terça-feira, 29 de março de 2022

[0762] um poema de Ernest Hemingway



THE SOUL OF SPAIN


In the rain in the rain in the rain in the rain in Spain.

Does it rain in Spain?

Oh yes my dear on the contrary and there are no bull fights.

The dancers dance in long white pants

It isn't right to yence your aunts

Come Uncle, let's go home.

Home is where the heart is, home is where the fart is.

Come let us fart in the home.

There is no art in a fart.

Still a fart may not be artless.

Let us fart an artless fart in the home.

Democracy.

Democracy.

Bill says democracy must go.

Go democracy.

Go

Go

Go


Bill's father would never knowingly sit down at table with a Democrat.

Now Bill says democracy must go.

Go on democracy.

Democracy is the shit.

Relativity is the shit.


Dictators are the shit.

Menken is the shit.

Waldo Frank is the shit.

The Broom is the shit.

Dada is the shit.

Dempsey is the shit.

This is not a complete list.

They say Ezra is the shit.

But Ezra is nice.

Come let us build a monument to Ezra.

Good a very nice monument.

You did that nicely

Can you do another?

Let me try and do one.

Let us all try and do one.

Let the little girl over there on the corner try and do one.

Come on little girl.

Do one for Ezra.

Good.

You have all been successful children.

Now let us clean the mess up.

The Dial does a monument to Proust.

We have done a monument to Ezra.

A monument is a monument.

After all it is the spirit of the thing that counts.

[0761] "A Marcha", de Luís Palma Gomes

A MARCHA


Ouviste tu, irmão, falar na longa marcha da derrota?

Talvez os meus passos lunares
não tenham deixado um rasto platinado
para que possas agora recordá-la.

Silenciei com um gesto toda a orquestra.
E deixei que as cinzas enchessem a sala do concerto,
enquanto escapei às arrecuas pela escada de incêndio.

Agora o dia reclama-me
mais por hábito que por convicção.
E vou de multidão em multidão 
numa estranha incompetência que me leva à solidão.

Quando puder, 
encostar-me-ei à margem do caminho.
E  sentado no lancil 
esperarei a vinda da próxima ilusão
até se esgotar a areia que rola indiferente 
no relógio de parede que arde à nossa frente.

(Desculpa-me a tristeza.)

[0760] Revista DiVersos (poesia e tradução), n.º 33, acaba de sair

Com dois "In Memoriam", a Pedro Tamen e José Pascoal, apresenta-se com o esmerado aspecto gráfico que tem sido seu apanágio e o internacionalismo poético a que  também já nos habituou: Adri Aleixo, Adriane Garcia, Amadeu Baptista, Ana C. Moura, Cristino Cortes, Demétrio Galvão, Deodato Santos, Eduarda Chiote, Emerenciano, Fernando Henrique de Passos, Francesca Cricelli, Giorgos Sarantáris, Gudrid Helmsdal, Katarina Sarie, Manuela Nogueira, Maria do Sameiro Barroso, Mark Young, Ron Winkler, Rui Magalháes, TaharBekri e Zetho Cunha Gonçalves são os nomes desta feita publicados.

A DiVersos é uma produção das Edições Sempre-Em-Pé e pode ser assinada através do email contacto@sempreempe.pt. 

Site www.sempreempe.pt

sábado, 26 de fevereiro de 2022

[0759] "Livre", de Joaquim Saial

 

LIVRE


Livro que se lavre

e não seja livre…


Livra!...


[0758] Mais um poema de Luís Palma Gomes


DECRESCENS VITA

Sempre que me aflora o advérbio "talvez", há de certeza um esquecimento líquido correndo, espraiando-se pela vizinhança de mim mesmo. 

Enfrento os meus limites quando apenas posso pensar nas marinhas fortes de Esposende. Estático,  trago comigo as palavras e o seu ideal tão longínquo, quanto vertical, e tão próximo do sol como da profunda infância. 

O dia abre-se novo, mas previsível. As mulheres inauguram-no, parideiras agora sem  dor, lavando as cores serenas num rio que passava por aqui e — mesmo que os pássaros ainda nele falem — jamais voltará à presença determinada das árvores que estas ervas veneram sem saberem porquê - a habitual ausência de razão  para qualquer veneração, diria.

Levanto os olhos e reparo que os outros não escrevem poesia por agora. Talvez tenham escrito em casa ou a guardem para as férias grandes, ou tão-só não tenham lido Ruy Belo, como eu o fiz ontem à noite.

O dia decresce desde que nasce. E nós, rendidos pela nascença, aceitamos este crescimento da morte, banalmente,  como a um chamamento de pardais, ou  à forma arredondada das laranjas. 

Chamo tédio adocicado a este lapso que  interrompe as sonâmbulas viagens que faço para um destino comum e vulgar de pedras em queda até ao entendimento do poço. E sem caminho algum para regressar, caio.





sábado, 12 de fevereiro de 2022

[0757] Nicolau Saião, ataca de novo (com levantamento de rancho)


LEVANTAMENTO DE RANCHO


O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos

Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia

Doce como os sonhos o meu sargento desculpe

Mas é tão estúpido tão escalabitano tão

A norte de Bafatá ou mesmo 

Castelo Branco o meu sargento é um nabo

Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha

O meu coronel desculpe mas tive de o abater

O gajo não entendia que os sonhos eram os outros

Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias

E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores

Há um ar em silencio extremamente melancólico

O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura

De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a

Já havia muitos meses que me lavava a roupa

Junto ao mercado do Pixiguiti   chorava

Era sofrida como uma mulher

Doce e tão calada como um objecto partido

O meu capitão desculpe mas tive que o abater

É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos

O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão

De serviço   o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras

O meu major desculpe mas era chegada a hora 

Tantos anos depois ficaram todos em fila

A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado

Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda

De modo que foi assim   fiz levantamento de memórias

E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar

Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão

Ficaram todos em fila pois então

Mesmo que em sonhos   e agora estes não são

De ovos e farinha como almejava nesse tempo

Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar

Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba

E já agora que estamos com a mão na outra massa

Que é como quem diz com a pata na G3

O meu general vá à fava   palavra de civil tão sem galões

O meu general é um nabo como na caserna se dizia.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

[0756] Um poema "anunciativo", de Nicolau Saião



ANUNCIAÇÃO


As mulheres do vento   parado como um planeta extinto

as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa

o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha

as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

entre mim e o céu

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante

ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios

Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos

junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando

estremecendo como uma pétala sobre a água

Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis

escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza

Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval

mulheres de pernas como lírios rosados

andando ao longo duma estrada francesa

as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias

a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos

a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou

na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra

Vós sois o sustento dos pontos cardeais

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste

e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda

o fumo espalhado no parque abandonado

os olhos tranquilos frios

A rua solitariamente sob a noite de Junho

e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura

à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal 

a morrer.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

[0755] " A ciclista", poema de Joaquim Saial


A CICLISTA

Joaquim Saial


Rola que rola,

estrada fora.

Vai depressa,

sem demora,

já não volta,

foi-se embora.


Berlim, foto Joaquim Saial


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

[0754] "Possibilidades", poema de Luís Palma Gomes, para encerrar o ano poético, aqui no Ibn Mucana

POSSIBILIDADES


Talvez seja demasiado tarde,

talvez seja ainda cedo,

talvez não baste

ou seja, mesmo demais.


Olho para trás

e desconfio que não valeria a pena

voltar ao último cruzamento.

Olho para a frente

e a estrada estende-se

até ao infinito sem que nada de reluzente

se eleve da paisagem.


Os que por mim passam em sentido contrário,

sussurram a impenitência, o desconforto

do caminho que tenho de percorrer.


Talvez seja pertinente

escrever, escrever

como se as folhas brancas 

fossem aqueles pequenos recortes do rio

onde as águas param e ali estagnadas ficam

para apodrecer ou evaporar.


Talvez por debaixo dessas poças,

surja um húmus negro, lamacento, nauseabundo,

mas ideal para uma erva, rasa e trivial, nascer.



domingo, 28 de novembro de 2021

[0751] Poema inédito de Juergen Heinrich Maar

PUREZA  -  MEMÓRIA

de "Cem Sonetos à Moda Antiga" (inédito)

Estais acima de nós, 

  acima deste jantar 

(Carlos Drummond de Andrade, excerto de "A Mesa")

                                     

Linho branco reflete a cor do vinho,                       

O vinho que no linho sombras lança, 

Imagens de vinhetas no caminho 

Branco, branco, por mais que a vista avança. 


Já está, pois, posta a mesa, à luz de velas, 

Cristais e pratas, linhos, vinhos brancos, 

Vinhos e linhos brancos que nas telas 

À luz das velas deixam de ser brancos. 


O vermelho nas telas, carmim e ouro, 

Nada falta na mesa posta, nada: 

Luzes, vinhos, aromas, bom agouro.


Comensais e convivas, por que nada 

Se consome, o vinho não se verte? 

- O conviva de branco está inerte. 


(1982)

terça-feira, 23 de novembro de 2021

[0750] "Melodia de Ouro", novo poema de Carlota de Barros

MELODIA DE OURO


Penso no Bailado

como Sílvia bailava no poema

seu sonho de amor    

leve melancolia esvoaçando

como colibris sobre flores adocicadas

rumor de pétalas ou de lágrimas submissas

gotejando peregrinas de seus olhos meigos 

nas mãos de seu par

que a acompanhava no seu voo de amor

elevando-a suavemente nos braços

leveza de luz    graça    alegria e felicidade


No bailado sensual e puro

bebe sua lágrima de mel

solidão baloiçando 

no seu sonho de amor


Eroticamente  Sílvia oferece-lhe seu voo

seu sonho   melodia de ouro

melancólica presença de si mesma

nas asas do sonho

mais sonho que vida vivida



Carlota de Barros

Lisboa, 17 de Novembro de 2021

terça-feira, 26 de outubro de 2021

[0748] Poema de Carlota de Barros com um ano, mas ainda inédito (até hoje)


PEDRA OU SINO

             NUM PENSAMENTO INOCENTE



Penso naquele inocente encontro de 

Herberto Helder com a pedra pedra

a pedra verde ou azul que não era pedra

mas talvez um sino sem pensamento

no seu pensamento inocente.


Ah! Sim. 


Lembrei-me do grande silêncio 

da chama que a noite alimenta.

A noite   lenha para a nossa 

leveza humana


Ter-me-ei também encontrado

com a pedra  pedra no silêncio

escaldante desta noite maravilhosa

em que a Lua Nova surge ligeira

com passos de algodão enquanto eu

beijava os meus lírios num gesto doce

de gratidão e de puro encantamento?


Será que também esbarrei na pedra  

pedra estática e dura no meu caminho?


Será que também me encontrei com a pedra pedra  

na pedra do tempo  pedra azul ou Lua Nova silenciosa 

pedra verde em jeito de sino sem pensamento nesta  

noite cadente do meu pensamento inocente? 



Ou será que a pedra  pedra de Herberto Helder  

é hoje a Lua Nova no meu pensamento azul  

quase verde  reflexo das árvores que povoam 

o meu campo   refúgio da lua nos lábios ainda 

acesos do crepúsculo onde o silêncio é música?


Será a pedra pedra não menos que esta noite 

escaldante em que o beijo é sonho ou o sonho é 

seda na delicada floração do beijo da Lua Nova?


Poderá ser a pedra pedra   sino sem pensamento 

ou casualmente sombra do meu pensamento no   

silêncio desta noite abrasada pelo fervor dos dedos 

do sol escorrendo lume pelos campos ou pelo asfalto 

onde doces folhas inocentes  seixos  fendas abertas

numa exaltação quase vulcânica aberta ao sonho?


Ou será sonho ou mesmo beijo da lua 

nos ruídos da noite em que talvez eu tivesse o 

pensamento no silêncio dos lírios a abrirem-se

ou no seu perfume errando pela sala ou    

no mar rebelde que frisou o meu cabelo 

e pintou os meus olhos de verde água

ou ainda no silêncio ruidoso das pedras 

da vida em que se vai esbarrando com dor?


Talvez termine o poema num degrau de pedra

mais alto que o silêncio mais sublime que as  

ondas silenciosas do meu pensamento  

ou talvez nem o termine  o deixe nos olhos da lua

que ainda sonha com beijos do sol ou o deixe

com o sonho que sonha ser o beijo da lua.


Ou quem sabe o deixe aguardando naturalmente

que alguém o termine ou então nunca o termine

mas que seja sempre beijo da lua ou sonho 

desse beijo da lua espreitando os meus lírios

perfumados como nesta noite abrasada de 

Lua Nova  noite de pedra   pedra verde ou azul  

sino ou silêncio  sem pensamento verde ou azul?


Carlota de Barros

Lisboa 22 de Julho de 2020 

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

[0746] Glosando o poema de Ruy Belo "oh as casas, as casas, as casas", Luís Palma Gomes oferece-nos este poema matinal


OH, AS MANHÃS, AS MANHÃS, AS MANHÃS


Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs

são arpejos de chapins refletidos sobre os ribeiros,

camiões em trânsito trazendo e levando a claridade,

anseios ligeiros, quando os tempos são de invernia

As manhãs conhecem-nos nus e esfomeados

As manhãs são a esperança das noites

ou a angústia de quem se percebe vivo outra vez

Como louvam os pássaros as manhãs

enquanto se agitam as estradas tão estranhas

ao mar raso e coloquial

que entra sem rumor pela praia de Algés adentro.


Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs

tem o sabor amargo do café

que sentimos nos cantos da boca,

quando a fala trôpega sacode o ar ainda frio

que se esgueira pela fresta da janela mal fechada

São um prenúncio das histórias mal-acabadas

São o fio da navalha, limite incerto entre a paz e o inferno,

o calor e a chuva inesperada, o desejo de um bolo

que não se come há anos

 Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs.




terça-feira, 28 de setembro de 2021

[0745] Poema "on the road" de Juergen Heinrich Maar

CIDADE  ESTRANHA  DE  NOITE


                                            “Hélas! qu’elles sont étrangères, il est vraie,

                                              Les ruelles de la ville-souffrance”

                                                                                        (Rilke)

              A cidade estranha abriu-me sua alma

              Quando o sol já tinha fugido, 

              Seus raios estavam já dissecados,

              Suas luzes já evaporadas.

              E a cidade estranha me ofereceu sua calma.

              Já estava morto todo o ruído,

              Os sons todos eles sufocados

              E as melodias todas elas devoradas

              Pela sombra ávida da noite.


              Pela noite adentro adentro-me na cidade

              Na doce calma da noite doce

              Que se fez na cidade estranha.


              Apenas a conheci de noite,

              E toda cidade é triste de noite.

              O sol escondeu-se por detrás das nuvens, das casas, 

              Dos muros e dos montes,

              Escondeu-se, fugindo da tristeza que fez.

              Brilha envergonhada a lua abandonada.     

              O cintilar das estrelas não é mais

              Que um piscar de vagalume perdido

              Na imensa escuridão.

              As casas parecem negras,

              Feitas de pedras negras, de telhas negras;

              As suas sombras são negras,

              Lançadas em ruas negras.

              São negras as folhas de árvores negras,

              Caindo nas sombras negras

              Lançadas pelas ramadas negras.


              Como serão as almas da cidade estranha?

              Toda noite é triste em cidade estranha.


              Os ventos rugem pelos becos apertados,

              Sobem rugindo as ladeiras exprimidas,

              Rastejam pelas ruas abandonadas,

              E se divertem na praça despida

              De seus encantos.

              Senta-se o vento nos bancos de pedra,

              Cheira a calçada de pedra,

              Desafia a água que lateja

              Da fonte de pedra.

              As gotas de água perdem-se aos pingos,

              Que açoitados pelo vento atroz

              Vão molhar a calçada de pedra

              E os bancos de pedra

              Com as lágrimas da noite.


              O vento perscruta os segredos das árvores

              Velhinhas e esquecidas,

              Só lembradas à noite pelo vento.

              O vento revira-lhes as folhas

              E revolve-lhes as ramadas,

              E ruge contra suas copas.

              A árvore ruge com o vento,

              E o vento acompanha as melodias,

              Que talvez sejam tristes, alegres talvez,

              Tais como as almas

              Em que o vento as vai semear.


              O vento procura desvendar os segredos

              Das árvores,

              Mas as árvores guardam seu silêncio.

              Todas as noites são tristes em cidade estranha.


              As luzes, coitadas, morreram,

              Elas descansam também.

              Apenas aqui e ali

              Uma luzinha tímida

              Ameaça a noite com seu clarão minúsculo.

              Que será?

              Talvez um pobre coitado

              Que procura o sono e o sonho em vão,

              E que se revolta ali deitado

              Contra a imperscrutável solidão.   

              Talvez uma criança doente, coitada,

              Que não sabe porque sofre,

              Que ainda não sabe que se sofre

              Mesmo sem razão.

              Talvez ainda muitos talvez

              Procurem desvendar o mistério da luzinha.

              Deixai o mistério à luzinha,

              Toda cidade estranha é triste de noite.


              Vagueio pelas sombras

              Negras das ruas enegrecidas,

              Entre as casas negras

              Enegrecidas pela noite.

              Ou vagueia só minha alma talvez.

              Eu procuro vê-la como ela é  

              E nem sei sequer se ela é agora como não é.

              Eu não sei ao menos se tirando as sombras

              As casas serão diferentes;

              As ruas mais vivas talvez;

              Os becos menos estreitos talvez;

              As ladeiras menos íngremes talvez;

              E a praça mais alegre talvez.


              Sentei-me no banco de pedra

              Fazendo companhia ao vento,

              E roubando ao chão de pedra

              As gotas que agora caem em mim.

              Eu ajudo o vento a desvendar segredos

              E nem sei sequer se há segredos.

              Eu não sei se de dia o vento muda a voz,

              Ou se os pingos deixarão de cair

              No chão de pedra.

              Talvez sim, talvez não,

              Talvez o vento leve amanhã

              Folhas secas, papeis velhos e jornais lidos,

              Brinque com eles talvez, jogue-os no ar

              De encontro ao seu irmão gêmeo vento,

              Que não os queira talvez.

              Talvez as folhas, os papeis,

               Sejam como a alma de muita gente.


               A luzinha apagar-se-á decerto,

               Será supérflua, coitada,

               Como tanta coisa supérflua que se apaga

               E depois mostra que não era supérflua.

               Entrei pela cidade estranha

               Quando o sol já se tinha posto.

               E deixei-a quando o sol ainda repousava.

               Todas as cidades estranhas são tristes de noite.

                                                           São Paulo, Brasil, 1962



sábado, 18 de setembro de 2021

[0744] Mais um belo poema (inédito) de Carlota de Barros


COMO É BELO O REINO DO SILÊNCIO

 

Como é belo o reino do silêncio

com o brilho da luz aloirando

cabelos encaracolados

o esplendor do sol

mergulhando em cachos doirados

no mar imenso

espalhando solenemente vida

sobre a nudez do denso areal

 

Penso na vida

nos anos que se foram

como a vivi

alma azul   tulipa rosa entreaberta

numa casa cheia de vozes macias   claras e vivas

num tempo de fulgor e tardes transparentes

 

De onde venho por onde andei...?

Venho das ilhas verdianas

onde o azul do mar profundo faz lembrar o mar de Creta

andei por terras com casas de madeira e zinco

e tantas outras de fachadas e jardins luxuosos

 

Ressurjo na luz do reino do silêncio

onde me recolho tantas vezes

de futuras tempestades em mares desconhecidos

minha vida é simples  meu riso sorriso alegre

é triste quando penso nos que morrem

com fome de um sonho de amor

 

Retorno ao reino do silêncio. Como é sereno!

O brilho da luz é branco como a luz dourada

do céu das nossas ilhas verdianas

penso na vida   no tempo que voou como o passar do vento

a minha pele enrugou-se   o meu cabelo embranqueceu  

mas meu riso sorriso ficou

no silêncio dos dias e das noites transparentes

 

Como é belo o reino do silêncio

silêncio azul que ilumina os dias que se vão

Minha vida é simples

creio no amor  no sonho  na poesia  na pureza do azul

amo o comum da terra

 

Anoiteceu...

ressurjo a pensar na vida

no tempo que se foi veloz

como a brisa fresca da Primavera

um gesto de ternura

a flor que dura uma noite

e penso feliz que o tempo voou

deixou marcas visíveis

mas quando eu morrer os meus poemas dirão

que meu riso sorriso foi sempre o mesmo

alegre   franco e leal

que a minha alma habitou jardins dos mais harmoniosos

e vivi para que o sonho   a poesia   o amor

a conquista de mim mesma   a purificação da minha energia

o respeito por mim elevassem a minha vibração

e purificassem as minhas energias

 

Ressurjo no reino do silêncio com o meu poema

tão límpido e sereno como a lua nova num céu azul

E o tempo voou célere pelos caminhos que fui...

 

Carlota de Barros          
Lisboa, 15 de Setembro, de 2021



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

[0743] No "Dia Mundial da Poesia", um adequado pequeno poema, para comemorar a data

 

LENGALENGA DO P


Piso as pedras polidas do pavimento da praça,

pensando no pretendido poema.

Passo as palavras ao papel

e pronto! 



Joaquim Saial