segunda-feira, 22 de outubro de 2018

[0316] Dois meses de Ibn Mucana!!!

[0315]

[0314] António Manuel Couto Viana, a poesia bem-comportada


Nascido em Viana do Castelo em 1923 e falecido em Lisboa em 2010, António Manuel Couto Viana foi professor, dramaturgo, encenador, tradutor, ensaísta e poeta. Foi director do Teatro do Gerifalto, da Companhia Nacional de Teatro e director das revistas “Graal” e “Távola Redonda”. Recebeu o Prémio de Poesia Luso-Galaica Valle-Inclan e o Prémio Antero de Quental.


PEDRA TUMULAR
                   
                    in "Mancha Solar"

A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido:
É feita de ignorância e de castigo,
Tão rígida e tão fria como a pedra.

Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis,
Duma verdade inútil por vazia,
E a língua imóvel nega o som à vida,
Por hábito ou por falta de coragem.

Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra:
Porque é que pulsa o coração do mundo,
Precipitado, angustioso, ardente?

Mas depressa submerge na indiferença
- Que lhe deram um túmulo seguro;
E o relógio dá-lhe horas certas, sempre.



DEZASSEIS ANOS, TALVEZ

Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
o bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara... que ali fica.

- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!


DESPOJO

E, agora, o que faremos?
A quem legar o que resta
Do simulacro de festa
Que tivemos?
Quem aproveita os detritos
De uma alegria forçada?
Quem confunde aflitos gritos
Com imposta gargalhada?
Iremos por onde alguém
Descubra os nossos farrapos.
Vês flores no jardim de além?
– Vejo sapos.

[0313] Rui Almeida, a jovem poesia portuguesa

Rui Almeida nasceu em Lisboa em 1972. Poeta, foi Secretário Nacional para os Bens Culturais da Igreja. Foi Prémio Literário Manuel Alegre em 2013.


POEMA 

Em três horas de viagem
Se lêem poemas com 40 anos,
Contemporâneos de começar
A ser quem hoje é em viagem
Nesta costa, neste longe
Atlântico incerto, inevitável.
Nesta costa foi o que é agora
Sonhado, silencioso,
Tenso, rumoroso
E fraco, como ainda
Custa ser. Se ser é isto,
Como seria não ser?
E como seria limpar o rosto
Depois de cada Agosto?


SEM TÍTULO

Agora é o tempo todo desde sempre.
Abandono tenso de leveza
Levada às cordas vocais
No incómodo do esforço.
Caudal da vontade
Tornada assombro táctil.


POEMA

Como se um sobressalto
Pudesse prolongar-se por vários dias
E conter passos e olhares
Sem que o espanto momentâneo se dissipe.
A limpidez de tudo
Delimita o mundo à sensação,
Traz as coisas ao contacto com a pele,
Experiências do tremor
Na demora que concentra.

[0312] António Botto e a mais retrógrada reacção

António Thomaz Botto nasceu em Concavada (Abrantes) em 1897 e faleceu no Rio de Janeiro em 1959. Filho de um fragateiro e de uma mulher-a-dias, foi funcionário público, dramaturgo, contista e poeta, viveu em Angola (Santo António do Zaire). Depois de percorrer a Europa, radicou-se no Brasil em fins da década de 40, fugindo ao escândalo provocado num meio retrógrado por um livro de poemas onde a homossexualidade era incensada – facto que lhe valeu a fama por que ficou conhecido. Empregado de uma livraria, estabeleceu fortes relações com autores do seu tempo, tendo sido companheiro de Fernando Pessoa. De feitio truculento, vaidoso e egocêntrico, entrou em conflito com grande parte dos seus confrades. Boémio, percorria as docas lisboetas à cata de marítimos. Apesar da homossexualidade semi-assumida, viveu com uma cônjuge mais velha do que ele. Perseguido pela fama do seu comportamento e pelo Estado salazarista, esgueirou-se para o Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Niterói onde se fez passar por engenheiro-arquitecto). Finalmente, recolheu-se ao Rio de Janeiro onde requereu o seu repatriamento para Portugal, o que lhe foi recusado. Morreu na miséria, vítima de atropelamento quando ia visitar o seu advogado. Trasladados os seus restos mortais para Lisboa, mereceram as honras de poetas como David-Mourão Ferreira, Natália Correia e José Régio. Todavia, a sua poesia continuou mal conhecida.


QUEM É QUE ABRAÇA O MEU CORPO

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte,
Docemente, ao meu ouvido?

És tu, Senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.


FOI N'UMA TARDE DE JULHO

Foi n'uma tarde de Julho.
Conversávamos a medo,
- Receios de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
- E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.

E, aos beijos, ébrios, tombámos;
- Cheios d'amor e de vinho!

(Uma súplica suava:)

«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»


A VOSSA CARTA COMOVE

A vossa carta comove,
Mas, não vos posso acompanhar.
Deixai-me viver em penas;
- Vou sofrendo e vou sorrindo,
O meu destino é chorar!

Sim, é certo; - quem eu amo
Zomba e ri do meu amor...
- Que hei-de eu fazer? - Resignar-me,
Gentilíssimo Senhor!

Depois, quanto mais sabemos,
Parece que mais erramos:

- Antes sofrer os males que nos cercam
Do que ir em busca de outros que ignoramos.

domingo, 21 de outubro de 2018

[0311] Poesia experimental portuguesa apresentada em Brasília

18 poetas portugueses estão a ser apresentados em Brasília numa mostra (com o apoio do Instituto Camões) começada a 17 de Outubro e prevista está patente até 16 de Dezembro. Com essa mostra pretende-se divulgar décadas da poesia experimental portuguesa nos seus variados formatos e suportes (visual, fonética, cinética, videopoesia, foto-poemas e poemas-objecto). Na sessão de abertura uma conversa com Ernesto M. de Melo e Castro e performances de Fernando Aguiar e Silvestre Pestana.  


[0310]


[0309] MÚSICA PARA O DOMINGO (5). Hoje, "Ser poeta", Trovante ("Ser Poeta" ou... "Perdidamente") Rock in Rio 2010, Música de João Gil sobre poema de Florbela Espanca, voz de Luís Represas


SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

[0308] Jaime Rocha e a poesia circular

De seu verdadeiro nome Rui Ferreira de Sousa (também usa o pseudónimo Sousa Fernando) nasceu na Nazaré em 1949. 

Poeta, escritor e dramaturgo, recebeu o Grande Prémio do Teatro da APE de 1998 e o Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos de 1998, o Grande Prémio do Teatro da SPA de 2004, o Prémio APE de Teatro de 1998 e o Prémio de Poesia do PEN Clube Português de 2011. Esteve exilado em França e regressou a Portugal depois da Revolução de Abril de 1974. 


SEM TÍTULO

A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.


VISÃO DEZASSEIS

Deixando nele marcas como se estivesse dentro
de um círculo de fogo. Ou como um assassino
emparedado na cal a quem lançassem musgo
até à morte. Há ali um espaço solto, o sítio onde
os pássaros devoram os peixes. E uma zona escura
com um manto redondo tapando a luz, uma espécie
de cegueira em cujo centro existe um castanheiro
e uma caixa vazia. Um papel voa, desliza junto
a um muro e é daí que a música se espalha presa a
um fio de cobre. É nesse momento que a imagem
dela se forma e se despedaça. O seu corpo
é agora o vento.


POEMA

De novo o corpo dela sobressai
no meio das rochas e, mais tarde,
ao fundo da praia, o seu vulto
assemelha-se a uma árvore nua.

Sou eu que caminho para ti,
diz a mulher.

E a sua sombra parece agora uma
outra figura, um pedaço de barro
caído ao chão, nessa fotografia
comida pelo tempo

um tempo colado à árvore onde
o cão se enrosca como se ali estivesse
estado sempre um barco à espera
das ondas pequenas.

[0307] Ernesto Dabó, a palavra-grito na Guiné-Bissau

Mohamed Ernesto Dabó nasceu em Bolama em 1949.Ainda novo, foi para Portugal para prosseguir os estudos. Fez parte de grupo de jovens artistas guineenses que fundou o primeiro agrupamento de música moderna da Guiné-Bissau, o “Cobiana Djazz”. Foi também o primeiro artista guineense a passar na Rádio Televisão Portuguesa (RTP), em 1971. 

Agricultor e advogado, antigo quadro da administração pública guineense, activista cultural, compositor, fotógrafo, artista plástico e poeta bilingue, Ernesto Dabó é, na Guiné-Bissau, uma expressão multimodal da arte naquele país. Grande parte da sua poesia se perdeu nos anos de guerra no seu país.


ILHA MÃE

Faces e dentes
 dizem melhor do acantonamento das almas
Viagem a pingar última gota
Da ponta da ponte
 atiram-se abraços cruzados e abertos
Do mar à terra
ampla luz de amor e saudades
Reencontro com a filha bela da mãe natura
minha Ilha-mãe
BOLAMA


POEMA

À tua porta há rosas.
Colhe uma e com ela muda o mundo


GUERRA

Flocos de chama letal
partiam de canos aos céus
Um par de olhos que não via o engodo de pão para se calar
girava na face nascente
faiscando temor
envolto em pó e questão.

[0306] Egito Gonçalves, um poeta da resistência

José Egito de Oliveira Gonçalves nasceu em Matosinhos em 1920 e faleceu no Porto em 2001. Agente de seguros, editor, divulgador cultural, poeta, e tradutor, recebeu o Prémio Internacional Nicola Vaptzarov de 1985, Grande Prémio de Poesia da APE de 1995, o Prémio do PEN Clube Português também de 1995 e o Prémio Seiva da Literatura de 1998. Foi director das revistas “A Serpente”, “Arvore”, “Notícias do Bloqueio” e “Limiar”. Destacado anti-salazarista, integrou os movimentos de oposição democrática, dirigiu o Teatro Experimental do Porto, o Cine Clube do Porto e a Cooperativa Árvore 


NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se


SÓ O AMOR ME INTERESSA

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores


PANFLETO CONTRA O PANFLETO

                    (sob a forma de conselhos a um jovem poeta)

Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.
Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.

Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.

Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.

Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!
Se recorres às rosas faze que sejam branca
se elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.

sábado, 20 de outubro de 2018

[0305] Tertúlias Poéticas do Casino, homenagem a Cabo Verde

Visando homenagear os poetas africanos, brasileiros e timorenses através de tertúlias poéticas a Associação de Moradores e Empresários do Parque das Nações (em conjunto com as Embaixadas dos países lusófonos da CPLP e do Casino de Lisboa, a que a UCCLA se associou) realiza a 30 de Outubro a segunda tertúlia literária em que o país contemplado será Cabo Verde. Os apresentadores serão José Luís Hopffer Almada, Carlota de Barros e Paula Martins de Carvalho, homenageando-se Ovídio Martins, Yolanda Morazzo e Gabriel Mariano. A primeira tertúlia, havida a 25 de Setembro, foi dedicada à Guiné-Bissau e nela foi homenageado Ernesto Dabó.



[0304] Raul de Carvalho, a voz incómoda


Raúl Maria de Carvalho nasceu em Alvito em 1920 e faleceu no Porto em 1984. Farmacêutico, fotógrafo, pintor e poeta na tradição modernista, conjugou a sua formação neo-realista com a inspiração surrealizante. Homossexual assumido, foi militante comunista. Director da revista “Árvore”, extinta pela cnsura salazarista, foi Prémio Simon Bolívar de 1956. A sua casa foi assaltada e roubada pela PIDE pouco depois da sua morte em resultado de um ataque cardíaco. Todos os seus inéditos se perderam. 


TODAS AS HORAS

Todas as horas, todos os minutos,
São para mim a véspera da partida.

Preparo-me para a morte, como quem
Se prepara para a vida.

Em qualquer parte eu disse que a Beleza
Não nasce só mas sim acompanhada.

Não são palavras minhas as que eu digo.
À minha boca pertence aos que me amam.

Mudos e sós.
À nossa volta todos os amantes
Sentir-se-ão tranquilos.
Um coração puro
É como o Sol:
Brilha todos os dias.


INTERROGAÇÃO

Ao Lagoa Henriques
Ao Carlos Amado
Estar morto
E ainda verde,
Como as primeiras folhas
Caídas no Outono,
Seré esse
O destino
Dos Poetas?


PERCAM PARA SEMPRE

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.

Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.

[0303] Luís Miguel Nava, vida breve e brava


Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu em Viseu em 1957 e foi assassinado em Bruxelas em 1995. Poeta e tradutor, Prémio Revelação da APE de 1978 e Prémio PEN Clube Português em 1995.


FALÉSIAS

Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.


AO MÍNIMO CLARÃO

Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.

Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.

Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. Chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.


POEMA

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.

[0302] Joaquim Namorado, um realismo irónico


Joaquim Vitorino Namorado nasceu em Alter do Chão em 1914 e faleceu em Coimbra em 1986. Professor, matemático, poeta, foi um dos teóricos do movimento neo-realista português. Militante comunista, foi director da revista “Vértice”.


PORT WINE

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlinos
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.


EDITAL

Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.

Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.


AVISO À NAVEGAÇÃO

Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

- (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!


FÁBULA

No tempo em que os animais falavam.
Liberdade!
Igualdade!
Fraternidade!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

[0301] Ontem, na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, por ocasião do lançamento de "Histórias da História de Santiago", de Nuno Rebocho





[0300]


[0299] José Luís Tavares, a força da actual poesia cabo-verdiana

Nascido em 1967 em Chão Bom (Tarrafal de Santiago), José Luís Tavares é um dos grandes poetas contemporâneos de Cabo Verde. Recebeu o Prémio Revelação Cesário Verde de 1999, o Prémio Mário António de 2004, o Prémio Jorge Barbosa da AECV de 2006, o Prémio Pedro Cardoso de 2009, o Prémio Cidade de Ourense de 2010, o Prémio Literatura para Todos (Brasil) em 2008/2009/2010 e o Prémio BCA de Literatura de 2016.


DÚVIDA SOBERANA

                   À memória de Wislawa Szymborska

Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.
Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.
Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.
Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.
O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.
Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.
Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.
No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.
Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.
No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.
Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.
Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.
Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.
O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.
A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».
Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:
nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.
De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.
Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.
Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar”.

[0298] Fernando Echevarría, o neo-barroquismo

Fernando Ferreira Echevarria, poeta luso-espanhol nascido em Cabezón de la Sal em 1929. Veio muito novo para Portugal, onde estudou. Perseguido pelo regime salazarista, exilou-se em Paris e depois na Argélia, fixou-se em Espanha (formando-se em Teologia). Professor e poeta, escreveu sempre em português. Identifica-se com o neo-barroquismo. Entre outros, recebeu o Grande Prémio de Poesia do PEN Clube Português de 1981, o Grande Prémio de Poesia da APE de 1991, o Prémio António Ramos Rosa, o Prémio da Fundação Luís Miguel Nava, o Prémio D. Dinis e o Prémio Literário do Casino da Póvoa de 2015.  


A SOLIDÃO É SEMPRE FUNDAMENTO DA LIBERDADE

A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
— fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.


A VELHICE É UM VENTO

A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.


LENTOS NOS FOMOS ESQUECENDO

Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.


QUALQUER COISA DE PAZ

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.

[0297 Papiniano Carlos, a voz neo-realista


Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques (Moçambique) em 1918 e faleceu em Pedrouços, Maia, em 2012. Desde a infância radicado no Porto. Engenheiro, escritor, dramaturgo e poeta, foi um dos nomes do neo-realismo português. Parte da sua obra foi apreendida pela PIDE salazarista. Militante comunista, foi por três vezes preso pela polícia política, dirigiu a revista “Notícias do Bloqueio” e foi director do Teatro Experimental do Porto.


CÂNTICO

Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul. 
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras. 
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas. 
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


POEMA

Antes isto fosse
mãos e pés verdadeiros,
caminho verdadeiro
e machados,
arados,
mãos crescendo nas trevas.
Antes isto fosse
um canto de galos
além nos quintais,
e homens correndo
nas sombras da noite. 
Ah, fossem isto ventos,
fossem isto ventos!
desabar de casas,
largada de navios
na madrugada
com acenos e gritos reais. 
Fosse isto sangue
a ensopar-me a camisa,
fosse isto sangue!
quente e espesso
nas minhas mãos.


CAMINHEMOS SERENOS

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai. 
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

[0296] RELEMBRAMOS: acontece hoje em Lisboa, lançamento do novo livro de Nuno Rebocho com fotografias de Tó Gomes, prefácio de Joaquim Saial e design de Inês Ramos

No âmbito da realização da VII Quinzena da Cultura Cabo-Verdiana em Lisboa e da celebração do Dia da Cultura e das Comunidades Cabo-Verdianas, a Associação Caboverdeana de Lisboa e a Livraria Pedro Cardoso promovem a apresentação de “Histórias da História de Santiago” de Nuno Rebocho hoje, 18 de Outubro, às 18h30, na sede da AC (ao Marquês de Pombal). A apresentação pública do livro estará a cargo dos escritores Joaquim Saial e José Luís Hopffer Almada.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

[0295] Mário Cláudio, o clássico do rigor

De seu verdadeiro nome Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto em 1941. Foram-lhe atribuídos o Prémio Seiva da Literatura (1993), o Prémio Pessoa em 2004, o Prémio Clube Literário do Porto em 2005 e o Prémio Autores em 2011. Escritor, dramaturgo, ensaísta e poeta. O autor detesta que a sua obra surja escancarada nas chamadas redes sociais - o que na verdade Ibn Mucana não é...


FELES

Por todo um Inverno
O amor lhe dilacerou o ventre
Com fundas garras de gelo.

E a Primavera zumbiu
Sobre sua cabeça
Numa vertigem de pólen.

Senta-se agora
Junto à lareira do Outono
E é um bule de porcelana.

[0294] Odete Semedo, a voz feminina da Guiné-Bissau


Maria Odete da Costa Semedo nasceu em Bissau em 1957. Professora, investigadora, tradutora, política, escritora e poeta. Foi presidente da Comissão Nacional guineense para a UNESCO, Ministra da Educação Nacional (de 1997 a 1999) e Ministra da Saúde de 2004 a 2005. Fundadora e secretária-geral da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (2013), foi reitora da Universidade Amílcar Cabral de Bissau.


E O POETA FALOU

Falei da ambição
dos homens
era já dia
falei da paz
do grito de Angola
do homem sem rosto
da criança que virou velho
Falei do homem-bicho
outros falaram do bicho-homem
essa coisa sem cabeça
nem coração
outros e mais outros
falaram do mundo-cão
onde a ambição
fala mais alto que o coração
Clamei pelas crianças de Moçambique
vi-me nas ilhas sem nome
chorando a angústia alheia
enquanto isso
o bicho-homem
vestido de homem-bicho
caminhava para a minha moransa
Esse homem sem cabeça
coração na planta dos pés
que a todos leva ao sepulcro
a sete pés
debaixo da terra
pisou o meu chão
calcou a minha gente
não precisava de um pelotão
apenas ter ambição nos olhos
ódio nas mãos
e tocar o bombolon da morte


OTCHA KUSAS KUNSA BISSAU KA MISTI FIA

Bissau ka mistiba fia
na ke k'i na odja
nin na ke k'i na sinti
Bissau dispidi di si fidjus
nun, i mborka
pa risibi kalef
pa risibi limbida
i nhara sikidu ku si fidida
Bissau ka fia


POEMAR

Poemar é amar o mar
Poemar é revestir o ser
Com o próprio pensamento
É trazer à superfície
O subconsciente
É ser vidente
É ser viandante
É amar a dor
E dar calor
Ao frio da noite.
Poemar é dar prazer ao ser
É estar contente
Por poder amar
E poemar é amor
Poemar é amar
Quando ao luar
O mar e a mente se entrelaçam
Quando a dor e o calor se confundem...
Poemar é amor
É amar
É mar
E é dor também

[0293] Alice Goretti, a nova poesia santomense

Alice Goretti Dias Xavier de Pina nasceu em Santo António do Príncipe, veio para Portugal no ano de 2000 e reside em Lisboa. Advogada, poeta e escritora, está ligada ao associativismo e à moda. Obteve o Prémio PALOP de livro em 1999. 




Transgride as leis do sol
esse tempo sem idade.
Esse relógio que repousa as suas pressas
neste pouso equatorial.
Pouso concreto de sal horizontal
neste roseiral icónico
de gritos verdejantes.
Quantas cidades subconscientes
nas veias que te sentem?
Quantos pretensos progressos?
Águas em caudal de silêncio
se o ôssôbô é tão maior que o seu canto!
E todo o incerto papagaio
que em murmúrio esculpe a chuva
conhece melhor o ramo onde desassossega as asas
porque constrói no sonho a casa
de relâmpago e fé de alma.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

[0292] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (2) Nuno Rebocho, poeta "per diem"


Nos intervalos dos afazeres para o seu sustento, Nuno Rebocho poetava quando não pintava, por desfastio. Eram sucedâneos à sua profissão de jornalista que, durante cinquenta anos, ocupou na Imprensa escrita e na rádio. 


COGITAÇÕES DE SÓCRATES DIANTE DE CICUTA

As engenharias adormecem os homens construtores
de barcos e nada como antes se descobre: tudo
se resolve agora na solidão do insólito    Não ter
companhia é a liberdade       do ir ao não ir
da vida ou do suicídio ou do estar por aí    Não ter
companhia é ter        a companhia dos deuses
construídos & dos silêncios que se constroem
As engenharias adormecem os homens
construtores de silêncios

Bebo o líquido da ignorância sem a repugnância dos videntes
: sei que o sol é sempre um lugar e um lugar
um ponto de partida: o que assusta
é a memória e não o projeto: é a incógnita
ainda por consumir: por isso é que
os audazes arrepiam dos caminhos e os temerosos
avançam sem a repugnância dos videntes

Por isso é que hei
-de perguntar cada questão por sua vez    A necessidade
é um ritmo    A vida é um ritmo    A dor é um ritmo    E se
acaso descobrir o que há a descobrir não gritarei aleluias
porque sou um caminhante    - só os olhos constroem
as palavras com a boca de cada qual
Por isso é que nos desentendemos e nos afrontamos
no momento de cada questão por sua vez

E como homero direi: ágil & robusto é o Desvario
que tudo ultrapassa no vale das sombras & da luz
mais rápido do que os homens e em seu prejuízo
As Preces só curam pelas traseiras e quem respeita as filhas
respeita as feridas mais do que a Zeus pois nada
cai no esquecimento nem o filho do Tempo    Só o Tempo
se esquece de si mesmo onde o Desvario o persegue
Aproximam-se as filhas do esquecimento e os votos
caem por terra   Assim seja

O veneno esgota-se na lei e não gritarei eureka
se a chave do impudor me cair nas mãos    Não lhe
ditarei a regra nem o antídoto para que o veneno
se baste a si próprio como lhe compete e as mãos
estejam livres para o silêncio dos combates    Sou
caminhante e os silêncios não guardo, não os reclamo
que me basta na companhia a liberdade de não dizer eureka

[0291] Daniel Medina, uma poesia leve


Daniel do Rosário Medina é natural da ilha de Santo Antão (Cabo Verde). Professor, investigador, formador, jornalista, animador cultural e poeta. Membro da Associação Cabo-verdiana de Escritores e administrador da Associação Cabo-verdiana de Autores, foi director da Televisão de Cabo Verde.


COMO CANTATA AO SOL-PÔR

Escuta o silêncio da alma que grita
Abre as comportas do peito
e deixa o sol a entrar
por entre as cortina
dos olhos cerrados.
Rompe a névoa do cansaço,
rasga a bruma do ensamento
e pousa um sonho leve
na mão suave da brisa morna.
Um marulhar de emoções se escapa
como cantata ao sol-pôr na praia de Quebra Canela.
Ouve os desejos do areal sem fim
e traça nas ondas prenhes
longas vestes de prata
que o crepúsculo incendeia.
Levanta teu corpo
e toca os luzeiros do infinito.
Estende as asas da fantasia
deixa-te voar na imensidão!...
Tropeça na lua ensonada
e constrói nela um abrigo de luz.
Revolve anseios reprimidos,
acorda esperanças entorpecidas
que o mar embala devagar.
Lança teu veleiro à deriva.
Deixa que a maresia te beije a alma
e um manto sereno te envolva
na quieta mansidão do despertar.
Amanhã quererás de novo o meu ombro?


POEMA INACABADO

Ardem-me os lábios
do beijo que não dei
e grita-me no peito
o abraço que se foi.
Sinto na pele
as labaredas famintas
da noite que não veio.
Rasgam-me o espaço
centelhas preciosas
de um olhar de luz
e povoa meu sono
um sonhar inquieto
como mar de ondas prenhes
reprimindo desejos vivos.
Sufocam-me palavras mudas
que trago em mim
num poema inacabado.

[0290]

[0289] Décio Pignatari, a invenção concretista


Nasceu em Jundaí (Brasil) em 1927 e faleceu em São Paulo em 2012. Publicitário, músico, actor, cineasta, tradutor, professor, escritor e poeta, ganhou o Prémio Jabuti em 1962. Foi um dos fundadores do movimento concretista brasileiro. Editou as revistas “Noigandres” e “Invenção”. 


EUPOEMA

O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim.

Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata apenas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.

Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.



segunda-feira, 15 de outubro de 2018

[0288] Federico García Lorca, poeta de sempre

Federico García Lorca nasceu em Fuente Vaqueros, a 5 de Junho de 1898, e, faleceu em Granada, Espanha, a 19 de Agosto de 1936. Poeta e dramaturgo, foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Iniciou-se na na literatura com estudos de crítica a Luis de Góngora y Argote e à temática da poesia lírica espanhola. A partir de 1932, dirigiu La Barraca, companhia teatral que viajava pelas pequenas cidades e aldeias, representando para o povo. No início da guerra, foi denunciado por inimigos como republicano; em 19 de Agosto de 1936 foi preso e fuzilado pelos partidários do ditador Francisco Franco.


EL BALCÓN

Si muero
Dejad el balcón abierto

El niño come naranjas
(Desde mi balcón lo veo)

El segador siega el trigo
(Desde mi balcón lo siento)

Si muero
Dejad el balcón abierto.


ESTE ES EL PRÓLOGO

Dejaría en este libro
toda mi alma.
Este libro que ha visto
conmigo los paisajes
y vivido horas santas.

¡Qué pena de los libros
que nos llenan las manos
de rosas y de estrellas
y lentamente pasan!

¡Qué tristeza tan honda
es mirar los retablos
de dolores y penas
que un corazón levanta!

Ver pasar los espectros
de vidas que se borran,
ver al hombre desnudo
en Pegaso sin alas,

ver la vida y la muerte,
la síntesis del mundo,
que en espacios profundos
se miran y se abrazan.

Un libro de poesías
es el otoño muerto:
los versos son las hojas
negras en tierras blancas,

y la voz que los lee
es el soplo del viento
que les hunde en los pechos,
– entrañables distancias –.

El poeta es un árbol
con frutos de tristeza
y con hojas marchitas
de llorar lo que ama.

El poeta es el médium
de la Naturaleza
que explica su grandeza
por medio de palabras.

El poeta comprende
todo lo incomprensible,
y a cosas que se odian,
él, amigas las llama.

Sabe que los senderos
son todos imposibles,
y por eso de noche
va por ellos en calma.

En los libros de versos,
entre rosas de sangre,
van pasando las tristes
y eternas caravanas

que hicieron al poeta
cuando llora en las tardes,
rodeado y ceñido
por sus propios fantasmas.

Poesía es amargura,
miel celeste que mana
de un panal invisible
que fabrican las almas.

Poesía es lo imposible
hecho posible. Arpa
que tiene en vez de cuerdas
corazones y llamas.

Poesía es la vida
que cruzamos con ansia
esperando al que lleva
sin rumbo nuestra barca.

Libros dulces de versos
son los astros que pasan
por el silencio mudo
al reino de la Nada,
escribiendo en el cielo
sus estrofas de plata.

¡Oh, qué penas tan hondas
y nunca remediadas,
las voces dolorosas
que los poetas cantan!

Dejaría en el libro
este toda mi alma…

[0287] Fernando Assis Pacheco, a voz insubmissa


Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco nasceu em Coimbra em 1937 e faleceu em Lisboa em 1995. Jornalista, escritor tradutor e poeta, director-adjunto do jornal “Se7e”. Uma das primeira penas que escreveram sobre a guerra colonial, faleceu de síncope à porta de uma livraria.


MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas
.
Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.


UM HOMEM TEM QUE VIVER

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


PRESO POLÍTICO



Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já nem desespera
de ser apenas voz, não uma guerra.

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta mão estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.



Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.


AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

[0286] Vasco Graça Moura e o amor indefectível pela língua portuguesa

Nascido no Porto em 1942, Vasco Graça Moura faleceu em Lisboa em 2014. 

Advogado, escritor, tradutor, poeta e político, obteve o Prémio Jacinto do Prado Coelho de 1985, o Prémio do PEN Português de Poesia de 1994, o Prémio Pessoa de 1995 e o Grande Prémio de Poesia da APE de 1997. 

Foi Secretário de Estado primeiro da Segurança Social, depois dos Retornados, director da RTP2 e da revista “Oceanos”, presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa, da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e da Fundação do Centro Cultural de Belém. Eurodeputado durante dez anos.


SONETO DO AMOR E DA MORTE

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão

quando eu morrer segura a minha mão
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a dor,
sempre a doer de tanta perfeição
que deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


INSINCERIDADE

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.


NO OBSCURO DESEJO

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

domingo, 14 de outubro de 2018

[0285] RELEMBRAMOS: acontece em Lisboa, lançamento do novo livro de Nuno Rebocho com fotografias de Tó Gomes, prefácio de Joaquim Saial e design de Inês Ramos

No âmbito da realização da VII Quinzena da Cultura Cabo-Verdiana em Lisboa e da celebração do Dia da Cultura e das Comunidades Cabo-Verdianas, a Associação Caboverdeana de Lisboa e a Livraria Pedro Cardoso promovem a apresentação de “Histórias da História de Santiago” de Nuno Rebocho no dia 18 de Outubro, às 18h30, na sede da AC (ao Marquês de Pombal). A apresentação pública do livro estará a cargo dos escritores Joaquim Saial e José Luís Hopffer Almada.


[0284] MÚSICA PARA O DOMINGO (4). Hoje, "Il n'ya plus rien", de Léo Ferré


IL N'YA PLUS RIEN

Écoute, écoute... Dans le silence de la mer, il y a comme un balancement maudit qui vous met le cœur à l'heure, avec le sable qui se remonte un peu, comme les vieilles putes qui remontent leur peau, qui tirent la couverture.

Immobile... L'immobilité, ça dérange le siècle.
C'est un peu le sourire de la vitesse, et ça sourit pas lerche, la vitesse, en ces temps.
Les amants de la mer s'en vont en Bretagne ou à Tahiti.
C'est vraiment con, les amants.

Il n'y a plus rien

Camarade maudit, camarade misère...
Misère, c'était le nom de ma chienne qui n'avait que trois pattes.
L'autre, le destin la lui avait mise de côté pour les olympiades de la bouffe 
Et des culs semestriels qu'elle accrochait dans les buissons pour y aller de sa progéniture
Elle est partie, Misère, dans des cahots, quelque part dans la nuit des chiens

Camarade tranquille, camarade prospère
Quand tu rentreras chez toi
Pourquoi chez toi ?
Quand tu rentreras dans ta boîte, rue d'Alésia ou du Faubourg
Si tu trouves quelqu'un dans ton lit
Si tu y trouves quelqu'un qui dort
Alors va-t'en, dans le matin clairet
Seul
Te marie pas
Si c'est ta femme qui est là, réveille-la de sa mort imagée
Fous-lui une baffe, comme à une qui aurait une syncope ou une crise de nerfs...
Tu pourras lui dire : "Dis, t'as pas honte de t'assumer comme ça dans ta liquide sénescence ?
Dis, t'as pas honte ? Alors qu'il y a quatre-vingt-dix mille espèces de fleurs ?
Espèce de conne !"
Et barre-toi !
Divorce-la
Te marie pas !
Tu peux tout faire
T'empaqueter dans le désordre, pour l'honneur, pour la conservation du titre...

Le désordre, c'est l'ordre moins le pouvoir!

Il n'y a plus rien

Je suis un nègre blanc qui mange du cirage
Parce qu'il se fait chier à être blanc, ce nègre,
Il en a marre qu'on lui dise: " Sale blanc !"

À Marseille, la sardine qui bouche le port
Était bourrée d'héroïne
Et les hommes-grenouilles n'en sont pas revenus...
Libérez les sardines
Et y aura plus de mareyeurs !

Si tu savais ce que je sais
On te montrerait du doigt dans la rue
Alors, il vaut mieux que tu ne saches rien
Comme ça, au moins, tu es peinard, anonyme, citoyen !

Tu as droit, citoyen, au minimum décent
À la publicité des enzymes et du charme
Au trafic des dollars et aux trafiquants d'armes
Qui traînent les journaux dans la boue et le sang

Tu as droit à ce bruit de la mer qui descend
Et si tu veux la prendre, elle te fera du charme
Avec le vent au cul et des sextants d'alarme
Et la mer reviendra sans toi, si tu es méchant

Les mots... toujours les mots, bien sûr !
Citoyens ! Aux armes !
Aux pépées, citoyens ! A l'amour, citoyens !
Nous entrerons dans la carrière quand nous aurons cassé la gueule à nos aînés !
Les préfectures sont des monuments en airain
Un coup d'aile d'oiseau ne les entame même pas, c'est vous dire !

Nous ne sommes même plus des Juifs allemands
Nous ne sommes plus rien
Il n'y a plus rien

Des futals bien coupés sur lesquels lorgnent les gosses, certes !
Des poitrines occupées
Des ventres vacants
Arrange-toi avec ça !

Le sourire de ceux qui font chauffer leur gamelle
Sur les plages reconverties et démoustiquées
C'est-à-dire en enfer, là où Dieu met ses lunettes noires pour ne pas risquer d'être reconnu par ses admirateurs
Dieu est une idole, aussi !
Sous les pavés, il n'y a plus la plage
Il y a l'enfer et la sécurité
Notre vraie vie n'est pas ailleurs, elle est ici
Nous sommes au monde, on nous l'a assez dit
N'en déplaise à la littérature

Les mots, nous leur mettons des masques, un bâillon sur la tronche
A l'encyclopédie, les mots !
Et nous partons avec nos cris !
Et voilà !

Il n'y a plus rien...plus, plus rien

Je suis un chien ?
Perhaps !
Je suis un rat
Rien
Avec le cœur battant jusqu'à la dernière battue

Nous arrivons avec nos accessoires pour faire le ménage dans la tête des gens
Apprends donc à te coucher tout nu !
Fous en l'air tes pantoufles !
Renverse tes chaises !
Mange debout !
Assois-toi sur des tonnes d'inconvenances et montre-toi à la fenêtre en gueulant des gueulantes de principe

Si jamais tu t'aperçois que ta révolte s'encroûte et devient une habituelle révolte, alors
Sors
Marche
Crève
Baise
Aime enfin les arbres, les bêtes et détourne-toi du conforme et de l'inconforme
Lâche ces notions, si ce sont des notions
Rien ne vaut la peine de rien

Il n'y a plus rien...plus, plus rien

Invente des formules de nuit. CLN : C'est la nuit !
Même au soleil, surtout au soleil, c'est la nuit

Tu peux crever. Les gens ne retiendront même pas une de leurs inspirations
Ils canaliseront sur toi leur air vicié en des regrets éternels puant le certificat d'études et le catéchisme ombilical
C'est vraiment dégueulasse !
Ils te tairont, les gens
Les gens taisent l'autre, toujours
Regarde, à table, quand ils mangent
Ils s'engouffrent dans l'innommé
Ils se dépassent eux-mêmes et s'en vont vers l'ordure et le rot ponctuel !

La ponctuation de l'absurde, c'est bien ce renversement des réacteurs abdominaux, comme à l'atterrissage : on rote et on arrête le massacre
Sur les pistes de l'inconscient, il y a des balises baveuses toujours un peu se souvenant du frichti, de l'organe, du repu

Mes plus beaux souvenirs sont d'une autre planète
Où les bouchers vendaient de l'homme à la criée

Moi, je suis de la race ferroviaire qui regarde passer les vaches
Si on ne mangeait pas les vaches, les moutons et les restes
Nous ne connaîtrions ni les vaches, ni les moutons, ni les restes
Au bout du compte, on nous élève pour nous becqueter
Alors, becquetons !
Côte à l'os pour deux personnes, tu connais ?

Heureusement il y a le lit : un parking !
Tu viens, mon amour ?
Et puis, c'est comme à la roulette : on mise, on mise
Si la roulette n'avait qu'un trou, on nous ferait miser quand même
D'ailleurs, c'est ce qu'on fait !
Je comprends les joueurs : ils ont trente-cinq chances de ne pas se faire mettre
Et ils mettent, ils mettent
Le drame, dans le couple, c'est qu'on est deux
Et qu'il n'y a qu'un trou dans la roulette

Quand je vois un couple dans la rue, je change de trottoir !
Te marie pas
Ne vote pas
Sinon t'es coincé

Elle était belle comme la révolte
Nous l'avions dans les yeux
Dans les bras, dans nos futals
Elle s'appelait l'imagination
Elle dormait comme une morte, elle était comme morte
Elle sommeillait
On l'enterra de mémoire

Dans le cocktail Molotov, il faut mettre du Martini, mon petit !

Transbahutez vos idées comme de la drogue. Tu risques rien à la frontière
Rien dans les mains
Rien dans les poches

Tout dans la tronche !

- Vous n'avez rien à déclarer ?
- Non
- Comment vous nommez-vous ?
- Karl Marx
- Allez, passez

Nous partîmes. Nous étions une poignée...

Nous nous retrouverons bientôt démunis, seuls, avec nos projets dans le passé
Écoutez-les...écoutez-les...
Ça râpe comme le vin nouveau
Nous partîmes...Nous étions une poignée
Bientôt ça débordera sur les trottoirs
La parlote, ça n'est pas un détonateur suffisant
Le silence armé, c'est bien, mais il faut bien fermer sa gueule
Toutes des concierges !
Écoutez-les...

Il n'y a plus rien

Si les morts se levaient ?
Hein ?

Nous étions combien ?
Ça ira !

La tristesse, toujours la tristesse

Ils chantaient, ils chantaient
Dans les rues

Te marie pas
Ceux de San Francisco, de Paris, de Milan
Et ceux de Mexico
Bras dessus bras dessous
Bien accrochés au rêve

Ne vote pas

Ô DC-8 des pélicans
Cigognes qui partent à l'heure
Labrador, lèvres des bisons
J'invente en bas des rennes bleus
En habit rouge du couchant
Je vais à l'ouest de ma mémoire
Vers la clarté, vers la clarté

Je m'éclaire la nuit dans le noir de mes nerfs
Dans l'or de mes cheveux j'ai mis cent mille watts
Des circuits sont en panne dans le fond de ma viande
J'imagine le téléphone dans une lande
Celle où nous nous voyons moi et moi
Dans cette brume obscène au crépuscule teint
Je ne suis qu'un voyant embarrassé de signes
Mes circuits déconnectent
Je ne suis qu'un binaire

Mon fils, il faut lever le camp comme lève la pâte
Il est tôt. Lève-toi. Prends du vin pour la route
Dégaine-toi du rêve anxieux des bien-assis
Roule, roule, mon fils, vers l'étoile idéale
Tu te rencontreras, tu te reconnaîtras
Ton dessin devant toi, tu rentreras dedans
La mue ça se fait à l'envers dans ce monde inventif
Tu reprendras ta voix de fille et chanteras demain
Retourne tes yeux au-dedans de toi
Quand tu auras passé le mur du mur
Quand tu auras outrepassé ta vision
Alors tu verras... rien!

Il n'y a plus rien

Que les pères et les mères
Que ceux qui t'ont fait
Que ceux qui ont fait tous les autres
Que les "Monsieur"
Que les "Madame"
Que les assis dans les velours glacés, soumis, mollasses
Que ces horribles magasins roulants
Qui portent tout en devanture
Tous ceux à qui tu pourras dire :

Monsieur !
Madame !

Laissez donc ces gens-là tranquilles
Ces courbettes imaginées que vous leur inventez
Ces désespoirs soumis
Toute cette tristesse qui se lève le matin à heure fixe pour aller gagner vos sous
Avec les poumons resserrés
Les mains grandies par l'outrage et les bonnes mœurs
Les yeux défaits par les veilles soucieuses
Et vous comptez vos sous ?
Pardon, leurs sous !

Ce qui vous déshonore
C'est la propreté administrative, écologique, dont vous tirez orgueil
Dans vos salles de bains climatisées
Dans vos bidets déserts
En vos miroirs menteurs

Vous faites mentir les miroirs !
Vous êtes puissants au point de vous refléter tels que vous êtes
Cravatés
Envisonnés
Empapaoutés de morgue et d'ennui dans l'eau verte qui descend
des montagnes et que vous vous êtes arrangés pour soumettre
À un point donné
À heure fixe

Pour vos narcissiques partouzes
Vous vous regardez et vous ne pouvez même plus vous reconnaître
Tellement vous êtes beaux
Et vous comptez vos sous
En long
En large
En marge
De ces salaires que vous lâchez avec précision
Avec parcimonie
J'allais dire "en douce", comme ces aquilons avant-coureurs et qui racontent les exploits du bol alimentaire, avec cet apparat vengeur et nivelateur qui empêche toute identification
Je veux dire que pour exploiter votre prochain, vous êtes les champions de l'anonymat

Les révolutions ? Parlons-en !
Je veux parler des révolutions qu'on peut encore montrer
Parce qu'elles vous servent
Parce qu'elles vous ont toujours servis
Ces révolutions qui sont de "l'Histoire"
Parce que les "histoires" ça vous amuse, avant de vous intéresser
Et quand ça vous intéresse, il est trop tard, on vous dit qu'il s'en prépare une autre
Lorsque quelque chose d'inédit vous choque et vous gêne
Vous vous arrangez la veille, toujours la veille, pour retenir une place
Dans un palace d'exilés, dans un pays sûr, entouré du prestige des déracinés
Les racines profondes de ce pays, c'est vous, paraît-il
Et quand on vous transbahute d'un désordre de la rue, comme vous dites, à un ordre nouveau, vous vous faites greffer au retour et on vous salue

Depuis deux cents ans, vous prenez des billets pour les révolutions.
Vous seriez même tentés d'y apporter votre petit panier
Pour n'en pas perdre une miette, n'est-ce-pas ?
Et les vauriens qui vous amusent, ces vauriens qui vous dérangent aussi, on les enveloppe dans un fait divers pendant que vous enveloppez les vôtres dans un drapeau

Vous vous croyez toujours, vous autres, dans un haras
La race ça vous tient debout dans ce monde que vous avez assis
Vous avez le style du pouvoir
Vous en arrivez même à vous parler à vous-mêmes
Comme si vous parliez à vos subordonnés
De peur de quitter votre stature, vos boursouflures, de peur qu'on vous montre du doigt, dans les corridors de l'ennui, et qu'on se dise: "Tiens, il baisse, il va finir par se plier, par ramper"
Soyez tranquilles ! Pour la reptation, vous êtes imbattables
Seulement, vous ne vous la concédez que dans la métaphore
Vous voulez bien vous allonger, mais avec de l'allure
Cette "allure" que vous portez, Monsieur, à votre boutonnière
Et quand on sait ce qu'a pu vous coûter de silences aigres
De renvois mal aiguillés
De demi-sourires séchés comme des larmes
Ce ruban malheureux et rouge comme la honte, dont vous ne vous êtes jamais décidé à empourprer votre visage
Je me demande pourquoi la nature met
Tant d'entêtement
Tant d'adresse
Et tant d'indifférence biologique
A faire que vos fils ressemblent à ce point à leurs pères
Depuis les jupes de vos femmes matrimoniaires
Jusqu'aux salonnardes équivoques où vous les dressez à boire
Dans votre grand monde
À la coupe des bien-pensants

Moi, je suis un bâtard
Nous sommes tous des bâtards
Ce qui nous sépare, aujourd'hui, c'est que votre bâtardise à vous est sanctionnée par le code civil
Sur lequel, avec votre permission, je me plais à cracher, avant de prendre congé

Soyez tranquilles, vous ne risquez rien !

Il n'y a plus rien

Et ce rien, on vous le laisse !
Foutez-vous-en jusque-là, si vous pouvez
Nous, on peut pas
Un jour, dans dix mille ans
Quand vous ne serez plus là
Nous aurons tout
Rien de vous
Tout de nous

Nous aurons eu le temps d'inventer la Vie, la Beauté, la Jeunesse
Les larmes qui brilleront comme des émeraudes dans les yeux des filles
Les bêtes enfin détraquées
La priorité à gauche, permettez !

Nous ne mourrons plus de rien
Nous vivrons de tout

Et les microbes de la connerie que nous n'aurez pas manqué de nous léguer
Montant
De vos fumures
De vos livres engrangés dans vos silothèques
De vos documents publics
De vos règlements d'administration pénitentiaire
De vos décrets
De vos prières, même
Tous ces microbes juridico-pantoufles
Soyez tranquilles !
Nous avons déjà des machines pour les révoquer

Nous aurons tout

Dans dix mille ans