz intervenções da sua directora, Maria F. Roldão, do historiador Henrique Leal e de Nuno Garcia Lopes.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

[0551] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (17) Nuno Rebocho e a demanda da liberdade


TU PROCURAS

Tu procuras a sementeira que alguém rasgou pois esse é o sinal
de que chegarão as asas das aves quando o sol mourejar.
Então os estampidos traduzem os homens cujas bocas se abeiram dos regatos
para tomar em mãos o sangue da carnificina e então serás
o que há-de vir no percurso dos silêncios, o mesmo percurso das tectrizes
e das borboletas que, porque voam, navegam entre as papoilas
e as estevas. E então dirás que a liberdade também se esquece
como o furor aquece a linfa. E então estarás teso
como o eucalipto que já secou a fonte.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

[0550] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (16) Nuno Rebocho reptilíneo


SOVACO DA COBRA

o sovaco da cobra resguarda o saco dos segredos
à mistura com a mentira dos medos: guarda o que pode
e o que sobra sacode juntamente com os dedos.
é preciso dizer que a cobra engorda aos solavancos
da ira desfeita (olá cobra imprudente –
que como o ponche se ajeita) e à espreita
espoja-se no pó da terra branca. plasma-se a luz
que na acácia se espanta.

mas os segredos – meu deus quantos enredos
se burilam no canto do lobo e eu fico
pasmado como os rochedos resistem à dor
do mar. e eu fico especado perante a tarde
que se deixa cobrar. só a cobra engrena
os desvelos de ficar por aqui preso
pelos cabelos e ser a vontade guardada
na calma tempestade da achada.

salva-me o sovaco: o suor e a canseira
de ser outra ilha de outra maneira.
de ser barco ou ser vento ou ainda avião
numa viagem carpida por dentro. ou não

ou sim. ou talvez assim

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

[0549] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (15) Nuno Rebocho, sempre a esperança


IRREDENTA ESPERANÇA


                              A todos (amigos e inimigos)
                               
escondo-me no saco dos brinquedos:
ainda aí guardo esperanças e segredos
fechados a sete chaves.
deles por enquanto nada direi
- quero-os irredentos
puros (sagrados)
como serão os corpos nos noivados
e são as mulheres que eu amei.


escondo-me mas não deserto. fico
à espreita na tocaia a que me dedico
sempre à espera de novidades.
sei que virá o tempo
de abrir o saco
e sacar lá de dentro outro pacto
com a chuva com o sol e com o vento.


eu sei: virá o tempo. e então direi
quanto esteve sufocado e conservei
com força de medrar e viço
e alma. direi o chão
da aventura
regada pela viva água da ternura
onde por nossas mãos brotará o pão.


eu sei: virá o tempo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

[0548] Manuel (d'Angola) de Sousa, poeta contra os silêncios


Nascido em Lisboa em 1930, Ricardo da Costa Manuel está radicado em Angola, considerando-se mais angolano do que muitos angolanos”. Livreiro e publicista.


ESFREGANDO O SILÊNCIO DA ARDÊNCIA NA CÓRNEA DESFEITA EM ÁCIDAS LÁGRIMAS 

Sopro o pífaro em retirada acelerada
Fujo da realidade actual e pulo fora
Retiro às pressas tudo o que tenho dito
Retraio todos os preceitos atrás de um pilar…

Escavo sem fundamento as fundas fundações
Enceto uma correria contra o tempo para me ocultar
Corto caminho indo às curvas e aos ziguezagues
Abençoo-me o melhor que consigo ou posso…

Oiço os Anjos a tocarem as cornetas triunfais
Subo subitamente a escadaria para me juntar a eles
Deixo o portal aberto para que vêm a seguir
Vou à varanda espreitar miragens à distância

Borro a escrita toda com um mero mata-borrões
A fita das inaugurações chegou à justa ao fim
Deslizo pelo gelo tão logo começa o degelo das águas
Jogo flores e pétalas para a esquerda e para a direita

Enfio-me a eito por um beco de saída exígua
Julgo sumariamente e condeno actos explosivos
Expurgo e expulso indomáveis Demónios do corpo

Exorcizo as maldade e mágoa santificando o espírito

Exponho galerias de arte sacra exposta a sacrilégios
 Somo números primos improváveis a fenómenos estranhos
Começo aquilo que antes acabei ou conclui no final das contas
Abordo com adequada suavidade as questões mais difíceis em silêncio…

Rodopias
suavemente/mente em
harmoniosas sinfonias
de odores fortes
- suor acácia fêmea rosas
cravo macho.
Me lembras
em tua carne rija bronze
Terra
mar encapelado
outono
fruto maduro
caju apetecível

Escrito em Luanda, Angola, a 10 de Abril de 2017, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em pleno sentido Pesar e em Solidariedade com o Povo Egípcio e sobretudo, com a vitimizada Comunidade Crista Copta do Egipto e em vigoroso repúdio aos odiosos, vis e trágicos atentados mortais, perpetrados pelos inimigos do Espírito da Paz e Inter-Religioso Mundiais, em um par de Igrejas Coptas do Egipto...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

[0547] Voz d'Aurora (ou Elias Chipalavela), a novíssima poesia angolana


Pseudónimo de Elias R.B. Chipalavela, nascido em Mavinga (Huambo) em 1992. Membro da Brigada Jovem de Literatura, é cofundador da Associação Grupo de Busca e Difusão do Saber. Actor no Morro do Moco e formador de Literatura.


SENHORA NOSSA MERETRIZ 

Na berma não tem cicratiz alguma
Olha p´ra quem diz, senhora nossa meretriz
Na berma, nada mais espanta,
Seu retrato desencanta, senhora nossa meretriz

Os velhos clamam, os velhos reclamam
Mas quem será o juiz?
Gritos daqui, gemidos dali,
E ninguém prediz.

Na berma, só quem conhece o asfalto
Só gente de betão!
E a gente quem vem lá da ombala?!
Os velhos clamam, os velhos reclamam,
Mas quem será o juiz?


NEGRA KIANDA

Fala-se da bel kianda
Rainha do mar sob as ondas a perfilar
Conta-se nesta Luhanda, talvez lenda seja kianda
Que aqui em Luhanda anda

Canta-se da bel kianda
Prosa ou poema, sonhos do mar ou maresia?
Só em Luhanda há
Além a lenda anda, anda a lenda da bel kianda

Fala-se da bel kianda
Kianda no mar, na fábula da banda
Quis meu pincel dela expressar
Só meu lápis de carvão, no cordão da emoção
Soube kianda então representar

Projectam-se marés de ideias sobre o poder desta sereia
Kianda menina, do mar a padroeira
Que bela é a kianda
No dizer das palavras, na acção, concepção das ideias
Tem poder, tem alma kianda, menina, velha sereia

Diz-se que é no mar, é no mar que ela anda
Mas é no mar? Onde anda?
Deixai kianda relíquia da banda
Deixai kianda, negra kianda, que aqui a lenda anda,


CALARAM-LHE A BOCA COM PIPOCA 

O tamborim da terra já não toca mais
Já não suspira, não toca nem ronca mais
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca

Já não se canta nas ombalas e serões de nossa tradição
Já não fala das malambas e o luto farfalhante no olhar da nação
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca

Não clama nem reclama seu lugar também
Nem se juta à nós nas noites sem manjar
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca

Nakambiote também esqueceu de sua identidade
Esqueceu de ser gente e o valor da liberdade
 Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca

Olha que senhor juiz também perdeu dignidade
Divorciou-se da verdade para alimentar as vontades…
Cremaram-lhe a boca, cremaram-lhe a boca com pipoca

Polícia agora não é agente mais
Deixou de ser agente para ser vagagente
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca

Nakambiote viu o professor comer a Margarida
– como ela já aprovaste e não estudes mais –
Assim disse o professor
 Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca


O GRITO DOS KANDENGUES

Entre sonhos e sonâmbulos, o grito dos kandengues
A noite cai em prantos, não há manjar no prato!

Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Sem manjar no prato, mamã não dormiremos
Papá é bom de prosa, mas nossa fome já não cega

Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Sem manjar no prato, mamã não dormiremos
Medo temos de dormir, medo temos de não mais acordar

Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Não há manjar para acalentar a fome, a revolução do estômago
Nem palavras que possam nutrir talvez os nossos ânimos

Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Entre sonhos e sonâmbulos, o grito dos kandengues
Não há manjar no prato: noite cai em prantos!