sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

[0494] Ana Luísa Amaral, um olhar enviesado sobre a História


Nasceu em Lisboa em 1956. Professora, romancista, dramaturga, tradutora e poeta, obteve o Prémio Literário Casino da Póvoa em 2007, o Grande Prémio de Poesia da APE de 2007, o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi de 2007ePrémio Internazionale Fondazione Roma: Ritratti di Poesia de 2018.


SILÊNCIOS

         ao meu amigo Paulo Eduardo Carvalho,
               a saudade, sempre

«não queres fazer o silêncio
comigo?»,
perguntei-te uma vez
agora, sei:
irradiando em sol
de mil palavras,
sempre o fizeste
a ele e à alegria —
assim, alegria e silêncio
hão de ficar
os dois somados juntos,
lado a lado
e agora,
o sol está bem,
o azul igual a azul,
porque te tem
e as contas
todas
que tu corrigiste
hão de dar sempre certas


A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita   abençoada
mas de mais e cristã
também castigo
Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras
que não chegam
— mas cegam


A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA

Se eu deixasse de escrever poemas em
tom condicional, e o tom de conclusão
passasse a solução mais que perfeita,
seria quase igual à Samotrácia.
Cabeça ausente, mas curva bem lançada
do corpo da prosódia em direção ao sul,
mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo
musical e geometria contaminada
por algum navio. A linha de horizonte:
qualquer linha, por onde os astros morressem
e nascessem, outra feita e fio de fino aço,
e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse
ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.
Ter várias formas as linhas do amor: não viver
só de mar ou de planície, nem embalada
em fogo. Que diriam então ou que dirias?
O corpo da prosódia transformado em
corpo de verdade, as pregas do poema,
agora pregas de um vestido longo, tapando
levemente o joelho e tornozelo. E não de pedra,
nunca já de pedra. Mas de carne e com
asas.


A MAIS PERFEITA IMAGEM

Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.

[0493] Matilde Campilho, poesia portuguesa com sotaque brasileiro


De seu nome completo Matilde Maria d’Orey de Sousa e Holstein Campilho. Maria Campilho nasceu em Cascais em 1982. Jornalista e poeta, viveu em Florença e reside agora no Rio de Janeiro.


PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou

Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos

Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar

Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.


ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar

Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho

As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.


COQUEIRAL

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca
E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto
Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

[0492] Vinicius de Moraes, "Poema de Natal"

[0491] Joana Emídio Marques, uma poesia insólita


Nasceu em Vila Nova de Santo André, em 1974. Jornalista e poeta.


CÂNTICO 8

Não sou eu que vivo, mas a flor
que dando-se às eternidades pretéritas
respira no que desconhece
a beleza inaugural do dia.
Já não sou eu que vivo
mas o tempo estranhado pelo sem-tempo
em madrugadas tão plenas que tecem caminhos.
Um dia, quando voltar da morte e me detiver em frente à janela
que me puxa para dentro do segredo e do mistério
ter-te-ei despido.
Já não sou eu que vivo
e se gritar afogo-me no meu próprio eco
neste campo de escombros
átomos explodindo nas carnes das casas.
Já não sou eu que vivo
mas o grito
o milagre nos corredores da noite
nas mãos dadas a ninguém.
Entranhas de Deus espalhadas sobre a tua ausência.


POESIA NO MATADOURO

Uma espécie de manifesto contra a transformação, feita por poetas e editores,     da poesia em matéria efémera do capitalismo
Já não há poetas.
Há vacas para o matadouro,
prontas para o abate.
Morte limpa e certeira: um livro de poemas.
Morte organizada e asséptica entre capa, lombada
e fotografia da jovem vaca enquanto poeta.

Todos os dias é preciso matar uma vaca,
imprimir um livro, chamar-lhe poeta
Cabeças de gado para servirem a horda faminta de
comedores de carne poética processada.
Cada vaca dá poesia para dois meses.
Três no máximo.
Depois passa de validade.
Chama-se outra.
Corta-se-lhe as orelhas antes da estocada final no coração.
A coitada, dizem, não deu por nada.

Sai mais um livro ainda a pingar sangue
A carne fresca sempre agradou aos empreiteiros
E os congeladores não têm espaço para mais poetas.
Alguns estão lá há anos e
ninguém os come

Sobretudo aqueles que ficaram intactos,
os que ninguém petiscou.
Aqueles que serviram apenas para compôr a mesa
nas revistas de fim-de-semana:
os idiotas precisam de poetas a quem dar estrelas.

E as vacas gostam das estrelas,
dos idiotas e das revistas de fim-de-semana..
As vacas acenam com a cabeça e abanam o rabo:
estão contentes com a sua morte.
Gostam de ver a sua carne a apodrecer ao sol
dos elogios.
Fast-poemas comprados numa editora drive in,
embrulhados e servidos em papel colorido
Enquanto os poetas se fantasiam numa vida lendária
de animais selvagens

Até o Herberto se tornou uma vaca leiteira
que dá poesia todos os anos,
sempre a tempo da feira do livro.
Como será o leite dos mortos?
Oh coelacanto, já ninguém te quer conhecer,
Agora querem todos comprar-te!

E quando não há Herberto,
há noviças.
Engordadas à pressa com ração de Cesariny
Ou
Meninas de boas famílias que escrevem versos
com putas e conas e fodas e nisso reside todo o seu génio
e nisso reside a sua ousadia, a sua eternidade
E chega para vender mais uns quantos livros
e uma noite de poesia na Barraca

Mas não escapam às grandes arcas frigoríficas dos talhos modernos;
Tens a cona congelada, idiota
e agora ela já não te serve para nada,
porque conas congeladas há muitas e só tu, poeta,
não tinhas percebido.

O povo agora compra poesia.
Antes comprava casas e carros e viagens a Cuba.
Agora compra poesia barata.
Produzida em massa nas tascas:
fast-food, fast-glory
As palavras são tóxicas,
potencialmente cancerígenas,
eventualmente fatais,
mas ao menos não há hipoteca,
nem credores.

A poesia já não é morte a crédito.
É morte comprada barata,
para adornar a pobreza.

Poesia, máquina de imprimir livros,
mortos em série,
de forma limpa e sistemática.
Entre capa, lombada e ilustração personalizada:
a cada vaca o seu carimbo

E elas morrem. A poesia morre.
Mas todos estão contentes. Contentados.
A morte tem agora um carimbo,
a marca do dono
Pobre arremedo de eternidade!

E tu quando vais para o matadouro?
Olha que morres na mesma, mas morres sozinha.
Olha que os poetas já não gostam de solidão.
São vacas de circo, da graça feérica da miséria.
Imprimem-se livros, paga-se o bilhete, vê-se o espectáculo.

O povo grita, aplaude, grita bis
A vaca lança o livro para a plateia
Alguém o apanha
Alguém o lê em apoteose.
Há aquele verso extraordinário e ele grita:
Ca-ra-lho!
E o povo rebenta em uivos e aplausos.
E triunfante a vaca agradece a sua morte,
o seu aviltamento,
a vaca agradece que a comam.

A poesia morta vai em digressão.
O empresários do matadouro garantem que em todas as salas
alguém leia aquela passagem providencial:
Ca-ra-lho!
Os mais influenciáveis começam a sonhar
nos seus moleskines comprados na Fnac
e escrevem com enlevo três metáforas, dois trocadilhos e um palavrão a rematar /o verso.

Todos os dias há mercado.
Todos os dias há poemas frescos,
Compram-se em saldo ao fim de um mês em banca.

[0490]

[0489] Kaká Barbosa regressa ao Ibn Mucana


AMORNAÇÕES

1.

como um pássaro receoso estavas à janela da noite
quando meus olhos viram os teus.
voei no querer saber a cor do céu que em ti existe.
asas de vidro saí à tua procura.
éramos dois pássaros a vogar na escuridão
em tímidos voos em redor da janela

Tudo de ti virou meu, todo meu.
parecias tudo o que eu sempre quis
DE NOVO KAKÁ BARBOSA

Voz voando desde Cabo Verde, Kaká Barbosa (Carlos Alberto Barbosa) envia a este portal dois bons poemas. “Ibn Mucana” agradece
a mão de querer no meu ombro
o rio da vida no meu sangue

Dei-te outro nome e um lugar distinto
no mais belo que a sensação tem.
Éramos dois pássaros de olhar cruzado à janela
da noite.

2.

chegas voando e partes voando
levas-me voando para não sei onde.
abraçamo-nos voando
separamo-nos voando
num sobe e desce vagabundo.
ficas voando e fico voando
ambos insectos errantes.
voando e sempre a voar
voa a hora e voa o tempo
voa a janela e voa a noite
de estrelas ao alto voando
voa o voo e voa tudo
no voar que desvive o voo do poeta

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

[0488] Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa

2047 concorrentes candidataram-se, em três anos, ao Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, que visa ao estímulo, enriquecimento e promoção da língua portuguesa. 
O prémio aposta na valorização de novos escritores, que nunca editaram qualquer obra, e tem contribuído para o sucesso do Prémio Literário UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa).
 O Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa  é uma iniciativa conjunta da UCCLA, Editora A Bela e o Monstro e Movimento 2014, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
Em 2016, candidatam-se 2016 concorrentes (dos 16 aos 90 anos), em 2017 foram 520 e em 2018 registou-se um parcial de 805 concorrentes. Não só escritores de nacionalidades lusófonas responderem “presente” a este concurso, mas também de outras nacionalidades, como da Alemanha, dos Estados Unidos da América, Argentina, Canadá, Espanha, Holanda, Inglaterra, Itália, Paraguai e Suíça. 
Nestes três anos (de 2016 a 2018), o Prémio foi já atribuído ao português João Nuno Azambuja (2016), ao brasileiro Thiago Braga (2017) e ao paraguaio Óscar Moldano.

[0487] O concretista Ronaldo Azeredo


Nasceu no Rio de Janeiro em 1937. É uma das referências do movimento concretista brasileiro, embora assuma que não escreve “versos”.


VELOCIDADE



CORPO A CORPO

corpo a pouco
pouco a corpo
corpo a pouco
pouco a corpo


TIC-TAC

RUA SOL






[0486] Paulo Leminsky, samurai concretista

De origem polaca, nasceu em Curitiba em 1944 e aí faleceu em 1989, depois de viver em Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Professor, escritor, crítico literário, tradutor, poeta, publicitário e judoca fascinado pela cultura japonesa, pelo zen-budismo e pelos haicai. Recebeu o Prémio Jabuti de Poesia de 1955.


O QUE QUER DIZER

O que quer dizer diz.
Não fica dizendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.


O NOVO

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

[0485] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (10) Nuno Rebocho, o pinga-amor


Com vida intensa e multifacetada, Nuno Rebocho nunca recusou amores quando estes lhe bateram à porta. Ao seu modo, agarrou-os, viveu-os e cantou-os. Teve os seus momentos de felicidade.


CANTO DE AMOR 

cavalga amor que eu sou cavalo
beija-me mulher que eu sou rosto
mastiga-me absorve-me que eu sou vento
bebe-me lentamente que sou mosto

fornica-me possui-me que eu sou terra
esvazia-me mulher que eu sou incesto
conquista-me preenche-me que sou tudo
devora-me repousa-me que sou o resto

abrasa-me em canseira em verde em chama
percorre-me o sexo que transpira vida
mastiga-me a alma vomita-me na cama

porque sou a cólera a causa adormecida
sou o teu nome o deserto o espaço a lama
o universo o tema o amor a comida

[0484] Max Bill, o concretismo brasileiro

Nascido em Berna (Suíça) em 1908 e falecido em Berlim em 1994, Max Bill teve papel fundamental na introdução do concretismo no Brasil, sobretudo com as ideias vindas da Bauhaus (que integrou) introduzidas no chamado “concretismo paulista”. Designer gráfico, arquitecto, pintor, escultor e teórico, o seu desenho tipográfico e anti-historicista foi determinante para as repercussões que teve na poesia brasileira. Embora suíço e professor na Alemanha, viveu no Brasil nos anos 40, onde teve uma influência decisiva na sua arte.





[0483] José Paulo Paes, dos novíssimos aos concretistas


De seu nome José Paulista Paes, nasceu em Taquaritinga em 1926 e faleceu em S. Paulo em 1998. Químico industrial, crítico literário, ensaísta, tradutor e poeta, recebeu o Prémio Jabuti em 1983, 1986 e 1988. Integrou o chamado grupo dos “Novísssimos” e, posteriormente, o movimento concretista. Dirigiu a Editora Cultrix.


POESIA É...

Poesia é... brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.
Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.
As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?


CADÊ

Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!


ODE À MINHA PERNA ESQUERDA

Desço
         que                      subo
               desço         que
                        subo
                       camas
                      imensas.

Aonde me levas
todas as noites
         pé morto
         pé morto?

Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
     a
     i
     n
     a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

         Por que me deixaste
                             pé morto
                             pé morto
          a sangrar no meio
          de tão grande sertão?

                               não
                               n ã o
                               N Ã O !



ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos  drummond de andrade   /manuel bandeira   murilo mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
/paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire sosígenes costa bertolt brecht /augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou  incerto) josé paulo paes poeta de /ribeirãozinho estrada de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro araraquarense foi  extinta  e  /josé paulo paes  parece nunca ter existido

nem eu

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

[0482] Francisco Weyl e uma prenda de Natal


Do poeta brasileiro actualmente residente em Portugal, “Ibn Mucana” recebeu uma prenda de Natal que redistribui pelos seus leitores. Boas Festas!


O POÉTICO-INVISÍVEL

O poético está para o texto assim como a pausa está para o teatro, e o silêncio, para o /cinema.
O texto é ainda maior que a sua própria descrição, e das palavras, que o narram.
Alcança uma dimensão além da fala, e da escrita.
E ocupa o espaço de qualquer ação, ou inércia.
Em arte, o texto é tanto o canto, quanto o encanto.
Seja silêncio, ou grito, narrativa ou contação.
Por ir além, o texto não precisa sequer de palavra.
É também gesto, e intenção.
Está mais nas entrelinhas, do que nos sintagmas.
É mais síntese, do que digressão, mais haikai do que aforismo, é mais...
O teatro traduz o texto para os corpos, que o encenam, em espaços.
O texto, no teatro, é fala, e rubrica.
Ele descreve a ação do(s) corpo(s), que tem vida própria em cena.
O texto, assim entendido, é um sopro de Deus, para que a vida se mova, no palco.
Mas, o texto é o próprio corpo, e o seu espírito.
E é a alma que se desloca, nas artes.
O texto nasce de um Ser, que nasce do texto.
E este é o seu pre-texto, e o seu pós-scriptus.
O teatro opera o texto, em estado de arte, e o decupa, tal qual o cinema, que o desdobra, /assim como a ciência, que o segrega.
A decupagem, enterra o texto, mas não o cinema, que o ressuscita, com a montagem.
A montagem restitui a arte ao texto.
É uma reconstituição do texto, a recontagem de um mesmo texto.
E o renascer do filme que já existia à priori.
É por isso, o cinema, é o repousar do texto, a sua quietude.
O poeta, diz mais com imagens, do que com o texto.
E menos com palavras, do que com a sua poética.
Quando um texto deixa de o Ser, ele se transforma na imagem.
Mas quando ele deixa de ser imagem, ele se torna poesia.
E o seu Devir-Poesia, está além de seu estado de arte.
E o poético do poema, não está no poema, assim como o poético não está na imagem, /do poema.
O poético está em algum lugar, que não onde o sentimos.
Habita um lugar por ele evocado, e se movimenta por espaços, que apenas intuímos.
O poético, não está na imagem, mas no sensível-ver.
O seu texto é um repertório, inconsciente, e o seu DNA, a gênese da arte.
Não é coisa que não se fale, mas se sente.
Não é algo que se pense, mas se invente.
E sua imagem é tão nítida, quanto esfumaçada, e tão definida, quanto desfocada.


[0481] Sérgio Ninguém, o amor à poesia


Pseudónimo de Sérgio Teixeira, nasceu na Maia em 1976. Poeta, desenhador, editor, tradutor, dirige a editora “Eufeme” e o blogue “Vestígios de Poesia”


LOUCURA VERDE

o verde está sempre fora
jamais permitiria o verde no interior
(assim o tema será sempre relativo
e nunca ninguém saberá do que escrevo)
permaneço no canto onde o verde repousa
por vezes levanta-se, rodopia e atravessa a sala,
numa dureza quase imóvel. Assim
posso contemplar e verificar o que ficou dentro.
Verde, duro, pedra.
A loucura por vezes é verde.


SEM TÍTULO

encher a cabeça de sementes
e à noite escrever;
pestanejar enquanto o mosquito passa
e avançar pelas grades, quando
a inspiração foge do negrume quando
a vela se apaga e o reflexo esfuma.


PRELÚDIO

vestida para ser amada, Eu Eufeme
direi metáforas e outras figuras
com estilo e sem estilo –
porque sim e porque não –
com a sintaxe complexa
ou simples, como eu quiser!
Gosto de ver poesia
a pingar devagar…
pelos olhos dos leitores,
provocada pelo suave veneno,
aqui imposto e proferido…

[0480]


[0479] Poeta cabo-verdiano José Luís Tavares ganha Prémio Vasco Graça Moura 2018


José Luís Tavares acaba de ser contemplado com o Prémio INCM/ Vasco da Graça Moura de Poesia de 2018 pela sua obra “Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio”. Um júri constituído por José Tolentino de Mendonça, Jorge Reis-Sá e Pedro Mexia atribui este prémio anual ao poeta cabo-verdiano.

sábado, 8 de dezembro de 2018

[0478] Ronal Werneck, em modo natalício


Do Brasil chega ao sapatinho deste portal um poema de Ronald Werneck: uma boa prenda natalícia.


TREM DE NATAL

todo ano vai-vem
novo-velho poema
dezembro esse trem
de natal esse emblema

tudo tem tudo trem
do ano que vai e vem
pra você: este brilho
viajor, andarilho

ano que vem e cai
agora: berço-embalo
tudo sim tudo claro
tudo que vem e vai

nada neste natal
nada nada fará
nada bem nada mal
nada ao tudo faltar

tudo improvisar
tudo novo janeiros
tudo ao deus dará
tudo de novo: ei-los

os dias sem estepe
um sambinha de breque
tudo salamaleques
do ronaldo werneck


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

[0477] Zel Cabrera, a novíssima poesia mexicana


Nascida em Guerrero em 1988, é Prémio Estatal de Poesia Jovem 2013.


NUNCA COMO HOY, LA LLUVIA HA TENIDO RAZÓN DE SER

Una tarde pediste que camináramos
bajo la lluvia,
como lo hacen tus pequeños vecinos
lluviosos en barquitos de papel
felices como en una pecera,
mientras la vecina les grita
que se van a enfermar si no se meten.
Pediste también que olvidara mi paraguas,
mis rainboots,
y que dejara colgada mi gabardina.
Dijiste: la lluvia
no va a derretirte,
acaso corres el riesgo de desdibujarte.
Y así fue; a regañadientes,
olvidé mi paraguas, mis rainboots,
olvidé también el miedo a resfriarme
y fui un garabato de mi misma.
Habité la lluvia, la dejé correr
y canté como lo hacía Gene Kelly         
     —tralalá tralalá—
pero desafinada igual que la lluvia,
que nunca cae con el mismo ritmo
ni con la misma inclinación
y se desafina apenas el aire
la rodea.


FIN DE AÑO

Como llegar al viernes
como usualmente llego a los viernes,
arrastrando los días con las uñas,
sintiendo como cojean las cosas.
Las horas se complican y hay más silencio que ganas.
El frío recorre las calles haciéndose pretexto,
como un triste regente que nos pasa lista:
pendientes, fracasos, deudas, malas jugadas,
un par de aciertos; nada más un par.
El saldo vencido
que hay que pagar al llegar de un viaje,
juntando los plazos
que no nos importaron el resto del año.
Nos quedamos viendo por el retrovisor las cosas,
en un lento desfile de luces
que van alejándose mientras pasan.


CUMPLEAÑOS

Mi madre puede decir lo que sea
y lo que sea será más cierto
que la lágrima que cae
en un día de cumpleaños
porque la luz sigue prendida
diciéndome que hay pastel y velitas;
gente que espera para abrazarme
aunque el amor no sea cierto
ni estas palabras que enuncian
la felicidad.

Nada es cierto, pero hoy es mi cumpleaños
 y sin embargo,
he tenido días más felices,
horarios que despilfarré
o el día que encontré
mi arete favorito debajo de la cama

Soplo las velas, cada una
ante el asombro de una polaroid
pero las velas son un faro en miniatura
que soplo y apago para perder la ruta.

[0476] Francisco Cardo, uma voz libertária

Pseudónimo de António Margalha, nasceu em Reguengos de Monsaraz em 1956. Empenhado em movimentos libertários e alternativos.


DEPOIMENTO

Pela pena de quem canta
nasce o sonho na garganta
essência do signo à fala

A condição de quem escreve
é passar na vida ao de leve
decifrando fundo cada cabala

Pois todo e qualquer canto
não é mais que o próprio espanto
na sua mais agreste travessia

E se um divinatório poeta
se adivinha em si mesmo profeta
mil vezes cruel e maldita profecia.


CANTO DELICADO

Penso o teu nome e digo liberdade
que outra escolha te poderia definir
na acácia de uma sombra sem idade
rasgas em ansiedade o acto de existir

Quem ousar em ti cumprir definições
é trocar o sentido à própria vida
na asa assim mais grata às emoções
embalas o peito num bilhete de partida

Conhecer-te é convocar a incerteza
nem o tempo espera de ti outra vingança
que a dor que te traz a mágoa acesa
voltará contigo de novo a ser criança


PERSPECTIVA

É do tempo ávido de preconceitos
que achados nos perdemos também
e livres enfrentámos os despeitos
que nos elevaram a pouco e ninguém

O rebelde intruso que em nós mora
reencontra-se na voz da intuição
decifra audaz o ânimo de cada hora
e subverte impávido o acto da criação

É deste tempo que por nóa passa
que pela alma a hora nos anima
rasga-nos rivais rentes à desgraça
e constrói-nos felizes na má sina

Simula a instantes essa presença
do futuro que nos repete andarilhos
e elege-nos venturosos à sentença
de nascermos pais de nossos filhos

[0475] Daniel Miranda Terrés, expressão da jovem poesia mexicana


Daniel Miranda Terrés nasceu na Ciudad Nezahualcóyotl em 1988. É Prémio Nacional de Poesia Clemencia Isaura de 2015, Prémio Nacional de Poesia Bartolomé Delgado de León de 2015 e Prémio Internacional de Poesia Ramón Iván Suarez Caamal de 2016.  


ANATOMÍA DEL FRACASO

Vivíamos en un departamento en el último piso
El edificio era viejo y estaba distribuido
en rincones y silencio
El paso de los coches cimbraba las paredes
Por las grietas se trasminaba la lluvia
y la tos de los vecinos
Siempre dormimos
escuchando los pulmones enfermos
de alguien más
El lugar en que vivíamos era frágil al interior
Estaba a la altura de los árboles
y era menos desolado
cuando cantaban los pájaros
que volvían a las ramas

**
A esta hora de la noche cruzan los borrachos venidos de lejos
más allá de la distancia
que supone el pensamiento
Desamparados    como abandonados a la fiebre
caminan imposibilitados de equilibrio
Contemplan la noche:
los guían las luces inciertas
de las casas en los cerros
Tienen poco aliento y menos pasos   
Debajo de cualquier estrella vuelven al suelo
Sus días son largos   
El desamparo les pesa en la sangre       Y sin embargo cantan
En la oscuridad de los callejones
su corazón los guía
como una lámpara de alcohol



EL LIBRO DE LA ENFERMEDAD

Mi madre recuerda el cielo
que iluminaba la plaza del pueblo,
su luz llena de silencio,
siempre azul, abierto, inalcanzable.
Habla de los relojes
que se sincronizaban
cada hora
en la estación de trenes;
de los arcos del acueducto
que traían el sonido turbio del agua
en las mañanas.
La neblina le llega hasta el pensamiento,
escucha los pasos de la anciana
que cruzaba barriendo la plaza
con su escoba de malvas.
La luz que entra por la ventana
le ilumina el rostro.
Le duele la amargura
de sus manos vacías.
No hay viento que mueva sus cabellos.
Mi madre es una casa abandonada.
Mi padre era quien vivía en ella.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

[0474] Kaká Barbosa revisitado


De Cabo Verde, Kaká Barbosa envia-nos um excelente poema para, no novo ano que se aproxima, olharmos no retrovisor o ano que finda. 


O ANO QUE PAROU OS ANOS 

O calhau pisava rascunhos sobre a prancha
o macete silencioso parecia esculpir as horas
o calendário exibia um magnífico dia
espelhado no tejadilho dos automóveis
a vidrada face do gelo
a garrafa de circunstância
a taça de cristal na toalha branca
aguardavam o momento formal
contou-se até três
o fósforo
o gozo
o sopro
o copo
o bolo
arqueados sobre a luz oval das velas
mais o ciclo das cinquenta maias
incendiou-se o calendário do poeta.

[0473] César Silva Márquez, uma expressão mexicana


Nascido em Ciudad Juárez (México) em 1974. Engenheiro industrial, poeta e escritor, recebeu diversos prémios pelos seus contos e novelas.


RECÁMARA ABIERTA

no hay nada, ni lluvia, ni auto ni la nube en forma de cerebro
ni la rama de árbol en forma de arteria
nada por ejemplo entre las manos o dientes
o para decirlo más directo
nada en medio de la sangre de un gorrión
que ha caído como piedra contra el asfalto
mientras el auto pasa y los niños y los más viejos saben de qué va
caer como piedra contra el asfalto
no hay edad suficiente ni vergüenza para decir
por ejemplo gota
y dibujar un corazón justo en el cuchillo
un mapa al costado de la mujer de ojos grandes
manos para tocar violín, cuello para hincar el golpe
para insultarla y gritarle que no se vaya
y con una mano tocar cada uno de sus espacios
y apretar y dejar huella
por ejemplo nada de luz
fragmento sin brillo que corte
marca de agua en el labio superior
para decir que no
para hablar hacia adentro
cerrar los ojos y saber
que la distancia es un pedazo de cordón al cuello
nada como el tiempo, esa medusa
o la casa hueca porque los niños crecieron, digamos
nada por ejemplo en la niña de boca grande, en el cabello largo y negro
como una ola en un mar sin luz
a media fiesta, contra la roca
nada en la película que juntos, ella y él, han urdido
personajes secundarios listos para cruzar un puente
lluvias que no existen, decir cualquier palabra en inglés
una película que sirva para besar y beber
                  dentro del auto
                  en una esquina a las 3 de la mañana
                  con el asiento hasta abajo sosteniendo los cuerpos
                  a la espera del lobo
                  para al final saber que el lobo son ellos
                  con dientes de mármol y rabia en ojos y pelambre
nada como eso, como gritar corte se queda
y entre el sudor y la respiración
el abismo de lo que están hechos
tapar los ojos con la mano y morder la lengua
promesas como palabras y palomas
como ese gorrión sobre la calle
nada nada nada


HOTEL LOIS

el puerto era una flor cortada en nuestras manos
j. c. becerra

salgo a la noche y entro en la playa
las arenas reciben mis pies
el fresco viento arrastra
olas hambre
y voces
sobre todo la voz que acaricia
la moneda que es el mar
aquí estuve en 1993
el hotel lois era azul y la ciudad
se construía alrededor
la vida era una pelea constante
pero entonces qué es la vida
cuando con cerveza
cruzas la mitad del país en auto:
a media mañana te despides
del pacífico
y una noche después
el golfo de méxico pesa como una perla en tu mano
no te percatas
de que este puerto es tuyo
una flor como dijo el poeta
una puerta que cierra
para que el sol caliente los huesos
y el aire nos despeine
y enumere olas y pájaros
el brillo en el ojo de la cerveza
en el bar del lois el arpa desgaja notas
parte en dos la música
y la fiesta es el anzuelo
que atrapa una flor de barcos
tampoco sabía que mis amigos
se destrozarían poco a poco
yo que viví el naufragio dulce de la fiesta
cómo lo iba a saber
si las ciudades se arremolinaban
en el licor
y la vida era libros
que pensaba escribir
el júbilo estaba a mis pies
y la pasajera edad
tomaba el sol a sus anchas
en 1993 tenía 19 años
ahora el lois esplendoroso me llama
el bar abre tantas cervezas para recibirme

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

[0472] Álvaro Feijó, a força neo-realista


Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó nasceu em Viana do Castelo em 1916 e faleceu em Coimbra em 1941. Poeta, foi um dos vultos do neo-realismo português.


NAU PERDIDA

Pobre, lá vai! Que rombo no costado!
Como a água a peneta aos borbotões!
Açoita-a, em fúria, o Mar. Adorna ao lado.
Anda à mercê das vagas, dos tufões!
Mas segue, segue em frente. O vento a ajuda!
Galga nas ondas, que doidinha, olhai!...
Julga-se, ainda, a nau que dantes era,
por levar, no porão, uma quimera,
por ir, do vento na refrega aguda,
ovante e sem saber par’onde vai!

Julga-se, ainda, a nau que dantes era…
- o que passa não torna…
Na pobre nau perdida
a água entra e adorna.
Vai sendo, aos poucos, pelo mar sorvida.

Na agonia estrebucha. Num desejo
de vida e luz, arfante, desesperada,
busca furtar-se ao comprimento beijo
do Mar que a envolve. – Após, é o Mar e nada…
Doirado como um astro,
haste esquecida em campo onde as mondas
colheram tudo, o topo do seu mastro
fica esperando ainda sobre as ondas.

Na rota pelo mundo
- ao deus-dará na vaga azul e infinda -
nós vamos – nau perdida em Mar profundo –
joguetes do tufão;
mas conservando, ainda,
na última Esperança a última Ilusão.


SONETO DE AMOR DA HORA TRISTE

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro
do que tu – não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                          Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria…
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.


VARINA

Eu mudei de pincel e de paleta
- embora seja a mesma tinta com que escrevo –
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das linguetas
- o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
- “Quem merca os camarões”…
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne.
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar…
A Senhora d’Agonia…
A quentura de Agosto…
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta…
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro…
e… “até mais ver”…
Vês! Eu sei a tua história…
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto.
dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia,
tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.

[0471] Claudia Barrueto. Do México chegam novas vozes


Claudia Berrueto nasceu em Saltillo (México) em 1978. Recebeu o Prémio Nacional de Poesia Tijuana de 2009 e o Prémio Iberoamericano Bellas Artes de Pesia Carlos Pellicer de 2016


POEMA SIN TÍTULO

Los tallos de la noche se internaron en nosotros
y permanecieron en su romance de arbustos
hasta dislocarse en árboles demasiado conscientes de su ingeniería
atenazados por el silencio
dueños de una memoria seca que les creció
[en el aire
árboles enfermos que desacomodaron el dibujo de las horas
árboles enfermos amputándose de nuestro organismo
árboles que no acaban de morir
suspendidos en el cielo


POEMA

                                       a mi hermano Carlos

ni cuando serví café en mi diminuta vajilla
y nuestros padres nos midieron los pies
con desconsuelo en la mirada
eligiendo los zapatos como quien elige un camino
ni cuando mis manos entraron en la nieve por primera vez
para atacarte con blancura en el patio
tampoco durante la lluvia
que nos sosegaba después de pelear
menos aun cuando la licuadora era el tablero de nuestra nave
y la mermelada era servida en taza
nunca
cuando rodamos los días sobre los diablos de la bicicleta
mientras demonios reales se apoderaron de nuestra infancia
y te oí llorar sin darte consuelo
no lo logré
llegó todo y todo se fue
y jamás
hermano
pude mirar al mundo con ojos de niña


POEMA

frente a excavadoras
hablamos del amor que nos deshabita
palacios vueltos escombro
se despeñan por nuestras bocas
yo quiero ser un brazo amarillo de metal
que hunda su cuchara en tu ruina fresca
la gravedad que ahora sí
te deje baldío

[0470]


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

[0469] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (9) Nuno Rebocho, em nome do povo

Poeta nas horas vagas, o autor nunca vituperou o legado histórico português, embora o visse como gesta de um povo e não apenas dos seus reis, presidentes, guerreiros, santos, navegadores, etc. 

Na sua interpretação é o povo que faz a História. Se o tem vincado nos estudos coligidos, escritos e publicados (“O 18 de Janeiro de 1934”, “A frente popular antifascista”, “História Breve do Sindicalismo Reformista”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau”, “Histórias da História de Santiago”), também o lembrou na poesia, como foi o caso do seu livro “Nau da Índia”, que abre precisamente com o poema que ora se publica


NAU DA ÍNDIA

a nau que vem da índia
carrega ouro carrega especiarias
venceu o mar da perfídia
entre alíseos & calmarias
o gajeiro amarrota os longes da ilusão
o piloto afaga a mulher que deixou em terra
o contramestre toca violão

a nau que vem da índia
vai no torna-viagem
abarrota das quintaladas
audácias desfeitas na aragem
doutras índias sonhou o capitão
o piloto amarga frutos frescos da terra
o contramestre toca violão

[0468] Fernando Esteves Pinto, uma voz independente


Nascido em Cascais em 1961, Fernando Esteves Pinto obteve, em 1990 o Prémio INASSET Revelação de Poesia. É um dos cofundadores do Sulscrito (Círculo Literário do Algarve) e editor da “4 Águas”.


POEMA

Este é o muro da angústia e do horror.
A ele te encostas quando a vida se expõe à morte
e nenhuma razão serve de prumo para alinhar a piedade ao erro.
A memória da tragédia ao extermínio humano.
Tensas imagens em transe: uma devassidão do espírito.
Sagrados crânios transformados em colmeias: 
empatias do destino.
Uma geografia de sapatos retendo a sua marcha 
a um passo do fim. Regiões de ventos em extensos cabelos: 
uma harpa imortal na sua harmonia. 
Relógios e ouro e óculos que se amontoam 
como vermes incrustados nos ossos da história.
É uma indústria da tortura que consagra a matéria.
Outras vidas que ninguém sente.
E só Deus acumula a herança de tanto sacrifício.


SEM TÍTULO

No quadro de René Magritte chovem pessoas na tua vida.
São criaturas negras, biografias tumultuosas a dominar a vertigem.               
Uma precipitação que faz desmoronar o medo.
Também tu crias o teu próprio movimento
e cada impulso é uma linha fulminante.
Um dilúvio de vidas humanas numa paisagem demente.
Arte soturna e severa que ameaça destruir 
as expressões iluminadoras.
Planos de evidência insuportáveis
como uma loucura numa zona de perigo. 
Incompreensível humanidade que cria 
uma imagem para tudo
uma impressão de espaço no ar que respiras
ou uma natureza interna 
irradiando atmosferas químicas.
Mapas à procura de uma decifração.
Matéria terrena lançando no ar meditação e delírio.


POEMA

Já nenhuma mente invoca a existência profunda
porque o que é profundo murmura em si 
coisas que não existem.
E as acções mais iluminadas são apenas aparições 
veios de inspiração irrompendo no pensamento
imagens dobradas numa cabeça estremecida. 
É uma fonte de vigilância esta composição da vida: 
fonte cheia de situações tumultuosas.
Vão buscar energias à íntima fecundação da humanidade 
E a tua mente vibra no seu nervo de treva e alvura: 
contemplações magnificadas pela razão.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

[0467] Novo número de "La Otra Gaceta"

Editado mais um número de “La Otra Gaceta”, referente a Dezembro de 2018. 

Revista mexicana dedicada à poesia, dá especial ênfase à literatura sul-americana.

Destaques neste número para Lila Calderón, Miguel Angel Zapata, Ioana Gruía, Rodolfo Mata, Laura Elena González, entre muitos outros. 

[0466] Ed Mulato, de novo


Reincide em “Ibn Mucana”, a poesia do poeta brasileiro Edu Mulato. Traz o cheiro do samba e do brinca-na-areia. E agradecemos.


O LUTO E A LUTA

Luto contra a luta
de fazer, do luto, luta
todo dia, todo dia...

Luto contra o cheiro de carniça
que invade, inteiro, a missa,
mesmo estando o corpo ausente

Este cheiro, a gente sente...

... completamente...

Todo dia a gente morre;
todo dia se revive;
todo dia o sangue escorre...

todo dia...
todo dia...

to do dia...

Um tiro, um grito
Lá no chão, um corpo quente...
... e povo passa, indiferente...

perversa
mente

... essa a desgraça,
que a gente sempre sente

Profuun damente...

Todo dia a mesma luta.
Como é dura essa labuta!

Que é bruta,
e é diária,
é incerta,
inserta e vária,
deserta, pária,
porque perdida de saída:

é o fim da vida ainda em vida

Que culpa tenho de meu gene diferente?
Que culpa tenho se, também, me sinto gente?
Meu sangue corre, mas, também, é o mesmo, e quente...
Meu Deus, cadê a sua paz?
Onde estão meus orixás?
Será meu corpo entregue à terra?
Será incerta e infinda a mesma guerra?

Nem assim meu grito cala.
Minha voz, se muda, fala:
alguém irá levar meu luto à frente;
minha luta estará sempre presente

Eternamente...

A minh’alma assim o sente.

Minha luta? É ir em frente....

Com-pul-so-ria-mente...

... a paz ausente...

perenemente...

Este é o luto
que a gente sempre sente...

É sempre assim:
é quase o fim...

Tão simplesmente.

[0465] Carlos de Oliveira, o vértice do neo-realismo

Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu em Belém do Pará (Brasil) em 1921 e faleceu em Lisboa em 1981. Escritor, crítico, tradutor e poeta, ganhou o Prémio Bordalo em 1971 e o Prémio Cidade de Lisboa em 1978. Veio para Portugal criança ainda (dois anos de idade), estudou em Coimbra onde se licenciou em Histórico-Filosóficas em 1947 e aí integrou o grupo neo-realista (“Novo Cancioneiro”). Foi director da revista “Vértice”.


ACUSAM-ME DE MÁGOA E DESALENTO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.


TEMPO

O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbedo de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.


CANTIGA DO ÓDIO

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

domingo, 2 de dezembro de 2018

[0464] MÚSICA PARA O DOMINGO (11) Hoje, Jacques Brel e "Les Marquises"




LES MARQUISES

Ils parlent de la mort comme tu parles d'un fruit,
Ils regardent la mer comme tu regardes un puits.
Les femmes sont lascives au soleil redouté,
Et s'il n'y a pas d'hiver, cela n'est pas l'été.
La pluie est traversière, elle bat de grain en grain
Quelques vieux chevaux blancs qui fredonnent Gauguin.
Et par manque de brise le temps s'immobilise
Aux Marquises

Du soir montent des feux et des points de silence
Qui vont s'élargissant et la lune s'avance.
Et la mer se déchire infiniment brisée
Par des rochers qui prirent des prénoms affolés.
Et puis plus loin des chiens, des chants de repentance
Et quelques pas de deux et quelques pas de danse.
Et la nuit est soumise et l'alizé se brise
Aux Marquises

Le rire est dans le cœur, le mot dans le regard,
Le cœur est voyageur, l'avenir est au hasard.
Et passent des cocotiers qui écrivent des chants d'amour
Que les sœurs d'alentour ignorent d'ignorer.
Les pirogues s'en vont, les pirogues s'en viennent,
Et mes souvenirs deviennent ce que les vieux en font.
Veux-tu que je te dise : gémir n'est pas de mise
Aux Marquises ?

[0463] Javier Acosta, o inventário mexicano


Javier Acosta nasceu em Zaratecas (México) em 1967. Professor universitário, tradutor e poeta, coordenador de oficinas de poesia, foi Prémio Nacional de Poesia Ramón López Velarde de 2007 e Prémio Bellas Artes de Poesia Aguascalientes em 2010.


LA PRIMAVERA CRECE

 con su disimulada edad de cuarentona
cambiando el largo de su falda
según la inclinación de las orquídeas
según la inclinación de uno como yo
que aúlla por pudor
que aúlla por prudencia

que hace de todo
lo que apacigüe la división divina de las moscas
la población creciente de mariscos

como un Yahvé a la inversa
que confunde los cielos y las aguas
y perdona los nombres a las cosas

pero la luz persiste
desordenando el crecimiento del glosario
la falsa mutación del río
la grosera multiplicación de los peces.


LA MAR LLEVA LA CUENTA

de la edad de la luna

la luna lleva la cuenta

de la edad de tus hijas
no sé qué cosa contarán tus hijas
a cierta edad
uno no cuenta casi nada

Quizá llevan la cuenta de algunas calorías
de cosas a la plancha
de tiernos vegetales
de peces al vapor
La partitura amarga de guardar la línea

Las adolescentes pasean sus corazones
puestos bajo la piel discretamente
pocos centímetros arriba del ombligo

Mueven sus magras redondeces
su promesa de eternidad
que no se cumple
Que no se cumplirá.


CUENTAN LOS GRIEGOS

que junto a los riachuelos
al mediodía
y casi siempre tras espesas flores
se podía intuir la risa de las ninfas

O los beduinos
que oían el trote de un caballo
el andar inclinado de los peones
que recogen arroz
sobre un tablero de ajedrez
en el plácido corazón de un espejismo

Los dos famosos monjes que juegan a las damas
bajo la sombra del bambú
No se les ve —comenta Bai Juyi—
pero de vez en cuando
se escucha el ruido de unas piezas

Y apenas podemos imaginar deleite semejante
cuando por ese olor sabemos
que una señora ha usado el ascensor
que otro vecino ha disfrutado
el costoso perfume de sus pechos.

[0462] Amândio César, a poesia do antigo regime


Nasceu em Arcos de Valdevez em 1921 e faleceu em Lisboa em 1987. Professor, jornalista, escritor e poeta. Apologista do salazarismo, exilou-se em Espanha em 1975 e depois no Brasil


TUDO

Em surdina chegaste
E em surdina te vais:

— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!

E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses

— Por nada!


QUE HORA É ESTA?

É em vão que o sol doura
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra

Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.

Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.

Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.

Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.


PAR OU PERNÃO

Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.

E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...

Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...

Vida?...  Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?

[0461] Mais um número da revista Triplov

Com colaborações de Floriano Martins, António Brandão, Daniel Perroni Ratto, Estergilda de Abreu, Jorge Mello, Maria Azenha, Berta Lúcia, Frida Kahlo, Diogo Rivera Peña, Jorge Velhote, Rodolfo Hasler, John Welson, João Pereira de Matos, Patrícia Suárez, Francisco Garzón Céspedes, Adelto Gonçalves, Tomás Pinto Brandão, Manuel Rodrigues Vaz, Ricardo Daunt, Pedro Silva Sena, Antímio Damião, Fernando Soromenho, Rolando Revagliatti, Alberto Boco, Zuca Sardan e Ana Borges acaba de sair mais um número da Revista TriploV, série gótica, referente ao inverno de 2018-2019.

sábado, 1 de dezembro de 2018

[0460]

[0459] Eduardo Quina, o poeta do desconsolo

Nascido em Bragança embora se considere madeirense (reside no Funchal), Eduardo Quina é professor de Filosofia e poeta.


POEMA 6

um pequeno barulho quebra o silêncio. uma luz sobre o
corpo deitado na escuridão do quarto. dentro de ti fluem
vozes que dizem coisas: não têm rosto.
ouvias: não falavas. o insuficiente silêncio do silêncio.
os teus olhos a olhar os teus olhos: adormecias. sonhavas.
o sonho era um túmulo da lembrança antes de tudo: os
nossos corpos velhos.
eu estava ali, ao teu lado, e não sentia nada
dentro de ti.


POEMA 10

na tua condição de fêmea
só suportas a tua própria existência:
um monólogo.

e desenhas-te,
sem palavras,
em silêncio,
até ao desfalecimento da própria matéria.

e sofremos os dois, mãe,
para a dor ser mais suportável.


POEMA 21

a minha memória
são as cicatrizes de deus.

e vivemos em carne viva
para que não esqueçamos
o sofrimento de que somos feitos.

perdão:
fui eu que te abandonei.

[0458] José Emílio-Nelson, uma poesia ácida


Pseudónimo de José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, nasceu em Espinho em 1948. É crítico, editor e poeta.


SOBRE O SÁTIRO

Desprende de si os chifres da cabra
Com que cobre a cabeça que uiva.
A carne descarnada
Fez-se músculo. E fez-se brilho.
Reconhece nas águas lúgubres o calcanhar
Que pisa o «falso engano».
Suporta o balanço do esperma como se fosse incenso.
E enfia um olho no fundo das nádegas, outro na testa.
A cegueira não o ajuda a ser
Animal para uma fêmea tremulante.
Raspa, alisa sem descanso, arredonda o que se faz odre.
E no vaso da ostentação enfia o farto couro da cabra.
Cresce-lhe o «grito feminino» entre as pernas marcadas de dureza.
(Não haverá velório para o corpo amputado do seu pénis, seta de cetim.)
Espera em Sodoma que o venham recolher.


MAHLER
(A CANÇÃO DE DEUS E MORTE) 

No jardim das almas
A fala caída.
Como se fosse a canção de
Deus e Morte.
A canção do cadáver
Sombrosa e rente.
Uivo. Brechas.
Ululante.
Compassadamente
O coração solto
Rasgado contra o céu maciço.
E de abismo ou de crateras
Um ardil. Incessante
Profundidade e permanência interminável
Na terra ímpia.
O relâmpago rasteja Deus.
Abre-se a solidão
Nos ombros do Inferno.

Quem vislumbra pérfido
No alçapão da sombra?
E o ricochete da luz?
Que castigo inexpiável?
Haverá uma música da fatalidade?
E quem lhe deve obedecer?
Sou miserável e perturbante.
Dou-me à paisagem destituída.
À árvore devastadora. À borboleta esmagada.
(O restolho enovelando.
Um bestiário precipitando-se.
Sacudindo-me.
Que aurora imprevista
Impulsivamente no mundo?)
Cantava a impaciência
Melancólica.
A dor radiante.

A vastidão.


QUAL TULIPA?

Vês a tulipa rude
Quando outra boca a abandona.
À sua pele aveludada, cintura fina,
Quase a mordes.
A essa tulipa crua, ao esmagá-la,
Não lhe escondes o odor. (Jorra, esguicha.)
Abre-se por dentro, lançada fora.
A desatenção solta-se, lágrima sã de odorosa.
Da embriaguez, não é outra coisa, rude, crua.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[0457] Casimiro de Abreu, o romantismo nativista brasileiro


Casimiro José Marques de Abreu nasceu na Barra de S. João (Rio de Janeiro) em 1839 e faleceu, vítima de tuberculose, em Nova Friburgo em 1860. Comerciante e poeta, passou efemeramente por Portugal.


CANÇÃO DO EXÍLIO 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!
O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!
Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
Correndo lá do sul!
Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!
Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!
Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!
Minha campa será entre as mangueiras,
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranquilo
À sombra do meu lar!
As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!


DESEJO

Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!


MEUS OITO ANOS 

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
…………………………..
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!