quarta-feira, 13 de julho de 2022

[0770] Mais um trabalho (desta feita, quase comestível) do nosso poeta-residente, Luís Palma Gomes


ANTES DO PEQUENO-ALMOÇO


 As manhãs têm um fundo lasso,

são palavras difíceis que trouxe da infância

para fazer em casa.

Ao longe, o estribilho do chamariz

rompe a calma da cidade que não dorme.

E, por um instante, sou feliz, 

pelo menos ao longe.


No fundo do poço, 

a carpa roda, roda

à procura de um buraco,

tímido logro que a leve ao mar aberto —

afinal replicada barragem,

pequena liberdade por expandir.


Haverá vida em verso, no reverso, no multiverso,

ou mesmo no inverso desta realidade premente

que me antecipa, ainda deitada, o pequeno-almoço.

Depois retorno à minha sorte.

E equiparado às coisas que agora vejo,

vou e esqueço.






quarta-feira, 22 de junho de 2022

[0769] Lançamento de "Fronteira", de Luís Palma Gomes

"FRONTEIRA", DE LUÍS PALMA GOMES, LANÇADO AO AR LIVRE, NO PULMÃO DE LISBOA

Parecia que ia chover e não choveu. Parecia que ia aparecer pouca gente e apareceu a suficiente para um final feliz. Foram como sempre sábias as palavras do Alexandre Andrade, competente a recitação do poema do Porfírio Lopes, belíssima a capa da Marina Palácio, inovador o design e a paginação da Beatriz Cazenave. Foram trinta os amigos e leitores que puderam aparecer, naquela tarde de sábado (18/06/2022) no Parque de Merendas Keil do Amaral no Monsanto.

Durante a apresentação, um rapaz de doze anos do picnic ao lado, aproximou-se para ouvir as intervenções. No final,  o autor procurou-o para lhe oferecer um livro. Passado algum tempo o rapaz — deitado sobre um banco de jardim, um pouco afastado da sua festa — lia atentamente o livro. Só por este acontecimento valeu a pena lançar o "Fronteira".

"Ibn Mucana", infelizmente não teve possibilidade de estar presente, mas dá aqui um leve ar do que sucedeu.

Luís Palma Gomes e escritor Alexandre Andrade

Luís Palma Gomes e escritor Alexandre Andrade

Luís Palma Gomes e encenador Porfírio Lopes

Marina Palácio, ilustradora da capa do livro (à direita)

sábado, 11 de junho de 2022

[0768] Um profeta, o deserto e uma orquestra de estorninhos, por Luís Palma Gomes




O PROFETA IMPOSSÍVEL


Vais até à margem que é o centro

para que as tuas mãos toquem coisas intocáveis.

Tentas convencer-te de que regressas com elas.

Se elas vêm ou não, nunca sabes.

Há realmente indícios de uma presença estrangeira

em alguns gestos que fazes sem querer,

em palavras que te escapam

como os pardais que guardamos crédulos em gaiolas.


Se, porém, quando voltas ao deserto

tudo está por lá outra vez,

é certo que nunca levaste nada para casa.


E se não trazes contigo as profecias,

então para que te servem os jejuns de poeira e gafanhotos?

Ou mesmo as sandálias, senão como lugar-comum

de uma adiada humildade?


Apenas quando olhas o bando de estorninhos

negros e empoleirados como uma orquestra,

compreendes que a música dos pássaros

não pode ser tocada nos coretos da cidade.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

[0767] Luís Palma Gomes, como pescador...

PESCA À LINHA


Há dias

em que não me apetecem

os dias.


Podem ficar com eles.


Guardá-los na prateleira

mais rasteira do frigorífico.


Para quando vos apetecer,

espetá-los então

num anzol fluorescente.


E assim pescar quiçá

os dias felizes

que por ali passem

sem querer.

domingo, 8 de maio de 2022

[0766] Mais um poema do nosso "poeta residente", Luís Palma Gomes


BOCA NEGRA


 A minha boca é escura,

buraco negro

que afinal não teve culpa.

E se todo o dia corro,

talvez não seja por medo do castigo,

mas só porque procuro um socorro,

um abrigo, um amigo.

Não me perguntes, irmão, porque o faço:

sei ser certo que esta queda livre

não tem perigo.

É tão certa como a vitória de Deus.

Cairei assim na charneca seca,

no deserto,

ansioso porém

de me reflorir outra vez.

Miles Davis - Capa de "Tutu", 1986 - Foto de Irving Penn

terça-feira, 12 de abril de 2022

[0765] Saiu "Fronteira", livro de Luís Palma Gomes


Capa e contracapa

Em edição de autor e com capa de Marina Palácio, saiu "Fronteira", de Luís Palma Gomes, colaborador assíduo de "Ibn Mucana". Eis dois poemas desta muito interessante obra.

Pedidos podem ser feitos para lmiguelgomes@67@gmail.com

ESPERANÇA

Está escuro.
Nada mais digo.
E, sem ruído, deixo-me levar
pela promessa da janela
- qual varejeira, em voo incerto -
procurando o destino que se insinua
na escuridão do pleno dia.



ÁGUA
Querida água,
queria pedir-te que matasses a sede da gazela.

Lava-lhe as feridas que não saram.

E quando partires para a foz, 
leva contigo o brilho fugaz dos peixes que subiram à montanha.

domingo, 10 de abril de 2022

[0764] "Raticida", poema de Joaquim Saial, de 21.4.2019



RATICIDA


        "O rato roeu a rolha da garrafa

        do rei da Rússia (…)"


Mas, se assim é, expliquem-me lá,

porque é que o czar Vladimir Vladimirovitch Putin

–  que possui ilimitadas bombas atómicas

e colecciona submarinos nucleares,

caças e tanque de guerra

que nunca mais acabam

(e matam que se farta) – 

não consegue obter um raticida eficaz,

enfim… como deve ser?

[0763] E como é Páscoa, aí temos um Luís Palma Gomes pedagógico...


PEDAGOGIA PASCAL


Repete comigo:

tudo é mais amplo do que parece.

As paredes da casa fértil

abarcam uma linhagem 

de quarenta e seis gerações.

Os exércitos que marcham agora,

caminham desde o velho testamento

até todas as cidades maculadas.


Só podes entender 

porque cai a colher pousada

em cima do prato,

se tiveres, porventura,

combatido, em Waterloo,

ao lado de Bonaparte.


A tua humana consciência

sintetiza apenas

a memória do insecto

que atravessou, outrora, a parede da sala.


És uma bactéria nervosa

que Deus observa

através da lente fosca,

o átomo do átomo

dentro de uma bolsa marsupial

que se expande e encolhe,

que respira.


Agora vai.

Já renasceu o dia.

Podes tocar na fruta,

na tecla, na lei,

porque já nada muda.




terça-feira, 29 de março de 2022

[0762] um poema de Ernest Hemingway



THE SOUL OF SPAIN


In the rain in the rain in the rain in the rain in Spain.

Does it rain in Spain?

Oh yes my dear on the contrary and there are no bull fights.

The dancers dance in long white pants

It isn't right to yence your aunts

Come Uncle, let's go home.

Home is where the heart is, home is where the fart is.

Come let us fart in the home.

There is no art in a fart.

Still a fart may not be artless.

Let us fart an artless fart in the home.

Democracy.

Democracy.

Bill says democracy must go.

Go democracy.

Go

Go

Go


Bill's father would never knowingly sit down at table with a Democrat.

Now Bill says democracy must go.

Go on democracy.

Democracy is the shit.

Relativity is the shit.


Dictators are the shit.

Menken is the shit.

Waldo Frank is the shit.

The Broom is the shit.

Dada is the shit.

Dempsey is the shit.

This is not a complete list.

They say Ezra is the shit.

But Ezra is nice.

Come let us build a monument to Ezra.

Good a very nice monument.

You did that nicely

Can you do another?

Let me try and do one.

Let us all try and do one.

Let the little girl over there on the corner try and do one.

Come on little girl.

Do one for Ezra.

Good.

You have all been successful children.

Now let us clean the mess up.

The Dial does a monument to Proust.

We have done a monument to Ezra.

A monument is a monument.

After all it is the spirit of the thing that counts.

[0761] "A Marcha", de Luís Palma Gomes

A MARCHA


Ouviste tu, irmão, falar na longa marcha da derrota?

Talvez os meus passos lunares
não tenham deixado um rasto platinado
para que possas agora recordá-la.

Silenciei com um gesto toda a orquestra.
E deixei que as cinzas enchessem a sala do concerto,
enquanto escapei às arrecuas pela escada de incêndio.

Agora o dia reclama-me
mais por hábito que por convicção.
E vou de multidão em multidão 
numa estranha incompetência que me leva à solidão.

Quando puder, 
encostar-me-ei à margem do caminho.
E  sentado no lancil 
esperarei a vinda da próxima ilusão
até se esgotar a areia que rola indiferente 
no relógio de parede que arde à nossa frente.

(Desculpa-me a tristeza.)

[0760] Revista DiVersos (poesia e tradução), n.º 33, acaba de sair

Com dois "In Memoriam", a Pedro Tamen e José Pascoal, apresenta-se com o esmerado aspecto gráfico que tem sido seu apanágio e o internacionalismo poético a que  também já nos habituou: Adri Aleixo, Adriane Garcia, Amadeu Baptista, Ana C. Moura, Cristino Cortes, Demétrio Galvão, Deodato Santos, Eduarda Chiote, Emerenciano, Fernando Henrique de Passos, Francesca Cricelli, Giorgos Sarantáris, Gudrid Helmsdal, Katarina Sarie, Manuela Nogueira, Maria do Sameiro Barroso, Mark Young, Ron Winkler, Rui Magalháes, TaharBekri e Zetho Cunha Gonçalves são os nomes desta feita publicados.

A DiVersos é uma produção das Edições Sempre-Em-Pé e pode ser assinada através do email contacto@sempreempe.pt. 

Site www.sempreempe.pt

sábado, 26 de fevereiro de 2022

[0759] "Livre", de Joaquim Saial

 

LIVRE


Livro que se lavre

e não seja livre…


Livra!...


[0758] Mais um poema de Luís Palma Gomes


DECRESCENS VITA

Sempre que me aflora o advérbio "talvez", há de certeza um esquecimento líquido correndo, espraiando-se pela vizinhança de mim mesmo. 

Enfrento os meus limites quando apenas posso pensar nas marinhas fortes de Esposende. Estático,  trago comigo as palavras e o seu ideal tão longínquo, quanto vertical, e tão próximo do sol como da profunda infância. 

O dia abre-se novo, mas previsível. As mulheres inauguram-no, parideiras agora sem  dor, lavando as cores serenas num rio que passava por aqui e — mesmo que os pássaros ainda nele falem — jamais voltará à presença determinada das árvores que estas ervas veneram sem saberem porquê - a habitual ausência de razão  para qualquer veneração, diria.

Levanto os olhos e reparo que os outros não escrevem poesia por agora. Talvez tenham escrito em casa ou a guardem para as férias grandes, ou tão-só não tenham lido Ruy Belo, como eu o fiz ontem à noite.

O dia decresce desde que nasce. E nós, rendidos pela nascença, aceitamos este crescimento da morte, banalmente,  como a um chamamento de pardais, ou  à forma arredondada das laranjas. 

Chamo tédio adocicado a este lapso que  interrompe as sonâmbulas viagens que faço para um destino comum e vulgar de pedras em queda até ao entendimento do poço. E sem caminho algum para regressar, caio.





sábado, 12 de fevereiro de 2022

[0757] Nicolau Saião, ataca de novo (com levantamento de rancho)


LEVANTAMENTO DE RANCHO


O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos

Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia

Doce como os sonhos o meu sargento desculpe

Mas é tão estúpido tão escalabitano tão

A norte de Bafatá ou mesmo 

Castelo Branco o meu sargento é um nabo

Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha

O meu coronel desculpe mas tive de o abater

O gajo não entendia que os sonhos eram os outros

Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias

E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores

Há um ar em silencio extremamente melancólico

O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura

De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a

Já havia muitos meses que me lavava a roupa

Junto ao mercado do Pixiguiti   chorava

Era sofrida como uma mulher

Doce e tão calada como um objecto partido

O meu capitão desculpe mas tive que o abater

É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos

O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão

De serviço   o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras

O meu major desculpe mas era chegada a hora 

Tantos anos depois ficaram todos em fila

A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado

Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda

De modo que foi assim   fiz levantamento de memórias

E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar

Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão

Ficaram todos em fila pois então

Mesmo que em sonhos   e agora estes não são

De ovos e farinha como almejava nesse tempo

Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar

Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba

E já agora que estamos com a mão na outra massa

Que é como quem diz com a pata na G3

O meu general vá à fava   palavra de civil tão sem galões

O meu general é um nabo como na caserna se dizia.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

[0756] Um poema "anunciativo", de Nicolau Saião



ANUNCIAÇÃO


As mulheres do vento   parado como um planeta extinto

as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa

o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha

as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

entre mim e o céu

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante

ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios

Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos

junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando

estremecendo como uma pétala sobre a água

Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis

escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza

Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval

mulheres de pernas como lírios rosados

andando ao longo duma estrada francesa

as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias

a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos

a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou

na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra

Vós sois o sustento dos pontos cardeais

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste

e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda

o fumo espalhado no parque abandonado

os olhos tranquilos frios

A rua solitariamente sob a noite de Junho

e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura

à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal 

a morrer.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

[0755] " A ciclista", poema de Joaquim Saial


A CICLISTA

Joaquim Saial


Rola que rola,

estrada fora.

Vai depressa,

sem demora,

já não volta,

foi-se embora.


Berlim, foto Joaquim Saial


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

[0754] "Possibilidades", poema de Luís Palma Gomes, para encerrar o ano poético, aqui no Ibn Mucana

POSSIBILIDADES


Talvez seja demasiado tarde,

talvez seja ainda cedo,

talvez não baste

ou seja, mesmo demais.


Olho para trás

e desconfio que não valeria a pena

voltar ao último cruzamento.

Olho para a frente

e a estrada estende-se

até ao infinito sem que nada de reluzente

se eleve da paisagem.


Os que por mim passam em sentido contrário,

sussurram a impenitência, o desconforto

do caminho que tenho de percorrer.


Talvez seja pertinente

escrever, escrever

como se as folhas brancas 

fossem aqueles pequenos recortes do rio

onde as águas param e ali estagnadas ficam

para apodrecer ou evaporar.


Talvez por debaixo dessas poças,

surja um húmus negro, lamacento, nauseabundo,

mas ideal para uma erva, rasa e trivial, nascer.



domingo, 28 de novembro de 2021

[0751] Poema inédito de Juergen Heinrich Maar

PUREZA  -  MEMÓRIA

de "Cem Sonetos à Moda Antiga" (inédito)

Estais acima de nós, 

  acima deste jantar 

(Carlos Drummond de Andrade, excerto de "A Mesa")

                                     

Linho branco reflete a cor do vinho,                       

O vinho que no linho sombras lança, 

Imagens de vinhetas no caminho 

Branco, branco, por mais que a vista avança. 


Já está, pois, posta a mesa, à luz de velas, 

Cristais e pratas, linhos, vinhos brancos, 

Vinhos e linhos brancos que nas telas 

À luz das velas deixam de ser brancos. 


O vermelho nas telas, carmim e ouro, 

Nada falta na mesa posta, nada: 

Luzes, vinhos, aromas, bom agouro.


Comensais e convivas, por que nada 

Se consome, o vinho não se verte? 

- O conviva de branco está inerte. 


(1982)