José Pascoal, poeta nascido em 1953 em Cambelas, na freguesia de S. Pedro da Cadeira do concelho de Torres Vedras, ex-jurista do Ministério da Educação, com a publicação de “Antídotos”, editado pelas edições Minerva, concluiu uma tetralogia poética de sua autoria. O trabalho deste poeta mostra que a acção cultural também pode e deve realizar-se fora dos grandes centros urbanos. “Ibn Mucana” aplaude.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
[0323] Hélder Proença, a poesia inadiada
Nascido em Bissau em 1956 e falecido também em Bissau em 2009, Hélder Proença foi político, professor, poeta e escritor. Interveio na luta armada pela independência do seu país e integrou o movimento “Mantenhas por quem luta”. Enviado para o Rio de Janeiro após a independência guineense, veio depois a ser eleito deputado e membro do Comité Central do PAICV. Foi Ministro da Defesa do Governo de Bissau. Assassinado numa pugna eleitoral, acusado de tentativa de golpe de Estado.
NAS NOITES DE N’DJIMPOL
Nas noites de N’djimpol
vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro.
Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando!
Vi braços robustos e livres
sonho campos loiros
espigas dardejando ao sabor do vento
brisas e pássaros cantando
sol e flautas beijando o suor fecundante.
Nas noites de N’djimpol
Vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro...
Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando
Sim,
Vi nas noites de N’djimpol
sonho mamãe terra
sonho compassos rítmicos no capinzal
dilatando a fé do homem-terra
o horizonte e o brilho das nossas mãos.
Oiço o grito das brisas loiras...
na imensidão farta dos campos
sim mamãe terra
firmemente sonho
na certeza gritante
de sermos loiros e fortes
como espigas e o sol
fortes e loiros…
Mamãe terra
Sonho mas juramos-te!
NÃO POSSO ADIAR A PALAVRA
Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes
Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos
negras como breu o silêncio da resposta
Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
em toda a terra
e em todos os homens
Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra»
Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência nossa
Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
no extenso breu de canto e morte
Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!
BADJUDA
Neste desdém...
vida marcha num vaivém
baloiçando
criando origens desconjunturadas
e tu badjuda n’a
desdenhosamente marchando no «infortúnio da vida»
Na certeza dos teus sonhos
de jardins suspensos
dum engate fixe do fim-de-semana
e de altas curtições
ao gosto de sol-praias
dos convívios-boîte e do jazz-band
excitando a confusão dos lábios, das luzes e do sexo:
A-A-A-Ahh... baby
O sabor drogante do teu destino badjuda n’a!
mas continua...
sepulta e bem sepultadinho
a dignidade em alcatifas confortáveis
(pelo menos sairá mais confortável, badjuda n’a)
Deixa exalar
não negues os bafos MINI COOPER e VOLVO
não, não negues o exalo suave da prostituição clássica:
O vestidinho te ajustará melhor, badjuda n’a!
As calças apertadinhas
chamarão mais clientes
(e as fendas ficarão mais nítidas badjuda n’a)
Terás uma Corte distinta
Que magistral personalidade!
E tuas pestanas azuis, verdes ou cinzentas
tuas unhas de gato lagária — de luta e violácea
e tua cara, aqui verde acolá azul
que pintura catalogar an! extraordinária badjuda n’a!
Sim
falarás um português melhor — da Metropóle —
e o deserto do teu sonho encherá de flores
então poderás passar seguramente
em todas as artérias góticas da ilusão
que todos te admirarão
e com mais descontracção
subirás, subirás, subirás
até entranhares
crua e sangrenta nas vísceras do anonimato
O jazz e a confusão das luzes te esperam.
[0322] Afonso Lopes Vieira, a renascença portuguesa
Afonso Lopes Vieira nasceu em Leiria em 1878 e faleceu em Lisboa em 1947. Poeta e escritor, advogado de profissão, redactor da Câmara dos Deputados. Ligado ao movimento cultural que ficou chamado de Renascença Portuguesa, Lopes Vieira distanciou-se do salazarismo, apesar do nacionalismo e do Integralismo Lusitano evidente na sua obra.
SAUDADES NÃO AS QUERO
Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito
Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero
Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram
Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero.
O SEGREDO DO MAR
A “Flor do Mar” avançando
Navegava, navegava,
Lá para onde se via
O vulto que ela buscava.
Era tão grande, tão grande
Que a vista toda tapava.
E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.
E mais perto agora estão
Do que procurando vão!
Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
- Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?
Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.
O SAPO
Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
Para uma horta ou jardim,
Para os tratar com amor.
É o guarda das flores belas,
da horta mais do pomar;
e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...
Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
e fazem tristes as flores.
Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.
E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
brilham no céu as estrelas,
e ele ronda, a trabalhar...
E ao pobre sapo, que é cheio
de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
e há quem o mate e persiga
Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
- «Então ele traz-nos guardadas,
e depois pagam-lhe assim?»
E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...
[0321] Aurelino Costa, a vida como combate
Aurelino Costa nasceu em 1956 em Argival, Póvoa do Varzim. Advogado, poeta e diseur, actor de cinema, é um dos autores da nova poesia portuguesa.
À EXCEPÇÃO
estender as mãos
no peito elegíaco da memória
debruçar sobre as anémonas
neste dia de tragos húmidos e verdes
de sol borracho e intempéries
colher hálitos de begónias selvagens
e não morrer
há um pathos maior
e coagulador
neste fado.
SOB DELÍRIO
sob delírio a barca
a língua e o calvário
deixa que poisem as aves
e amanheça o fermentar das claves
as asas apavonam os ventos
e as maçãs
açucaram martelos.
PARA A VIDA
(a Manuel Lopes, bibliotecário)
Custa-me a andar, é o mistério do voo
que anda agora a apaixonar-me. Livre
como aquela gaivota que sobrevoa o mastro,
o que eu quero, é o azul e o mar,…
Lá me encontrareis sempre, depois de enviar
cartas aos amigos
Da janela do meu quarto avisto tudo
como se quisesse abraçar
os dias brancos de todos os meus anos.
Quanto ao mais?!, continuai a lutar, a guerra…,
porque é de cinza a leveza de meu corpo
e não quero restos a pesar a ninguém,
só quero o vento e o mar…
– peito em quilha, ó Homem do leme!
Respondi.
terça-feira, 23 de outubro de 2018
[0319] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (3) Nuno Rebocho, a Liberdade
Recusando a ditadura, combatendo-a, Rebocho quis ser apenas o dono de si mesmo. Duas vezes preso pela polícia política do Estado Novo, viveu durante cinco anos as cadeias de Salazar. Também na poesia rechaçou tutelas e assumiu para si o grito de Ramos Rosa: “poesia, liberdade livre”.
MEDITAÇÃO EM MADRUGADA DE ABRIL
homem sem dono: não confies na liberdade
apalpada nas ruas. tu és o chão bom
para a safra que o moliço alimenta. não
recuses a seiva que te reclamam mas desconfia
: as palavras matam os gritos assustam
a vida e apagam o pólen. mas sê justo
apesar da raiva e honesto apesar da ânsia.
a água da liberdade não se mede nem se gere
nem lhe procures a fonte porque encontrar
é roubar. se assumes a liberdade
nem de ti mesmo sejas dono.
o poder é efémero. dura menos a tua vida
e a derrota mata-o (a morte derrota-o).
nunca bendigas a vilania do mando
quando ele te algema aos pódios da morte.
na madrugada do caminho sabe
que só o caminho é a meta e sê prudente.
que as luzes não ofusquem a tua razão
ou que o deleite não ultraje o sentimento.
se te mandarem parar caminha se te prenderem
sê livre se te matarem continua vivo.
sabe que abril é todo o tempo – o antes
e o depois – a dimensão da tua alma.
que para ti só queiras a ciência e o mais
recuses: sê livre. liberta-te a ti mesmo.
[0318] José Gomes Ferreira, o cancioneiro revolucionário
Nascido no Porto em 1900 e falecido em Lisboa em 1985, José Gomes Ferreira era filho de um republicano democrata que chegu a ser vereador lisboeta. Jornalista, tradutor, ensaísta e ficcionista, poeta, participou no movimento antifascista, aliado ao PCP. Formado m Direito foi também compositor. Compagnon de route do neo-realismo, alguns dos seus poemas ficaram no cancioneiro revolucionário
SE EU AGORA INVENTASSE O MUNDO
Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite
com as pedras.
Luz que o cheiro das ervas da madrugada
aproxima os mortos do silêncio
com esqueletos de asas
- conluio com o sol
para estarem mais presentes
no tacto da pele da manhã,
mil mãos a afogarem a paisagem,
bafo de flores donde cai
o enlace das sementes...
Abro a janela
O mundo cheira tão bem a trevos ausentes!
ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA.
Devia-se morrer de outra maneira,
transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
ACORDAI
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
[0317] César Príncipe, uma voz da resistência
Nascido em 1942 em Vilar da Veiga (Gerês), César Príncipe é jornalista, crítico de arte, escritor e poeta.
CORO DAS AZINHEIRAS
Afinal morreste
Em 23 de Fevereiro
Apressou-se
O Estado
A lamentar
A ocorrência
Até a TVA consciência
Ano da Morte do Zé
E do Zé PoVinho
Tempo de esCravos
Sem flores
Sem espingardas
Do Coro dos Caídos
Do Povo Unido
De cães de estimação
E de vacas sagradas
Nesse dia
Foste recorDado
A cantar
A alvorada
A que se levanta
E nos desperta
Na assombração
A tua profissão
Nunca
Foi o silêncio
E não seria
Em 23 de Fevereiro
Que conseguiriam
Calar
O Bairro Negro
Proibir
Um Menino de Oiro
Ignorar
O Coro das Azinheiras
Portugal
MadrugaDor
De século em século
Quando obedecerás
De novo
A uma canção
Portugal
Sem alma
Sem CORação
Sem sexo
Entregue
A ladrões de estirpe
E ladrões de ocasião
Zeca
Regressa
Traz
Outro amigo também
Traz
Traz
Outra vila morena
Ao Zé Ninguém
Em cada Novo Abril
Em cada Novo Maio
Retransmitirás
A senha
A quem
Vier por bem
Conta connosco
Conta sempre
Com alguém
Vem
Amigo
Vem
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
[0314] António Manuel Couto Viana, a poesia bem-comportada
Nascido em Viana do Castelo em 1923 e falecido em Lisboa em 2010, António Manuel Couto Viana foi professor, dramaturgo, encenador, tradutor, ensaísta e poeta. Foi director do Teatro do Gerifalto, da Companhia Nacional de Teatro e director das revistas “Graal” e “Távola Redonda”. Recebeu o Prémio de Poesia Luso-Galaica Valle-Inclan e o Prémio Antero de Quental.
PEDRA TUMULAR
in "Mancha Solar"
A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido:
É feita de ignorância e de castigo,
Tão rígida e tão fria como a pedra.
Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis,
Duma verdade inútil por vazia,
E a língua imóvel nega o som à vida,
Por hábito ou por falta de coragem.
Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra:
Porque é que pulsa o coração do mundo,
Precipitado, angustioso, ardente?
Mas depressa submerge na indiferença
- Que lhe deram um túmulo seguro;
E o relógio dá-lhe horas certas, sempre.
DEZASSEIS ANOS, TALVEZ
Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.
Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
o bolo no «galão».
Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara... que ali fica.
- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!
DESPOJO
E, agora, o que faremos?
A quem legar o que resta
Do simulacro de festa
Que tivemos?
Quem aproveita os detritos
De uma alegria forçada?
Quem confunde aflitos gritos
Com imposta gargalhada?
Iremos por onde alguém
Descubra os nossos farrapos.
Vês flores no jardim de além?
– Vejo sapos.
[0313] Rui Almeida, a jovem poesia portuguesa
Rui Almeida nasceu em Lisboa em 1972. Poeta, foi Secretário Nacional para os Bens Culturais da Igreja. Foi Prémio Literário Manuel Alegre em 2013.
Em três horas de viagem
Se lêem poemas com 40 anos,
Contemporâneos de começar
A ser quem hoje é em viagem
Nesta costa, neste longe
Atlântico incerto, inevitável.
Nesta costa foi o que é agora
Sonhado, silencioso,
Tenso, rumoroso
E fraco, como ainda
Custa ser. Se ser é isto,
Como seria não ser?
E como seria limpar o rosto
Depois de cada Agosto?
SEM TÍTULO
Agora é o tempo todo desde sempre.
Abandono tenso de leveza
Levada às cordas vocais
No incómodo do esforço.
Caudal da vontade
Tornada assombro táctil.
POEMA
Como se um sobressalto
Pudesse prolongar-se por vários dias
E conter passos e olhares
Sem que o espanto momentâneo se dissipe.
A limpidez de tudo
Delimita o mundo à sensação,
Traz as coisas ao contacto com a pele,
Experiências do tremor
Na demora que concentra.
[0312] António Botto e a mais retrógrada reacção
António Thomaz Botto nasceu em Concavada (Abrantes) em 1897 e faleceu no Rio de Janeiro em 1959. Filho de um fragateiro e de uma mulher-a-dias, foi funcionário público, dramaturgo, contista e poeta, viveu em Angola (Santo António do Zaire). Depois de percorrer a Europa, radicou-se no Brasil em fins da década de 40, fugindo ao escândalo provocado num meio retrógrado por um livro de poemas onde a homossexualidade era incensada – facto que lhe valeu a fama por que ficou conhecido. Empregado de uma livraria, estabeleceu fortes relações com autores do seu tempo, tendo sido companheiro de Fernando Pessoa. De feitio truculento, vaidoso e egocêntrico, entrou em conflito com grande parte dos seus confrades. Boémio, percorria as docas lisboetas à cata de marítimos. Apesar da homossexualidade semi-assumida, viveu com uma cônjuge mais velha do que ele. Perseguido pela fama do seu comportamento e pelo Estado salazarista, esgueirou-se para o Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Niterói onde se fez passar por engenheiro-arquitecto). Finalmente, recolheu-se ao Rio de Janeiro onde requereu o seu repatriamento para Portugal, o que lhe foi recusado. Morreu na miséria, vítima de atropelamento quando ia visitar o seu advogado. Trasladados os seus restos mortais para Lisboa, mereceram as honras de poetas como David-Mourão Ferreira, Natália Correia e José Régio. Todavia, a sua poesia continuou mal conhecida.
Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte,
Docemente, ao meu ouvido?
És tu, Senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.
FOI N'UMA TARDE DE JULHO
Foi n'uma tarde de Julho.
Conversávamos a medo,
- Receios de trair
Um tristíssimo segredo.
Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...
Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
- E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!
Os nossos braços
Formaram laços.
E, aos beijos, ébrios, tombámos;
- Cheios d'amor e de vinho!
(Uma súplica suava:)
«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»
A VOSSA CARTA COMOVE
A vossa carta comove,
Mas, não vos posso acompanhar.
Deixai-me viver em penas;
- Vou sofrendo e vou sorrindo,
O meu destino é chorar!
Sim, é certo; - quem eu amo
Zomba e ri do meu amor...
- Que hei-de eu fazer? - Resignar-me,
Gentilíssimo Senhor!
Depois, quanto mais sabemos,
Parece que mais erramos:
- Antes sofrer os males que nos cercam
Do que ir em busca de outros que ignoramos.
domingo, 21 de outubro de 2018
[0311] Poesia experimental portuguesa apresentada em Brasília
18 poetas portugueses estão a ser apresentados em Brasília numa mostra (com o apoio do Instituto Camões) começada a 17 de Outubro e prevista está patente até 16 de Dezembro. Com essa mostra pretende-se divulgar décadas da poesia experimental portuguesa nos seus variados formatos e suportes (visual, fonética, cinética, videopoesia, foto-poemas e poemas-objecto). Na sessão de abertura uma conversa com Ernesto M. de Melo e Castro e performances de Fernando Aguiar e Silvestre Pestana.
[0309] MÚSICA PARA O DOMINGO (5). Hoje, "Ser poeta", Trovante ("Ser Poeta" ou... "Perdidamente") Rock in Rio 2010, Música de João Gil sobre poema de Florbela Espanca, voz de Luís Represas
SER POETA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
[0308] Jaime Rocha e a poesia circular
De seu verdadeiro nome Rui Ferreira de Sousa (também usa o pseudónimo Sousa Fernando) nasceu na Nazaré em 1949.
Poeta, escritor e dramaturgo, recebeu o Grande Prémio do Teatro da APE de 1998 e o Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos de 1998, o Grande Prémio do Teatro da SPA de 2004, o Prémio APE de Teatro de 1998 e o Prémio de Poesia do PEN Clube Português de 2011. Esteve exilado em França e regressou a Portugal depois da Revolução de Abril de 1974.
SEM TÍTULO
A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
VISÃO DEZASSEIS
Deixando nele marcas como se estivesse dentro
de um círculo de fogo. Ou como um assassino
emparedado na cal a quem lançassem musgo
até à morte. Há ali um espaço solto, o sítio onde
os pássaros devoram os peixes. E uma zona escura
com um manto redondo tapando a luz, uma espécie
de cegueira em cujo centro existe um castanheiro
e uma caixa vazia. Um papel voa, desliza junto
a um muro e é daí que a música se espalha presa a
um fio de cobre. É nesse momento que a imagem
dela se forma e se despedaça. O seu corpo
é agora o vento.
POEMA
De novo o corpo dela sobressai
no meio das rochas e, mais tarde,
ao fundo da praia, o seu vulto
assemelha-se a uma árvore nua.
Sou eu que caminho para ti,
diz a mulher.
E a sua sombra parece agora uma
outra figura, um pedaço de barro
caído ao chão, nessa fotografia
comida pelo tempo
um tempo colado à árvore onde
o cão se enrosca como se ali estivesse
estado sempre um barco à espera
das ondas pequenas.
[0307] Ernesto Dabó, a palavra-grito na Guiné-Bissau
Mohamed Ernesto Dabó nasceu em Bolama em 1949.Ainda novo, foi para Portugal para prosseguir os estudos. Fez parte de grupo de jovens artistas guineenses que fundou o primeiro agrupamento de música moderna da Guiné-Bissau, o “Cobiana Djazz”. Foi também o primeiro artista guineense a passar na Rádio Televisão Portuguesa (RTP), em 1971.
Agricultor e advogado, antigo quadro da administração pública guineense, activista cultural, compositor, fotógrafo, artista plástico e poeta bilingue, Ernesto Dabó é, na Guiné-Bissau, uma expressão multimodal da arte naquele país. Grande parte da sua poesia se perdeu nos anos de guerra no seu país.
ILHA MÃE
Faces e dentes
dizem melhor do acantonamento das almas
Viagem a pingar última gota
Da ponta da ponte
atiram-se abraços cruzados e abertos
Do mar à terra
ampla luz de amor e saudades
Reencontro com a filha bela da mãe natura
minha Ilha-mãe
BOLAMA
POEMA
À tua porta há rosas.
Colhe uma e com ela muda o mundo
GUERRA
Flocos de chama letal
partiam de canos aos céus
Um par de olhos que não via o engodo de pão para se calar
girava na face nascente
faiscando temor
envolto em pó e questão.
[0306] Egito Gonçalves, um poeta da resistência
José Egito de Oliveira Gonçalves nasceu em Matosinhos em 1920 e faleceu no Porto em 2001. Agente de seguros, editor, divulgador cultural, poeta, e tradutor, recebeu o Prémio Internacional Nicola Vaptzarov de 1985, Grande Prémio de Poesia da APE de 1995, o Prémio do PEN Clube Português também de 1995 e o Prémio Seiva da Literatura de 1998. Foi director das revistas “A Serpente”, “Arvore”, “Notícias do Bloqueio” e “Limiar”. Destacado anti-salazarista, integrou os movimentos de oposição democrática, dirigiu o Teatro Experimental do Porto, o Cine Clube do Porto e a Cooperativa Árvore NOTÍCIAS DO BLOQUEIO
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se
SÓ O AMOR ME INTERESSA
Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -
podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores
PANFLETO CONTRA O PANFLETO
(sob a forma de conselhos a um jovem poeta)
Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.
Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.
Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.
Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.
Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!
Se recorres às rosas faze que sejam branca
se elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.
sábado, 20 de outubro de 2018
[0305] Tertúlias Poéticas do Casino, homenagem a Cabo Verde
Visando homenagear os poetas africanos, brasileiros e timorenses através de tertúlias poéticas a Associação de Moradores e Empresários do Parque das Nações (em conjunto com as Embaixadas dos países lusófonos da CPLP e do Casino de Lisboa, a que a UCCLA se associou) realiza a 30 de Outubro a segunda tertúlia literária em que o país contemplado será Cabo Verde. Os apresentadores serão José Luís Hopffer Almada, Carlota de Barros e Paula Martins de Carvalho, homenageando-se Ovídio Martins, Yolanda Morazzo e Gabriel Mariano. A primeira tertúlia, havida a 25 de Setembro, foi dedicada à Guiné-Bissau e nela foi homenageado Ernesto Dabó.
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