terça-feira, 12 de abril de 2022
[0765] Saiu "Fronteira", livro de Luís Palma Gomes
domingo, 10 de abril de 2022
[0764] "Raticida", poema de Joaquim Saial, de 21.4.2019
RATICIDA
"O rato roeu a rolha da garrafa
do rei da Rússia (…)"
Mas, se assim é, expliquem-me lá,
porque é que o czar Vladimir Vladimirovitch Putin
– que possui ilimitadas bombas atómicas
e colecciona submarinos nucleares,
caças e tanque de guerra
que nunca mais acabam
(e matam que se farta) –
não consegue obter um raticida eficaz,
enfim… como deve ser?
[0763] E como é Páscoa, aí temos um Luís Palma Gomes pedagógico...
PEDAGOGIA PASCAL
Repete comigo:
tudo é mais amplo do que parece.
As paredes da casa fértil
abarcam uma linhagem
de quarenta e seis gerações.
Os exércitos que marcham agora,
caminham desde o velho testamento
até todas as cidades maculadas.
Só podes entender
porque cai a colher pousada
em cima do prato,
se tiveres, porventura,
combatido, em Waterloo,
ao lado de Bonaparte.
A tua humana consciência
sintetiza apenas
a memória do insecto
que atravessou, outrora, a parede da sala.
És uma bactéria nervosa
que Deus observa
através da lente fosca,
o átomo do átomo
dentro de uma bolsa marsupial
que se expande e encolhe,
que respira.
Agora vai.
Já renasceu o dia.
Podes tocar na fruta,
na tecla, na lei,
porque já nada muda.
terça-feira, 29 de março de 2022
[0762] um poema de Ernest Hemingway
THE SOUL OF SPAIN
In the rain in the rain in the rain in the rain in Spain.
Does it rain in Spain?
Oh yes my dear on the contrary and there are no bull fights.
The dancers dance in long white pants
It isn't right to yence your aunts
Come Uncle, let's go home.
Home is where the heart is, home is where the fart is.
Come let us fart in the home.
There is no art in a fart.
Still a fart may not be artless.
Let us fart an artless fart in the home.
Democracy.
Democracy.
Bill says democracy must go.
Go democracy.
Go
Go
Go
Bill's father would never knowingly sit down at table with a Democrat.
Now Bill says democracy must go.
Go on democracy.
Democracy is the shit.
Relativity is the shit.
Dictators are the shit.
Menken is the shit.
Waldo Frank is the shit.
The Broom is the shit.
Dada is the shit.
Dempsey is the shit.
This is not a complete list.
They say Ezra is the shit.
But Ezra is nice.
Come let us build a monument to Ezra.
Good a very nice monument.
You did that nicely
Can you do another?
Let me try and do one.
Let us all try and do one.
Let the little girl over there on the corner try and do one.
Come on little girl.
Do one for Ezra.
Good.
You have all been successful children.
Now let us clean the mess up.
The Dial does a monument to Proust.
We have done a monument to Ezra.
A monument is a monument.
After all it is the spirit of the thing that counts.
[0761] "A Marcha", de Luís Palma Gomes
A MARCHA
[0760] Revista DiVersos (poesia e tradução), n.º 33, acaba de sair
Com dois "In Memoriam", a Pedro Tamen e José Pascoal, apresenta-se com o esmerado aspecto gráfico que tem sido seu apanágio e o internacionalismo poético a que também já nos habituou: Adri Aleixo, Adriane Garcia, Amadeu Baptista, Ana C. Moura, Cristino Cortes, Demétrio Galvão, Deodato Santos, Eduarda Chiote, Emerenciano, Fernando Henrique de Passos, Francesca Cricelli, Giorgos Sarantáris, Gudrid Helmsdal, Katarina Sarie, Manuela Nogueira, Maria do Sameiro Barroso, Mark Young, Ron Winkler, Rui Magalháes, TaharBekri e Zetho Cunha Gonçalves são os nomes desta feita publicados.
A DiVersos é uma produção das Edições Sempre-Em-Pé e pode ser assinada através do email contacto@sempreempe.pt.
Site www.sempreempe.pt
sábado, 26 de fevereiro de 2022
[0758] Mais um poema de Luís Palma Gomes
DECRESCENS VITA
Sempre que me aflora o advérbio "talvez", há de certeza um esquecimento líquido correndo, espraiando-se pela vizinhança de mim mesmo.
Enfrento os meus limites quando apenas posso pensar nas marinhas fortes de Esposende. Estático, trago comigo as palavras e o seu ideal tão longínquo, quanto vertical, e tão próximo do sol como da profunda infância.
O dia abre-se novo, mas previsível. As mulheres inauguram-no, parideiras agora sem dor, lavando as cores serenas num rio que passava por aqui e — mesmo que os pássaros ainda nele falem — jamais voltará à presença determinada das árvores que estas ervas veneram sem saberem porquê - a habitual ausência de razão para qualquer veneração, diria.
Levanto os olhos e reparo que os outros não escrevem poesia por agora. Talvez tenham escrito em casa ou a guardem para as férias grandes, ou tão-só não tenham lido Ruy Belo, como eu o fiz ontem à noite.
O dia decresce desde que nasce. E nós, rendidos pela nascença, aceitamos este crescimento da morte, banalmente, como a um chamamento de pardais, ou à forma arredondada das laranjas.
Chamo tédio adocicado a este lapso que interrompe as sonâmbulas viagens que faço para um destino comum e vulgar de pedras em queda até ao entendimento do poço. E sem caminho algum para regressar, caio.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
[0757] Nicolau Saião, ataca de novo (com levantamento de rancho)
LEVANTAMENTO DE RANCHO
O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos
Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia
Doce como os sonhos o meu sargento desculpe
Mas é tão estúpido tão escalabitano tão
A norte de Bafatá ou mesmo
Castelo Branco o meu sargento é um nabo
Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha
O meu coronel desculpe mas tive de o abater
O gajo não entendia que os sonhos eram os outros
Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias
E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores
Há um ar em silencio extremamente melancólico
O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura
De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a
Já havia muitos meses que me lavava a roupa
Junto ao mercado do Pixiguiti chorava
Era sofrida como uma mulher
Doce e tão calada como um objecto partido
O meu capitão desculpe mas tive que o abater
É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos
O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão
De serviço o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras
O meu major desculpe mas era chegada a hora
Tantos anos depois ficaram todos em fila
A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado
Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda
De modo que foi assim fiz levantamento de memórias
E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar
Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão
Ficaram todos em fila pois então
Mesmo que em sonhos e agora estes não são
De ovos e farinha como almejava nesse tempo
Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar
Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba
E já agora que estamos com a mão na outra massa
Que é como quem diz com a pata na G3
O meu general vá à fava palavra de civil tão sem galões
O meu general é um nabo como na caserna se dizia.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
[0756] Um poema "anunciativo", de Nicolau Saião
ANUNCIAÇÃO
As mulheres do vento parado como um planeta extinto
as mulheres doentes as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas
entre mim e o céu
Entram pela minha boca e censuram-me docemente
Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa
Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes
Dizei-me mulheres onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais
Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar
A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã e o frio subindo até às portas como um animal
a morrer.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
[0755] " A ciclista", poema de Joaquim Saial
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
[0754] "Possibilidades", poema de Luís Palma Gomes, para encerrar o ano poético, aqui no Ibn Mucana
POSSIBILIDADES
Talvez seja demasiado tarde,
talvez seja ainda cedo,
talvez não baste
ou seja, mesmo demais.
Olho para trás
e desconfio que não valeria a pena
voltar ao último cruzamento.
Olho para a frente
e a estrada estende-se
até ao infinito sem que nada de reluzente
se eleve da paisagem.
Os que por mim passam em sentido contrário,
sussurram a impenitência, o desconforto
do caminho que tenho de percorrer.
Talvez seja pertinente
escrever, escrever
como se as folhas brancas
fossem aqueles pequenos recortes do rio
onde as águas param e ali estagnadas ficam
para apodrecer ou evaporar.
Talvez por debaixo dessas poças,
surja um húmus negro, lamacento, nauseabundo,
mas ideal para uma erva, rasa e trivial, nascer.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
domingo, 28 de novembro de 2021
[0751] Poema inédito de Juergen Heinrich Maar
PUREZA - MEMÓRIA
de "Cem Sonetos à Moda Antiga" (inédito)
Estais acima de nós,
acima deste jantar
(Carlos Drummond de Andrade, excerto de "A Mesa")
Linho branco reflete a cor do vinho,
O vinho que no linho sombras lança,
Imagens de vinhetas no caminho
Branco, branco, por mais que a vista avança.
Já está, pois, posta a mesa, à luz de velas,
Cristais e pratas, linhos, vinhos brancos,
Vinhos e linhos brancos que nas telas
À luz das velas deixam de ser brancos.
O vermelho nas telas, carmim e ouro,
Nada falta na mesa posta, nada:
Luzes, vinhos, aromas, bom agouro.
Comensais e convivas, por que nada
Se consome, o vinho não se verte?
- O conviva de branco está inerte.
(1982)
terça-feira, 23 de novembro de 2021
[0750] "Melodia de Ouro", novo poema de Carlota de Barros
MELODIA DE OURO
Penso no Bailado
como Sílvia bailava no poema
seu sonho de amor
leve melancolia esvoaçando
como colibris sobre flores adocicadas
rumor de pétalas ou de lágrimas submissas
gotejando peregrinas de seus olhos meigos
nas mãos de seu par
que a acompanhava no seu voo de amor
elevando-a suavemente nos braços
leveza de luz graça alegria e felicidade
No bailado sensual e puro
bebe sua lágrima de mel
solidão baloiçando
no seu sonho de amor
Eroticamente Sílvia oferece-lhe seu voo
seu sonho melodia de ouro
melancólica presença de si mesma
nas asas do sonho
mais sonho que vida vivida
Carlota de Barros
Lisboa, 17 de Novembro de 2021
domingo, 31 de outubro de 2021
terça-feira, 26 de outubro de 2021
[0748] Poema de Carlota de Barros com um ano, mas ainda inédito (até hoje)
PEDRA OU SINO
NUM PENSAMENTO INOCENTE
Penso naquele inocente encontro de
Herberto Helder com a pedra pedra
a pedra verde ou azul que não era pedra
mas talvez um sino sem pensamento
no seu pensamento inocente.
Ah! Sim.
Lembrei-me do grande silêncio
da chama que a noite alimenta.
A noite lenha para a nossa
leveza humana
Ter-me-ei também encontrado
com a pedra pedra no silêncio
escaldante desta noite maravilhosa
em que a Lua Nova surge ligeira
com passos de algodão enquanto eu
beijava os meus lírios num gesto doce
de gratidão e de puro encantamento?
Será que também esbarrei na pedra
pedra estática e dura no meu caminho?
Será que também me encontrei com a pedra pedra
na pedra do tempo pedra azul ou Lua Nova silenciosa
pedra verde em jeito de sino sem pensamento nesta
noite cadente do meu pensamento inocente?
Ou será que a pedra pedra de Herberto Helder
é hoje a Lua Nova no meu pensamento azul
quase verde reflexo das árvores que povoam
o meu campo refúgio da lua nos lábios ainda
acesos do crepúsculo onde o silêncio é música?
Será a pedra pedra não menos que esta noite
escaldante em que o beijo é sonho ou o sonho é
seda na delicada floração do beijo da Lua Nova?
Poderá ser a pedra pedra sino sem pensamento
ou casualmente sombra do meu pensamento no
silêncio desta noite abrasada pelo fervor dos dedos
do sol escorrendo lume pelos campos ou pelo asfalto
onde doces folhas inocentes seixos fendas abertas
numa exaltação quase vulcânica aberta ao sonho?
Ou será sonho ou mesmo beijo da lua
nos ruídos da noite em que talvez eu tivesse o
pensamento no silêncio dos lírios a abrirem-se
ou no seu perfume errando pela sala ou
no mar rebelde que frisou o meu cabelo
e pintou os meus olhos de verde água
ou ainda no silêncio ruidoso das pedras
da vida em que se vai esbarrando com dor?
Talvez termine o poema num degrau de pedra
mais alto que o silêncio mais sublime que as
ondas silenciosas do meu pensamento
ou talvez nem o termine o deixe nos olhos da lua
que ainda sonha com beijos do sol ou o deixe
com o sonho que sonha ser o beijo da lua.
Ou quem sabe o deixe aguardando naturalmente
que alguém o termine ou então nunca o termine
mas que seja sempre beijo da lua ou sonho
desse beijo da lua espreitando os meus lírios
perfumados como nesta noite abrasada de
Lua Nova noite de pedra pedra verde ou azul
sino ou silêncio sem pensamento verde ou azul?
Carlota de Barros
Lisboa 22 de Julho de 2020
sábado, 16 de outubro de 2021
terça-feira, 5 de outubro de 2021
[0746] Glosando o poema de Ruy Belo "oh as casas, as casas, as casas", Luís Palma Gomes oferece-nos este poema matinal
OH, AS MANHÃS, AS MANHÃS, AS MANHÃS
Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs
são arpejos de chapins refletidos sobre os ribeiros,
camiões em trânsito trazendo e levando a claridade,
anseios ligeiros, quando os tempos são de invernia
As manhãs conhecem-nos nus e esfomeados
As manhãs são a esperança das noites
ou a angústia de quem se percebe vivo outra vez
Como louvam os pássaros as manhãs
enquanto se agitam as estradas tão estranhas
ao mar raso e coloquial
que entra sem rumor pela praia de Algés adentro.
Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs
tem o sabor amargo do café
que sentimos nos cantos da boca,
quando a fala trôpega sacode o ar ainda frio
que se esgueira pela fresta da janela mal fechada
São um prenúncio das histórias mal-acabadas
São o fio da navalha, limite incerto entre a paz e o inferno,
o calor e a chuva inesperada, o desejo de um bolo
que não se come há anos
Oh as manhãs, as manhãs, as manhãs.










