De 16 a 27 de Fevereiro na Póvoa do Varzim decorre a 20.ª edição das Correntes de Escrita (a maior de sempre) com a presença dos chefes de estado de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de Cabo Verde, o poeta e jurista Jorge Carlos Fonseca. Com a presença de 140 escritores de 20 países, entre os quais três Prémios Camões (Arménio Vieira, Germano Almeida e Hélia Correia), as Correntes de Escrita são o maior certame literário organizado em Portugal.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
[0561] Inês Lourenço, a poesia das coisas simples
Nascida no Porto em 1942, fundou e dirigiu os “Cadernos de Poesia-Hifen” (1987/1999)
MAMOGRAFIA DE MÁRMORE
Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.
Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.
Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.
Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
RUA DE CAMÕES
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
PORTUGUÊS VULGAR
O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.
[0560] Conceição Cristóvão, a engenharia das palavras
Conceição Luís Cristóvão nasceu em Malanje, em 1962. Engenheiro, consultor, docente e poeta, fixou-se em Luanda, integrando a Brigada Jovem de Literatura, da qual foi Secretário-Geral.
ESPIRAL DA VIDA
As horas caminham em espiral
lúgubres com(o)vidas
em calafrios urdidos
vultos à espreita sonegam.
iminentes.
o mundo grita seu cancro
em mil silêncios. cortantes.
de vidro e agonia.
IDADE DA PEDRA
(há um discurso de facas nas fronteiras lívidas do rosto.
a madrugada morre de leucemia. e ainda as florestas
não revelam as crateras abertas.
línguas de fogo economizam tristezas. deslizam águas
na luz da pedra.
oh, vidas de pedra, náuseas de pedra. na dura frágil
idade da pedra.)
LÁ LONGE O MAR CANTA
Lá longe o mar canta
Lá longe o mar cansa:
quem canta sou eu
entre os rostos de noite e céu!
Lá longe o mar canta
lá longe o mar cansa:
quem lavrou em mim o sono
e a voz e o deserto da voz?
Lá longe o mar canta
lá longe o mar cansa:
quem me dera não ser o mar
o mar que em mim canta. E cansa!
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
[0559] João Rasteiro, a ternura das palavras
De seu nome João Manuel Vilela Rasteiro, nasceu em Ameal (Coimbra) em 1965. Funcionário da administração local, escritor e poeta, obteve vários prémios, nomeadamente o Prémio Literário Manuel António Pina (2010). Membro da Accademia Internazionale Il Convivio (Itália), do Conselho de Redacção da revista “Ofício de Poesia”. Em 2003 recebeu a “Segnalazione di Merito” no Concurso Internacionale de Poesia “Publio Virgilio Marone”(Castiglione di Sicilia-Itália), em 2004 obteve o 1º prémio no Concurso de Poesia e Conto “Cinco Povos Cinco Nações” promovido pelo Congresso Internacional de Literaturas Africanas e o 1º prémio do "II Concurso de Poesia NEFLUC-Faculdade de Letras". Obteve ainda o 1º prémio absoluto, na categoria de Poesia para autores estrangeiros, no Concurso Internacional “Premio Poesia, Prosa e Arti Figurative-Il Convivio “2004 (Verzella-Itália).O CANTO DA MELANCOLIA
A Pablo Neruda
Um chão corpo carne indecisa.a memória
natureza de mãos que se fundem.a pele sexo
amor físico da terra.há um dilúvio verbal
que goteja o assombro.sob a corola o sulco
melancolia dos frutos.as sílabas mais tristes
línguas faiscantes.a carícia do caos raízes
palavras reverberas infinitas.na boca golfos
menstruados de silêncio.confusas unidades
feixes na respiração do mel.a distância feérica
na indolência redimida.o amor prefigurado
fístula sílica do canto geral.subversivo.
Acendo no odre das águas a morte.a seiva
cicatriz varada redentora.a palavra.o eco.
AS CÓRNEAS
Toda a beleza da morte a carne
no dorso onde as palavras acariciam a mão
aspergindo sexos o amor inclinado
na casa das mulheres o malogro
dos códigos nos gânglios as pálpebras
sinalizando as águas o rosto
entre os seixos e os búzios a ameaça
na carícia dos corpos outra luz
no aço escrito o fruto despido
nas veias dos arrumadores de palavras.
CORPO DE CAÇA
Num corpo de caça sagrado
onde as palavras se devoram entre si
o silêncio surge sob uma mancha de iodo
vestindo a terra com as asas dos mortos
o poema debate-se com a sua própria volúpia
envenenando os sexos e as bocas brancas
com o sangue virgem das suas vitimas.
As palavras embebidas em golfos
despem-se de suas longas vestes de água
nesse sangue e amam-no eternamente.
[0558] Cistóvão Neto, a engenharia das palavras
Cristóvão Luís Neto nasceu em 1964 em Malange. Engenheiro, crítico literário e poeta. Na ex-URSS, colaborou activamente com o Núcleo local da Brigada Jovem de Literatura de Angola.
A ESCADA DO SUICÍDIO
Às vezes
um homem senta-se no chão
braços cruzados sobre a encruzilhada do destino
a terra ensopada de lágrimas a lamber-lhe a esperança.
Às vezes
atira-se à loucura carnavalesca da cidade
escamoteando um que outro incauto viandante
na vã e derradeira tentativa de escapar
ao abraço antropofágico da escada do suicídio.
Às vezes
lamenta em pranto
porque não há pão para o filho
este botão de rosa que quer desabrochar
na madrugada vazia que cruelmente se avizinha.
Às vezes
chora desperadamente
ignorando a fatalidade do seu botão de rosa
que tão logo murchou
a alegre brisa levou
Às vezes
veste a alma de álcool
para sonhar-se milagrosamente morto
fugir veloz no encalço da alegre brisa.
Às vezes
quantas vezes
esse mesmo homem caminha ao nosso lado
subindo a pirâmide irreversível da morte?
ALARME
Hoje
voltou a sangrar
o aroma do dendém
nas falas da fotossíntese
Hoje
rebrilhou da cópula celeste
o desígnio cícilico das estrelas
a voz perdeu-se-me nas heresias
- o braseiro consumiu mais a minha alma.
Soltou-se
o alarme estridente do cosmos
o sol cadente não pode lavar as sombras
mãos ofereceram-me nuvens dúbias e lama
- a chuva ensopou mais ainda a minha alma!
AUTOCARRO DO PRENDA
Vou no autocarro do Prenda
Vou do Porto ao Prenda no autocarro carregado
cheio de gente, cheio de gente:
o cheiro dos corpos enrolados e uma cabeça encostada à dúvida!
Olho à volta e sinto-me triste e feliz
com o autocarro que sobe devagar a avenida
sofrendo tão humanamente:
quem sabe porque o autocarro vai assim descontente?
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
[0557] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (18) Nuno Rebocho, as "Canções Peripatéticas"
Publicamos os tradicionais poemas (às terças-feiras) deste autor. Do seu livro “Canções Peripatéticas”, recolhemos a “Lição das Dores”.
A LIÇÃO DAS DORES
não desesperemos que sempre um tempo
precede outro tempo e uma sombra
oculta outra sombra. os desassombros
também murcham como as papoilas
e podem ser tão efémeros mas a chuva os resgata
: servem para isso as sementes adormecidas
nos torrões e as vespas que nos viços os sugaram.
até os silêncios servem mesmo quando são lágrimas
e as noites são cansaços. as trufas
também se acolhem onde os sobros choram
na lição das dores - que são mestras
e tecem os dias felizes
com os fios das saudades. são penélopes
entretendo os calendários dos úteros envilecidos.
são os regatos que no seu percurso serão mares
e ensinam às bocas a vontade de cantar.
[0556] Letícia Herrera, a irredenta poesia mexicana
Nascida em Monterrey (México) em 1960, Letícia Herrera é professora universitária, poeta, promotora cultural e editora (Ediciones Caletita). Obteve o Prémio de las Artes em 2011
PROPUESTA JUSTA
mezclemos nuestros vellos púbicos
porque hace frío y la noche ha caído
seamos por esta vez amigos entrañables
de esos que se estrechan como para fundirse
no voy a pedirte que me dejes
porque te quiero mucho
tampoco quiero que te quedes a vivir
adentro de mis huesos
el pubis me dolería al caminar
si te llevara puesto
pero mira te propongo dame un beso
deja que descubra tu pecho
que te muerda las nalgas
y cuando quieras entrar en mí
no diré nada
me quedaré como una esfinge que goza
en silencio
o si quieres grito
CONSUELO
pero los amargosos somos en realidad
la sal del mundo
propiciamos el enunciado magro o profuso
de nuestras rarezas y temores
alimentamos las risas de los otros
que así se colocan a salvo del desastre
y cuando al fin morimos
dicen que qué bueno que dejamos
libre el espacio para algún niño índigo
que viene a salvar al mundo
POETA POBRE
ayer me buscaba la policía de la escuela
que por haber faltado a los deberes
y sí
falté
así lo confieso
a veces me llueve y a veces me llovizna
en esta ocasión fue el ventarrón
que al alba me anunció una herencia:
el árbol del vecino
lucía ya sin su rumor de pájaros
tendido en mi patio
tan sin vida
y hube de acompañarlo en las exequias
cuando eres poeta y pobre
te toca hacer de todo
lavar la ropa los domingos
correr al super contestar llamadas
espantar merolicos y ladronzuelos
sacar la basura a medianoche
pasar la escoba por los cuartos
escombrar la recámara y la sala
buscar las ofertas de cerveza
también despedir a los árboles
de su rumorosa fronda
tocarles los brotes y las hojas
(que el asombro vuelve esmeraldas
antes de lanzar su grito al amarillo)
mi vida no es glamorosa
(y huelga que lo diga)
no me dicen maestra en los eventos
cuando acudo a la ceremonia del verso
en cualquier país remoto
donde haga falta con urgencia
la esperanza del canto
tejo y tejo las rutas
que me protegen del invierno
me salgo a caminar al sol del mundo
porque me es menester alimentar los ojos
de llanuras
de cerros
de mares
de lagos que adormezcan
el cascabel del miedo
de voces y risas que se crecen al llanto
y con la cizaña se hacen chambritas
no sé de condolencias
que de todo yo sé tan poco
pero siempre estoy abierta
a las malas conductas
qué otra cosa podría quedarme
en la indigencia sino decir que no
y decirlo tanto como precisen los grilletes
no no no no no no
pero mañana debo reportarme sin más
con la policía escolar y convencerla
de que la muerte de un árbol es motivo
de sobresalto de abismal tristeza
y que además tenía que sacarlo a la banqueta
mutilado
porque soy el departamento de limpia
de ornato y forestación
de compras
de ventas
estibadora
institutriz de gatos
chef de los frijoles y el arroz
y unos cuantos oficios más
que ya no me caben en el pliego
sábado, 2 de fevereiro de 2019
[0555] Novo livro de Nuno Rebocho na calha
NUNO REBOCHO VAI LANÇAR UM
NOVO LIVRO DE POESIA: “ROTXA SKRIBIDA”
Com
capa de Tchalé Figueira e prefácio de Danny Spínola, Nuno Rebocho vai publicar brevemente
na cabo-verdiana Rosa de Porcelana Edições, colecção “Rose is a rose is a rose”, o seu novo livro de poemas com título bem
crioulo, “Rotxa Skribida”: é a recolha dos poemas por si escritos em Cabo Verde
durante a sua longa estada neste arquipélago. Já com uma vasta bibliografia
poética (“Breviário de João Crisóstomo”, “Memórias de Paisagem”, “Uagudugu,
seguido de O Onanista e de um Poema a Lenine”, “Poemas do Calendário”, “A
Invasão do Corpo”, “A Arte de Matar”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Arte
das Putas”, “Cantos Cantábricos”, “Manual de Boas Maneiras”, “Canto
Poliédrico”, “Discurso do Método”, “Canções Peripatéticas”, “Canto
Finessecular”, “A Papaia”), além da sua participação em antologias em Portugal,
Brasil, Espanha e Argentina e na colectânea “Desintegracionismo”, Nuno Rebocho
acrescenta um novo título à sua obra.
[0554] Amélia Dalomba estreia-se no Ibn Mucana
Amélia Dalomba é nome literário de Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral, nascida em Cabinda, em 1961. Ambientalista, poeta, escritora, artista plástica, compositora, intérprete e declamadora, foi locutora, redatora, repórter do então Emissor Regional de Cabinda, bem como do jornal “A Célula”, Boletim de Informação Interna em Luanda. Assistente de Direcção da UECA – União de Estudos Espirituais Cristão de Angola e membro da Academia Estudantil de Arte Contemporânea (AEAC), Rio de Janeiro.
A CANÇÃO DO SILÊNCIO
A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo
O olhar de uma santa de barro
A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel
A canção do silêncio
ESPIGAS DO SAHEL
Espigas
espigas brotam do Sahel
pioneiras da liberdade
a caminhar sem cautela
pela floresta carregada de espinhos
Pessoas
pessoas
cruzam o meu caminho
penetram lentas e vagarosas
como
térmitas
na sala de interrogatórios
descubro o travo da
traição
Prefiro as hienas
e os lobos
que uivam constantes
todos sabem
donde e onde estão
Do ventre do bosque
ainda que faça silêncio
imaginam meu pensamento
ainda que cerre os dentes
e digo não penso
há gente que diz: mente
Não falo
não penso
oh gente da terra quantas vezes
ofereceis
malavu sem provar
HERANÇA DE MORTE
Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
[0553] Jorge Velhote lança novo livro de poesia
Apresentado por Amadeu Baptista e Maria Bochicchio e leituras por Isaque Ferreira e Rui Spranger, vai ser lançado no Mira Forum (Porto), o novo livro de Jorge Velhote, “Âmago” (da Edições Sem Nome). Segundo o autor, estes poemas são dedicados a quantos com ele compartilharam a sua intensa actividade cultural.
[0552] N.º 4 da revista "Nervo"
Acaba de ser publicado o n.º 4 da revista de poesia “Nervo”, tendo como tema central nesta edição “O que andam a escrever os nossos poetas contemporâneos?”. Apresentada na Biblioteca Municipal do Entroncamento, a revista traz intervenções da sua directora, Maria F. Roldão, do historiador Henrique Leal e de Nuno Garcia Lopes.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
[0551] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (17) Nuno Rebocho e a demanda da liberdade
TU PROCURAS
Tu procuras a sementeira que alguém rasgou pois esse é o sinal
de que chegarão as asas das aves quando o sol mourejar.
Então os estampidos traduzem os homens cujas bocas se abeiram dos regatos
para tomar em mãos o sangue da carnificina e então serás
o que há-de vir no percurso dos silêncios, o mesmo percurso das tectrizes
e das borboletas que, porque voam, navegam entre as papoilas
e as estevas. E então dirás que a liberdade também se esquece
como o furor aquece a linfa. E então estarás teso
como o eucalipto que já secou a fonte.
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
[0550] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (16) Nuno Rebocho reptilíneo
SOVACO DA COBRA
o sovaco da cobra resguarda o saco dos segredos
à mistura com a mentira dos medos: guarda o que pode
e o que sobra sacode juntamente com os dedos.
é preciso dizer que a cobra engorda aos solavancos
da ira desfeita (olá cobra imprudente –
que como o ponche se ajeita) e à espreita
espoja-se no pó da terra branca. plasma-se a luz
que na acácia se espanta.
mas os segredos – meu deus quantos enredos
se burilam no canto do lobo e eu fico
pasmado como os rochedos resistem à dor
do mar. e eu fico especado perante a tarde
que se deixa cobrar. só a cobra engrena
os desvelos de ficar por aqui preso
pelos cabelos e ser a vontade guardada
na calma tempestade da achada.
salva-me o sovaco: o suor e a canseira
de ser outra ilha de outra maneira.
de ser barco ou ser vento ou ainda avião
numa viagem carpida por dentro. ou não
ou sim. ou talvez assim
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
[0549] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (15) Nuno Rebocho, sempre a esperança
IRREDENTA ESPERANÇA
A todos (amigos e inimigos)
escondo-me no saco dos brinquedos:
ainda aí guardo esperanças e segredos
fechados a sete chaves.
deles por enquanto nada direi
- quero-os irredentos
puros (sagrados)
como serão os corpos nos noivados
e são as mulheres que eu amei.
escondo-me mas não deserto. fico
à espreita na tocaia a que me dedico
sempre à espera de novidades.
sei que virá o tempo
de abrir o saco
e sacar lá de dentro outro pacto
com a chuva com o sol e com o vento.
eu sei: virá o tempo. e então direi
quanto esteve sufocado e conservei
com força de medrar e viço
e alma. direi o chão
da aventura
regada pela viva água da ternura
onde por nossas mãos brotará o pão.
eu sei: virá o tempo.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
[0548] Manuel (d'Angola) de Sousa, poeta contra os silêncios
Nascido em Lisboa em 1930, Ricardo da Costa Manuel está radicado em Angola, considerando-se mais angolano do que muitos angolanos”. Livreiro e publicista.
ESFREGANDO O SILÊNCIO DA ARDÊNCIA NA CÓRNEA DESFEITA EM ÁCIDAS LÁGRIMAS
Sopro o pífaro em retirada acelerada
Fujo da realidade actual e pulo fora
Retiro às pressas tudo o que tenho dito
Retraio todos os preceitos atrás de um pilar…
Escavo sem fundamento as fundas fundações
Enceto uma correria contra o tempo para me ocultar
Corto caminho indo às curvas e aos ziguezagues
Abençoo-me o melhor que consigo ou posso…
Oiço os Anjos a tocarem as cornetas triunfais
Subo subitamente a escadaria para me juntar a eles
Deixo o portal aberto para que vêm a seguir
Vou à varanda espreitar miragens à distância
Borro a escrita toda com um mero mata-borrões
A fita das inaugurações chegou à justa ao fim
Deslizo pelo gelo tão logo começa o degelo das águas
Jogo flores e pétalas para a esquerda e para a direita
Enfio-me a eito por um beco de saída exígua
Julgo sumariamente e condeno actos explosivos
Expurgo e expulso indomáveis Demónios do corpo
Exorcizo as maldade e mágoa santificando o espírito
Exponho galerias de arte sacra exposta a sacrilégios
Somo números primos improváveis a fenómenos estranhos
Começo aquilo que antes acabei ou conclui no final das contas
Abordo com adequada suavidade as questões mais difíceis em silêncio…
Rodopias
suavemente/mente em
harmoniosas sinfonias
de odores fortes
- suor acácia fêmea rosas
cravo macho.
Me lembras
em tua carne rija bronze
Terra
mar encapelado
outono
fruto maduro
caju apetecível
Escrito em Luanda, Angola, a 10 de Abril de 2017, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em pleno sentido Pesar e em Solidariedade com o Povo Egípcio e sobretudo, com a vitimizada Comunidade Crista Copta do Egipto e em vigoroso repúdio aos odiosos, vis e trágicos atentados mortais, perpetrados pelos inimigos do Espírito da Paz e Inter-Religioso Mundiais, em um par de Igrejas Coptas do Egipto...
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
[0547] Voz d'Aurora (ou Elias Chipalavela), a novíssima poesia angolana
Pseudónimo de Elias R.B. Chipalavela, nascido em Mavinga (Huambo) em 1992. Membro da Brigada Jovem de Literatura, é cofundador da Associação Grupo de Busca e Difusão do Saber. Actor no Morro do Moco e formador de Literatura.
SENHORA NOSSA MERETRIZ
Na berma não tem cicratiz alguma
Olha p´ra quem diz, senhora nossa meretriz
Na berma, nada mais espanta,
Seu retrato desencanta, senhora nossa meretriz
Os velhos clamam, os velhos reclamam
Mas quem será o juiz?
Gritos daqui, gemidos dali,
E ninguém prediz.
Na berma, só quem conhece o asfalto
Só gente de betão!
E a gente quem vem lá da ombala?!
Os velhos clamam, os velhos reclamam,
Mas quem será o juiz?
NEGRA KIANDA
Fala-se da bel kianda
Rainha do mar sob as ondas a perfilar
Conta-se nesta Luhanda, talvez lenda seja kianda
Que aqui em Luhanda anda
Canta-se da bel kianda
Prosa ou poema, sonhos do mar ou maresia?
Só em Luhanda há
Além a lenda anda, anda a lenda da bel kianda
Fala-se da bel kianda
Kianda no mar, na fábula da banda
Quis meu pincel dela expressar
Só meu lápis de carvão, no cordão da emoção
Soube kianda então representar
Projectam-se marés de ideias sobre o poder desta sereia
Kianda menina, do mar a padroeira
Que bela é a kianda
No dizer das palavras, na acção, concepção das ideias
Tem poder, tem alma kianda, menina, velha sereia
Diz-se que é no mar, é no mar que ela anda
Mas é no mar? Onde anda?
Deixai kianda relíquia da banda
Deixai kianda, negra kianda, que aqui a lenda anda,
CALARAM-LHE A BOCA COM PIPOCA
O tamborim da terra já não toca mais
Já não suspira, não toca nem ronca mais
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
Já não se canta nas ombalas e serões de nossa tradição
Já não fala das malambas e o luto farfalhante no olhar da nação
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
Não clama nem reclama seu lugar também
Nem se juta à nós nas noites sem manjar
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
Nakambiote também esqueceu de sua identidade
Esqueceu de ser gente e o valor da liberdade
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
Olha que senhor juiz também perdeu dignidade
Divorciou-se da verdade para alimentar as vontades…
Cremaram-lhe a boca, cremaram-lhe a boca com pipoca
Polícia agora não é agente mais
Deixou de ser agente para ser vagagente
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
Nakambiote viu o professor comer a Margarida
– como ela já aprovaste e não estudes mais –
Assim disse o professor
Calaram-lhe a boca, calaram-lhe a boca com pipoca
O GRITO DOS KANDENGUES
Entre sonhos e sonâmbulos, o grito dos kandengues
A noite cai em prantos, não há manjar no prato!
Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Sem manjar no prato, mamã não dormiremos
Papá é bom de prosa, mas nossa fome já não cega
Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Sem manjar no prato, mamã não dormiremos
Medo temos de dormir, medo temos de não mais acordar
Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Não há manjar para acalentar a fome, a revolução do estômago
Nem palavras que possam nutrir talvez os nossos ânimos
Queremos o manjar, sim, choramos por um manjar
Entre sonhos e sonâmbulos, o grito dos kandengues
Não há manjar no prato: noite cai em prantos!
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
[0546] Rui Lage, a poesia insone
Nascido
na cidade do Porto em 1975. Escritor, ensaísta, crítico literário, dramaturgo,
tradutor e poeta, fundou e dirigiu, a revista “Águas-Furtadas", venceu o Prémio Ruy Belo em 2016.
O FANTASMA DE NIETZSCHE APARECE NO MEU
QUARTO E FALA
Nada fizeram por merecer-nos, os deuses.
Não se deram sequer ao trabalho
de nos salvar,
mas nasceram várias vezes
e morreram outras tantas
em muitas línguas e países,
ou circularam
da planta ao jardineiro
tudo ligando
em universal desarmonia.
Cansados de converter os gentios,
de verem expostas suas vidas
em textos sagrados,
fartos de prestarem favores
a troco de rezas e flores,
invocados em missas negras e concertos
de Black Metal,
fumados nos trópicos,
possuídos por xamãs nas vastas regiões
do Norte,
procurados no alto das montanhas
do Nepal,
vendidos em templos de arrabalde,
arrumados em nichos,
feitos ídolos com nossos pés de barro
a fraquejar nas igrejas
ou tomados por autores da matéria
(quando só o espírito
os podia explicar),
desvincularam-se do mundo
e das palavras,
emitiram comunicados em que negaram
qualquer envolvimento
em ataques de bombistas suicidas,
na gestão de um condomínio no céu
(equipado com dez mil virgens),
nos juramentos do presidente dos E.U.A.,
nas promessas não cumpridas
de uma Nova Jerusalém
ou na eleição de qualquer povo
(em particular).
Criados à nossa semelhança
contra nós se revoltaram.
E nós, fracos, a revolta lhes perdoamos.
Nossa a culpa de os ter criado.
O PAÍS À PORTA
Se pudesses, O'Neill, ver hoje o teu país,
(ou tu, Assis Pacheco, filho pródigo
destes quintais floridos)
velho de oito séculos e pouco mais velho
desde que o deixaste,
país que secretamente não vota
para não se maçar
enquanto furta com arte as gaiolas vizinhas
a cantar nas paredes caiadas,
país com mais que fazer
(futebol para ver
e mato para queimar);
se pudesses vê-lo agora
não levarias a peito,
mas confirmarias, estou certo,
que tem defeito de nascença
ou de fabrico,
mais valendo, por isso,
como em vida tua valeu,
deitar por terra a lança do ódio,
fechar a navalha do tédio,
sacudir o ombro da solidão
e rir sonoramente de tudo,
talvez não tanto à porta da pastelaria
como, hoje em dia, à porta dos chineses,
mas rir sonoramente de tudo, dizia,
- de ti mesmo,
sobretudo.
BAILE DOS BOMBEIROS
Quer traves, rapaz,
quer precipites a mão
quer precipites a mão
no seu cabelo a escaldarás
não tanto oxalá quanto
não tanto oxalá quanto
a pele do coração
pois naquela é passageira
a queimadura
a queimadura
mas neste
é sem cura.
é sem cura.
Deixá-la correr um pouco
sob a torneira do pátio
sob a torneira do pátio
se não for de seca
o sempre excessivo
o sempre excessivo
e velhaco
Verão.
Verão.
[0545] De novo, Mário António
Um dos nomes de referência da literatura angolana, Mário António Fernandes de Oliveira nasceu em Maquela do Zombo em 1934 e faleceu em Lisboa em 1986. Desde 1963 viveu em Portugal, mantendo estreitos vínculos com a cultura de sua pátria. Personalidade multifacetada, a sua poesia faz da saudade um tema quase constante.
DONAS DO OUTRO TEMPO
Donas do outro tempo
Vejo-as neste retrato amarelado:
Como estranhas flores desabrochadas
Negras, no ar, soltas, as quindumbas.
Panos garridos nobremente postos
E a posição hierática dos corpos.
São três sobre as esteiras assentadas
Numa longínqua tarde de festejo.
(Tinha ancorado barco lá no rio?
Havia bom negócio com o gentio?
Celebrava-se a santa milagrosa
Tosca, tornada cúmplice de pragas
Carregada de ofertas, da capela?)
A seu lado, sentados em cadeiras,
Três homens de chapéu, colete e laço.
Botinas altas, botas de cheviote.
Donas do tempo antigo, que perguntas
Poderia fazer aos vossos olhos
Abertos para o obturador da fotográfica?
Senhoras de moleques e discípulas
Promotoras de negócios e quitandas
Rendilheiras de jinjiquita e lavarindo
Donas que percebíeis a unidade
Íntima, obscura, do mistério e do desígnio
Atentas ao acaso que é a vida
(Há sopros maus no vento! Gritos maus
No rio, na noite, no arvoredo!)
E que, porque sabíeis que a vida é larga e vária
E vários e largos os caminhos possíveis
A nova fé vos destes, confiantes,
O que ficou de vós, donas do outro tempo?
Como encontrar em vossas filhas de hoje
A vossa intrepidez, a vossa sabedoria?
Os tempos são bem outros e mudados.
A tarde da fotografia, irrepetível.
Água do rio Cuanza não pára de correr
Sempre outra e renovada.
E dessa fotografia talvez hoje só exista
Na vilória onde as casas são baixas e fechadas
E têm corpo, pesam, as sombras e o calor
A sombra farfalhante da mulemba
Que vos deu sombra e fresco nesse domingo antigo.
CHUVA
Outrora
Quando a chuva vinha
Era a alegria que chegava
Para as árvores
O capim
E para a gente.
Era a hora do banho sob a chuva
Meninos sem chuveiro
A água regateada na cacimba
Muitas horas de pé esperando a vez.
Era a alegria de todos, essa chuva:
Porque então fiz o primeiro poema triste?
Hoje ela veio
Veio sem o encanto de outras eras
E ergueu na minha frente o tempo ido.
Porque estou triste?
Porque estou só?
A canção é sempre a mesma
Mesmos os fantasmas, meu amor:
Inútil o teu sol ante os meus olhos
Inútil teu calor nas minhas mãos.
Essa chuva é minha amante
Velho fantasma meu:
Inútil, meu amor, tua presença.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
[0544] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (14) Rebocho dos inéditos
Apesar do muito já publicado, muitos inéditos permanecem na gaveta. É o caso das “brincadeiras” poéticas constantes de “Impressões Digitais”, de que aqui se publicam dois dos textos.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
[0543] Adília Lopes, a "freira poetisa"
Pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nasceu em Lisboa em 1960. Documentalista, cronista, tradutora e poeta.
PRÉMIOS E COMENTÁRIOS
A avó Zé e a tia Paulina
deram-me os parabéns
e disseram
agora já é uma senhora!
a Maria disse
parabéns por quê?
é uma porcaria!
quanto a comentários
a poesia e a menarca
são parecidas
Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral
NO MORE TEARS
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
A MINHA MUSA
A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra
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