terça-feira, 18 de outubro de 2022
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
[0771] Dois poemas de Carlota de Barros
O SILÊNCIO DA PALAVRA
Como é bom abrir a janela todos os dias
Dar com um céu azul o sol brilhando
A lua pálida vagueando pelo céu
E o mar mirando-te incrivelmente belo
Como construir o poema sem recorrer ao mar
À lua ao céu de um azul tão fascinante e ao
Sol dentro da tua mão?
E onde entra o amor?
Li que ele vai entrando devagar tão suave
Como beijos ao luar até encontrar abrigo onde o anseiam
Vi Julieta vagueando por um campo de rosas bravas
E que procuraria Julieta tão longe de Verona?
Ou estaria eu em Verona procurando Julieta?
Ou será que foi sonho?
Não há vingança que faça esquecer o amor de Julieta
Nem as rosas bravas que colhia para o seu amado
Nos olhos de Julieta vi os olhos de seu amor
Assim se olham os apaixonados
Os olhares entram um no outro e tudo
Se resume a esse olhar
Como terminar o poema?
Vou pedir a Julieta que me dê uma rosa brava
Ou serei eu a própria rosa brava para que o
Poema seja o silêncio da palavra
Carlota de Barros
17 de Agosto de 2022
E AMANHECE...
A noite cresce silenciosa
E nada acontece
Oiço o tic tac dos relógios
No silêncio das paredes da sala
E serena aceito que as horas passem
Desejo a manhã as aves as flores
O vento a luz a ternura da brisa
Clamo pela doçura dos brilhos da manhã
Rente ao fulgor à vibração das árvores
Com o coração sereno
Sonho com a alegria da casa
Rente ao brilho à vibração do sol
À carícia do brilho da luz na pele
Crescem rumores alegres com a manhã
Pétalas de beijos abandonadas ao acaso
Deleitam os silêncios do amanhecer
E uma suave sensação de abandono cresce em mim
Enquanto o dia se acende como carícia desfolhada
Da luz morna do azul um afago nos meus olhos rosto e lábios
Enquanto entoo uma música lúcida suave vinda do sul
Como folhas pétalas riso beijos descendo pela colina nua
Memória do sonho do silêncio da carícia de um coração
Puro luminoso aceso num doce bom dia
E amanhece...
Carlota de Barros
Lisboa 7 de Agosto de 2022
quarta-feira, 13 de julho de 2022
[0770] Mais um trabalho (desta feita, quase comestível) do nosso poeta-residente, Luís Palma Gomes
ANTES DO PEQUENO-ALMOÇO
As manhãs têm um fundo lasso,
são palavras difíceis que trouxe da infância
para fazer em casa.
Ao longe, o estribilho do chamariz
rompe a calma da cidade que não dorme.
E, por um instante, sou feliz,
pelo menos ao longe.
No fundo do poço,
a carpa roda, roda
à procura de um buraco,
tímido logro que a leve ao mar aberto —
afinal replicada barragem,
pequena liberdade por expandir.
Haverá vida em verso, no reverso, no multiverso,
ou mesmo no inverso desta realidade premente
que me antecipa, ainda deitada, o pequeno-almoço.
Depois retorno à minha sorte.
E equiparado às coisas que agora vejo,
vou e esqueço.
quarta-feira, 22 de junho de 2022
[0769] Lançamento de "Fronteira", de Luís Palma Gomes
"FRONTEIRA", DE LUÍS PALMA GOMES, LANÇADO AO AR LIVRE, NO PULMÃO DE LISBOA
Durante a apresentação, um rapaz de doze anos do picnic ao lado, aproximou-se para ouvir as intervenções. No final, o autor procurou-o para lhe oferecer um livro. Passado algum tempo o rapaz — deitado sobre um banco de jardim, um pouco afastado da sua festa — lia atentamente o livro. Só por este acontecimento valeu a pena lançar o "Fronteira".
"Ibn Mucana", infelizmente não teve possibilidade de estar presente, mas dá aqui um leve ar do que sucedeu.
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| Luís Palma Gomes e escritor Alexandre Andrade |
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| Luís Palma Gomes e escritor Alexandre Andrade |
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| Luís Palma Gomes e encenador Porfírio Lopes |
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| Marina Palácio, ilustradora da capa do livro (à direita) |
sábado, 11 de junho de 2022
[0768] Um profeta, o deserto e uma orquestra de estorninhos, por Luís Palma Gomes
O PROFETA IMPOSSÍVEL
Vais até à margem que é o centro
para que as tuas mãos toquem coisas intocáveis.
Tentas convencer-te de que regressas com elas.
Se elas vêm ou não, nunca sabes.
Há realmente indícios de uma presença estrangeira
em alguns gestos que fazes sem querer,
em palavras que te escapam
como os pardais que guardamos crédulos em gaiolas.
Se, porém, quando voltas ao deserto
tudo está por lá outra vez,
é certo que nunca levaste nada para casa.
E se não trazes contigo as profecias,
então para que te servem os jejuns de poeira e gafanhotos?
Ou mesmo as sandálias, senão como lugar-comum
de uma adiada humildade?
Apenas quando olhas o bando de estorninhos
negros e empoleirados como uma orquestra,
compreendes que a música dos pássaros
não pode ser tocada nos coretos da cidade.
quinta-feira, 19 de maio de 2022
[0767] Luís Palma Gomes, como pescador...
PESCA À LINHA
Há dias
em que não me apetecem
os dias.
Podem ficar com eles.
Guardá-los na prateleira
mais rasteira do frigorífico.
Para quando vos apetecer,
espetá-los então
num anzol fluorescente.
E assim pescar quiçá
os dias felizes
que por ali passem
sem querer.
domingo, 8 de maio de 2022
[0766] Mais um poema do nosso "poeta residente", Luís Palma Gomes
BOCA NEGRA
A minha boca é escura,
buraco negro
que afinal não teve culpa.
E se todo o dia corro,
talvez não seja por medo do castigo,
mas só porque procuro um socorro,
um abrigo, um amigo.
Não me perguntes, irmão, porque o faço:
sei ser certo que esta queda livre
não tem perigo.
É tão certa como a vitória de Deus.
Cairei assim na charneca seca,
no deserto,
ansioso porém
de me reflorir outra vez.
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| Miles Davis - Capa de "Tutu", 1986 - Foto de Irving Penn |
terça-feira, 12 de abril de 2022
[0765] Saiu "Fronteira", livro de Luís Palma Gomes
domingo, 10 de abril de 2022
[0764] "Raticida", poema de Joaquim Saial, de 21.4.2019
RATICIDA
"O rato roeu a rolha da garrafa
do rei da Rússia (…)"
Mas, se assim é, expliquem-me lá,
porque é que o czar Vladimir Vladimirovitch Putin
– que possui ilimitadas bombas atómicas
e colecciona submarinos nucleares,
caças e tanque de guerra
que nunca mais acabam
(e matam que se farta) –
não consegue obter um raticida eficaz,
enfim… como deve ser?
[0763] E como é Páscoa, aí temos um Luís Palma Gomes pedagógico...
PEDAGOGIA PASCAL
Repete comigo:
tudo é mais amplo do que parece.
As paredes da casa fértil
abarcam uma linhagem
de quarenta e seis gerações.
Os exércitos que marcham agora,
caminham desde o velho testamento
até todas as cidades maculadas.
Só podes entender
porque cai a colher pousada
em cima do prato,
se tiveres, porventura,
combatido, em Waterloo,
ao lado de Bonaparte.
A tua humana consciência
sintetiza apenas
a memória do insecto
que atravessou, outrora, a parede da sala.
És uma bactéria nervosa
que Deus observa
através da lente fosca,
o átomo do átomo
dentro de uma bolsa marsupial
que se expande e encolhe,
que respira.
Agora vai.
Já renasceu o dia.
Podes tocar na fruta,
na tecla, na lei,
porque já nada muda.
terça-feira, 29 de março de 2022
[0762] um poema de Ernest Hemingway
THE SOUL OF SPAIN
In the rain in the rain in the rain in the rain in Spain.
Does it rain in Spain?
Oh yes my dear on the contrary and there are no bull fights.
The dancers dance in long white pants
It isn't right to yence your aunts
Come Uncle, let's go home.
Home is where the heart is, home is where the fart is.
Come let us fart in the home.
There is no art in a fart.
Still a fart may not be artless.
Let us fart an artless fart in the home.
Democracy.
Democracy.
Bill says democracy must go.
Go democracy.
Go
Go
Go
Bill's father would never knowingly sit down at table with a Democrat.
Now Bill says democracy must go.
Go on democracy.
Democracy is the shit.
Relativity is the shit.
Dictators are the shit.
Menken is the shit.
Waldo Frank is the shit.
The Broom is the shit.
Dada is the shit.
Dempsey is the shit.
This is not a complete list.
They say Ezra is the shit.
But Ezra is nice.
Come let us build a monument to Ezra.
Good a very nice monument.
You did that nicely
Can you do another?
Let me try and do one.
Let us all try and do one.
Let the little girl over there on the corner try and do one.
Come on little girl.
Do one for Ezra.
Good.
You have all been successful children.
Now let us clean the mess up.
The Dial does a monument to Proust.
We have done a monument to Ezra.
A monument is a monument.
After all it is the spirit of the thing that counts.
[0761] "A Marcha", de Luís Palma Gomes
A MARCHA
[0760] Revista DiVersos (poesia e tradução), n.º 33, acaba de sair
Com dois "In Memoriam", a Pedro Tamen e José Pascoal, apresenta-se com o esmerado aspecto gráfico que tem sido seu apanágio e o internacionalismo poético a que também já nos habituou: Adri Aleixo, Adriane Garcia, Amadeu Baptista, Ana C. Moura, Cristino Cortes, Demétrio Galvão, Deodato Santos, Eduarda Chiote, Emerenciano, Fernando Henrique de Passos, Francesca Cricelli, Giorgos Sarantáris, Gudrid Helmsdal, Katarina Sarie, Manuela Nogueira, Maria do Sameiro Barroso, Mark Young, Ron Winkler, Rui Magalháes, TaharBekri e Zetho Cunha Gonçalves são os nomes desta feita publicados.
A DiVersos é uma produção das Edições Sempre-Em-Pé e pode ser assinada através do email contacto@sempreempe.pt.
Site www.sempreempe.pt
sábado, 26 de fevereiro de 2022
[0758] Mais um poema de Luís Palma Gomes
DECRESCENS VITA
Sempre que me aflora o advérbio "talvez", há de certeza um esquecimento líquido correndo, espraiando-se pela vizinhança de mim mesmo.
Enfrento os meus limites quando apenas posso pensar nas marinhas fortes de Esposende. Estático, trago comigo as palavras e o seu ideal tão longínquo, quanto vertical, e tão próximo do sol como da profunda infância.
O dia abre-se novo, mas previsível. As mulheres inauguram-no, parideiras agora sem dor, lavando as cores serenas num rio que passava por aqui e — mesmo que os pássaros ainda nele falem — jamais voltará à presença determinada das árvores que estas ervas veneram sem saberem porquê - a habitual ausência de razão para qualquer veneração, diria.
Levanto os olhos e reparo que os outros não escrevem poesia por agora. Talvez tenham escrito em casa ou a guardem para as férias grandes, ou tão-só não tenham lido Ruy Belo, como eu o fiz ontem à noite.
O dia decresce desde que nasce. E nós, rendidos pela nascença, aceitamos este crescimento da morte, banalmente, como a um chamamento de pardais, ou à forma arredondada das laranjas.
Chamo tédio adocicado a este lapso que interrompe as sonâmbulas viagens que faço para um destino comum e vulgar de pedras em queda até ao entendimento do poço. E sem caminho algum para regressar, caio.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
[0757] Nicolau Saião, ataca de novo (com levantamento de rancho)
LEVANTAMENTO DE RANCHO
O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos
Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia
Doce como os sonhos o meu sargento desculpe
Mas é tão estúpido tão escalabitano tão
A norte de Bafatá ou mesmo
Castelo Branco o meu sargento é um nabo
Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha
O meu coronel desculpe mas tive de o abater
O gajo não entendia que os sonhos eram os outros
Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias
E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores
Há um ar em silencio extremamente melancólico
O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura
De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a
Já havia muitos meses que me lavava a roupa
Junto ao mercado do Pixiguiti chorava
Era sofrida como uma mulher
Doce e tão calada como um objecto partido
O meu capitão desculpe mas tive que o abater
É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos
O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão
De serviço o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras
O meu major desculpe mas era chegada a hora
Tantos anos depois ficaram todos em fila
A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado
Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda
De modo que foi assim fiz levantamento de memórias
E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar
Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão
Ficaram todos em fila pois então
Mesmo que em sonhos e agora estes não são
De ovos e farinha como almejava nesse tempo
Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar
Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba
E já agora que estamos com a mão na outra massa
Que é como quem diz com a pata na G3
O meu general vá à fava palavra de civil tão sem galões
O meu general é um nabo como na caserna se dizia.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
[0756] Um poema "anunciativo", de Nicolau Saião
ANUNCIAÇÃO
As mulheres do vento parado como um planeta extinto
as mulheres doentes as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas
entre mim e o céu
Entram pela minha boca e censuram-me docemente
Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa
Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes
Dizei-me mulheres onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais
Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar
A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã e o frio subindo até às portas como um animal
a morrer.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
[0755] " A ciclista", poema de Joaquim Saial
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
[0754] "Possibilidades", poema de Luís Palma Gomes, para encerrar o ano poético, aqui no Ibn Mucana
POSSIBILIDADES
Talvez seja demasiado tarde,
talvez seja ainda cedo,
talvez não baste
ou seja, mesmo demais.
Olho para trás
e desconfio que não valeria a pena
voltar ao último cruzamento.
Olho para a frente
e a estrada estende-se
até ao infinito sem que nada de reluzente
se eleve da paisagem.
Os que por mim passam em sentido contrário,
sussurram a impenitência, o desconforto
do caminho que tenho de percorrer.
Talvez seja pertinente
escrever, escrever
como se as folhas brancas
fossem aqueles pequenos recortes do rio
onde as águas param e ali estagnadas ficam
para apodrecer ou evaporar.
Talvez por debaixo dessas poças,
surja um húmus negro, lamacento, nauseabundo,
mas ideal para uma erva, rasa e trivial, nascer.



























