terça-feira, 20 de novembro de 2018

[0430]

[0429] Fernando Couto, a voz cheia de vozes


Fernando Leite Couto nasceu em Rio Tinto (Porto) em 1924 e faleceu em Maputo em 2013. Regressou a Portugal com a descolonização, onde trabalhou num jornal portuense, mas regressou a Moçambique. Jornalista, tradutor, editor e poeta, fundou a Editora Ndjira. Viveu durante algum tempo na cidade da Beira destacando-se a sua intervenção na rádio local. Usou também o pseudónimo de Pai Fernando. É uma referência da poesia moçambicana.


CORAÇÃO DA RAZÃO

Eu sei da sua solidão,
Como entendo meu coração,
Eu busco nossa união,
Nada é ilusão,
Compreendo sua razão,
A razão tem um sentido de ser,
Uma intenção em busca da emoção,
Pois entendo a sua solidão,
No seu espaço feito coração.


ALMA NEGRA

Me perco na imensidão de um céu cravejado de estrelas,
A noite é quente, mas o frio da alma me assusta!
Fecho os olhos e tento entender o porque de tanta amargura.
As estrelas me olham tentando entender a minha falta de emoção.
A resposta assusta!
A estrela cai, riscando o céu negro, o negro de minha alma,
Chorando a minha dor.
A imensidão negra chora a amargura de minha alma.


MORRO AOS POUCOS

Não quero mais sair,
O dia me queima,
A noite me assusta,
A lembrança do teu cheiro
Me consola,
A sua falta,
Me mata aos poucos.


CONTINUAREI

Mesmo que o som acabe...
Continuarei ouvindo os colibris...
Mesmo que a noite acabe...
Continarei vendo estrelas...
Mesmo que a vida acabe...
Continuarei sentindo sua falta...
Mesmo que o mundo acabe...
Continuarei...!

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

[0428] 50 anos de vida literária de José-Viale Moutinho

A 23 de Novembro, às 18h15, celebram-se na delegação da UNICEPE no Porto (Praça Carlos Alberto), os 50 anos de vida literária do escritor e poeta José-Viale Moutinho (nascido no Funchal em 1945, duas dezenas de livros editados), com a apresentação dos dois últimos livros do autor: 
“A PESSOA INDICADA” (Poemas)
“MONSTRUOSIDADES DO TEMPO DO INFORTÚNIO” (Contos)

[0427] Tertúlias Poéticas do Casino - Homenagem a Angola


O projeto cultural da Associação de Moradores e Empresários do Parque das Nações, pretendendo homenagear os poetas africanos, brasileiros e timorenses, através de tertúlias poéticas, em conjunto com as Embaixadas dos países lusófonos da CPLP, do Casino de Lisboa e da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), dedica a sua próxima sessão à poetisa Isabel Ferreira (Angola). A homenagem decorre no dia 27 de Novembro, às 21h30, no Casino de Lisboa.

[0426] Salette Tavares, o espacialismo na poesia


Nasceu em Lourenço Marques (Moçambique) em 1922 e faleceu em Lisboa em 1994. Veio muito nova para Portugal, onde se fixou em Sintra. Professora, tradutora e poeta, foi bolseira da Fundação Gulbenkian em França e Itália, onde estou Linguística e Estética. 


ROUPA

Fui  um  dia  à  janela  e  vi  as  nuvens
carregadas  de  meus  sonhos  desdobrados
recolhi-os  um  a  um
com  mil  cuidados
dobrei-os         engomei-os       e  guardei os
são  meus  lenços
empilhados  na  gaveta.
Tão  certos      tão  brancos       tão iguais
quadrados  sobrepostos  arrumados,
nesse  canto  do  sussurro
são  a  espera  consumada  de  um  aroma
que  se  espalha  e  me  inunda  toda  roupa
guardando  no  mistério
o  segredo  de meu ser
todo entornado.
Mas ali vivem e residem
medindo-se em distância com lençóis
também dobrado também brancos também lisos
também memórias recolhidas de silêncio
na dimensão dos corpos conhecidos.
para além dos lençóis para além dos lenços
o perfume íntimo de outras roupas
lava e põe branco em todas elas
no diálogo imóvel do segredo
misturado  a  conchas  e  colares
no  ruído  surdo  de  um  remanso  medo
que  se  prende  também  outras  peças.
Largos  silêncios  que  o  ranger  de  abrir  suspende
estremecer  de  linhos          despertar  de  panos
desabrocha  de  rendas alvas  na  penumbra,
quem  vos  tocou  tão  escondidos  brandos
e  me  ensinou  a  ter-vos?



SALTO ALTO
























FOI TÃO DE AVE O MEU CHEGAR AQUI

Foi tão de ave o meu chegar aqui 
que de ti a mim sem que soubesse 
no que de ouvido espanto comovi 
posei canto silêncio todo prece.
Pousei e levantei secreta chama 
envolta no brasio de teu vinho 
contra o crime do céu tu me derramas 
silenciosa doçura no caminho.
Chamei por ti, tão solitária eu 
sem que me dessem outros mais de mim 
e dura espada na hora que bateu 
em tua mão segura me acolhi.



[0425] Joaquim Pessoa, trovador de canções


Joaquim Maria Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Vindo das páginas juvenis do “Diário de Lisboa”. Publicitário, professor, pintor, declamador e poeta, director do jornal “Poetas & Trovadores”. Recebeu o Prémio de Poesia da APE de 1981, o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada.


MEU AMOR

No teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.
Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.
Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.
Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido
Dou-te o meu nome
raíz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos
mas é por outra que vivo


O AMOR É...

O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prémio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. É a pele de um sorriso.


NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
                                           /clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma atormentada

desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

domingo, 18 de novembro de 2018

[0424] MÚSICA PARA O DOMINGO (9). Hoje, Procol Harum em "A Salty Dog" (2006, Ledreborg, Dinamarca), música de Gary Brooker e letra de Keith Reid


A SALTY DOG

"All hands on deck, we"ve run afloat" I heard the captain cry
"Explore the ship, replace the cook, let no one leave alive!"
Across the straits, around the Horn, how far can sailors fly?
A twisted path, our tortured course, and no one left alive

We sailed for parts unknown to man, where ships come home to die
No lofty peak, nor fortress bold, could match our captain's eye
Upon the seventh seasick day we made our port of call
A sand so white, and sea so blue, no mortal place at all

We fired the gun, and burnt the mast, and rowed from ship to shore
The captain cried, we sailors wept, our tears were tears of joy
Now many moons and many Junes have passed since we made land
A salty dog, this seaman's log, your witness my own hand

[0423] Ruy Ventura, a voz vinda da serra


Nascido em Portalegre em 1973, Ruy Ventura é professor, investigador, ensaísta, tradutor e poeta. Foi Prémio Revelação em 2000. Tem vários livros publicados.


POEMA

o sangue dissolve a cor. o encantamento.
descreve esses olhos sem fogo. a saliva
correndo por entre os lábios.
o vidro estilhaça o cabelo. arde nesta ferida.
afoga essa alma. sob o ventre. por entre as ervas.
duas aves submergem a floresta.
esvoaçam junto do poço, tentando revelar
a corda e o desespero.
a fotografia permanece. noutro continente.
estilhaça o ventre. os lábios. essa memória.
rasga para sempre
o sono mais profundo.
as asas mudam de cor.
(a criança tenta conter a respiração.)
a terra rejeita essa seiva.
devolve sem vento a água e a garganta.
a fronteira esboroa o coração.
a cor dissolve o sangue. o óvulo
apodrece entre dois carvalhos.
a raiz agarra esse espelho.
a morte encaminha esses lábios
para o grande lago.
ao longe, a criança observa a ferida.
o braço percorre essa língua. a mão descobre
na boca a madeira.
(que cinza restará deste silêncio?
o arco quebrando a angústia?
a torre vigiando a nossa sede?)
a água condensa entre as linhas
a seiva e o desespero.
sem erva, o pórtico conserva
algumas palavras. noutra língua.
os limos desenham no tanque
esse segredo.
a viagem continua.
continua enquanto os fantasmas
revestem de morte
o crepúsculo e a madrugada.


SEGREDO

que torre espreita nesse lume que não vejo?
sem regra, o alicerce silencia o veneno –
horas e horas sem fogo. séculos e séculos
sem força para descobrir a morte
no campo que hoje não vigia.
torre – ou apenas a legenda do tempo?
verbo segurando o devir e a sombra – desta terra?
jamais subirei essa escada. escavaram o alicerce.
encheram-no de flores, de folhas mortas,
de entulho – vozes e raios de sol sobre o lado esquerdo
e um mastro com (h)eras e flamas
silvando a alegria.
torre e castelo que não vejo. facho que oiço
sem palavras, a crepitar sobre o bosque,
iluminando vestígios que não encontro.
a fonte alumia. a efígie obscurece –
mesmo escondida sob os ramos.
sobre a rocha, a memória permanece.
assim. em segredo. como a cal
– segurando essa palavra.


FORTALEZA

que fortaleza guarda a altura desta torre?
por entre as grades, ao longe,
o teu olhar vislumbra outro coração.
sem cor, sem sombra, sem sopro
de vento desalinhando os cabelos.
entre casas e árvores
desenharam rostos e palavras,
com ouro,
mas sem oiro –
silvando por dentro, na distância
entre o entulho e a memória.
uma fenda recorda-nos ruínas –
há tanto tempo sem água.
e no largo vão
por onde mal passa essa imagem
a chuva aquece a luz
desses olhos que não podemos ver –
acolhendo sob o arco a lonjura
e a respiração da carne.

[0422] Torquato da Luz, a sensibilidade


Torquato da Luz nasceu em Alcantarilha em 1943 e faleceu em Lisboa em 2013. Jornalista, professor e poeta, director dos jornais “Jornal Novo” e “A Tarde e da RTP 2, pertenceu à Alta Autoridade para a Comunicação Social 


PAIXÃO

A vida ou é paixão ou não interessa,
tudo o mais é somente imitação
e, por mais que dês voltas à cabeça,
não acharás outra razão
que dê sentido a esta caminhada
de aparente rumo ao nada.

Apenas a paixão sabe explicar
o que não tem qualquer explicação:
esta urgência de se dar
sem supor compensação.


APENAS AFLIÇÃO

Apenas aflição e nada mais.
Um arrepio correndo o corpo todo.
Estar aflito é um modo
de estar com os demais.

Aflito. Como se um rio
de súbito saído do seu leito
afogasse o navio
do corpo a que estou sujeito.

Não temas. É aflito que escrevo.
Aflito realizo
ser de tudo o que vejo o dono e o servo.

Tudo o mais que preciso
é saber que me devo
um permanente aviso.


O QUE DER E VIER

Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.


QUANTAS VEZES TE ESPEREI NESTE LUGAR

Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.

Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.


PRESENÇA

Já não estás onde estavas, já não estás
onde sempre te vi.
Mas, olhando o lugar, sinto-te aí
e recupero a paz.

O que conta não é o que se sabe,
tão-pouco o  que se vê.
O que conta é aquilo que não cabe
dentro dos olhos, mas se crê.

sábado, 17 de novembro de 2018

[0421] Virgílio de Lemos, a rotura com o colonialismao


Diogo Virgílio de Lemos nasceu na ilha de Ibo em 1929 e faleceu em Paris (França) 2013. Jornalista, escritor e poeta, foi um dos fundadores da revista “Msaho” em 1952, assumindo a rotura com a literatura colonial portuguesa, defendendo as ideias independentistas “avant la lettre”, esteve preso pela PIDE em 1961, teve que exilar-se em França (1963). Usou também os pseudónimos de Lee-li Yang, Bruno dos Reis e Duarte Galvão. Alvo de um processo judicial em 1954 por alegados insultos à bandeira portuguesa (tratada por “capulana”) 


VIAGEM PELA RUA DOS CASINOS

                              ao Fernando Ferreira / ao Reinaldo F.

A velha rua dos casinos ri-se
velha cigana, tempo
que vai a rua para dar
um ar da sua graça:
na noite, guerras de sedução,
passeiam-se velhas e jovens
putas, marinheiros, músicos,
mangas de alpaca.
Corpos que se exibem, sexos
que ejaculam,
do solitário deserto
ao imprevisível
vulcão



DO MAR O INCRIADO NASCE

A ilha existe não porque a achasse
mas porque a nomeias coração ao vento
capaz deste segredo vontade grega
de amar o que a alma intui e cria.

E de tal modo ela seria e é desejo
que tudo esqueço para vê-la nua
devir do sentido no seu sentido vago
louco amor agreste que a utopia apela.

Na ausência de limites para o que sonhas
vacilante avanço ágil mas sem asas
sem medida luz do fragmentado verbo.

Rio e choro sendo a máscara e o rosto
nomeado língua capaz do que não sei
suspenso o tempo do mar o incriado nasce.


A ILHA E O SEGREDO

Visão
colada à bruma
no infinito ponto
do rosto do eterno
a transparência Persa negro e brando
cabaias e cofiós
de seda e linho
em pontilhado, aurora
minha utopia que sangra

Nos mármores róseos
da fortaleza
tua consciência, livre
recria o nada

[0420]


[0419] Alice Vieira, as palavras


Alice de Jesus Vieira Vassalo Pereira da Fonseca nasceu em Lisboa em 1943. Jornalista, escritora e poeta, distinguiu-se principalmente pelo seu trabalho na literatura infanto-juvenil.


SEMPRE AMEI POR PALAVRAS

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero


AQUELE QUE O MEU CORAÇÃO AMA

Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo quem parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda


A LÍNGUA SOBRE A PELE

A língua sobre a pele o arrepio
Os teus dedos nas escadas do meu corpo
As lâminas do amor o fogo a espuma
A transbordar de ti na tua fuga
A palavra mordida entre os lençóis
As cinzas de outro lume à cabeceira
Da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
Nada do que era teu vou devolver.


ENTRE A SALIVA E OS SONHOS

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar
e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

[0418] António Correia de Oliveira, o neo-garretismo


António Correia de Oliveira nasceu em 1879 em S. Pedro do Sul e faleceu em Esposende em 1960. Jornalista, funcionário público e poeta “oficial” do salazarismo, nacionalista, saudosista e neo-garrettista.


O PERFUME

O que sou eu? – O Perfume,
Dizem os homens. – Serei.
Mas o que sou nem eu sei...
Sou uma sombra de lume!
Rasgo a aragem como um gume
De espada: Subi. Voei.
Onde passava, deixei
A essência que me resume.
Liberdade, eu me cativo:
Numa renda, um nada, eu vivo
Vida de Sonho e Verdade!
Passam os dias, e em vão!
– Eu sou a Recordação;
Sou mais, ainda: a Saudade.


PELA PÁTRIA

Ouve, meu Filho: cheio de carinho,
Ama as Árvores, ama. E, se puderes,
(E poderás: tu podes quanto queres!)
Vai-as plantando à beira do caminho.

Hoje uma, outra amanhã, devagarinho.
Serão em fruto e em flor, quando cresceres.
Façam os outros como tu fizeres:
Aves de Abril que vão compondo o ninho.

Torne fecunda e bela cada qual,
a terra em que nascer: e Portugal
Será fecundo e belo, e o mundo inteiro.

Fortes e unidos, trabalhai assim...
- A Pátria não é mais do que um jardim
Onde nós todos temos um canteiro.


A DESPEDIDA

Três modos de despedida
Tem o meu bem para mim:
- “Até logo”, “ até à vista”
Ou “adeus” – É sempre assim

“Adeus” é lindo, mas triste;
“Adeus”… A Deus entregamos
Nossos destinos, partimos,
Mal sabendo se votamos

“Até jogo” é já mais doce
Tem distância e ausência, é certo;
Mas não é ano e dia
Nem tão-pouco algum deserto

Vale mais “até à vista”
Do que “até logo” ou “adeus”;
“À vista” lembra. voltando
Meus olhos fitos nos teus

Tem modos de despedida
Tem, assim, o meu Amor;
Antes não tivesse tantos!
Nem um só… Fora melhor.

[0417] Eduardo White, o poeta que atirou o pau ao gato


Eduardo Luís Meneses de Costley White nasceu em Quelimane em 1963 e suicidou-se no Maputo em 2014. Artista multidisciplinar, integrou o movimento literário moçambicano conhecido como “Geração Charrua” aparecido em 1984, crítico da distopia que começava a viver-se no seu país e da poesia do establishment (como ele apontava, atirava “o pau ao gato”, desafiadora). É um dos poetas representados no Museu de Val du Marne (França). Foi Prémio literário Glória de Sant’Anna de 2013. 


PAÍS DE MIM

O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.


O QUE VOCÊS NÃO SABEM E NEM IMAGINAM

Vocês não sabem
Mas todas as manhãs me preparo
Para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
As poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
O vinagre para as mágoas
E o cansaço que usarei
Mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
Estou no meu respeitoso emprego:
O de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
Felizes em seus ostentosos cargos,
Em suas mesas repletas de ofícios,
Os ares importantes dos chefes
Meticulosamente empacotados em seus fatos,
A lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
À porta de casa,
Agradece-me o esforço que é mantê-lo
Alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
Me lembra o pão que devo trazer,
Os rebuçados para prender o Sandro,
O sorriso luzidio e feliz para a Olga,
E alguma disposição da que me reste
Para os amigos que, mais logo,
Possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
Já com as obrigações cumpridas,
Rumo a casa.
À porta me esperam
A mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimentos de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
Um expresso cansaço nos olhos,
Para que de mim se apiedem
E se esmerem no respeito,
E aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
O jantar de três
(que o poeta inconsta
Na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
Um largo bocejo
E do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
Junto ao resto da roupa,
Com aquele jeito que só ela tem
De o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
E é com ele que amo
Escrevo versos
E faço filhos


POEMAS DA CIÊNCIA DE VOAR

Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja
Procura um claro instante para a aparição.

Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.

Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro

Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum / sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso conosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemos esse desejo / de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

[0416] José Sesinando, o escrituralista

De seu nome José Sesinando Palla e Carmo, nasceu em Lisboa em 1923 e em Lisboa faleceu em 1995. Escritor, ensaísta, crítico, tradutor e poeta, caracterizou-se pelo seu humor, foi cofundador e dirigente do PEN Clube Português.


EPIGRAMAS ÉPICO-CONJUNTURAIS

                                 I

«Demito-me!» exclamou o Governante.
«De quê?» - perguntou o próprio suportante:
«Demitido já está - quando não jante
nem almoce o povo seu garante.»

                                 II

«Dissolva-se!» - decretou o Presidente.
«O quê?» - perguntou-se toda a gente:
«Dissolvido já está, naturalmente,
um regime de si-próprio diluente.»

                                 III

«Discordo!» - potestou o Governante.
«De quê?» - perguntou o Presidente.
«Contra si-próprio acaso é protestante?
A si-próprio agora ferra o dente?»

                                  IV

Nunca unido assim foi no votante;
raras vezes, assim, unanimemente
e de modo de tal modo confiante
a Oposição no Governante teve agente.

                                   V

A lição, no fundo, é confortante:
se o zarcão é o seu autodissolvente,
a economia. em nós, é uma constante.
Somos, ou não, um povo inteligente?

[0415] Eugénio Lisboa, voz desassombrada


Nascido em Lourenço Marques em 1930. Engenheiro electrotécnico, professor universitário, diplomata, ensaísta, crítico literário e poeta, foi presidente da Comissão moçambicana da UNESCO. Usou também os pseudónimos literários de Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca para se proteger da censura salazarista. Viveu e estudou em Portugal, exerceu funções na África do Sul, em França e na Suécia. Sempre se assumiu como anticolonialista. Distinguido em 2018 com o Prémio Tributo de Consagração.


A MÚSICA DAS CORES
                   
                           ao Ângelo

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.


PTOLOMEU

Como todos, sou mortal:
minha vida é um dia.
Mas quando sigo, fatal,
no céu que nos alumia,
a multidão das estrelas,
sinto, deslumbrado nelas,
meus pés, do chão, levantar.


POEMA SOBRE LOURENÇO MARQUES REVISITADA

Regresso, mas não regresso
ao paraíso perdido,
ao centro de mim, possesso
de quanto, aqui, retido,
de novo vejo, sem ver,
sendo eu quem já não sou:
mundo outro eu quero haver,
nesta fome em que me dou.
Este mar (a cor, a vida)
durou só o que durou:
a corrida é já perdida
e o barco naufragou.

No entanto, a casa é minha,
mesmo podre e desdourada:
o calor é o que antes tinha,
nela está minha morada!

(O frio é apenas meu
e não da velha cidade:
só em mim esmoreceu
o calor da mocidade.)

[0414] João Apolinário, o poeta anarquista


De seu nome João Apolinário Teixeira Pinto, João Apolinário nasceu em Belas em 1924 e faleceu em Marvão em 1988. Jurista, jornalista e poeta, foi correspondente de guerra em França durante a II Guerra Mundial, facto que o firmou como opositor ao fascismo e motivou à prisão e tortura pela PIDE, aos cárceres de Peniche e ao exílio no Brasil, onde se tornou uma referência da crítica literária. Lidara em Paris com os intelectuais do Café de Flore e foi cofundador do Teatro Experimental do Porto. Em 1975 regressou definitivamente a Portugal.


PRIMAVERA NOS DENTES 

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera


É PRECISO AVISAR TODA A GENTE

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores


MATURIDADE

Quis tanta coisa
não quero nada
O que é que muda
para ser assim

Quis e não quis
tornei a querer
e sem saber
porque é que quis
o que não quis

Só quis fazer
o que não fiz

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

[0413] Hoje à tarde


[0412] No centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen

Veja o site do centenário AQUI

[0411] Aureliano Lima, o escultor poeta


Nasceu em Carregal do Sal em 1916 e faleceu em Vila Nova de Gaia 1984. Escultor, desenhador, medalhista e poeta. Durante muitos anos viveu em Coimbra, foi bolseiro em Paris, antes de se transferir para o Porto e Vila Nova de Gaia. Recebeu o Prémio Galaico de Poesia


POEMA 

Ah, eu o sei pelos rios vitalícios.
Eu o sei pelos vivos em seus
teares: é aqui que levanto
o amor ressuscitado, entre

o coração e o dardo. Sei-o
pelo arado, entre o ser e o
círio, pelas páginas
de dentro, em que as coisas

se veneram na combustão
das metáforas descalças:
aves que foram ontem;
lâmpadas que foram soltas,

enquanto as sílabas, em seus
ocultos olhos, nos fixam
como punhos e se deitam
ou nos dizem que o

espírito é um malmequer
aberto, um espinho
e um arco, o lugar
do abismo sob o vácuo.

É aqui que se erguem os braços,
líquidos como navalhas,
álgidos como faúlhas, em
seus dedos múltiplos.