terça-feira, 28 de setembro de 2021

[0745] Poema "on the road" de Juergen Heinrich Maar

CIDADE  ESTRANHA  DE  NOITE


                                            “Hélas! qu’elles sont étrangères, il est vraie,

                                              Les ruelles de la ville-souffrance”

                                                                                        (Rilke)

              A cidade estranha abriu-me sua alma

              Quando o sol já tinha fugido, 

              Seus raios estavam já dissecados,

              Suas luzes já evaporadas.

              E a cidade estranha me ofereceu sua calma.

              Já estava morto todo o ruído,

              Os sons todos eles sufocados

              E as melodias todas elas devoradas

              Pela sombra ávida da noite.


              Pela noite adentro adentro-me na cidade

              Na doce calma da noite doce

              Que se fez na cidade estranha.


              Apenas a conheci de noite,

              E toda cidade é triste de noite.

              O sol escondeu-se por detrás das nuvens, das casas, 

              Dos muros e dos montes,

              Escondeu-se, fugindo da tristeza que fez.

              Brilha envergonhada a lua abandonada.     

              O cintilar das estrelas não é mais

              Que um piscar de vagalume perdido

              Na imensa escuridão.

              As casas parecem negras,

              Feitas de pedras negras, de telhas negras;

              As suas sombras são negras,

              Lançadas em ruas negras.

              São negras as folhas de árvores negras,

              Caindo nas sombras negras

              Lançadas pelas ramadas negras.


              Como serão as almas da cidade estranha?

              Toda noite é triste em cidade estranha.


              Os ventos rugem pelos becos apertados,

              Sobem rugindo as ladeiras exprimidas,

              Rastejam pelas ruas abandonadas,

              E se divertem na praça despida

              De seus encantos.

              Senta-se o vento nos bancos de pedra,

              Cheira a calçada de pedra,

              Desafia a água que lateja

              Da fonte de pedra.

              As gotas de água perdem-se aos pingos,

              Que açoitados pelo vento atroz

              Vão molhar a calçada de pedra

              E os bancos de pedra

              Com as lágrimas da noite.


              O vento perscruta os segredos das árvores

              Velhinhas e esquecidas,

              Só lembradas à noite pelo vento.

              O vento revira-lhes as folhas

              E revolve-lhes as ramadas,

              E ruge contra suas copas.

              A árvore ruge com o vento,

              E o vento acompanha as melodias,

              Que talvez sejam tristes, alegres talvez,

              Tais como as almas

              Em que o vento as vai semear.


              O vento procura desvendar os segredos

              Das árvores,

              Mas as árvores guardam seu silêncio.

              Todas as noites são tristes em cidade estranha.


              As luzes, coitadas, morreram,

              Elas descansam também.

              Apenas aqui e ali

              Uma luzinha tímida

              Ameaça a noite com seu clarão minúsculo.

              Que será?

              Talvez um pobre coitado

              Que procura o sono e o sonho em vão,

              E que se revolta ali deitado

              Contra a imperscrutável solidão.   

              Talvez uma criança doente, coitada,

              Que não sabe porque sofre,

              Que ainda não sabe que se sofre

              Mesmo sem razão.

              Talvez ainda muitos talvez

              Procurem desvendar o mistério da luzinha.

              Deixai o mistério à luzinha,

              Toda cidade estranha é triste de noite.


              Vagueio pelas sombras

              Negras das ruas enegrecidas,

              Entre as casas negras

              Enegrecidas pela noite.

              Ou vagueia só minha alma talvez.

              Eu procuro vê-la como ela é  

              E nem sei sequer se ela é agora como não é.

              Eu não sei ao menos se tirando as sombras

              As casas serão diferentes;

              As ruas mais vivas talvez;

              Os becos menos estreitos talvez;

              As ladeiras menos íngremes talvez;

              E a praça mais alegre talvez.


              Sentei-me no banco de pedra

              Fazendo companhia ao vento,

              E roubando ao chão de pedra

              As gotas que agora caem em mim.

              Eu ajudo o vento a desvendar segredos

              E nem sei sequer se há segredos.

              Eu não sei se de dia o vento muda a voz,

              Ou se os pingos deixarão de cair

              No chão de pedra.

              Talvez sim, talvez não,

              Talvez o vento leve amanhã

              Folhas secas, papeis velhos e jornais lidos,

              Brinque com eles talvez, jogue-os no ar

              De encontro ao seu irmão gêmeo vento,

              Que não os queira talvez.

              Talvez as folhas, os papeis,

               Sejam como a alma de muita gente.


               A luzinha apagar-se-á decerto,

               Será supérflua, coitada,

               Como tanta coisa supérflua que se apaga

               E depois mostra que não era supérflua.

               Entrei pela cidade estranha

               Quando o sol já se tinha posto.

               E deixei-a quando o sol ainda repousava.

               Todas as cidades estranhas são tristes de noite.

                                                           São Paulo, Brasil, 1962



sábado, 18 de setembro de 2021

[0744] Mais um belo poema (inédito) de Carlota de Barros


COMO É BELO O REINO DO SILÊNCIO

 

Como é belo o reino do silêncio

com o brilho da luz aloirando

cabelos encaracolados

o esplendor do sol

mergulhando em cachos doirados

no mar imenso

espalhando solenemente vida

sobre a nudez do denso areal

 

Penso na vida

nos anos que se foram

como a vivi

alma azul   tulipa rosa entreaberta

numa casa cheia de vozes macias   claras e vivas

num tempo de fulgor e tardes transparentes

 

De onde venho por onde andei...?

Venho das ilhas verdianas

onde o azul do mar profundo faz lembrar o mar de Creta

andei por terras com casas de madeira e zinco

e tantas outras de fachadas e jardins luxuosos

 

Ressurjo na luz do reino do silêncio

onde me recolho tantas vezes

de futuras tempestades em mares desconhecidos

minha vida é simples  meu riso sorriso alegre

é triste quando penso nos que morrem

com fome de um sonho de amor

 

Retorno ao reino do silêncio. Como é sereno!

O brilho da luz é branco como a luz dourada

do céu das nossas ilhas verdianas

penso na vida   no tempo que voou como o passar do vento

a minha pele enrugou-se   o meu cabelo embranqueceu  

mas meu riso sorriso ficou

no silêncio dos dias e das noites transparentes

 

Como é belo o reino do silêncio

silêncio azul que ilumina os dias que se vão

Minha vida é simples

creio no amor  no sonho  na poesia  na pureza do azul

amo o comum da terra

 

Anoiteceu...

ressurjo a pensar na vida

no tempo que se foi veloz

como a brisa fresca da Primavera

um gesto de ternura

a flor que dura uma noite

e penso feliz que o tempo voou

deixou marcas visíveis

mas quando eu morrer os meus poemas dirão

que meu riso sorriso foi sempre o mesmo

alegre   franco e leal

que a minha alma habitou jardins dos mais harmoniosos

e vivi para que o sonho   a poesia   o amor

a conquista de mim mesma   a purificação da minha energia

o respeito por mim elevassem a minha vibração

e purificassem as minhas energias

 

Ressurjo no reino do silêncio com o meu poema

tão límpido e sereno como a lua nova num céu azul

E o tempo voou célere pelos caminhos que fui...

 

Carlota de Barros          
Lisboa, 15 de Setembro, de 2021



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

[0743] No "Dia Mundial da Poesia", um adequado pequeno poema, para comemorar a data

 

LENGALENGA DO P


Piso as pedras polidas do pavimento da praça,

pensando no pretendido poema.

Passo as palavras ao papel

e pronto! 



Joaquim Saial

sábado, 24 de julho de 2021

[0741] "O dia da vida", mais um poema de Luís da Palma Gomes, no Ibn Mucana


O DIA DA VIDA


Só há um dia,

quanto muito

alguns segundos mais 

mas tão gratuitos 

como aqueles jornais

prenhos de anúncios 

que nos dão à saída  do metro. 


Só há um dia

para beber a alegria e a angústia

num trago apenas

e ficar a pensar que bom seria

que a vida fosse uma película 

para a podermos ver várias vezes

numa sala de cinema.


Só há um dia, 

uma penugem de ervas esparsas 

onde os pássaros se escondem

um pouco  antes de caírem no céu. 





quinta-feira, 17 de junho de 2021

[0740] Juergen Heinrich Maar brinda-nos com mais um poema seu, desta feita alusivo ao nosso (e dele) Fernando Pessoa


GUARDA A DOR DOS REBANHOS


Guarda a dor dos rebanhos

Para além das nuvens ao sol poente,

Acolhe os rebanhos à tua mente

Sem perceberes os seres que passam reais

E naturais ao sol poente.


Este te trouxe a dor do passado

Não redimido se bem que vivido;

Aquele outro é mais do teu agrado

Porque vem de futuro embebido,

Futuro para o qual a dor não faz sentido.


Cada qual é um destino sagrado:

Vê apenas o que não tem passado

Em cada coração que palpita agitado

Sem número, código ou nome,

Sem razão última ou coisa assim.


Para que os rebanhos sejam mil termos

Guarda a dor dos rebanhos.

E os toma como recebemos sem vermos

As sombras das nuvens ao sol poente.

Serás com os rebanhos mil seres,

E serás ainda ao sol poente.       

                         Juergen Heinrich Maar, 02.12.1983

Retrato de Fernando Pessoa, por Almada Negreiros, 1964 - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

terça-feira, 1 de junho de 2021

[0737] Um poema inédito de Carlota de Barros, nascido neste dia 1 de Junho... da Criança


CRIANÇAS


Há crianças felizes

brincando na relva

nos parques 

nos jardins

rebolando na areia quente

rentes ao mar

respirando alegria

tablet nas mãos

olhinhos curiosos

fixos nos jogos

nos seus filmes

predilectos

não há pai não há mãe

que os tire dessa postura

inclinados no sofá 

onde quer que seja

com os tablets nas mãos

olhos fixos no ecrã


Crianças felizes ....

tão distantes dos meninos de Cabo Delgado


Meninos de Cabo Delgado

sem um teto  apenas uma refeição por dia  

mas brincando na rua  com brinquedos  

fabricados por eles próprios

pedaços de pau   ferros abandonados

caricas de garrafas de cerveja

bolas de trapos   bonecas de barro

sem tablets   nem cama   nem sofá

para sentir o prazer de apreciar

um filme infantil  ou um jogo para crianças

mas com um sorriso frágil nos lábios

porque brincam com amigos


Menino de Cabo Delgado

que viu degolar a cabeça do pai ou da mãe

e fugiu para lugar nenhum

sem rumo  assustado  doído

sem dia de regressar 

sem casa   sem a concha familiar  

sem pai nem mãe nem avó  nem avô

e os irmãos  por onde andarão?

Apenas com a visão cruel que jamais esquecerá.


Como vai ser o dia da Criança para ti?

Poderás ser feliz   meu menino?

Talvez no teu coração de criança inocente

haja ainda lugar para a felicidade

vi-te sorrir   com os olhinhos travessos

como te vi brincar com teus amigos que sorriam para a câmara.


Sê feliz se puderes   meu menino!

Vi-te sorrir. Meu coração pulsou.

Já te amo muito  meu menino

mesmo sem te conhecer

acolhi-te no meu coração  

porque vi como é amargo

ser menino de Cabo Delgado

fugindo para o mato acossado 

e tão assustado.


Ah estas nossas crianças felizes

tão distantes de Cabo Delgado!


São os meninos de hoje   felizes em casa

na escola   no campo ou na praia

estas as crianças que vemos e tocamos

todos os dias olhando-nos curiosas

devolvendo-nos sorrisos luminosos

que nos farão felizes o dia todo


Sê feliz meu menino 

tens casa   pai e mãe  

visitas os avós

que te fazem todas as vontades

tens amigos da escola

com quem adoras brincar   saltar e correr.


Oh alegria!


Sê feliz meu menino

hoje é teu Dia

mas sê feliz todos os dias do ano

és criança    ser inocente

que sorris para mim sem me conhecer

porque te cativei com meu sorriso

afagos de longe   beijos de mãe ...


Sê feliz 

todos os dias do ano

meu menino!


Carlota de Barros

Lisboa, 1 de Junho, de 2021



domingo, 30 de maio de 2021

[0736] Directamente de Florianópolis, Brasil, um tríptico de Jurgen Heinrich Maar (datado de 1983)


                     TRÍPTICO


                                           I.


                    A menina pobre contempla o mar

                    Que lhe traz o mundo.

                    E na contemplação ela contempla

                    O eterno profundo de seu mundo.


                    As ondas falam e murmuram

                    E calam e sussurram.

                    Nascem na planície das coisas comuns.

                    Elas se aproximam e se aproximam,

                    Elas se avolumam e avolumam,

                    Lutam, destroem-se, elas desaparecem

                    E num instante profundo

                    Deitam-lhe aos seus pés o seu mundo.


                    Estrelas do céu, estrelas do mar,

                    Flutuam no céu, flutuam no mar.

                    Vagas eternas, vagas imensas eternas

                    Que ternas lhe deitam aos pés o seu mundo:


                    De pérolas e cristais, e pétalas e metais,

                    Feitas todas, às gotas,

                    De todas as gotas que vieram

                    Do lugar das coisas comuns;


                    E contemplando as coisas que lhe traz o mar,

                    A menina pobre ingressa no seu mundo profundo.


                                            II.


                    Hoje a floresta é um castelo,

                    Ontem fora catedral resplandecente,

                    Amanhã, ruína remanescente

                    De sonhos sem elo.


                    Mas hoje é a floresta um castelo,

                    Com torres, torreões e ameias,

                    Solene, majestático e belo,

                    Um castelo de torres e ameias,

                    Hoje ainda é dia de sonho.


                     Varrem os ventos os vergalhões,

                     Troam e retumbam os trovões,

                     Estremecem as torres e torreões,

                     As paredes desabam solenes

                     No espaço aberto.


                     Varrem as árvores os ventos,

                     As folhas flutuam solenes

                     No espaço aberto.

                     Aos ventos de eternos alentos

                     Cada folha caída é um sonho morto

                     No vazio incerto

                     Que se faz no espaço aberto

                     Das ameias a desabar.


                     A floresta virou cinza

                     E o vento assombração.


                                    III.


                     A sua alma era alva

                     Como a calma da areia da manhã de outono.

                     E fogem-lhe os suspiros

                     Ao som do suspirar de um grande sono.


                     A manhã está em silêncio,

                     Recolhe-se o vento sonolento

                     Que quer ouvir o seu lamento,

                     Quer guardar a voz dormente

                     Da dor de seu universo.


                     “Vinde ondas, vinde ventos do sul,

                     Raios de sol, vinde raios de sol,

                     Apaguem os meus rastros doídos

                     Pegadas de pés sofridos,

                     Manchas de momentos doloridos”.


                     Os rastros estendem-se na alvura da areia

                     As pegadas prolongam-se num infinito de areia

                     As manchas fundem-se num corpo cor sereia

                     Que chora o seu eterno em grãos de areia.


                     “Quando eu destas coisas não sabia

                      Não havia rastros.

                      Não havia pegadas quando não sabia

                      Deixar na alma todos estes lastros”.


                      A figura desapareceu

                      Quando o mar apagou seus rastros.

                      A silhueta cedeu

                      Quando o vento a varreu.

                      Mas deixou atrás os tristes lastros.


                      A figura reapareceu

                      Quando as ondas retornaram.

                      Sabia da verdade agora,

                      Percorrera os ares e mares afora

                      E não deixa mais rastros agora.

Joaquín Sorolla, "Niña en un mar plateado", 1909

Joaquín Sorolla, Niña en un mar plateado, 1909


sábado, 8 de maio de 2021

[0734] "Literatura e Cultura em Tempo de Pandemia" saiu anteontem, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa

Com o alto patrocínio da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), foi anteontem, 6 de Maio, apresentado e distribuído aos autores presentes no Centro Nacional de Cultura (Lisboa) o livro "Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia" (venda em livraria, a partir de 18 de Maio).

Com 75 autores lusófonos, entre os quais os consagrados Germano Almeida, José Luís Tavares, Mia Couto, Lídia Jorge e Manuel Alegre, o livro traduz em prosa e verso o "pensamento" dos participantes/convidados sobre a pandemia que se abateu sobre o mundo em 2020 e que ainda se mantém.

A sessão de lançamento teve na mesa o Presidente da UCCLA, Dr. Vitor Ramalho, para além do Dr. Rui Lourido, coordenador cultural da UCCLA, o editor Manuel S. Fonseca da Guerra e Paz (sob cuja chancela a obra sai) e a Dr.ª Goretti Pina (São Tomé e Príncipe) que falou em nome dos restantes 74 autores.

A nossa colaboração concretizou-se através do poema "O Maldito" e da short story "O Fim", que aqui agora reproduzimos (de novo, no caso de "o Fim").



[0733] Poemas de José Pascoal (ver post anterior)

Para além dos poemas publicados em "Ibn Mucana", os nossos visitantes poderão ler mais alguns, patentes em "Palavra Comum" (revista galega de artes e letras). Para ver os que temos no IM, basta escrever "José Pascoal" (sem aspas) no espaço existente no canto superior esquerdo do blogue ou em "ETIQUETAS", à direita, mais abaixo.

Ver AQUI

[0732] José Pascoal, um poeta que desaparece; "Gazeta da Poesia Inédita", excelente blogue de poesia contemporânea portuguesa que se encerra

Soube hoje, através do blogue "Casa do Atalaião" do amigo e confrade de letras Nicolau Saião, que o José Pascoal faleceu a 30 de Abril.

O meu conhecimento com ele concretizou-se por via do amigo comum, poeta, escritor, jornalista e radialista Nuno Rebocho, também já desaparecido, que o trouxe para o "Ibn Mucana", onde publicámos vários dos seus trabalhos, com grande gosto nosso, devido à qualidade dos mesmos. Apesar de nunca termos estado juntos ao vivo, nas conversas feitas por email revelou-se sempre pessoa muito gentil e afável e acabou por também publicar peças minhas no seu blogue "Gazeta da Poesia Inédita", onde divulgou centenas de espécimes da poesia portuguesa contemporânea.

A 13 de Abril, vi que o José Pascoal encerrava a GPI, agradecendo com "Um obrigado universal" aos amigos e confrades a participação no blogue que tão bons "produtos" exibira, ainda por cima inéditos, como o título revelava (de certo modo, o José despediu-se assim de nós). Pensei que a coisa se deveria a algum cansaço e não lhe perguntei o porquê do fecho do blogue, absorvido que estava com longo artigo para um jornal de Cabo Verde e outros assuntos similares.

Sabido agora o triste motivo do fim da "Gazeta", resta-me lamentar vivamente que mais uma luzinha da palavra se apague, tão necessárias elas são, quando ainda por cima o estro que as acende é de primeira água. 

Um abraço ao José Pascoal e os sentimentos à sua família, amigos e colegas de escrita.

Joaquim Saial


Ver "GAZETA DA POESIA INÉDITA" AQUI


domingo, 28 de março de 2021

[0730] Juergen Heinrich Maar oferece-nos um poema do seu livro "Poemas domésticos" - ed. Papa-Livro Florianópolis, Brasil, 2000


Vejo-te novamente na claridade de estio

Tão suavemente, tão novamente na idade

Do primeiro beijo que te vejo continuadamente

Na atordoada mente do primeiro amado,

Na toada ausente do amor calado

Hoje renovado, que consente, enquanto sente,

O ardor da flor, o amor presente

No primeiro beijo.

Materializo-te entre véus e veludo

Enquanto visualizo entre os céus o tudo

Que já me ofertaste quando despertaste

Na alma do amante mudo

Os horizontes abertos, certos sobretudo

Até hoje, quando o jovem regeneraste

Que te cingiu no primeiro abraço,

Que repousou a dor no teu regaço

Durante o primeiro abraço.

Reencontro-te à janela, ora mais bela

Que a figura singela que vela

Desde dias incontáveis meus sonhos de rei.

Que vela insondáveis, tristonhos, eu sei,

Todos os momentos, que aparte os tormentos

Que acompanham o afastamento;

Do reencontro renasce, tão mais bela

Porque mais perene a iluminura

Que segura perpetua entre minha mão e a tua

O doce êxtase do primeiro encontro.

O êxtase festivo da alegria pura

Do primeiro encontro.



sexta-feira, 12 de março de 2021

[0729] Ainda Luís Palma Gomes, quase nosso poeta residente


MAIS UM POEMA


 Ao professor António Castro Caeiro


É só mais um poema.

Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.

Então o que é? De onde chegam? 

Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?


Onde mora o centro fértil desta harmonia?

Fora ou dentro?

Será um  coito ou uma afirmação desabrigada da loucura? 


Os pássaros respondem a todas estas perguntas. 

Não os entendo, porém.

Talvez seja isso mesmo um poema, 

uma tentativa mais para entender a fala dos anjos 

ou dialeto interior dos pássaros que fomos ou seremos, 

porque o presente não existe.

É um tempo demasiado puro e escasso

para a imperfeição dos sentidos.


Onde ia eu? Ah, sim, o poema...


Dizia então que o poema não é o que parece ser,

porque nunca havemos de chegar à essência  das coisas.

É o que a ciência dos computadores chama de firewall humana.




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

[0728] Luís Palma Gomes, de novo, com aroma de Lorca


A RAIANA E O BÚFALO


Vem montar o búfalo

que espera por ti junto da raia.


Ele levar-te-á às doidas terras de Espanha

onde comprarás um chapéu azul

e um casaco estampado de junquilhos brancos.

Lento, ele atravessará os morros barrentos,

perfumados de alecrim e rosmaninho.

E sobre o seu lombo, teus pés de princesa,

vestindo chinelos de seda carmesim,

roçarão as ervas do caminho

refrescadas pela brisa que cai

das asas das borboletas.


Vem ao encontro da besta

que te faz poemas patetas,

como todos os poemas, enfim.

Ele contar-te-á histórias

até que a noite chegue com o seu manto de galáxias

e rumor de novenas.


Vem, raiana, vem.

Não ouves? Já tocam os sinos da aldeia,

anunciando aos pássaros a vossa boda bestial.

E pela Rua do Forno, o senhor padre desliza

sobre os passos curtos que a batina permite

seguido de um bando de andorinhas que sabe cantar em latim.

Atrás dele, vindas dos campos em redor como bacantes,

mulheres rufam os seus adufes contra Castela.

E no fim da procissão um cão, irmão dos ciganos, ladra porque sim apenas.


Vem, raiana, vem

antes que seja tarde,

antes que o rio cresça, os junquilhos murchem,

as borboletas morram, as andorinhas migrem

e o cão dos ciganos faleça de esgana atrás da última oliveira da devesa.


O búfalo espera por ti.

E mesmo que não venhas,

diz-lhe que virás, raiana.

Ele precisa de ver a esperança

nos teus olhos verde-esmeralda

refletidos sobre a tua pele

cor de marfim e âmbar. 



terça-feira, 26 de janeiro de 2021

[0727] Luís Palma Gomes, poema novo, em oferta ao IM


MAU TEMPO

Por enquanto, a gata naufraga  num refugo de Sol. Insolente, desperdiça a vida, vivendo-a. Saberá ela que tem sete?

Uma cerca de nuvens conspira a restauração da sombra. O vento ladra nas persianas. Os pássaros leram nas folhas dos ulmeiros a tempestade. E partiram aos bandos para o azul mais alto que há nos primeiros quadros de um pintor esquecido. 

Quando pressentes a noite ao meio-dia, já sabes, que é inverno. E mesmo que, em pijama, te banhes numa caneca de chá e te seques depois na margem dos biscoitos, o mau tempo recorda-te que és carbónico e pouco mais do que isso.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

[0726] Na passagem do 1.º aniversário da morte do Nuno Rebocho

 

Passou no dia 12 o primeiro aniversário do falecimento do poeta, escritor, jornalista, radialista e conselheiro autárquico Nuno Rebocho (1945-2020), a quem a Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), Cabo Verde tanto deve. Honra seja feita à memória do nosso amigo e amigo da cidade-berço de Cabo Verde. Ver AQUI a sua biografia.

Fundámos ambos este blogue e o seu "irmão" Contos da Tinta Permanente, hoje com o título mais abrangente de Textos da Tinta Permanente (ver AQUI), dedicado a poesia. Foi uma convivência longa e de grande camaradagem, com a poesia, a prosa e o amor mútuo por Cabo Verde em fundo. 

Estejas onde estiveres, Nuno, recebe um grande abraço deste teu amigo de escritas e morabeza.