segunda-feira, 8 de outubro de 2018

[0254] Carlos Drummond de Andrade, o modernismo brasileiro

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira em 1902 e faleceu no Rio de Janeiro em 1987. 

Foi o mais influente poeta brasileiro do séc. XX e um dos mais significativos do seu modernismo. 

Escritor e funcionário público, fundou “A Revista”, porta-voz do movimento literário que ajudou a criar. O seu profundo ecletismo e profundo democratismo, está patente na sua afirmação: “Do pescoço para baixo sou marxista, porém do pescoço para cima sou espiritualista e creio em Deus”. Indevidamente apontado como candidato comunista a deputado embora, na década de 40, fosse compagnon de route do PC brasileiro.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.


QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


CONVITE TRISTE

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.


RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos
Cantaremos o medo que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque este não existe
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo do depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

domingo, 7 de outubro de 2018

[0253] Posts "fixos"

A partir de agora, programação certa para terças, quintas e domingos.

Terças-feiras - "Um poema de Nuno Rebocho"
Quintas-feiras - "Um monumento, um poema" (sobre esculturas alusivas a poetas)
Domingos - "Música para o domingo" (músicas com grandes poemas)

Em caso de impossibilidade de colocação, cada um destes momentos passará para o dia seguinte ou seguintes.

[0252] MÚSICA PARA O DOMINGO (3). Hoje, "Lágrima de preta", de António Gedeão (letra) e José Niza (música), por Adriano Correia de Oliveira que nos revisita

[0251] Vieira Calado ou a poesia que irrompe das cidades


José Vieira Calado nasceu em Lagos em 1938. Estudou em  França e em Londres, professor, astrónomo, poeta e artista plástico, divulgador e animador cultural, tem vasta obra publicada.


SETEMBRO

A devastação
do chão devagar bebendo a seiva imperturbável
onde a cinza refeita dos séculos reacende
o resplendor das manhãs, nas árvores macilentas,
com o seu bafo de menina que vai morrer.

Por ele se redime
o cardume das aves migratórias
rumo ao sul dos sóis inumeráveis
perdido que foi do estio, o agosto ardente,
a terra descalça, seca,
nas ambições do trigo.

Mês onde o leão a virgem devora lentamente
com o seu rosto de ervas
amarelas da tarde macerada.

Por ele se esvai o brilho do riacho
às portas do mar correndo,
de tão longo augúrio o amor desfeito.

Mês onda a pedra avulta perene
o esplendor dum réptil
e o réptil reganha a cor a condição
da pedra.

Setembro é o grande mês dos fogos
primordiais,
  tardes que se alongam em vozes frias
com a exactidão precisa dum alçapão
e um tumulto de folhas secas roça
o dorso incerto do valado
grisalho, de aranhas agonizantes voando
em teias de pó no ar incerto
ou ao mar do vento desabrido e sonolento.

Por aqui passam os últimos enleios
do despertar
a frágil representação da cena das espigas
brisas cravadas de papoilas,
sinfonias de luzes,
enquanto os grandes espaços se enchem
do último voltear dum insecto doido.
na secura, na vertigem inquieta
do fim do dia
inquieto pelas chuvas anunciadas.

Setembro é fogo do fogo.
O princípio da cinza,
o princípio do princípio.


UM FIO DE BÚZIOS

Um menino trazia um fio de búzios
na concha da minha mão.

Era criança,
mais jovem do que eu julgava
ou imaginava ser
ou ver
no azul profundo os tons ocre e sépia
da falésia
que caía sobre o mar.

Era o tempo das nêsperas e das amoras
que ainda brilham
nos meus olhos.

Mas era já o tempo das ondas lavrando
a areia, gaivotas estridentes
clamando contra o vendaval.

E o menino nada sabia do vento áspero
da montanha
nem da rigorosa fixidez
do pão do condenado.

Era apenas uma criança ainda jovem
que procurava búzios na praia
junto ao mar
no azul profundo do céu
que imaginava
na cor das nêsperas e das amoras
que ainda hoje animam
os meus olhos.


POEMA DRAMÁTICO

Dei por mim indo por uma rua encurralada
num muro branco com portais encimados
por brasões, armas e arabescos, sem janelas,
sem sinais de gente.

Subi para ver o interior que era um quintal
que parecia cheio de túmulos com sepulturas cinzentas
mas depois percebi que eram cadeiras de mármore
em forma de faunos esfinges e ninfas
num jardim de laranjeiras loureiros e oliveiras.

Entrei por uma nesga
dei com uma casa de porta aberta
e logo vi uma linda moça deitada
enrolada em folhos brancos de brancos lençóis
que me sorriu persistentemente.

Mas não era ela que eu procurava.

O que eu procurava era uma mulher que nunca conheci
e que vira descer até junto à praia
por um carreiro estreito,
como o beco duma porta, para sempre fechada.

Acordei.

A mulher já lá não estava,
ou nunca existira?

Jamais o saberei.

Como jamais saberei quem era aquela menina formosa
entre os folhos duma cama
que me sorria persistentemente
deitada entre ninfas e faunos
num jardim de loureiros laranjeiras e oliveiras.

[0250]


[0249] David Mourão-Ferreira, referência importante

David Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927 e nessa cidade faleceu em 1996. Escritor e poeta, assistente da Faculdade de Letras (onde se formou), foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores, Secretário de Estado da Cultura (1976 a 1979), um dos fundadores da revista “Távola Redonda”. Director de “A Capital” e director-adjunto do jornal “O Dia”, criador da Companhia Nacional de Bailado. Recebeu o Prémio Ricardo Malheiros de 1959, o Prémio da Critica da Associação Portuguesa de Críticos Literários de 1980, o Prémio Literário do Município de Lisboa (1986), o Prémio D. Dinis desse ano, o Prémio Jacinto Prado Coelho em 1988 e o Prémio de Carreira da SPA em 1996.



LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


SONETO DO AMOR DIFÍCIL

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.


ROMANCE DE DUBROVNIK

São estas casas de cinza
De cinza petrificada
É como se aqui a vida
tivesse jogado às cartas
e só a morte saíra
ganhando em cada jogada

É esta rua comprida
mas que se chama Platza
(embora em eslava grafia
se escreva apenas Placa)
e que na Ragusa antiga
já dois mundos separava

De um lado terra latina
e do outro terra bárbara
São as verdes gelosias
são as muralhas douradas
a segredarem que a vida
se inda quisesse ganhava

É agora ao meio-dia
a Porta Pile empilhada
E são cachos de turistas
trepando pelas muralhas
tirando fotografias
contudo não vendo nada

São fileiras de boutiques
São cafés sob as arcadas
É tudo a fingir que a vida
não se dá por derrotada
É no porto a maresia
quando mais avança a tarde
incrustada em cada esquina
suspensa de cada iate

Mas das naves bizantinas
é que ela sente saudades
e das galeras esguias
que Veneza lhe enviava
se bem que tal nostalgia
inda hoje a sobressalte

Nenhum sabor tem a vida
se a morte a não acicata
E são argolas vazias
as que há no porto à entrada
e de onde outrora pendiam
correntes sempre de guarda

Quem aliás adivinha
as marítimas estradas
que deste porto saíam
que neste nó se cruzavam
Com certeza agora vivem
na tinta azul de outros mapas

Ou permanecem cativas
Ou ficaram bloqueadas
São em redor tantas ilhas
tanta rocha tanta escarpa
tantas flutuantes ravinas

Mas quando a noite se abate
não são mais do que faíscas
no mar de prata lavrada
E já a Lua surgia
na sua rica dalmática
Nem mais a preceito vinha
do que no céu da Dalmácia

Será que o fulgor da vida
vem da morte iluminada
Subo ao monte Zarkovica
(Na língua serbo-croata
deve ler-se Djarkovitza)
e à sombra desta latada
bebo um copo de mastika
olho de novo a cidade

Ó memória empedernida
de uma divina morada
Ó ferradura de cinza
de algum cavalo com asas
Ó mediterrânea figa
mais propriamente adriática
que foi feita por Posídon
e no litoral deixada

O que a morte à vida ensina
através dos deuses passa
Mas não é só nas ruínas
que fica a sua pegada

[0248] Miguel Anxo Fernán-Vello e as novas gerações galegas

Nasceu em Cospeito (Galiza), em 1958.

Político, editor, escritor, dramaturgo, poeta e deputado de Espanha.

Foi distinguido com o Prémio Modesto R. Figueiredo de 1981, Esquio de Poesia de 1985, o Prémio da Crítica de Poesia Galega de 1985 e 2004, o Prémio Martin Codax de 1996, o Prémio Miguel González Garcés de 2004 e o Prémio de Poesia Afundación de 2015. 

Membro da Associação de Escritores em Língua Galega e da Associação Galega da Língua, fundou a editora Espiral Maior e as revistas “Cen Augas” e “Agália".



AEROPORTO

Toda viaxe é corpo e ten algo de esperanza,
de resplandor secreto.
No oficio de vivir, coas súas vellas rutinas,
aínda nace nos días
a flor transparente da sorpresa
e todo horizonte borra a dor.
Deixamos atrás o peso azul da sombra
e as voces repetidas que se esvaen no baleiro,
as teimosas consignas que o tempo e o costume
condenaron a ser confuso rito,
patético destino.

Toda viaxe, ao cabo, é fuxir de nós mesmos,
saír do labirinto desviado da sorte,
sentir a chama limpa do futuro na fronte.
Por iso agora, minutos antes de partir,
sentimos como treme no sangue
unha raíz estraña,
talvez o eco dunha antiga ledicia,
a exhalación punxente dos praceres perdidos,
acaso aquel amor que nunca foi.
Os fíos da memoria átanse agora súbitos
e hai imaxes que doen,
xestos que aínda regresan,
corpos grises na néboa,
accidentes da vida,
restos dunha paixón.

¿Por que agora o recordo planifica o seu golpe
de impensada acedume e quebrado perfil?

Toda viaxe é un signo que se acende no vento
e xa estamos dispostos, xa non hai volta atrás,
xa nos están chamando pola megafonía,
e outra vida se anuncia, outro alento, outra voz,
e levamos acesa unha estrela no corpo,
a vibración dos días como un segredo, un triunfo;
a duración que espera para ser no porvir,
e a palabra aínda dentro como lúcida brasa
que invade o pensamento cando a nave partiu,
e xa lonxe, na altura, na cegadora luz,
no ar que suspende o mundo:
a purificación.


FASCINACIÓN DO TURISTA

Se hai un lugar que brilla no futuro
está dentro e fóra da pel
e o horizonte é un fío de luz que nos alimenta,
porque somos o seu tremor e a súa fonte,
a súa lámpada acesa no pensamento.

¿Quen saberá quen somos, aquí,
medindo a vibración feliz do tempo,
sabéndonos nun corpo
que nos descubre agora lonxe de nós,
perdidos no corazón dos días?

Toda a brisa que sentimos na fronte
é o mar que soñamos,
a fenda iluminada da lonxanía,
a aura perfecta de esperanza.

E levamos nos ollos a duración dun desexo
que nos consume:
o mundo
e o seu signo diario, o seu tránsito vivo,
metáfora que somos
entre o día e a noite,
vivir
na ocupación do límite,
na patria cega do destino.

Se hai un lugar que brilla no futuro
sentimos outra forma construída nos soños,
e sentimos a sede dunha ficción continua
—a viaxe é un corpo que xa nunca regresa—,
pois nós mesmos viaxamos contra unha estrela estraña,
no territorio impuro que por veces nos vence,
individuos sen nome, estranxeiros sen alma,
na aventura prevista, na efémera rutina,
cando a vida se adianta no seu verbo azaroso,
travesía que encarna a curva da soidade,
círculo que retorna no recordo ferido,
—quen son eu, que desexo—
cando a vida se anula no derradeiro mapa,
cando xa somos rostros que non confirman nada,
convertidos en dúbida, xa sen porto seguro,
nas cidades do exilio, no temor invisíbel,
cando xa non sabemos desmentir o extravío,
cando somos o asombro do noso propio xesto,
a condición secreta que borrou o pasado,
cando todo se extingue entre nostalxia e fábula,
e cando somos carne esquecida na néboa,
como espectro vulgar que se estraña a si mesmo
ou espello de imaxes deformadas e ausentes,
a experiencia volátil de existir nun horario
sen tocar terra nunca, sen entrar no misterio,
só vivindo na páxina dun deserto somnámbulo,
sen saber o camiño,
finalmente na sorte
de non ser
ou ser algo,
cando non hai certezas nin promesas á vista,
porque estamos aínda nas luces do solpor,
na fronteira que nos condena ao punto incerto da noite,
devorados
paso a paso
pola nosa propia natureza.


AURA

Entre tanto fluxo das horas que tremen no futuro
e un corazón que foxe de nós co seu peso de espectro,
instante medido na inmediata estrañeza da carne,
como a arte de respirar un penetrante abismo
ou metáfora ingrávida que florece no corpo.

Aparece no escenario dos ollos unha liña de febre,
as árbores brillantes do entresoño,
e unha voz amarela usa a vertixe contra a sombra,
rapto do ar e lingua acesa da chuvia.

Porque virá o verbo que pronuncia o espello,
a gravura da transparencia como un oficio da imaxinación,
o astro devorador do tempo.

Cando se inflame o alcol vermello das rosas,
irrepetíbel sangue,
maré estremecida
na lonxanía.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

[0247] Natércia Freire, a esquecida

Nascida em Benavente em 1920 e falecida em Lisboa em 2004, Natércia Freire ganhou o Prémio Literário Antero de Quental de 1947 e 1952, o Prémio Ricardo Malheiros de 1955 e o Prémio Nacional de Poesia de 1971. 

Professora e poeta, foi levianamente identificada com o Antigo Regime português, quase votada ao esquecimento depois de Abril de 1974. 


POEMA DE AMOR

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.


O BAILE

Névoa em surdina
A sombra que acompanha
As finas pernas a dançar na tarde.
Jogo de jovens corpos.
Música de montanha,
Num tempo teu e meu
De eternidade.
E eu, as duas estranhas.

Olha quem toca o ponto
Que há no fim!
Ao fim de mim,
No ponto para que vim.
Ao fim de mim
No ponto donde vim.
Vulto de agulha
Em fumo de água e lenha.

Eu, as duas estranhas.

É sempre pelos outros que falamos.
Eu, as duas estranhas, por mim falam.
Em estradas como ramos
oscilamos. E vamos
Convergentes, dispersas, disparadas
Pelos tiros de magos inocentes
Do caos ao sol
Em gradações de escadas.

Ouve-se às vezes uma voz: - Presente!
E já no corpo as almas vão trocadas.

Foi em concretos dias de sol-posto,
Em fábricas de fios de uma aranha,
Que se teceram
Em finíssimas teias de desgosto,
(Eu) as duas estranhas.


POEMA DA REBELDIA

- Nenhum de vós! Seja qual for o céu
que vos encobre! Seja qual for a Idade
que vos deu! Já nenhum me fascina,
ó seres de pedra e mármore e cristal!
Não estremeço de espanto ou de beleza.
Se tudo o que me coube foi morrer,
espero da Esperança a glória do irreal.

Se vos amo, não sei se vos cantei.
Se vos deifiquei, já vos esqueço.
Se vos medi para além do que vos meço,
para aquém vos deixei.

Como erguer-vos acima dos infernos
de pó e cinza que a paixão criou?
E chamei-lhes eternos!
Que rio de miséria os afogou?

Nenhum de vós! Se estive de joelhos,
hoje levanto o olhar. O que de vós rasteja
sobre a Terra, a podridão do instante,
a perdição dos vícios, a razão de cantar,
está nas palavras presas, nas cadeias
que os séculos soluçam, a arrastar...

Nenhum de vós agora me escraviza.
Tão pequenos, pequenos almocreves!
Crianças das extáticas, divisas
e de infinitos breves!

Nenhum de vós! Não sei que epopeias
e astros e mansões
vos erguestes acima das areias!

Arrepiem-se as trevas e o silêncio
Do desprezo que alargo,
dos nomes que soterro, do amargo
anel de ferro que os recolhe.

Nenhum de vós, nenhum merece
que vos olhe!

Quero os cânticos só para além de mim,
de além dos cataclismos.
De além morte, de além caudais
de mundos em fusão.

Quero ver Deus criar de novo a vida;
uma nova manhã, um sabor novo a relva,
a maresia, à primeira canção...
Os passos do amor na noite fresca,
a primeira e imprecisa solidão.

Quero ver Deus, terrível, frente a frente.
Ver os primeiros lagos, ver os primeiros monstros,
ver-me de onde é que eu vinha.

Quero ver Deus criar de novo a Morte
e que a primeira morte seja a minha.

[0246] António Aleixo, o poeta cauteleiro

Célebre poeta espontâneo cujas quadras ficaram na memória do povo, António Fernandes Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António em 1899 e faleceu em Loulé em 1948. Com fina ironia e muita crítica social, semi-analfabeto e homem simples, teve extraordinária facilidade de rima e de métrica mais comum, foi tecelão, polícia, pedreiro, emigrante em França, cauteleiro, enfim, ao que de que se pôde socorrer numa sobrevivência difícil – “uma amarga filosofia aprendida na escola impiedosa da vida”. Ficou conhecido como o “poeta-cauteleiro”. Vários cadernos seus de poesia foram cremados como meio de defesa contra o vírus infeccioso da doença que o vitimou (a tuberculose), acto cometido em consequência do terror que a doença então causava nos meios mais populares.


QUADRAS

Sou humilde, sou modesto;
mas, entre gente ilustrada,
talvez me digam que não presto,
porque não presto p`ra nada.

Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.

Por de Deus ter recebido
tantas provas de bondade,
já lhe tenho até pedido
a morte por caridade.

Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor mas não sou
a lama que muitos são.

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.


NÃO DÊS ESMOLA A SANTINHOS

MOTE

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

GLOSAS

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.

Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão...
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.

Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?...
Arranjam voz comovente
Para jludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,
Dá antes aos pobrezinhos.

Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p'rà ajuda da cera»...
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

[0245] Vera Duarte, Cabo Verde no feminino


De seu nome Vera Duarte Lobo de Pina, desembargadora, é membro das Academias Caboverdiana de Letras, de Ciências de Lisboa, Gloriense de Letras e patrona dos Colóquios da Lusofonia. Foi Ministra de Educação Ensino Superior, presidente Comissão Nacional Direitos Humanos e Cidadania, Conselheira do Presidente da República e Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça. Recebeu os Prémios Norte-Sul DH do Conselho d`Europa (1995); Tchicaya U Tam´si de poésie africaine 2001 e SONANGOL 2004. Vem defendendo a valorização feminina na Cultura.


ACROBATA DA PALAVRA

Na natural solitude
da minha vida de errâncias
se esculpe a desesperante finitude
do meu ser nascido volátil

No vértice vertiginoso da vida
violenta, violentada, violada
inscreve-se minha mutante condição
de acrobata da palavra

                   E no sol poente
                             na lavra que lavro
                                     no vento que sopra
                                                   no pão & fonema
deixarei fluir as palavras
que alimentam a fome
do mundo que em mim habita


ROTAS E NAUFRÁGIOS

Oh fulas meus irmãos d´ África
Oh mandjacos meus irmãos africanos
Perdidos nas rotas do mundo
Um outro mundo buscando

Oh mandigas, oh balantas
Em vossa carne peregrina
Dolorosamente se inscreveu
A rota do meu sangue

E por destinos improváveis
Nas nossas veias se cruzaram
Todas as rotas do mundo

Um mundo de desesperos
   de naufrágios
                   e navios negreiros
                                  em lampedusas buscando
                                         a inglória salvação

Um dia talvez quem sabe
À volta de Madina Boé
Cantaremos cantigas de roda
E dançaremos os hinos da liberdade


PALAVRAS
                    a Nelson Mandela

Não quero esta angústia
que se amotina
e desagua
em adolescentes suicidas
pelo sida, pela fome, pela droga

Não quero esta dor
que me devasta
e dilacera
em mortes prematuras
pela guerra, pelo ódio, pelo crime

Quero construir amanhaceres
de luz
     onde os homens se olhem nos olhos
     e as mãos se afagam vigorosas

Quero construir entardeceres
serenos
      onde não haja explosões de bombas assassinas
      nem estertores de agonias várias

Persigo um sonho lindo
feito de coisas simples

       O meu sonho se chama gente
                 e palavras simplesmente

Palavras embriagadoras
       perturbantes
            madrugadoras
que circulam invisíveis
e se dão generosas

Palavras que brilham
   que criam e se alegram
        e juntas constroem
               a sagrada fraternidade

Persigo um sonho lindo
feito de coisas simples

O meu sonho se chama amor
       e multidões que sobem juntas
                as ladeiras da vida

Qual Zumbi dos Palmares
conduzindo seu povo
- negro e escravizado  -
pelos caminhos da libertação

Também tu Mandela
conduziste teu povo
- negro e oprimido-
numa longa marcha
em direção à liberdade

            Cumpriste assim o teu destino
                  nesse caminho dolorido
                      mas belo …
                              integro …
                                        justo …

[0244] Um monumento, um poema (2) ANTÓNIO ALEIXO, Loulé

Material enviado pelo nosso leitor José Dimas Sequeira, ao qual muito agradecemos a simpatia... e o trabalho! Amanhã, voltaremos a António Aleixo.

Aqui vai em anexo o meu contributo fotográfico, obtido em 17.03.2017, na Praça da República, em Loulé. Tal como a estátua de Fernando Pessoa à mesa de café, no Chiado, esta estátua de António Aleixo também está à mesa de um café, na esplanada do Café Calcinha, que o poeta frequentou na fase final da sua vida. A mesa e a cadeira são réplicas daquelas onde ele costumava estar e foram cedidas pelo café para complementar a estátua, da autoria de Lagoa Henriques (tal como a de Fernando Pessoa, exibida no nosso primeiro post dedicado a esculturas alusivas a poetas), inaugurada em 28.03.1996. Tendo nascido em Vila Real de Santo António, em 18.02.1899, António Aleixo teve uma vida difícil, por vezes roçando a miséria, tendo sido tecelão, polícia, servente de pedreiro (quando esteve emigrado em França) e, de retorno a Portugal, fixou-se em Loulé, onde era cauteleiro. As suas quadras foram divulgadas a partir daí, por iniciativa de admiradores seus, já que o poeta não estava para aí virado. A tuberculose, que já ceifara a vida duma filha sua, também o atingiu, obrigando-o a passar temporadas em Coimbra para tratamento, tendo aí granjeado admiradores como Miguel Torga e Tóssan, tendo este último contribuído para a recolha e divulgação das suas célebres quadras, para além de apoio financeiro nas horas difíceis do poeta. A doença acabaria por vitimá-lo aos 50 anos, em 16.11.1949, em Loulé, terra que sempre o considerou como filho adoptivo.

Eu já não sei o que faça,
P'ra juntar algum dinheiro;
Se eu vendesse a desgraça,
Já hoje eu era um banqueiro!

[0243] Olinda Beja revisita-nos

A poeta santomense Olinda Beja dá-nos a honra de revisitar o nosso portal, o que sempre lhe agradecemos. A sua poesia escorre naturalmente, embrulhada na beleza das suas ilhas. E é bem-vinda. 


SEM TÍTULO
                    À Milé Veiga

lavraste searas de ausência em teu outro húmus
teu pranto vago e terno em começo de recordação
tempo afeiçoado ao gesto
à simetria de teu corpo cambuto e gracioso
deserto de sons e horas
e diásporas de sofrimento

teceste fios de púrpura na estrada de Água Arroz
altivos mamoeiros no quintal de tua espera
e de ti nasceram risos
e abraços
e mãos de acenos fugazes
e palavras esculpidas em folhas de andala
teu ilustre papiro.


LUSOFONIA 

Extensão imensurável
de raízes em solos longínquos
usos
costumes
sangues cruzados…
sonhos que ficaram perdidos nas pedras
a circundar o Globo das nossas vidas

estranhos?!
estranhos porquê?
talvez o sejamos na distância lusa
dos nossos palmeirais exóticos
panos garridos
gargalhar sensual e provocador
talvez o sejamos até no linguajar materno
que no berço ouvimos

mas se hoje procuramos a essência
de um passado comum
é porque aquele acento no coração de todos nós
é a ave migratória dos nossos mares entrelaçados


FERTILIDADE

nossa casa mãe é quali de goiabas
a projectar-se na floresta azul onde
o teu ventre se multiplica e se debate
em palavras molhadas de imensidão

tempos houve em que o teu rosto ausente
se embrenhou no plasma vigoroso que deteve
a morte inglória de teus frutos. Volto
à nossa casa mãe e o quali de goiabas

é o rosto de outras mães que saúdam as úluas
sozinhas e distantes na savana inquieta das ilhas


FRAGILIDADE

Frágil o mar o sonho a utopia
A nossa emergência transparente de viver
Frágil a sombra do ôká
A fiá gleza
As plantações
Café cacau
Frágil o caminho que leva à verde casa
Frágil a mãe que ergue o dumo da coragem
E ergue o rio em sua voz magoada
E ergue a encosta crivada de matabala
E desce a foz de seus passos
E enlaça o corpo todo
No sangue rubro das acácias
Frágil o som da nossa voz
O ténue abraço que nos separa do amanhã
A hibridez de nossa pele nossos costumes
Frágil a enseada onde aportam
As jangadas de todas as raças

[0242] Maria Teresa Horta, o feminismo na poesia


Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros nasceu em Lisboa em 1937.  É jornalista, escritora e poeta e foi Prémio Máxima da Literatura em 2010, Prémio D. Dinis em 2011 e Prémio Autores em 2017. Descendente da alta aristocracia portuguesa, dedicou-se ao cine-clubismo e integrou o Movimento Feminista de Portugal. Fez parte do Grupo Poesia 61. 


MÃE

mãe
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas

tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam de existires

perdi-me noite na planície
branca
sobrevivente das madrugadas
da memória

trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te um naufrágio
de flores cansadas
e o único jardim de amor
que cultivei de navios ancorados ao espaço


MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso


OS TEUS OLHOS

Direi verde
do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio    mais ave
ou vento

Direi vácuo
          volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
            ou vinco
voragem mais crispada
ou precipício

[0241] Aguinaldo Fonseca, o poeta esquecido

Aguinaldo Brito da Fonseca nasceu em Mindelo, ilha de S. Vicente, em 1922 e faleceu em Lisboa em 2014. Poeta do "Suplemento Cultural" cabo-verdiano, embora sempre se considerasse português, a sua obra é marcada por forte sentimento de africanidade, Foi viver para Portugal em 1945 


HERANÇA

O meu avô escravo
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.
As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.
Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.


MÃE NEGRA

A mãe negra embala o filho.
Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.
Canta, canta para o céu
Tão estrelado e festivo.
É para o céu que ela canta,
Que o céu
Às vezes também é negro.
No céu
Tão estrelado e festivo
Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
— Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.
A mãe negra não tem casa
Nem carinhos de ninguém…
A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços…
Mas olha o céu estrelado
E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade…


CANÇÃO DOS RAPAZES DA ILHA

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá …
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …
sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

[0240] Rosa de Porcelana lança "Itinerários de Amílcar Cabral"

É sempre excelente lembrar um poeta e fundador de uma nacionalidade. A 10 de Outubro, recorda-se Amílcar Cabral com a apresentação do livro chancelado pela Rosa de Porcelana Editora (rosadeporcelanaeditora@gmail.com) no auditório do BCA/Garantia/A Promotora, em Chã d’Areia, cidade da Praia, Cabo Verde – “Itinerários de Amílcar Cabral”. Será pelas 18h30, estando a apresentação a cargo de José Maria Neves e Mariana Faria.


[0239] Cabo Verde e Guiné-Bisssau admitidos no PEN CLUB Internacional


Os PEN CLUB de Cabo Verde e de Guiné-Bissau foram admitidos no seio daquela organização internacional no seu Congresso havido, de 25 a 29 de Setembro, em Puna (na Índia), tendo apadrinhamento do PEN CLUB de Portugal. As suas representações não puderam, todavia, comparecer no Congresso por falta de meios para o fazer. A unanimidade das 72 delegações presentes votou as admissões, sendo saudadas com a plantação de dois bambus no Global Language Park, que se adicionaram aos colocados pelas demais representações.


[0238] Sérgio Frusoni, a "ligria" do crioulo


Nascido em Mindelo em 1901 e falecido em Lisboa em 1975, foi poeta, contista e pintor cabo-verdiano, filho de pais italianos. Começou a apresentar em 1947 os seus poemas escritos em crioulo no Café Sport do Mindelo, cuja gerência assumiu, e na década de 60 liderou o Grupo do Teatro Castilho. Foi locutor da Rádio Barlavento


NHA TERRA

Nha terra, que tá parcême otr'ora
grande moda um munde
e más tarde moda um continente,
ca é mas agora
do que esse cantim
perdide nesse mar profunde:
Sanvicente!

Ma li qu' m' nascê
li qu' m' criá!
Esse mar, esse céu, ma esse tchom
é que moldá nha carne e lumiá nha vida!
Li qu' m' ha de morrê!

E quand m' ca fôr más do qui poera,
inda m' há de continuá ta vivê
na côr desse mar,
na luz desse céu,
na boca dum piquena qualquer,
ta namorá cretcheu...
Minha terra, que me parece outrora
 grande como um mundo
e mais tarde como um continente,
não é mais
do que esse pequeno
perdido nesse mar profundo:
São Vicente!

Aqui que eu nasci
Aqui que eu criei!
Esse mar, esse céu, mais esse chão
Que gerou a minha carne, e iluminou a minha vida
Aqui que ei de morrer!

E quando eu não for mais do que a poeira
Ainda ei de continuar a viver
Na dor desse mar
Na luz desse céu
Na boca de uma menina qualquer
A namorar cretxeu...


MNINE DE SANVICENTE

Já’m fui mninne d’ nha luta
e d´nha caláca;
d´nha bisca e d´nha batota
na corê ô  na craca

Já m’andá ta vendê;
ta catá;
tá juntá paiá;
ta rocegá carvôm;


ta frá da li ma da lá
ta dormi n’arêa,
traz dum cambota
ô na pedra de tchôm

Já m’andá embarcóde
d’foguer:
d’crióde;
d’cuznher;
bem bstide, bem calçode,
t’oiá munde, ta junta dnher…

E já m’ba e já m’bem;
já m’torná bá e torna bem;
e ali’m li, de pê na tchôm
sem um vintém, sem um tstôm,
te crê torna bá…
ma pa torná bem...

[0237] António Fonseca, a incandescência da poesia


Nascido em Ambriz em 1956, formou-se na Faculdade de Direito e Ciência Políticas da Universidade de Bourgogne, França. Poeta, contista, jornalista e radialista, recebeu o Prémio Literário de Luanda de 2010 e, em 2011, o Prémio Nacional (de Angola) de Jornalismo e o Prémio de Cultura e Artes de 2017. Cofundador da Brigada Jovem de Literatura, é secretário-geral da Associação Angolana de Letras


POEMA

Renasçam as almas incandescentes
Brotem flores neste marasmo
Reincarnem-se os Mensageiros…
Desnude-se o verso
E cante-se a Poesia.
Sibilem balas de amor
Quebre-se o gelo dos dias que correm
Renasça a memória
Volte a florir sobre o cinzento dos jardins.
Vença-se o charco da ilusão
E dos escombros da alma
Voltem as cigarras a cantar
O sonho dos poetas
Anunciando novo dia…

[0236] Gastão Cruz, a expressão de 60

Gastão Santana Franco da Cruz nasceu em Faro em 1941. Professor, poeta, tradutor, crítico literário e encenador, foi leitor de Português no King’s College. Integrando a corrente da Poesia 61. foi um dos fundadores do Grupe de Teatro de Letras e do Grupo de Teatro Hoje. Recebeu o Grande Prémio de Poesia da APE, de 2004 e o Prémio Correntes d’Escrita de 2009.


ÁGUA SALOBRA

Falava-se da casa (a minha mãe
falava)
donde viéramos
porém pouco ficara do lugar colocado
à frente dos espelhos da infância
quando em penumbra a vida
se envolvia
Na casa nova a ria começava
logo depois do largo (a feira vinha
com a febre em outubro)
Havia no quintal um poço a corda ia
correndo na roldana e o balde
batia na água com um som vazio
era preciso
bater de novo até encher
subi-lo
com água que nem plantas poderiam
beber a ria vinha
até ali outrora
água salgada e doce misturara-se
ambígua no ar da casa sob os tectos
distantes
tal como a primavera
floria as malvas e aumentava os dias
e no inverno a noite começava
com a espera do meu pai que parecia
vir sempre tarde com
moedas novas reflectindo ainda
o dia findo
À mesa eu observava-lhe
a mão
a meu lado pousada e tacteava
na pele irregular as covas que no meio
os dedos estendendo-se formavam
No comprido canteiro do quintal
o pessegueiro dava flor mais tarde
que a branca amendoeira do quintal do lado
Durante o ano inteiro sobre o muro
os seus ramos tocavam-se


LEMBRANÇA DA RIA DE FARO

Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caiada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia

A MANHÃ

Esta manhã
                                                    hoje
                                                    é um nome
                                                    Fiama, Barcas Novas

É assim a manhã, um nome
para o mundo, abrir os olhos como
alguém que fala
Podem o tempo ou a
morte diurna
dar aos olhos abertos o nada das palavras
O sol será então
o silêncio no olhar ou a mão
sobre a testa que faz descer as pálpebras
como se os dedos dessem à cabeça a verdade
submersa nesse nada
e a manhã viesse
não como sombra vasta vestir a voz
do corpo
mas cobri-la da
luz
das palavras que faltam

terça-feira, 2 de outubro de 2018

[0235] Orlando Mendes, a afirmação da poesia moçambicana


Nascido na ilha de Moçambique em 1916, Orlando Marques de Almeida Mendes faleceu em Maputo em 1980. Foi biólogo, poeta, dramaturgo e romancista. Uma das primeiras figuras da literatura moçambicana, obteve o Prémio Fialho de Almeida em 1946 e, nessa data, o Prémio de Poesia de Lourenço Marques. Usou também os pseudónimos de Osvaldo Mossuril e de Zeferino A. Nhancale. Dirigiu a Associação dos Escritores de Moçambique.


INSTANTE PARA DEPOIS

A tarde viva está quase vazia
na esplanada represa de sombra morna.
Seis velhos mastigam recordações
com dentes cariados da memória
e o dia-a-dia com as falhas dos dentes.
Olhos distantes sobre os livros
e mãos e pernas entrelaçadas
um casal jovem intimamente suborna
o tempo minuto a minuto seguinte.
Na berma do passeio mufana parado
estende os dedos pedindo quinhentas
nem se sabe porquê e ninguém dá.

Passa um jipe da polícia militar
e um dos velhos mastiga em segredo
que aquilo anda muito pior por lá.
Os dentes e as falhas cessam de mastigar
recordações e a suave cadência dos pulsos
e a moça levanta os olhos húmidos
mufana encolhe os dedos e desliza
inteiro ao sol da rua e assobia
não se sabe porquê e ninguém sente.

Batem horas num relógio distante
e o jovem casal parte subitamente
para o seu primeiro acto de posse.
Atarde fica então mais vazia
com os velhos mastigando a voz sibilada
no dia raso à sombra morna.

Reina a paz na esplanada laurentina


JUVENTUDE

É no tempo dos explícitos cantares
à luz do dia e na escuridão da noite
até uma explosiva prova de acção.

É o tempo das dúvidas inconfessáveis
os cigarros ardendo e o café já frio
e o rosto impassível atrás do jornal
contra a devassa de anónimos vigilantes.

É o tempo dos assaltos ao trânsito
imaginando as máscaras arrancadas
e a beleza de a riqueza como seriam
se não coexistissem incólumes com
ignorância e miséria e violência.

É o tempo da solidão entre as gentes
e de solitário sentir a multidão na savana.

É o tempo de não ter fé e crer ainda
na dádiva total por um beijo de amor
e pela sinceridade dum aperto de mão.

É também o tempo de receber-transmitir
uma secreta raiva chamada esperança.

Tempo que o pudor adulto faz caducar.


MINHA ILHA

Nos paralelipípedos das mais antigas infâncias
dei também meus passos balbuciantes e seguintes.
Todos os dias pés sem idade acorrentados
trituravam o salitre poeirado pelo vento ĺndico
e a cortiça nua das solas e dos dedos
fazia o périplo da ilha sobre corais
onde no palácio o governador-geral mandava despachos
que a corte recebia incrustada de pedrarias
nas entranhas digerindo riquezas carnais.
E o salitre vinha e ardiam os pés das gerações
e nos pátios dos prédios senhoris floridos
se construíam novos lares de oriunda linhagem.
Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes
e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.
Era a rota dos gemidos e das raivas putrefactas
e dos partos que haviam de povoar as américas
com braços marcados a ferro nas lavras e colheitas.
Ruíram paredes grossas chegaram outras naus
morreram marinheiros por ordem soberana de el-rei
e obediência de seus filhos sem coroa fixando preços.
Agachavam-se as sombras com a passagem dos rickshaws
na ponta da ilha farinha não levedava pão mas fezes
e o sono evadia-se dos ossos para o metrónomo da noite.
Em frente na costa que orla o interior
nascia o poeta e guerrilheiro Kalungano
que disparando balas cantaria para nós
o amor e as flores do dia de hoje litoral
em que a ilha se liga ao continente por uma ponte
e os barcos à vela macuas são donos do mar.

[0234] Florbela Espanca


Batizada como Flor Bela Lobo e autonomeada Florbela d’Alma da Conceição Espanca, nasceu em Vila Viçosa em 1864 e faleceu em Matosinhos em 1930. Terá sido a mais espantosa sonetista, foi jornalista, tradutora, contista, epistológrafa e professora. Tentou por duas vezes o suicídio antes de sucumbir a uma “overdose”.


AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!


ALMA A SANGRAR

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...

[0233] Miguel Hernández, um poeta na frente de combate

Miguel Hernández Gilabert nasceu em Orihuela em 1910 e faleceu nas masmorras franquistas de Alicante em 1942. Filho de um pastor de gado andaluz precipitado numa grave crise económica, que o forçou também a pastorear o gado (o que aproveitou para ler e se interessar pela representação teatral). Dramaturgo e poeta, começou a escrever poesia por volta de 1925, integrando o chamado “Grupo de Orihuela”. Transfere-se para Madrid na década de 30, ingressando no exército republicano e sendo nomeado Comissário da Cultura. Combateu em diversas frentes na Guerra Civil de Espanha e, acossado pelos falangistas, internou-se na Alentejo, sendo capturado pela Guarda Republicana salazarista e entregue aos fascistas espanhóis e condenado à pena de morte em 1940, comutada em 30 anos de prisão. Na cadeia contraiu a tuberculose. 


LAS ABARCAS DESIERTAS

Por el cinco de enero,
cada enero ponía
mi calzado cabrero
a la ventana fría.

Y encontraban los días,
que derriban las puertas,
mis abarcas vacías,
mis abarcas desiertas.

Nunca tuve zapatos,
ni trajes, ni palabras:
siempre tuve regatos,
siempre penas y cabras.

Me vistió la pobreza,
me lamió el cuerpo el río,
y del pie a la cabeza
pasto fui del rocío.

Por el cinco de enero,
para el seis, yo quería
que fuera el mundo entero
unajuguetería.

Y al andar la alborada
removiendo las huertas,
mis abarcas sin nada,
mis abarcas desiertas.

Ningún rey coronado
tuvo pie, tuvo gana
para ver el calzado
de mi pobre ventana.

Toda la gente de trono,
toda gente de botas
se rió con encono
de mis abarcas rotas.

Rabié de llanto, hasta
cubrir de sal mi piel,
por un mundo de pasta
y un mundo de miel.

Por el cinco de enero,
de la majada mía
mi calzado cabrero
a la escarcha salía.

Y hacia el seis, mis miradas
hallaban en sus puertas
mis abarcas heladas,
mis abarcas desiertas.


ACEITUNEROS

Andaluces de Jaén,
aceituneros altivos,
decidme en el alma: ¿quién,
quién levantó los olivos?
No los levantó la nada,
ni el dinero, ni el señor,
sino la tierra callada,
el trabajo y el sudor.
Unidos al agua pura
y a los planetas unidos,
los tres dieron la hermosura
de los troncos retorcidos.
Levántate, olivo cano,
dijeron al pie del viento.
Y el olivo alzó una mano
poderosa de cimiento.
Andaluces de Jaén,
aceituneros altivos,
decidme en el alma: ¿quién
amamantó los olivos?
Vuestra sangre, vuestra vida,
no la del explotador
que se enriqueció en la herid a
generosa del sudor.
No la del terrateniente
que os sepultó en la pobreza,
que os pisoteó la frente,
que os redujo la cabeza.
Árboles que vuestro afán
consagró al centro del día
eran principio de un pan
que sólo el otro comía.
¡Cuántos siglos de aceituna,
los pies y las manos presos,
sol a sol y luna a luna
pesan sobre vuestros huesos1
Andaluces de Jaén,
aceituneros altivos,
pregunta mi alma: ¿de quién,
de quién son estos olivos?
Jaén, levántate brava
sobre tus piedras lunares,
no vayas a ser esclava
con todos tus olivares.
Dentro de la claridad
del aceite y sus aromas,
indican tu libertad
la libertad de tus lomas.


CANCIÓN DEL ESPOSO SOLDADO

He poblado tu vientre de amor y sementera,
he prolongado el eco de sangre a que respondo
y espero sobre el surco como el arado espera:
he llegado hasta el fondo.
Morena de altas torres, alta luz y ojos altos,
esposa de mi piel, gran trago de mi vida,
tus pechos locos crecen hacia mí dando saltos
de cierva concebida.
Ya me parece que eres un cristal delicado,
temo que te me rompas al más leve tropiezo,
y a reforzar tus venas con mi piel de soldado
fuera como el cerezo.
Espejo de mi carne, sustento de mis alas,
te doy vida en la muerte que me dan y no tomo.
Mujer, mujer, te quiero cercado por las balas,
ansiado por el plomo.
Sobre los ataúdes feroces en acecho,
sobre los mismos muertos sin remedio ni fosa
te quiero, y te quisiera besar con todo el pecho
hasta en el polvo, esposa.
Cuando junto a los campos de combate te piensa
mi frente que no enfría ni aplaca tu figura,
te acercas hacia mí como una boca inmensa
de hambrienta dentadura.
Escríbeme a la lucha, siénteme en la trinchera:
aquí con el fusil tu nombre evoco y fijo,
y defiendo tu vientre de pobre que me espera,
y defiendo tu hijo.
Nacerá nuestro hijo con el puño cerrado,
envuelto en un clamor de victoria y guitarras,
y dejaré a tu puerta mi vida de soldado
sin colmillos ni garras.
Es preciso matar para seguir viviendo.
Un día iré a la sombra de tu pelo lejano,
y dormiré en la sábana de almidón y de estruendo
cosida por tu mano.
Tus piernas implacables al parto van derechas,
y tu implacable boca de labios indomables,
y ante mi soledad de explosiones y brechas
recorres un camino de besos implacables.
Para el hijo será la paz que estoy forjando.
Y al fin en un océano de irremediables huesos
tu corazón y el mío naufragarán, quedando
una mujer y un hombre gastados por los besos.

[0232] David Hopffer Almada, uma voz independente

David Hopffer Almada é advogado e poeta, natural de Chã de Tanque, Santa Catarina, ilha de Santiago, em 1945. Formou-se em Direito em Coimbra, foi governante na I República de Cabo Verde (Secretário de Estado do Ministério da Justiça, Ministro da Justiça, Ministro da Informação, Cultura e Desportos) e deputado à Assembleia Nacional cabo-verdiana, membro fundador da Ordem dos Advogados, membro fundador e presidente da Fundação Direito e Justiça, membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, de que é presidente da sua Assembleia Geral.


INDEPENDÊNCIA

Liberdádi povo
Kantu di legria
Filisidádi dixi na tera
Paz riba nos txon

Splorason kamba na tumba
Fidju´l Povo salta pá rua
Rasta si trás forsa di Povo
Rabenta na dédo kurente skrabu!

Skrabu rabenta kurente fero
Djáta na mundu:
LIBERDÁDI!
Montanha zini
Perdegal romba
Tudo Povo sakedo tam!

Liberdádi txiga Kau Berde
Splorason txora si fim!
Filisidádi pá tudo hómi
Lei di Povo na tudu Ilha!


CHARLATÃO

Pés de barro
Asas de cera
Alicerces de areia

Assim se constroem castelos
Feitos de quimeras
Assim crescem heróis
Feitos de espuma!
Com um sopro,
Um sopro apenas
Se esvaem
Se destroem
Desaparecem!

Assim também nasce,
Cresce
E se faz um charlatão!


“LIBERDÁDI DI KRIASON”

Nhôs dêxam kanta
Sima nta xinti
Nhôs dêxam pinta
Sima nta odja
Nhôs dêxam skribi
Sima voz di nha alma ta flam!

Arti ka tem dono
Arti ka tem padron
Nem patron
Arti ka tem mondon!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

[0231] Floriano Martins, o sentido em movimento


Ensaísta, tradutor, editor, poeta e divulgador da poesia, Floriano Martins nasceu em Fortaleza em 1957. Autor de vasta bibliografia. Dirige com Cláudio Willer a revista “Agulha” e é conselheiro editorial da revista “Poesia Sempre”.


TEUS BEIJOS

Teus beijos ensaiam uma alegoria em meu dorso.
Eu os sinto como árvores dançando, flamejantes
pétalas, constelação de árvores em plena colheita
a sussurrar: todo homem é uma recriação.

Apontas uma cidade longe em minha vertigem.
Vendaval de migalhas, ilhas cegas, velhos
mapas que não contavam com teu desamparo.
O amor gira sempre em torno de si mesmo.

Passa por aqui a galope o teu sexo emocionado,
tua piedade de Deus bicada de remorsos.
Um castelo agitado repleto de males menores
e o vestido de baile de tua primeira ilusão.

Passam máscaras como um pranto de roedores
e luzes afogadas em poços da mais meiga solidão.
Um único personagem em ti se atreve a falar
e me acusa de jamais haver saído do poema.

Aqui estou eu desfeito em verso, mal recriado,
e sem saber como evitar voltar a ser o que sou.


PRIMEIRO ESBOÇO

Quem te envia, diluviana forma que me extravasa?
Não és um disparate, suponho, ou mesmo
o começo de uma nova história. Hábil conduzes
as imagens secretas de muitos martírios.
Sinto-me fausta criatura ao receber-te em casa.
Parecem não te importar as perguntas que faço.
Reinas em qual floresta, em qual enigma de folhas?
Para atender a qual desígnio deves me levar contigo?
Avilta-me a proteção do morto. Dispenso-te
as núpcias, as leis do entranhado sacrifício.
Mas podes repousar da longa viagem, quem sejas,
enquanto me sucedem os aforismos de teu corpo.


OUTRAS FORMAS DE EXTRAVIO

Qual o sopro queimante de tua eternidade?
Agora estamos para a medida da ruptura.
Tomar nota do vôo para identificar a ave,
os soluços do fogo que soa feliz em sua função.
Agora é indagar da virgem por onde percorrer
a chama de sua origem, o mergulho incerto
nas pálpebras espelhadas de tantas visões.
Para ela, todo sentido é movimento. Mais breve
aquele que lhe toque antes que o perceba.
Desata-se a animada criatura em aparições,
velada por seus ídolos, que não nadam
(nadam) como as criaturas de Santa Teresa.
Apenas o rio, circundado pela sombra
de seu fino papiro que se escreve a si mesmo,
mares a fio. Quem te envia, se não queres
ser a medida de teu próprio extravio?

[0230]


[0229] Homenagem a Salvador Allende

Com intervenções de Jorge Sarabando (coordenador do Núcleo do Porto da ACR) e do poeta e escritor José Viale Moutinho, decorre a 2 de Outubro, às 18h00, na Universidade Popular do Porto uma homenagem a Salvador Allende e aos democratas chilenos.  


[0228] Joaquim António Emídio, um poeta singular

Ex-ourives, nascido na Chamusca em 1955, Joaquim António Emídio é um poeta singular. Com uma bibliografia extensa, diz-se “retirado da poesia”. O autor de “O Livro dos Ventos” enveredou por um erotismo, elevado a uma linguagem extrema e “provocatória”, ao encontro da mesma atitude desafiante que encontramos em Nicolau Saião ou A. Dasilva O. Jornalista, fundador e director do jornal “Mirante”. 


AS MÃOS

Felizmente que deixei as mãos
a salvo
depois de tanto ter negociado
o meu ouro

sempre fui um homem
de poucas palavras
em criança era mais fácil
porque sabia rezar

já não tenho tanto tempo
para a poesia
agora compro e vendo
ouro pratas relógios, etc

o ouro sempre foi negócio para grandes
apuros
ao fim do dia
com a poesia

ainda hoje
faço o mesmo
apuro sempre.


SEM TÍTULO

Amo o teu rosto de lua azul
sonho com a tua saliva doce
de tentos beijos adiados

sou o confidente das ervas
que crescem à tua porta
o sol que entrou pela tua janela
sou eu a correr para ti de braços abertos

um dia vou amanhecer nos teus olhos
e florir nas tuas mãos


O AMOR DE AGORA

O amor já não é uma punheta como era dantes
nem uma foda na cama com doze minutos para cada lado;
a pedir muito mais cu que cona
o amor só quer lições de canto e piano;
barrigudo, papudo nos olhos e com varizes
nas pernas, o amor já não sobe pinheiros
e eucaliptos: entretém-se nos jardins regados de fresco
a colher flores com terra nos olhos;

que sacana de amor é este
que só quer ir a bailes de putas para mostrar
o troféu por dentro das calças?
o que é feito do amor que morria nos campos de batalha
e acabava no quarto do castelo a ouvir cantar
vitória entre muralhas?

o amor já não é uma foda em pé como era dantes
mas eu quero viver outra vez o meu grande amor
com as minhas doze mulheres.

[0227] Héctor J. Freire, poeta do visível


Poeta argentino, Héctor J. Freire nascido em Buenos Aires em 1953 é também professor, crítico literário e de cinema, fundador da Primeira Escola de Teatro IFP (International Field Program). Foi chefe de redacção da revista de poesia “Barataria”, distinguido com o Prémio do Fondo Cacional de las Artes em 2003.


CLARIDAD SIN SOL

(Contemplando una vieja fotografía)
                                                                 
                 Lo real debería ayudar a vivir los sueños.
                                                                                        Para Tito
La boyita blanca se hundió de golpe y sin avisar,
y un pez plateado iluminó el agua como el follaje
encendido de los árboles en las tardes de otoño.
En ese “instante vacío” los tiempos se entrecruzan
y nuestra relación con el paisaje se invierte:
más que recordar sentimos que el pasado nos recuerda.

-Pero la memoria es aquello que a medida
que nos acercamos nos aleja.-

Ahora el viento persiste con su presencia sin cuerpo
y barre las hojas ante la claridad que muere:

-Paciencia y lentitud-

La luz se ha comprimido en el rincón
más oscuro de la fotografía,
tiene miedo de estar perdida:
el peso de las sombras cierra todas las puertas,
y finalmente desaparece, como el recuerdo
de aquella escena  junto al lago en la que mi padre
me habló de los misterios de la pesca.

A veces, se tiene la impresión de habitar una imagen,
el sentimiento de que el tiempo, al igual que aquel pez
súbitamente está fuera del cuadro.
Y en silencio avanza, y a medida que crece su presencia
disminuye la del que la contempla.

Sin movernos, la memoria nos cambia de lugar,
nos da y quita realidad.


NOCTURNO

En las horas de calma,
el tiempo viene a comer de mi mano,
y la luna en el paisaje de la noche
parece el corazón del sol:
un simulacro en la ventana
que arroja su red de fuego sobre la memoria.
Hace tanto que su luz llena de espejos el patio
donde de niños nos vendábamos los ojos,
y recorríamos en silencio las habitaciones
hasta encontrar el amuleto de jade
que ordenaba nuestros sueños.
Pero a veces, surgía una repentina sombra,
que nos transformaba en helechos de una zona indeleble.
Entonces, con las manos extendidas y con veneración
como si fuéramos a depositar flores allí,
recitábamos viejas e inútiles plegarias.
Luego nos retirábamos con timidez y miedo
como descendiendo hacia lo profundo de la tierra,
y encendíamos todas las luces de la casa,
y cerrábamos las ventanas y las puertas,
creyendo que estábamos a salvo de la intemperie del tiempo
con solo contemplar la imagen descolorida e inmóvil
de la Anunciación de Fray Angélico,
colgada en la serenidad del cuarto de la abuela.
Ahora los sentimientos y los sueños
de los días nuestros llegan al antiguo patio
como húmedos pasos para recordarnos,
que no sabíamos, ni sabemos aún qué decir acerca de la muerte.
“—¿Dónde estábamos?” Preguntó mi hermano
que todavía no había nacido.
“—En ninguna parte” Contestó la abuela
que ya había muerto,
pasando una ramita de albahaca fresca
sobre los ojos secos de los helechos.


PINTURA
   
En su zoología de intimidad, el gato de Hokusai
destaca el impudor que pretende evitar,
la infinitud de aquello que los humanos ignoramos.
Quizás por eso, su ocio nos resulta demasiado trabajoso.
En ese “vacío pictórico” - inservible a efectos descriptivos-
se ajusta el contenido de su imagen:
una humilde silueta recortada que elimina cuanto sobra.
Por un instante ese signo de mesura
nos hace olvidar la violencia del mundo.

[0226] De novo, Luís Filipe Sarmento

Dando-os a honra de revisitar este portal, Luís Filipe Sarmento apresenta-nos mais seis poemas do seu ainda inédito “KNK”.


12. 

Sentiu-lhe a presença e pensou-a
e quis conhecê-la porque pensou
que a sentiu
O que ela é desconhece
mas não ignora a realidade que o afecta
A gramática da pele intuiu-a em si
mas não entendeu
como o mistério o afectaria
Olhou-a, mas não a observou,
e reteve olhos-objecto
de dimensão extravagante
– só olhos –
– apenas olhos –
que, com a cumplicidade da metáfora,
o deglutiu até à digestão do êxtase


13. 

Deu um nome ao que lhe incidiu na pele
e, suspendendo-se no tempo,
desvendou o mistério da sua presença
antes do contacto. Existia no destino
e ainda que exterior lhe fosse
já o seu código espiritual o transfigurava
no esboço do desejo.
Ao deixar-se transcender pela surpresa
só o tempo imprevisto do silêncio
lhe equilibrou os sentidos
e deixou-se ir
apesar da sua impenetrabilidade. 


14. 

O conflito entre o que não quer e o espaço
que lhe ocupa os sentidos consome-lhe o tempo;
ao libertar-se de escória
que não deveria configurar uma inevitabilidade
deixa de se entregar à grandeza
de uma relação pura entre o que a loucura lhe oferece
e a manufactura artesanal da palavra
que o pensamento ordena e desordena
segundo um ou outro produto ocasional da natureza.
O conflito é uma repetição desinteressante,
a loucura uma viagem ininterrupta
ao espaço luminoso de si
onde se intui na dimensão interna do tempo. 


15. 

Quando decide observá-la dá-lhe
a dimensão do espaço. Não o é.
Ela apenas o ocupa.
Existe antes dela, mas para o observador
ela é a grandeza dessa intuição à priori.
Submete-se ao seu espaço
e deixa escoar o tempo
vagarosamente
saborosamente
como uma dimensão infinita
que lhe estimula a boca e a língua;
dentro do seu espaço
e com o tempo que a natureza lhe dá
recusa a morte
na sua gravidez imprevista
à explosão do prazer
que o torna infinito.


16. 

A geometria do seu corpo não delimita
o seu espaço nem lhe limita o gesto
incerto, o toque noutra pele, ou talvez
o vazio, a mancha poliédrica que busca,
não o tempo perdido, dá-lhe existência
no olvido dos relógios, e a massa que subsiste
é desejo enquadrado no seu íntimo subterrâneo.
Se o intuiu logo o rosto se lhe iluminou
porque em si a entidade do ser
implicava a consciência da sua plenitude
na tripla dimensão de uma acoplagem
perfeita enquanto a saliva lhe lubrificava
o infinito que se lhe abrira à visão do prazer
como um convite à experiência da humanidade. 


17. 

Ao observá-la sabe que existe naquele tempo
– o seu tempo que lhe invade o espaço –
e não num outro, alheio a si, onde o que existe
é-lhe paralelo numa dimensão que desconhece.
Nada para além dela o sensibiliza
– nem sequer o intui – tão só aquele corpo
que lhe ocupa o espaço e o tempo
que dura a sua admiração, a serenidade
que o maravilha, o assombro mágico que o seduz.
O tempo é da dimensão do seu olhar,
o espaço da subtileza transcendente do seu corpo.
Do som brilha a insustentável leveza da respiração
– a palavra denunciaria um conflito que aqui não tem lugar –
e se o tempo corre na sua contemplação
o espaço suspende-se em tranquila eternidade.