sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

[0726] Na passagem do 1.º aniversário da morte do Nuno Rebocho

 

Passou no dia 12 o primeiro aniversário do falecimento do poeta, escritor, jornalista, radialista e conselheiro autárquico Nuno Rebocho (1945-2020), a quem a Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), Cabo Verde tanto deve. Honra seja feita à memória do nosso amigo e amigo da cidade-berço de Cabo Verde. Ver AQUI a sua biografia.

Fundámos ambos este blogue e o seu "irmão" Contos da Tinta Permanente, hoje com o título mais abrangente de Textos da Tinta Permanente (ver AQUI), dedicado a poesia. Foi uma convivência longa e de grande camaradagem, com a poesia, a prosa e o amor mútuo por Cabo Verde em fundo. 

Estejas onde estiveres, Nuno, recebe um grande abraço deste teu amigo de escritas e morabeza.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

[0725] Miguel Ángel Gómez Naharro (Naharro) cantautor da Extremadura espanhola, lançou novo disco (ver post anterior, 0724)

[0724] Miguel Ángel Gómez Naharro (Naharro) cantautor da Extremadura espanhola, lançou novo disco (ver post seguinte, 0725, com filme e comentário)

Concerto em Lisboa, em 15.3.2018
O cantautor Miguel Ángel Gómez Naharro, mais conhecido no meio artístico espanhol por Naharro, acaba de publicar um novo CD. Neste caso, duplo. A publicação constitui o registo número oito deste amante da folk que tendo-se dedicado à educação por quase quatro décadas como professor (agora aposentado) de língua castelhana nas comunidades de Catalunha, Madrid e Extremadura, nos apresenta este trabalho gravado em Mérida com grande qualidade por Luis Cotallo de Cáceres e Juan Chino Flores.

Um dos discos, com o título "18 poetas contemporâneas com música de Naharro" contém textos que apresentam a sociedade dos nossos días, vistos por escritoras espanholas e hispano-americanas da actualidade. As autoras são Rosa Mª Artal, Isabel Blanco, Meri Pas Blanquer, María Carvajal, María Esquitin, Marina Casado, Alicia García Núñez, María Guivernau, Julia Gutiérrez, Anna Heredia, María Luisa Lázzaro, Ana Pérez Cañamares, Mª Ángeles Pérez López, Rosa Sala Rose, Tarha Sarmiento, Cristina Vazquiánez, Montserrat Villar e Karina Zulueta. 

O outro disco, "Água fresca", é composto por 10 canções da autoría exclusiva do Miguel Ángel.

Em ambos, Naharro conta com músicos de elevado nivel que souberam dar o som que ele buscava para esta nova proposta musical. Sáo eles Pepe Burgos, o maestro José Carita (Portugal), Juan Chino Flores, Manu Clavijo, Gustavo Hortoneda, Jordi Mª Macaya, Ángel Morilla, Juan Luis Sánchez e Juan Vargas.   

Também colaboram vozes que trazem sentimento, calor e doçura aos temas: Isa Burgos, Tachï Escribe, María Esquitin, Ana Gómez, Julia León, Susana Pérez Gómez, Trinidad Rivas, Miriam Sáez, Antonio Salas, Sara Veneros e Enriqueta Vidal.

A capa de “18 poetas contemporáneas con música de Naharro” foi realizada pela ilustradora Raquel Gu e a de “Agua fresca” é obra do desenhador e caricaturista Kap.

Miguel Ángel produziu em 1992 o seu primeiro LP em vinil, "Paseo literario por Extremadura", recolha de coplas tradicionais da sua província, Campo Arañuelo, revitalizando o "romance da serrana de La Vera" e musicalizando trabalhos dos poetas extremenhos Bartolomé Torres Naharro, Juan Meléndez Valdés, José de Espronceda, Carolina Coronado, Luis Chamizo, Jesús Delgado Valhondo, Manuel Pacheco e Pablo Guerrero. 

Em 1995 gravou o CD "Paseo hispánico (Poetas XII-XX)". Este álbum foi uma resenha sinfónica das línguas vernáculas da Península Ibérica, através de poetas como Gonzalo de Berceo, Ramon Llull, Ausias March, Luís de Camões, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo, Pedro Calderón de la Barca, Francisco de Quirós, Juan Ramón Jiménez, Federico García Lorca, Salvador Espriu, Gabriel Aresti e Celso Emilio Ferreiro. Também incluía 'Naturaleza (Durmil a rucíu)', um poema anónimo escrito na 'fala de Xálima', que foi usado pela primeira vez numa gravação musical e é típico de Eljas, Valverde del Fresno e San Martín de Trevejo, cidades do noroeste da província de Cáceres.

No verão de 2001 lançou o CD "Vida" em que fez covers de romances tradicionais como Giraldo, Gerineldo e Valdovinos e juntou-lhes a canção infantil "La chaquetía" e a combinação de bulería e verdial, "Y que cante". Também incluiu "Palabras para Julia" de Paco Ibáñez e "Gracias a la vida" de Violeta Parra, e musicou dois poemas de José Miguel Santiago Castelo e Antonio Gómez. Por fim, apresentou quatro canções próprias com temas diversos: Uma piscadela para os deficientes ('Igual'), um simbolismo sobre os migrantes, ('Na estação Atocha'), um exemplo de emoção ('Amor sem fim') e Raio X da juventude do momento ('Brave rebentos de relva').

Em 2004 publicou o CD “Canciones Lusitanas” em que musicou trabalhos de poetas de Portugal e Extremadura como Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Nicolau Saião, Luís Filipe Maçarico, Ruy Ventura, Gabriel e Galán, Rafael Rufino Félix Morillón, José Miguel Santiago Castelo e Álvaro Valverde.

Em 2006 publicou sua quinta gravação, o livro-CD "Canciones Guerrilleras". Aqui realiza, auxiliado por peças notáveis, uma revisão histórica de canções que se opõem aos diferentes totalitarismos do século XX: 'Ay Carmela!'; 'Bella ciao'; 'Le chant des Partisans', de Druon, Kessel e Marly; 'Al vent' de Raimon; 'Grândola vila morena' de José Afonso; 'A jugs' de Pablo Guerrero; 'A galopar' de Rafael Alberti e Paco Ibáñez; 'Alfonsina y el mar' de Luna y Ramírez; 'Cancioneta' de León Felipe e Luis Pastor e 'Al alba' de Aute. Assim, completou um bom naipe de hinos revolucionários.

Em 2010, a Assembleia da Extremadura publicou o livro-disco "Gómez Naharro. Antologia". O livro, de 129 páginas, contou com uma apresentação literária e colectiva das peças, feita por colegas e amigos de Naharro, que incluiu um CD com 23 canções.

Em 2015 publicou “The essential Naharro”, que era uma resenha das canções até então publicadas, assim como outras canções não registadas que também faziam parte de seu repertório. 

Miguel Ángel já actuou por várias vezes em Portugal, nomeadamente em Vila Viçosa, Portimão, Seixal, Porto (Espaço Mira Fórum e Bar Gato Vadio, em dois dias consecutivos) e Lisboa .

No corrente ano de 2020, apesar das dificuldades que estamos passando, conseguiu editar este CD duplo que pode ser adquirido escrevendo para o email: Seixal.

cantautaria2018@gmail.com 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

[0723] Carlota de Barros oferece-nos mais um poema, desta feita sobre os tempos de chumbo de hoje e uma nova esperança


UM JARDIM NOVO


À transparência de um pôr-do-sol dourado

que avisto neste momento da minha janela

embalada que me sinto pelo brilho de um sonho

de gestos fantasiados em jardins maravilhosos

a minha alma exulta e inventa novas maneiras

de enfrentar o real em que continuo a sentir-me

náufraga de um navio sem rumo


Numa procura incessante de novos gestos redentores

sinto o coração suspenso enquanto o desconhecido cresce

alucinado    enchendo o ar de incertezas e de tormento


Nessa busca contínua   a minha alma vai subindo com o vento

procurando novos caminhos   novos sonhos   um jardim novo

que chegará   mesmo que na agitação das horas   dos dias   

das ondas do mar   dos corações suspensos e das almas

que vivem hoje solitárias   amedrontadas   sem sonhos


Mas hoje chegou o sonho de todos    em carros escoltados de alegria e emoção

e as almas de inquietos gestos   pálidas de medo   no vazio da solidão

baloiçam agora de alegria   com o vento e as aves do céu pelas planícies

onde o sol brilha    dourando o ar como um poema de amor consentido


Um novo jardim   lírios azuis   rosas amarelas   novos sonhos escorrendo 

como a luz da Esperança que agora navega por mares de ondas mais calmas 

enquanto  as almas com gestos claros e serenos  dançam com delícia 

sua imensa alegria agitando os espaços   em silêncio  de regresso à claridade


Carlota de Barros

Lisboa, 27 de Novembro de 2020



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

[0722] Poema da poetisa cabo-verdiana Carlota de Barros dedicado ao seu patrício Teobaldo Virgínio

Carlota de Barros



Natural da ilha de Santo Antão, Teobaldo Virgínio Nobre de Melo nasceu em 21 de Maio de 1924 e faleceu em 2020. Aposentado, viveu com a família nos Estados Unidos da América do Norte, mas o rol das suas profissões incluiu a de pastor evangélico, poeta, ficcionista, director da revista "Arquipélago" (EUA) e colaborador em outros órgãos de imprensa como "Presença Crioula", "Morabeza", "Revue Noire", "Notícias do Imbondeiro" (Angola) e "Coluna do Norte" (Brasil). De temática cabo-verdiana, a sua fonte perene, publicou, em prosa e verso, cerca de uma dúzia de volumes. Convidado pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, na qualidade de filho da Vila da Ponta do Sol, para as festividades do Dia do Município/2010, recebeu das mãos do seu presidente, Engenheiro Orlando R. Delgado, a Placa Comemorativa do Evento com que foi distinguido.

POEMA SAGRADO                                                   

(ao poeta e amigo Teobaldo Virgínio)

                       

                       A luz branca

que se 

desprende 

das violetas 

abriga 

um segredo


a borboleta

orando pela nuvem

faz emergir

o poema da

verdade sagrada


                  também ela sagrada – a borboleta


                   o poema sagrado

abandona a gaveta excêntrica

do poeta

caminhando

pela nuvem

sem encontrar poiso

sábado, 12 de dezembro de 2020

[0721] Luís Palma Gomes oferece-nos um lagarto vistosamente emplumado

A PLUMA


"E como voam os pássaros?",

 perguntas.


Se as pontas enquistadas

dos teus dedos

afagassem com volúpia

a primeira pluma do lagarto,

saberias.



[0720] Ricardo Jorge Claudino regressa ao nosso convívio com mais um belo poema, "saudosamente" rural

ALDEIA


Vinte e cinco casas

três ruas

duas travessas

o largo da igreja

o sino que toca, de hora em hora,

descansa na madrugada silenciosa.

Há sons que caminham

pelas estradas não alcatroadas,

de terra batida, de calçada.

O eco desafia a velocidade do som

e repete-se, repete-se, repete-se

até que as velhinhas entendam

à segunda ou à terceira vez

a vida citadina dos seus filhos

que o sonho desfez.

Aqui o céu está mais perto da terra — Tão perto, que a nossa voz se perde

por tão longe que quisemos ser.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

[0719] Luís Palma Gomes, uma estreia no Ibn Mucana que muito nos honra


PÁSCOA PREMATURA


Também

não vos quero antecipar

o prazer de ouvir o riso dos pássaros

quando entram nas novas folhagens.


Essas palavras

poderiam por acaso levar-vos a renascer

fora do tempo

sem que tenhais

ainda dado os necessários passos da paixão.




domingo, 8 de novembro de 2020

[0718] Dennis Ávila Vargas, uma voz da América latina

Dennis Ávila Vargas

Nasceu em Tegucigalpa, Honduras, em 1981. Desde 2017 possui também a nacionalidade costa-riquense, do país onde vive. Uma seleção de seus primeiros livros de poesia está reunida na "Antologia de Geometria Elementar" (Casa de Poesía, Costa Rica, 2014). Em 2016, as Ediciones Perro Azul (Costa Rica) publicaram "La infancia", republicado na Editorial La Chifurnia (El Salvador), nas Ediciones Trábalis (Porto Rico) e em Amargord (Espanha). Em 2017, Amargord publicou "American Clothes", republicado na Puertabierta Editores (México), e traduzido para o árabe do poeta Fakhry Ratrout (Al’aan Ediciones, Jordan, 2019). No ano de 2019, Amargord publicou "Historia de la sed". O seu livro "Os excessos millennials" foi o vencedor do Prémio Internacional de Poesia "Pilar Fernández Labrador" (2020), com sede em Salamanca, Espanha. 

O blogue Ibn Mucana agradece ao poeta peruano Alfredo Pérez Alencart e professor de Direito do Trabalho na Universidade de Salamanca o simpático envio destes materiais.



VENTO


Pondera lento um caracol no meio da selva,

dá refúgio ao motor do beija-flor

e às pedras que principiam o fogo.

Rebeldia de neurónio, cabelos soltos,

inércia de redemoinho;

vigília e espinha dorsal.

Sua força é todos os lugares,

realiza análises, amola nomes,

escreve escamas pela superfície do lago.

Qualquer forma de vida é irrepetível,

e, soprando-se pelos terrenos baldios,

conquista rios que nascem duas vezes.

Somos uma tela sem esquinas,

carregamos nos ombros os olhares do vento.



POUSOS FORÇADOS


Dos aviões

dá para ver os rios que morreram antes de nascer.

Dos aviões,

palavras como estalactites,

incapazes de finalizar uma oração

neste mundo povoado de cavernas.

Dos aviões,

um estranho paralelo:

ver o mar em sua amplidão e não poder escutá-lo.

Dos aviões, um mayday

na altura dos fins

que justificam os medos.

Até no ar, a desigualdade:

uma cortina que separa

a primeira classe do resto

até o último dos dias.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

[0717] Poema de Ricardo Jorge Claudino, poeta português, algarvio e alentejano

SER CASA

Tenho duas casas paralelas

aconchegando-me em tempos paralelos;

é como se uma estivesse abraçando o céu

e a outra beijando raízes profundas na terra.

Na linha ténue desenhada pelo horizonte

quase que ambas se tocam, mas o quase

é algo que não chegou a ser; é a miragem

que relança questões para além do incerto.

Bem sei que sou a perpendicularidade

entre cada uma delas. Por isso fecho os olhos,

estendo os braços, e com uma casa de cada lado

deixo que os caminhos sejam traçados

nas linhas escritas por cada passo,

por cada enlace e por cada momento.



terça-feira, 20 de outubro de 2020

[0716] De Cascavel, Brasil, Tere Tavares revisita-nos com mais dois poemas/prosa


Moça com brinco de pérola. Em meio à escuridão os

lenços atados à cabeça envolvem tua ternura talvez o

teu receio. Creio ao ver a verdade límpida colorindo os

teus olhos [oleira da joia que te evidencia o rosto] que

nasceste para eternizar a beleza.


"Rapariga com brinco de perola" - Johannes Vermeer, c. 1665


Os livros devem ser partilhados para que não se tornem um

anel fatal numa única mão. Os poemas são delírios que

acendem retalhos para a alma. A palavra se redimensiona, se

reafirma quando a emitimos e pode ganhar qualquer outro

sentido, a metáfora inversa. Mas isso é do outro. Não de

quem escreve. A expressão prescinde das explicações.

Somente existe e acontece a partir da magia artística da

enormidade chamada Literatura.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

[0715] "A cor do tempo", livro de Ricardo Jorge Claudino – ou o tempo como cor e objecto de memórias - Prémio de Poesia da editora Cordel d'Prata 2020

O prémio foi atribuído em 10.10.2020


Ricardo Jorge Claudino
Com chancela da editora Cordel d'Prata e saído por ocasião da Feira do Livro deste ano, o livro de poemas "A Cor do Tempo" de Ricardo Jorge Claudino revela-se obra madura e reflectida, não obstante ser o primeiro de sua autoria – o que não surpreende, pois este jovem farense com fortes ligações ao Alentejo não é propriamente um novato no meio, tendo já vasto material divulgado em revistas da especialidade e jornais regionais, em experiências que datam da adolescência e agora frutificaram.
São seis dezenas de trabalhos de temática diversa, onde se nota forte componente pessoal de memórias de momentos ou assuntos vividos. Disso são exemplo, entre muitos outros, poemas como "Casa no campo", "sinónimo de paz e do cante dos passarinhos", "As oliveiras falam", com suas "palavras sábias", "Teatro infantil", relembrando os cheiros e as cores do pó de palco pisado anos atrás, "Amesterdão e eu", de acolhedora e absorvente temporada profissional ou "Soneto imperdoável" em que recorda os "frajais" (ferragiais) semeados pelo avô, evocando uma das muitas e saborosas corruptelas linguísticas em que a grande província do sul é farta. E já que de sonetos falamos, assinalemos os muito interessantes dois exemplos vigentes, este e "Soneto condenável", género poético assaz descurado nos tempos presentes que ele adoptou com sucesso. Também é de salientar "Escadaria", curioso trabalho de poesia visual, discreto e acertado.

Quanto ao tema que dá título à compilação, surge logo no primeiro exemplo, cartão de visita do conjunto, de facto todo ele muito visualizável através de descrições simples mas eficientes. Neste poema de apresentação, as alusões à slow-life campestre e citadina é recorrente, quer nas referências ao "assobio do rouxinol apaixonado", às "formigas que correm atrás de uma migalha de pão", ou aos passeios pela calçada portuguesa, pisando apenas as "pedras mais escuras". Idêntico roteiro também se vislumbra noutros exemplares, caso de "Perder para ganhar", quando o autor fala dos momentos em que se esquece "nas travessas das mais pequenas aldeias alentejanas", onde o tempo não conta e onde nos confrontamos com essa "gramática de coentro e cal, geometria do branco e do azul" de que o cantor e poeta Vitorino fala. 

Plenos de sabedoria e exaltantes de amor à escrita e à leitura, são os poemas "Livro aberto", nesse apelo que diz  que "As palavras foram feitas / para serem ditas / e os livros para estarem / abertos" e "Quando o poeta morre", em que Claudino esclarece que quando o vate fenece não vai para o céu  mas "ganha asas na terra [e] voa nas suas palavras". 

É pois de reter este livro, perpassado por lirismo suave, tanto campesino como urbano, completado pelos desenhos de idêntica índole de Cristina Aurélio e Fernando Madeira, um dos quais serve de capa. Após a prometedora peça inicial, resta-nos aguardar com expectativa a continuidade da obra de Ricardo Jorge Claudino. 

sábado, 12 de setembro de 2020

[0714] Sessão de autógrafos de Ricardo Jorge Claudino na Feira do Livro de Lisboa (Pavilhão B31, 13 de Setembro, 14h00) - "A Cor do Tempo"

Ricardo Jorge Claudino nasceu a 10 de Abril de 1985 em Faro, transportado por um bando de cegonhas oriundas de Reguengos de Monsaraz. É licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Informação e Sistemas Empresariais. Em 2001 inicia a sua actividade profissional como programador informático, a qual exerce até ao presente, tendo passado por várias multinacionais portuguesas e holandesas. Com apenas 15 anos de idade escreve os seus primeiros poemas; mas ficam guardados. Só em 2019 decide acordar a sua poesia e logo participa na antologia A Vida em Poesia IV, publicada pela Helvetia Éditions. Conta também com publicações nas revistas Gazeta da Poesia Inédita e NERVO. A Cor do Tempo é a sua primeira obra publicada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

[0712] Dos "Poemas Alemães" de Teresa Balté, republicamos hoje "Idílio berlinense"

Teresa Balté

Poema de 2008, publicado na revista "Colóquio/Letras" da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Portugal (n.º 179, Janeiro.2012, pp.145-147).


IDÍLIO BERLINENSE

1
Planear o dia à mesa do pequeno-almoço – um súbito cansaço de museus – o pátio torna-se arte, com relva húmida, flores autênticas, ávidos pardais – e a seguir, lá fora: Nolde, Kollwitz, Babilónia

2
Faz-se tarde, a flor murcha, a folhagem esmaece. Não me apresso nestes últimos tempos:  tudo em verde e rosa, em harmonia – muito discreta, muito consideradamente ergue-se a chávena e bebe-se

3
As ideias reúnem-se num puzzle – já não há fio condutor, uma lógica – está chão e aberto o labirinto – existiu alguma vez algum enigma? – só a lúdica mão do jardineiro insiste ainda e vai compondo outros canteiros com os mesmos elementos

4
Saudade?  sim, anseio pelo amor acontecido – também ele teve o seu tempo, a felicidade. Agora apenas sinto a chuva suave – única ternura nos cabelos, ombros, coxas – é ela agora que me empurra para baixo, para a terra tão macia – agarro em mim e fujo com as jovens que riem

5
Onde as paredes trazem as feridas das balas, pelas ruas de leste, correm desvairados os sonâmbulos – É aí que ainda me escrevo, para conseguir viver: a mão tremendo ao vento, o olhar tombando no regaço da mendiga russa – Onde florescem as tílias? onde ficámos nós? nós? Sozinho ninguém pode transpor a Ponte do Palácio, cavalgar através do Arco. Sozinho não se deve acordar

6
As graciosas lanças na mão dos tritões espicaçam os turistas apressados – para além, para além. Em volta os edifícios quadrados do poder, pedras de açúcar. Em cima os punhos das nuvens cerrando a trovoada, o céu falhado. – Respira-se em círculos na ilha. Como Sísifo tento construir o futuro enquanto a águia de Prometeu me dilacera o corpo – A eternidade esgota-se no mítico e no museológico – por agora, ainda – antes do grande final

7
Sim, não falemos de objectivos longínquos e gozemos o pálido sol na esplanada. – Dois cafés, por favor – perdão, um só. – O poema está rasgado, os farrapos pombas assustadas

Berlim - Pormenor escultórico da fonte Lebensalter (Idades da Vida), Wittembergplatz (Foto Joaquim Saial)

sábado, 22 de agosto de 2020

[0711] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.

"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.

A cerimónia contará com a participação da autora do prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.

Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.

Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

[0709] António Rosa e uma lengalenga "frustrante"

António Rosa
FRUSTRAÇÃO

João Folião
foi ao mercado comprar
um pião,
com quatro moedas
que tinha na mão.

Partiu o porquinho
e com mais um pouquinho
que deu tio João,
lá vai pelo caminho
com o seu dinheirão.

Também quer uma guita,
que seja bonita,
que faça um vistão.

Já se vê no meio
lá do quintalão,
durante o recreio
lançando o pião,
fazendo furor
entre os companheiros,
que ele é dos primeiros
em tal função.

Lançando por cima
ou até de carena,
já se vê na cena
como um campeão.

Tropeça na pedra,
quase cai no chão,
tal é sua pressa
de ter o pião.

Chegado ao mercado,
que desilusão.

Venderam o último,
instantes atrás,
a outro rapaz
lá do quarteirão.

sábado, 25 de abril de 2020

[0707] Nicolau Saião volta à carga em Ibn Mucana com excepcionalíssimo poema de 1986


COMO O OUTRO QUE DIZ (ao Mário Cesariny)

I

O que os meus olhos seguem nesta vida
tem mais perversidade do que manha.
Não está sempre perdida
não é sequer estranha.
É um pescoço
rodando lentamente para o lado da sombra
para o lado da barca dos primos de Cacilda
franja por franja correndo o espaço morto
tão depressa coitados como se fossem de mota
ou sobre o rio
sem margens
sem o batuque doido extremamente caligráfico
da água interior
dos nomes.

E os cabelos   os cabelos do mundo
estão sobretudo aqui
nesta cadeira branca simulando o silencio
a quinhentos quilómetros a oeste do mar
equidistante   gélida   submissa
detendo-se de súbito na sua própria agonia
muito perto   demasiado perto
do jardim diurno dos réprobos cuja candura
acende
e se dissolve
se dissolve sem mágoa
uma e outra vez   e ainda uma outra vez
no colo amarelíssimo de Rosaíris.

Escuta   por favor
escuta
não os enganemos    nunca
A voz que me sopra junto ao tímpano
vem de muito longe    vem de muito longe
tão morta como viva
e em vez de dizer arcano diz madrugada
e em vez de dizer o mundo diz fogo-fátuo
virgem    montanha    almofada
diz os catorze nomes que é proibido ouvir
diz o dia e a hora de todos os demónios
e um corpo que se agita por baixo das arcadas
no Alentejo da Europa dos automóveis por dentro
buscando a clareira imprecisa dos cemitérios
em Sintra   na Ericeira   nas ruas de Lisboa
nos locais onde canta a raparigataúde
imersa em claridade
em cuspo
em chuva.

No entanto, no entanto
é preciso sim senhor desesperar
digam lá por favor que é preciso
andar de novo ao longo da estrada de tijolo
adormecer cantando nos túneis    que maçada
e defecar do alto duma árvore
para cima da moleira de Adonai
depois olhar as estrelas que surgem dessa vasa
e recuar para o sítio onde o barco dissimula
a sua rama suja do Oceano
esperando a tardinha   o vento morno
a negra Primavera e o rei do bosque maldito
com barbas adejando como um estandarte louco
no seu retrato igual ao rosto do emparedado
na selva da distancia
que ninguém
nem mesmo nós
conhecemos.


II

Todavia o homem-mosca bate que bate
a a mulher-gafanhoto sopra que sopra
e o senhor-fantasma rema que rema
entraram já na casa inconquistável
e nada deixaram de pé
e eis que de repente há alguém que se interrompe
perto do braço-bandeira a oriente da aurora
e tudo fica escuro, serenamente
como colunas raras de cimento
na cauda sexual do elefante por fora
cujas presas bem limpas desfizeram o dia
levemente atmosférico
sobre a areia do universo   no país onde o choro
é só até ao estômago
e alguém espera   tremendo   que o fresco sangue de Alceste
o outro sangue
seja a calamidade e a angústia
que não vão de avião para nenhum deserto
nenhum glaciar horrificado
nenhuma cama especiosa nenhum comboio sem lágrimas
nenhuma taberna de Alcântara onde o sarro dos anos
se descobre no salto da pantera
que galga o passeio de azeitona na boca
de axilas escurecidas
cujo suor excessivamente espesso
é bem o resultado fiel do habitante da cubata
com um diamante escondido numa ferida
o filho infiel da oração dos marinheiros de outrora
a rua do mundo que desemboca numa laje circular
em frente do lago pútrido
aguardando sem minutos desaproveitados
os que gemem  os que se cobrem de negrume
os que nada querem imenso
e só sabem sonhar em termos de ave ou de horizonte
de rato semimorto encontrado num jardim
de árvore
de meio-homem de Epaminondas os sustos
duma Lisboa sem língua
de janela de um país efémero
de constelação trepa que trepa, enfim
de mancebo de pouco futuro desaparecido
de todos os barulhos da Terra.

Mas convém, ó meus amigos de infinito
que tudo seja aquilo que sabemos
e fazemos
o perfil ardente sorvendo o rio trovejante do mundo
a garganta trémula dos lobos ao longo dos carris
sob os tectos
da cidade repleta de ferrugem
e cal tocando o horizonte
ferido como o braço rasgado arrastando sangrentos
embrulhos para a campina solitária
para a babugem da praia na linha de água do mar
onde os peixes ficaram nessas pedras nesses recantos
tão conhecidos por Ahab, o capitão louco
e o seu tubarão vermelho.

Entretanto o poeta cabisbaixo os bantus e as aves
lá vão ao longo das avenidas
nesses táxis que usávamos sob um trémulo firmamento
na Praça do Intendente onde numa noite de repente
as palavras mais simples se velaram nos nossos lábios
como os de Bulgakov, como se fossem de Margarita.

E uma luz assombrada
abominável     aos solavancos
crescia em todos os pontos cardeais
em todas as coisas que se divisavam
ao vicejar da treva
entre os degraus dum largo sem nome e sem lugar
na mão tremeluzente, na chave de novo achada
para trespassar todos os símbolos
quando o homem de cinzento erguia no seu chapéu
entontecido e prestes a partir
uma agonia lírica, clássica, regionalista

para todos os rostos destroçados.


NICOLAU SAIÃO
[na folha volante de Agosto.1986 do “Bureau Surrealista Lisboa Alentejo” de MC/ns]


sexta-feira, 24 de abril de 2020

[0706] Um poema "abrílico" de Nicolau Saião, em cima da data


ABRIL ANTECIPADO

Em Lisboa, na rua
do Alecrim, recordo-me como
se fosse hoje: uma casa
sombria, onde foi bom ficar
minutos e minutos entre memórias
quotidianas de velhos alfarrábios, livros
para passeios vulgares de compra e venda. Ali
parei. Como um barco, uma nuvem, uma presença
obscura de gentes para sempre perdidas, nessa
humilíssima loja me detive: o pó, o ping-pong
da conversa. E veio a esperança saltando sobre nós
como se o oceano nos tocasse nos olhos, lembranças
de Índias sem pimenta e sangue. E logo, por acaso
um estrondo lá fora. Mistério. Cumplicidade. E assim
tive tempo de Abril antecipado na fala do colega
de amargura: “Ainda não é a bernarda, caro amigo. Podes continuar
a ver os livros que aí estão. Ainda (que chatice!)
está por anos!”. Nessa tarde, numa
vendedeira de rua, comprara pêssegos. Era
em Julho. Nas caras que passavam pareceu-me distinguir
por entre o resto todo, agonia e raiva. Homens, mulheres
crianças como em todos os tempos. Senti então, enquanto
no Tejo tombava um sol devastado, que um dia
um estrondo não seria apenas o dum pneu que estoira. O coração
tivera, pobre dele, Abril antecipado e, aberto
ficava de conserva mais uns tempos, criando
talvez outras janelas para todos os lados, esperando
para todas as horas a hora enfebrecida como um sulco de lume
nas espáduas dos amantes. A hora
ardente e dura como cimento secular. Foi isto em
setenta e dois. Depois
a vida continuou, vaga e solene, tenaz e sonolenta. Tive
amores e amigos mortos, alguns suicidados, outros
feridos de pasmo e solidão. E rochedos erguidos
nos caminhos do mundo. E quando Abril chegou
com seus favos, seus deuses, suas flores
suas praias, seus bosques, sua chuva benigna
a memória da esperança não morrera. O poeta fala
no tempo. É seu o tempo imenso
dos vivos e dos mortos, dos que nunca
contemplaram face a face o seu destino. Por ser um espelho
ardido, é a palavra. O signo do instante destruído. Foi
o Abril dos ombros curvados que me deu Abril.
Mesmo que Abril nada me desse, senão
senão esta tristeza de tão pouco
Abril ter sido para uma sede de primaveras, feitas
para o pão, para o riso, para o tempo intacto
do livre Verão dos homens sob as estrelas de Agosto.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

[0705] "Relíquia", de Nicolau Saião


RELÍQUIA

Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?
Não neste braço   sujo   cortado
Não neste tapete espesso   neste bloco de apontamentos
onde se cruzam insultos   rimas
Não no pequeno perímetro das veias

- afinal tudo tudo entre nuvens de carbono
semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve
onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo
O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

Onde  em que ilha de desolação
sufocado  incerto  esse silêncio soberano
onde jaz    cerzido por traços de faca de pedra
Não   não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto
saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem
Brilhante como celofane

O silêncio que respira
Sim o silêncio morno de quem procura o vazio
ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada
da mão faminta    de muitos negrumes alheios

O silêncio que se recolhe
que se desdobra
que nos relembra de momentos e perdas
O silêncio que permutamos
O silêncio para além da luz   entre os olhos de uma fera morta.

sexta-feira, 20 de março de 2020

[0703] "Despedida", tocante poema de Pepita Tristão


DESPEDIDA
Pepita Tristão


Fui ao multibanco das emoções
De onde retirei o carinho
que me restava
de toda uma vida a amar-te.
Comprei-te um bolo cheio de creme
como gostas
- a doçura faz parte do teu ADN -.
Saboreaste-o naquela esplanada
de jardim, rodeada de árvores
sob os trinados de mil e uma aves
azuis e verdes de uma moldura
ponteada de variegadas cores.
Em uníssono rimos e aplaudimos
o espectáculo da natureza
a renascer
neste Carnaval da vida.
Depois disse-te adeus
e tu sorriste, aliviado.

Renoir, "Les fiancés" (ou "Le ménage Sisley"), 1868

quinta-feira, 19 de março de 2020

[0702] Um belo poema de Nicolau Saião, o bardo de Portalegre


ANUNCIAÇÃO
Nicolau Saião


As mulheres do vento   parado como um planeta extinto
as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

entre mim e o céu

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal
a morrer.
                                                                                           (Bruxelas, 1999)

Pablo Picasso, "Les demoiselles d'Avignon", 1907