sábado, 31 de julho de 2021
sábado, 24 de julho de 2021
[0741] "O dia da vida", mais um poema de Luís da Palma Gomes, no Ibn Mucana
O DIA DA VIDA
Só há um dia,
quanto muito
alguns segundos mais
mas tão gratuitos
como aqueles jornais
prenhos de anúncios
que nos dão à saída do metro.
Só há um dia
para beber a alegria e a angústia
num trago apenas
e ficar a pensar que bom seria
que a vida fosse uma película
para a podermos ver várias vezes
numa sala de cinema.
Só há um dia,
uma penugem de ervas esparsas
onde os pássaros se escondem
um pouco antes de caírem no céu.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
[0740] Juergen Heinrich Maar brinda-nos com mais um poema seu, desta feita alusivo ao nosso (e dele) Fernando Pessoa
GUARDA A DOR DOS REBANHOS
Guarda a dor dos rebanhos
Para além das nuvens ao sol poente,
Acolhe os rebanhos à tua mente
Sem perceberes os seres que passam reais
E naturais ao sol poente.
Este te trouxe a dor do passado
Não redimido se bem que vivido;
Aquele outro é mais do teu agrado
Porque vem de futuro embebido,
Futuro para o qual a dor não faz sentido.
Cada qual é um destino sagrado:
Vê apenas o que não tem passado
Em cada coração que palpita agitado
Sem número, código ou nome,
Sem razão última ou coisa assim.
Para que os rebanhos sejam mil termos
Guarda a dor dos rebanhos.
E os toma como recebemos sem vermos
As sombras das nuvens ao sol poente.
Serás com os rebanhos mil seres,
E serás ainda ao sol poente.
Juergen Heinrich Maar, 02.12.1983
![]() |
| Retrato de Fernando Pessoa, por Almada Negreiros, 1964 - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa |
segunda-feira, 7 de junho de 2021
quarta-feira, 2 de junho de 2021
terça-feira, 1 de junho de 2021
[0737] Um poema inédito de Carlota de Barros, nascido neste dia 1 de Junho... da Criança
CRIANÇAS
Há crianças felizes
brincando na relva
nos parques
nos jardins
rebolando na areia quente
rentes ao mar
respirando alegria
tablet nas mãos
olhinhos curiosos
fixos nos jogos
nos seus filmes
predilectos
não há pai não há mãe
que os tire dessa postura
inclinados no sofá
onde quer que seja
com os tablets nas mãos
olhos fixos no ecrã
Crianças felizes ....
tão distantes dos meninos de Cabo Delgado
Meninos de Cabo Delgado
sem um teto apenas uma refeição por dia
mas brincando na rua com brinquedos
fabricados por eles próprios
pedaços de pau ferros abandonados
caricas de garrafas de cerveja
bolas de trapos bonecas de barro
sem tablets nem cama nem sofá
para sentir o prazer de apreciar
um filme infantil ou um jogo para crianças
mas com um sorriso frágil nos lábios
porque brincam com amigos
Menino de Cabo Delgado
que viu degolar a cabeça do pai ou da mãe
e fugiu para lugar nenhum
sem rumo assustado doído
sem dia de regressar
sem casa sem a concha familiar
sem pai nem mãe nem avó nem avô
e os irmãos por onde andarão?
Apenas com a visão cruel que jamais esquecerá.
Como vai ser o dia da Criança para ti?
Poderás ser feliz meu menino?
Talvez no teu coração de criança inocente
haja ainda lugar para a felicidade
vi-te sorrir com os olhinhos travessos
como te vi brincar com teus amigos que sorriam para a câmara.
Sê feliz se puderes meu menino!
Vi-te sorrir. Meu coração pulsou.
Já te amo muito meu menino
mesmo sem te conhecer
acolhi-te no meu coração
porque vi como é amargo
ser menino de Cabo Delgado
fugindo para o mato acossado
e tão assustado.
Ah estas nossas crianças felizes
tão distantes de Cabo Delgado!
São os meninos de hoje felizes em casa
na escola no campo ou na praia
estas as crianças que vemos e tocamos
todos os dias olhando-nos curiosas
devolvendo-nos sorrisos luminosos
que nos farão felizes o dia todo
Sê feliz meu menino
tens casa pai e mãe
visitas os avós
que te fazem todas as vontades
tens amigos da escola
com quem adoras brincar saltar e correr.
Oh alegria!
Sê feliz meu menino
hoje é teu Dia
mas sê feliz todos os dias do ano
és criança ser inocente
que sorris para mim sem me conhecer
porque te cativei com meu sorriso
afagos de longe beijos de mãe ...
Sê feliz
todos os dias do ano
meu menino!
Carlota de Barros
Lisboa, 1 de Junho, de 2021
domingo, 30 de maio de 2021
[0736] Directamente de Florianópolis, Brasil, um tríptico de Jurgen Heinrich Maar (datado de 1983)
TRÍPTICO
I.
A menina pobre contempla o mar
Que lhe traz o mundo.
E na contemplação ela contempla
O eterno profundo de seu mundo.
As ondas falam e murmuram
E calam e sussurram.
Nascem na planície das coisas comuns.
Elas se aproximam e se aproximam,
Elas se avolumam e avolumam,
Lutam, destroem-se, elas desaparecem
E num instante profundo
Deitam-lhe aos seus pés o seu mundo.
Estrelas do céu, estrelas do mar,
Flutuam no céu, flutuam no mar.
Vagas eternas, vagas imensas eternas
Que ternas lhe deitam aos pés o seu mundo:
De pérolas e cristais, e pétalas e metais,
Feitas todas, às gotas,
De todas as gotas que vieram
Do lugar das coisas comuns;
E contemplando as coisas que lhe traz o mar,
A menina pobre ingressa no seu mundo profundo.
II.
Hoje a floresta é um castelo,
Ontem fora catedral resplandecente,
Amanhã, ruína remanescente
De sonhos sem elo.
Mas hoje é a floresta um castelo,
Com torres, torreões e ameias,
Solene, majestático e belo,
Um castelo de torres e ameias,
Hoje ainda é dia de sonho.
Varrem os ventos os vergalhões,
Troam e retumbam os trovões,
Estremecem as torres e torreões,
As paredes desabam solenes
No espaço aberto.
Varrem as árvores os ventos,
As folhas flutuam solenes
No espaço aberto.
Aos ventos de eternos alentos
Cada folha caída é um sonho morto
No vazio incerto
Que se faz no espaço aberto
Das ameias a desabar.
A floresta virou cinza
E o vento assombração.
III.
A sua alma era alva
Como a calma da areia da manhã de outono.
E fogem-lhe os suspiros
Ao som do suspirar de um grande sono.
A manhã está em silêncio,
Recolhe-se o vento sonolento
Que quer ouvir o seu lamento,
Quer guardar a voz dormente
Da dor de seu universo.
“Vinde ondas, vinde ventos do sul,
Raios de sol, vinde raios de sol,
Apaguem os meus rastros doídos
Pegadas de pés sofridos,
Manchas de momentos doloridos”.
Os rastros estendem-se na alvura da areia
As pegadas prolongam-se num infinito de areia
As manchas fundem-se num corpo cor sereia
Que chora o seu eterno em grãos de areia.
“Quando eu destas coisas não sabia
Não havia rastros.
Não havia pegadas quando não sabia
Deixar na alma todos estes lastros”.
A figura desapareceu
Quando o mar apagou seus rastros.
A silhueta cedeu
Quando o vento a varreu.
Mas deixou atrás os tristes lastros.
A figura reapareceu
Quando as ondas retornaram.
Sabia da verdade agora,
Percorrera os ares e mares afora
E não deixa mais rastros agora.
![]() |
Joaquín Sorolla, "Niña en un mar plateado", 1909 |
Joaquín Sorolla, Niña en un mar plateado, 1909
sábado, 15 de maio de 2021
sábado, 8 de maio de 2021
[0734] "Literatura e Cultura em Tempo de Pandemia" saiu anteontem, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa
Com 75 autores lusófonos, entre os quais os consagrados Germano Almeida, José Luís Tavares, Mia Couto, Lídia Jorge e Manuel Alegre, o livro traduz em prosa e verso o "pensamento" dos participantes/convidados sobre a pandemia que se abateu sobre o mundo em 2020 e que ainda se mantém.
A sessão de lançamento teve na mesa o Presidente da UCCLA, Dr. Vitor Ramalho, para além do Dr. Rui Lourido, coordenador cultural da UCCLA, o editor Manuel S. Fonseca da Guerra e Paz (sob cuja chancela a obra sai) e a Dr.ª Goretti Pina (São Tomé e Príncipe) que falou em nome dos restantes 74 autores.
A nossa colaboração concretizou-se através do poema "O Maldito" e da short story "O Fim", que aqui agora reproduzimos (de novo, no caso de "o Fim").
[0733] Poemas de José Pascoal (ver post anterior)
Para além dos poemas publicados em "Ibn Mucana", os nossos visitantes poderão ler mais alguns, patentes em "Palavra Comum" (revista galega de artes e letras). Para ver os que temos no IM, basta escrever "José Pascoal" (sem aspas) no espaço existente no canto superior esquerdo do blogue ou em "ETIQUETAS", à direita, mais abaixo.
[0732] José Pascoal, um poeta que desaparece; "Gazeta da Poesia Inédita", excelente blogue de poesia contemporânea portuguesa que se encerra
O meu conhecimento com ele concretizou-se por via do amigo comum, poeta, escritor, jornalista e radialista Nuno Rebocho, também já desaparecido, que o trouxe para o "Ibn Mucana", onde publicámos vários dos seus trabalhos, com grande gosto nosso, devido à qualidade dos mesmos. Apesar de nunca termos estado juntos ao vivo, nas conversas feitas por email revelou-se sempre pessoa muito gentil e afável e acabou por também publicar peças minhas no seu blogue "Gazeta da Poesia Inédita", onde divulgou centenas de espécimes da poesia portuguesa contemporânea.
A 13 de Abril, vi que o José Pascoal encerrava a GPI, agradecendo com "Um obrigado universal" aos amigos e confrades a participação no blogue que tão bons "produtos" exibira, ainda por cima inéditos, como o título revelava (de certo modo, o José despediu-se assim de nós). Pensei que a coisa se deveria a algum cansaço e não lhe perguntei o porquê do fecho do blogue, absorvido que estava com longo artigo para um jornal de Cabo Verde e outros assuntos similares.
Sabido agora o triste motivo do fim da "Gazeta", resta-me lamentar vivamente que mais uma luzinha da palavra se apague, tão necessárias elas são, quando ainda por cima o estro que as acende é de primeira água.
Um abraço ao José Pascoal e os sentimentos à sua família, amigos e colegas de escrita.
Joaquim Saial
Ver "GAZETA DA POESIA INÉDITA" AQUI
terça-feira, 13 de abril de 2021
domingo, 28 de março de 2021
[0730] Juergen Heinrich Maar oferece-nos um poema do seu livro "Poemas domésticos" - ed. Papa-Livro Florianópolis, Brasil, 2000
Vejo-te novamente na claridade de estio
Tão suavemente, tão novamente na idade
Do primeiro beijo que te vejo continuadamente
Na atordoada mente do primeiro amado,
Na toada ausente do amor calado
Hoje renovado, que consente, enquanto sente,
O ardor da flor, o amor presente
No primeiro beijo.
Materializo-te entre véus e veludo
Enquanto visualizo entre os céus o tudo
Que já me ofertaste quando despertaste
Na alma do amante mudo
Os horizontes abertos, certos sobretudo
Até hoje, quando o jovem regeneraste
Que te cingiu no primeiro abraço,
Que repousou a dor no teu regaço
Durante o primeiro abraço.
Reencontro-te à janela, ora mais bela
Que a figura singela que vela
Desde dias incontáveis meus sonhos de rei.
Que vela insondáveis, tristonhos, eu sei,
Todos os momentos, que aparte os tormentos
Que acompanham o afastamento;
Do reencontro renasce, tão mais bela
Porque mais perene a iluminura
Que segura perpetua entre minha mão e a tua
O doce êxtase do primeiro encontro.
O êxtase festivo da alegria pura
Do primeiro encontro.
sexta-feira, 12 de março de 2021
[0729] Ainda Luís Palma Gomes, quase nosso poeta residente
MAIS UM POEMA
Ao professor António Castro Caeiro
É só mais um poema.
Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.
Então o que é? De onde chegam?
Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?
Onde mora o centro fértil desta harmonia?
Fora ou dentro?
Será um coito ou uma afirmação desabrigada da loucura?
Os pássaros respondem a todas estas perguntas.
Não os entendo, porém.
Talvez seja isso mesmo um poema,
uma tentativa mais para entender a fala dos anjos
ou dialeto interior dos pássaros que fomos ou seremos,
porque o presente não existe.
É um tempo demasiado puro e escasso
para a imperfeição dos sentidos.
Onde ia eu? Ah, sim, o poema...
Dizia então que o poema não é o que parece ser,
porque nunca havemos de chegar à essência das coisas.
É o que a ciência dos computadores chama de firewall humana.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
[0728] Luís Palma Gomes, de novo, com aroma de Lorca
A RAIANA E O BÚFALO
Vem montar o búfalo
que espera por ti junto da raia.
Ele levar-te-á às doidas terras de Espanha
onde comprarás um chapéu azul
e um casaco estampado de junquilhos brancos.
Lento, ele atravessará os morros barrentos,
perfumados de alecrim e rosmaninho.
E sobre o seu lombo, teus pés de princesa,
vestindo chinelos de seda carmesim,
roçarão as ervas do caminho
refrescadas pela brisa que cai
das asas das borboletas.
Vem ao encontro da besta
que te faz poemas patetas,
como todos os poemas, enfim.
Ele contar-te-á histórias
até que a noite chegue com o seu manto de galáxias
e rumor de novenas.
Vem, raiana, vem.
Não ouves? Já tocam os sinos da aldeia,
anunciando aos pássaros a vossa boda bestial.
E pela Rua do Forno, o senhor padre desliza
sobre os passos curtos que a batina permite
seguido de um bando de andorinhas que sabe cantar em latim.
Atrás dele, vindas dos campos em redor como bacantes,
mulheres rufam os seus adufes contra Castela.
E no fim da procissão um cão, irmão dos ciganos, ladra porque sim apenas.
Vem, raiana, vem
antes que seja tarde,
antes que o rio cresça, os junquilhos murchem,
as borboletas morram, as andorinhas migrem
e o cão dos ciganos faleça de esgana atrás da última oliveira da devesa.
O búfalo espera por ti.
E mesmo que não venhas,
diz-lhe que virás, raiana.
Ele precisa de ver a esperança
nos teus olhos verde-esmeralda
refletidos sobre a tua pele
cor de marfim e âmbar.
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
[0727] Luís Palma Gomes, poema novo, em oferta ao IM
MAU TEMPO
Por enquanto, a gata naufraga num refugo de Sol. Insolente, desperdiça a vida, vivendo-a. Saberá ela que tem sete?
Uma cerca de nuvens conspira a restauração da sombra. O vento ladra nas persianas. Os pássaros leram nas folhas dos ulmeiros a tempestade. E partiram aos bandos para o azul mais alto que há nos primeiros quadros de um pintor esquecido.
Quando pressentes a noite ao meio-dia, já sabes, que é inverno. E mesmo que, em pijama, te banhes numa caneca de chá e te seques depois na margem dos biscoitos, o mau tempo recorda-te que és carbónico e pouco mais do que isso.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
[0726] Na passagem do 1.º aniversário da morte do Nuno Rebocho
Passou no dia 12 o primeiro aniversário do falecimento do poeta, escritor, jornalista, radialista e conselheiro autárquico Nuno Rebocho (1945-2020), a quem a Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), Cabo Verde tanto deve. Honra seja feita à memória do nosso amigo e amigo da cidade-berço de Cabo Verde. Ver AQUI a sua biografia.
Fundámos ambos este blogue e o seu "irmão" Contos da Tinta Permanente, hoje com o título mais abrangente de Textos da Tinta Permanente (ver AQUI), dedicado a poesia. Foi uma convivência longa e de grande camaradagem, com a poesia, a prosa e o amor mútuo por Cabo Verde em fundo.
Estejas onde estiveres, Nuno, recebe um grande abraço deste teu amigo de escritas e morabeza.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
[0724] Miguel Ángel Gómez Naharro (Naharro) cantautor da Extremadura espanhola, lançou novo disco (ver post seguinte, 0725, com filme e comentário)
| Concerto em Lisboa, em 15.3.2018 |
O outro disco, "Água fresca", é composto por 10 canções da autoría exclusiva do Miguel Ángel.
Em ambos, Naharro conta com músicos de elevado nivel que souberam dar o som que ele buscava para esta nova proposta musical. Sáo eles Pepe Burgos, o maestro José Carita (Portugal), Juan Chino Flores, Manu Clavijo, Gustavo Hortoneda, Jordi Mª Macaya, Ángel Morilla, Juan Luis Sánchez e Juan Vargas.
A capa de “18 poetas contemporáneas con música de Naharro” foi realizada pela ilustradora Raquel Gu e a de “Agua fresca” é obra do desenhador e caricaturista Kap.
Miguel Ángel produziu em 1992 o seu primeiro LP em vinil, "Paseo literario por Extremadura", recolha de coplas tradicionais da sua província, Campo Arañuelo, revitalizando o "romance da serrana de La Vera" e musicalizando trabalhos dos poetas extremenhos Bartolomé Torres Naharro, Juan Meléndez Valdés, José de Espronceda, Carolina Coronado, Luis Chamizo, Jesús Delgado Valhondo, Manuel Pacheco e Pablo Guerrero.
Em 1995 gravou o CD "Paseo hispánico (Poetas XII-XX)". Este álbum foi uma resenha sinfónica das línguas vernáculas da Península Ibérica, através de poetas como Gonzalo de Berceo, Ramon Llull, Ausias March, Luís de Camões, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo, Pedro Calderón de la Barca, Francisco de Quirós, Juan Ramón Jiménez, Federico García Lorca, Salvador Espriu, Gabriel Aresti e Celso Emilio Ferreiro. Também incluía 'Naturaleza (Durmil a rucíu)', um poema anónimo escrito na 'fala de Xálima', que foi usado pela primeira vez numa gravação musical e é típico de Eljas, Valverde del Fresno e San Martín de Trevejo, cidades do noroeste da província de Cáceres.
No verão de 2001 lançou o CD "Vida" em que fez covers de romances tradicionais como Giraldo, Gerineldo e Valdovinos e juntou-lhes a canção infantil "La chaquetía" e a combinação de bulería e verdial, "Y que cante". Também incluiu "Palabras para Julia" de Paco Ibáñez e "Gracias a la vida" de Violeta Parra, e musicou dois poemas de José Miguel Santiago Castelo e Antonio Gómez. Por fim, apresentou quatro canções próprias com temas diversos: Uma piscadela para os deficientes ('Igual'), um simbolismo sobre os migrantes, ('Na estação Atocha'), um exemplo de emoção ('Amor sem fim') e Raio X da juventude do momento ('Brave rebentos de relva').
Em 2004 publicou o CD “Canciones Lusitanas” em que musicou trabalhos de poetas de Portugal e Extremadura como Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Nicolau Saião, Luís Filipe Maçarico, Ruy Ventura, Gabriel e Galán, Rafael Rufino Félix Morillón, José Miguel Santiago Castelo e Álvaro Valverde.
Em 2006 publicou sua quinta gravação, o livro-CD "Canciones Guerrilleras". Aqui realiza, auxiliado por peças notáveis, uma revisão histórica de canções que se opõem aos diferentes totalitarismos do século XX: 'Ay Carmela!'; 'Bella ciao'; 'Le chant des Partisans', de Druon, Kessel e Marly; 'Al vent' de Raimon; 'Grândola vila morena' de José Afonso; 'A jugs' de Pablo Guerrero; 'A galopar' de Rafael Alberti e Paco Ibáñez; 'Alfonsina y el mar' de Luna y Ramírez; 'Cancioneta' de León Felipe e Luis Pastor e 'Al alba' de Aute. Assim, completou um bom naipe de hinos revolucionários.
Em 2010, a Assembleia da Extremadura publicou o livro-disco "Gómez Naharro. Antologia". O livro, de 129 páginas, contou com uma apresentação literária e colectiva das peças, feita por colegas e amigos de Naharro, que incluiu um CD com 23 canções.
Em 2015 publicou “The essential Naharro”, que era uma resenha das canções até então publicadas, assim como outras canções não registadas que também faziam parte de seu repertório.
Miguel Ángel já actuou por várias vezes em Portugal, nomeadamente em Vila Viçosa, Portimão, Seixal, Porto (Espaço Mira Fórum e Bar Gato Vadio, em dois dias consecutivos), Carviçais e Lisboa.
No corrente ano de 2020, apesar das dificuldades que estamos passando, conseguiu editar este CD duplo que pode ser adquirido escrevendo para o email:
cantautaria2018@gmail.com
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
[0723] Carlota de Barros oferece-nos mais um poema, desta feita sobre os tempos de chumbo de hoje e uma nova esperança
À transparência de um pôr-do-sol dourado
que avisto neste momento da minha janela
embalada que me sinto pelo brilho de um sonho
de gestos fantasiados em jardins maravilhosos
a minha alma exulta e inventa novas maneiras
de enfrentar o real em que continuo a sentir-me
náufraga de um navio sem rumo
Numa procura incessante de novos gestos redentores
sinto o coração suspenso enquanto o desconhecido cresce
alucinado enchendo o ar de incertezas e de tormento
Nessa busca contínua a minha alma vai subindo com o vento
procurando novos caminhos novos sonhos um jardim novo
que chegará mesmo que na agitação das horas dos dias
das ondas do mar dos corações suspensos e das almas
que vivem hoje solitárias amedrontadas sem sonhos
Mas hoje chegou o sonho de todos em carros escoltados de alegria e emoção
e as almas de inquietos gestos pálidas de medo no vazio da solidão
baloiçam agora de alegria com o vento e as aves do céu pelas planícies
onde o sol brilha dourando o ar como um poema de amor consentido
Um novo jardim lírios azuis rosas amarelas novos sonhos escorrendo
como a luz da Esperança que agora navega por mares de ondas mais calmas
enquanto as almas com gestos claros e serenos dançam com delícia
sua imensa alegria agitando os espaços em silêncio de regresso à claridade
Carlota de Barros
Lisboa, 27 de Novembro de 2020






























