segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
[0528] Eduardo Quina, professor de poesia
Nascido em Bragança embora se considere madeirense (reside no Funchal), Eduardo Quina é professor de Filosofia e poeta.
(A PROPÓSITO DE ANDORINHAS)
para o Diogo Vaz Pinto
na tua estória havia andorinhas. nesta
há andorinhas e outros pássaros mortos
às mãos impunes da minha infância.
neste terra construí primariamente
o princípio de toda a solidão - talvez seja essa
a mais curta distância entre duas pessoas.
uma residência de estudantes e um regime
militar: escola, comer, estudar, dormir.
foi este o ritual de passagem para a adolescência.
(agora só a memória dos que aí habitaram).
depois havia as histórias, não só de pássaros, mas
de cerejas, maçãs e outros roubos menores (onde por vezes
éramos corridos a tiros de lapada).
o jardim da vila e a perseguição sempre inconsequente
do seu fiel jardineiro. jardim que teimávamos
em violentar através de jogos de futebol
e outros projectos de destruição.
no espaço que hoje, ironicamente, se apelida
de casa da cultura, alguns procuravam, longe do mundo,
a construção inocente de um cancro através dos
primeiros cigarros.
depois havia a descoberta do princípio freudiano
do prazer.
e assim vivia num jogo de irrealidades, onde de casa.
da escola? apenas o esquecimento da memória
e as mãos de inverno da professora de português
e entrarem-nos pelo pescoço abaixo:
era o princípio do castigo.
SEM TÍTULO
de manhã a língua, ainda entorpecida,
solta os primeiros equívocos. sentas-te, porque
o corpo ainda estremunhado não aguenta de pé.
sobre a mesa, desenhados com perfeição, pequenos
círculos de garrafa. destroços do massacre da noite.
não tens respostas porque a memória se despenhou
dentro do álcool e dentro da noite.
a morte ou a vida, ambas tragédias inexplicáveis,
atormentam-te as palavras no espaço oco da boca.
voltas a deitar-te porque a realidade
é uma coisa estranha e não sabes como explicá-la.
viras a cabeça e o resto do corpo
e a música escurece o quarto: estás pronta
para mais um desassossego.
SEM TÍTULO
nenhuma palavra que possamos dizer nos salva.
definhamos dentro do nosso próprio vazio
e temos que obedecer à noite por nós traçada.
à hora do costume no lugar do costume
encontramo-nos para discutir questões quotidianas.
mendigamos uns copos para enganar a suposta dor:
afinal somos poetas.
sofres a pertença
a uma geração de merda.
somos os copos que vão preenchendo a mesa,
um lugar de eterno vazio:
cães à espera da morte.
não uma morte física - isso seria demasiado fácil -
mas uma morte metafísica
no poema
onde definhamos entre palavras e rumores de opressão.
domingo, 30 de dezembro de 2018
[0527] Eduardo Guerra Carneiro, a poesia quotinocturna
Nasceu em Chaves em
1942 e faleceu em Lisboa em 2004. Jornalista, escritor, cronista, tradutor,
argumentista e poeta, cofundador da revista “Setentrião”, cujo movimento
integrou. Foi ainda cooperante na Guiné-Bissau.
AUTO-RETRATO
Quantas horas não choras a pensar
em ti - quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado - assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.
Quantas horas não choras a pensar
em ti - quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado - assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.
AFINAL ACABO SEMPRE
POR FALAR DE TI
Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia no regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.
Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia no regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.
O CAROÇO DO REMORSO
«Ele estava cada vez mais cansado e
lá fora as maçãs caíam das árvores»
Peter Handke
)
Voltava-lhe outra vez aquele remorso:
a maçã de Adão não lhe cabia
na camisa. Mais do que o medo era
esse tal remorso: o ter deixado a meio
qualquer coisa que podia ter feito.
Procurava razões e nem bolsos tinha
onde as encontrar; fingia esquecer
e outra vez, anda, o remorso batia
no seu cansado peito. Não falemos
de sentidas dores, mágoas, mesmo
da sentimental lágrima: o sentido
é outro. Assim: remoía o caroço.
Mas estava cada vez mais cansado
e lá fora as maçãs caíam das árvores.
sábado, 29 de dezembro de 2018
[0525] Ainda dentro da época natalícia, mais um poema de José do Carmo Francisco
O CRISTO DE MADEIRA DA RUA ANCHIETA
Uma coroa mas de espinhos
Faz sangue no incauto rosto
Passam os homens sozinhos
Do sobressalto ao desgosto.
No Natal que se aproxima
Tão veloz como uma luz
Entre a lágrima e a rima
Surge o busto de Jesus.
Num bocado de madeira
Trabalho de artesanato
Uma peça de oliveira
Que ultrapassa o retrato.
Porque extensão e volume
Dum rosto hoje distante
Lembram traição e ciúme
Do suposto bem-pensante.
Sacerdote incontestado
Entre Herodes e Pilatos
O povo tinha gritado
Por Barrabás e seus actos.
Na varanda e na bacia
Quem lava as mãos a chorar
Sabe que no fim do dia
A água não chega ao mar.
Travada pela secura
Do deserto da indiferença
Escondeu-se numa escritura
Sem sequer pedir licença.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
[0524] Bernardette Capelo, a peosia bissexta
Maria Bernardette Capelo-Pereira nasceu na Guarda em 1948. Professora e poeta bilingue, formada em Paris, cofundou a revista “Palavras”.
ÁRVORE IMAGINÁRIA
“oh noite, folha imensa e brilhante, desprendida da árvore invisível que cresce no centro do mundo”
Octávio Paz
Na vigília vibra um violino, suave choro de Orfeu por entre
um rumor de folhagem. Só tu vês: uvas, figos, doces gotas de
negrura pausada. Fontes: corpos. Teu olhar não volvas que é pó
o rasto de teus passos ardentes. Apenas no teu canto arde
um sopro lírico de não ter sido cego à linha iluminada
no céu plúmbeo desliza sobre as horas quebradas.
Tensas cordas sustentam inquietas
mutações: visitam-te palavras aladas que nenhuma
boca profere sons que abrem cenas cantadas
no palco da madrugada. Respiro a maresia de barcos
límpidas águas reflectem o brilho das espadas
invisíveis. Sobre a transparência de um fogo se levanta
e ilumina todas s sombras.
Toco os secretos frutos da árvore imaginária.
[0523] Daniel Maia-Pinto Rodrigues, o poeta do quotidiano
Nascido no Porto em 1960, galardoado com o Prémio Nacional Foz Coa Cultural em 1993.
O BRILHO DOS TEUS OLHOS
I
Decerto que já te falei da contemporaneidade
e mesmo do brilho dos teus olhos.
Hoje talvez estivesse mais inclinado
exactamente
a falar do brilho dos teus olhos
na vulgar distância
entre o teu queixo e os teus seios
no traço oscilante e perfumado das clavículas
na claridade envergonhada das omoplatas.
II
Da contemporaneidade tu já sabes o que penso
agora talvez comesse qualquer coisa.
Perdão, querida, tens anchovas no armário?
yes!? com alcaparra... it's wonderful!
vinho, meu amor vinho pelas gargantas de veludo.
III
Não adormeças logo agora
que eu estava mais fluente e disposto
a falar-te, ainda que de novo, na contemporaneidade
ou não adormeça eu
logo agora
que o teu cabelo se encosta
à suavidade das almofada
animando o amor do Donald e da Daisy
que, entretanto, já transpuseram
a barreira lisa do pano e do desenho
e se encaminham já para o quarto ao lado.
DESPEDIDA
Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia.
Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
e vou tomar café com muito açúcar.
Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade.
E quando tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te o horizonte com barcos.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
[0522] Inês Lourenço, a poesia das coisas não importantes
Nascida no Porto em 1943. Professora e poeta, coordenou os “Cadernos de Poesia”.
PORTUGUÊS VULGAR
O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.
PRIMEIRA CASA
Muitas vezes, por outras casas
e noutros países sonhava
com o soalho antigo e a varanda
onde um entardecer de plátanos
enchia o peito de uma secreta
ansiedade, sem motivo. O quarto
da Mãe, esse lugar de mistérios
fixara-se na sua memória, como
um quadro de autor irremediavelmente
perdido. Sempre que regressava
minguava-lhe a coragem adiada
para pedir aos ocasionais locatários,
a permissão provavelmente estranha de
uma visita. Um dia a velha casa
debruçada sobre os telhados,
apareceu-lhe quase demolida e agora
avultava como um dente postiço, com
uma loja de lingerie barata no
rés-do-chão e um par de janelas
com alumínio e sem mistério
onde os plátanos, há muito ceifados
pelo asfalto, recusariam entardecer.
DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS
Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão
Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.
[0522] Vergílio Alberto Vieira, a poesia translúcida
Nascido em Amares em 1950. Professor, escritor, dramaturgo, crítico literário e poeta, ganhou o Grande Prémio da Literatura de 2001 e 2003, além dos prémios Correntes d'Escritas, Cidade de Almada, DST-Braga, Teixeira de Pascoaes, Florbela Espanca, Manuel da Fonseca, Sebastião da Gama, Natércia Freire, Maria Rosa Colaço, António Cabral, entre outros.
O INVENTOR DE RIOS
Atraídos ao engano,
Pelo homem, que os esqueceu,
Sobem à terra, que o ano
A terra desmereceu.
O sol bebe-lhe o sangue;
Cansa-a, de fome, o arado.
Pobre terra, terra exangue,
Quem, pois, lhe dará cuidado.
Terá, o homem, o que quer,
Quando aperta a carestia,
Se assim a Deus aprouver
Como ao pão de cada dia.
Nasça, das mãos, a promessa
De outro tempo, outra vontade.
Qual jornada que começa,
Quando a vida é novidade.
Nasçam mares, onde o deserto
Castigou quem nada tem,
P’ra que o mundo então liberto
Não seja terra de alguém.
Inventem-se novas ‘speranças,
Novos caminhos, sinais,
Laços de amor, alianças,
Entre povos imortais.
POEMA
Venho de Elêusis a inefável
onde o arco de Hélios
Me revelou em sonho o rosto de Perséfone
No relastérion
Essa presença esquiva espero agora
Sem cessar sou jovem
A beleza persigo na terra com ardor
Das coisas feitas apenas sei
O que a um deus
Presságio algum proibe
Das coisas ditas o que a ouro debruam
As paisagens
Enquanto Perséfone escrutina
O trevo e a morte
A ÁRVORE DO VIAJANTE
Do génio a que deu abrigo,
Sem ser por obrigação,
Ninguém sabe, ser amigo
Não exige condição.
Para o que casa não tem,
É sempre longa a viagem.
Dar, pois, sem olhar a quem,
Que caminho é passagem.
Por muito mais receber,
A seu favor o que dá
Nada lhe falta para ser
Quem mais tem, se nada há.
Sombras podia vender
Aos que o sol castigava,
Mas antes pôr a render
Consolo a quem passava,
Deserdado, peregrino,
Andarilho, mercador,
Umas vezes, sem destino
Buscando seja o que o que for;
Outras, terras demandando,
Da promissão desejada
Que não se sabe até quando
Um dia, nos leva a nada.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
[0521] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (12) Nuno Rebocho, o viajeiro (este poema de terça sai em quarta, por motivos "natalícios" da redacção de IM)
Viajeiro depois dos anos de prisão a que a ditadura salazarista o votou, o poeta guardou sempre a memória das paisagens que marcaram a sua vida. É exemplo este poema dos seus “Cantos Cantábricos” onde se expressa a solidariedade para com os povos “silenciados” e atirados para o “labirinto do sofrimento”.
SEGREDOS QUE RASGAM OS MEDOS
meu povo curdo, meu povo corso, meu povo basco
árvores sem chão no chão de todos
de quem o vento fala. irmãos vos chamam
mesmo quando as bocas calam
e as mãos enganam
irmãos no labirinto do sofrimento onde as casas esperam
o regresso das vidas e dos berços
até que as mães esqueçam os seus medos.
em vós me aqueço nas estevas da memória
sobre o chão sagrado que as lágrimas ferem.
por que rumos vamos? o século murcha
e caminhamos nas franjas da ousadia
rente aos penedos que encobrem a alegria
- e vamos com as chagas de cada dia
para junto ao silêncio rasgar segredos
[0519] Rosa Alice Branco, a poesia do passo ágil
Nasceu em Aveiro em 1950 e vive no Porto. Escritora e poeta.
HORA DE PONTA
Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto ã hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.
O PECADO DA GULA
Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.
É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.
SERENATA À CHUVA
Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto de poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.
[0517] Bernardino Guimarães, o ambientalismo em prosopoemas
Nasceu no Porto em 1960. Ambientalista e consultor da RTP, escritor e jornalista independente, editou a revista “Tribuna da Natureza” e foi um dos fundadores do FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens e também da Associação de Defesa do Ambiente Campo Aberto.
O CREPÚSCULO
Hoje de tarde achei que o crepúsculo é um erro ortográfico. O entardecer sanguíneo, sem estrelas para compor o vazio. Mas conheço a voz do mar: é rouca, grave, definitiva.
O crepúsculo é um adeus. As cores despedem-se e peço-te a mão, o braço, o cigarro, os lábios que dão sentido às escadarias onde nos sentamos.
O crepúsculo é uma maneira de tudo acabar em apoteose ardente.
O absurdo ronda-nos. (o riso das ondas, o olho mordaz de um farol.)
A AVE
Um dia. O melro no meio diz: dia. Encontro a palavra, digo: palavra. E ela vem. Uso a voz, ouso-te falando. Eco é o ar que escuta. Diz a pedra: fico. Sei-lhe ser mago, e falsário. Ensino nas mãos o pássaro inicial. Seio de sabê-lo, pereço, porque não voo. Um dia. O céu de esponja encontra o verbo. Pendurado no vento, forço a alma, ácida, de almeida e nuvem. Ouvem-se ruídos e caem calendários, pesados. A ave nítida, desprendida do sono, diz: madrugada. E ela nasce.
PALAVRAS, PALAVRAS
Marítima a maneira de olhar. Fácil a tarefa das mãos, pousadas. Queres que recorde, ou quero eu que queiras tanto. Está bem. A luz molhava os movimentos. Tínhamos por detrás a cidade. Claro que era cinema e poesia. Um simples sorriso súbito e era claro aquele momento. Porque se geravam sombras e sobras de vultos naquela luz inclinada. Claro que escurecia. Era manhã como as macieiras são macieiras, antes de terem nome, mas escurecia. Não sei se a memória não me trai, quando em palavras as nuvens formavam um alfabeto denso e húmido, que as nossas vozes procuravam traduzir. Sei que a cidade nos servia de cenário e as nuvens de biombo. Porque era manhã nos teus olhos e em mais nenhuns isso se via, tão claramente. Queres que descreva os trabalhos da ave, a asa do vento? Foi um tempo de sombras medindo-se e de chumbo no céu, ameaçando gaivotas. Doce a maneira de lembrar, fácil o gesto dos ombros. Palavras, palavras.
O CREPÚSCULO
Hoje de tarde achei que o crepúsculo é um erro ortográfico. O entardecer sanguíneo, sem estrelas para compor o vazio. Mas conheço a voz do mar: é rouca, grave, definitiva.
O crepúsculo é um adeus. As cores despedem-se e peço-te a mão, o braço, o cigarro, os lábios que dão sentido às escadarias onde nos sentamos.
O crepúsculo é uma maneira de tudo acabar em apoteose ardente.
O absurdo ronda-nos. (o riso das ondas, o olho mordaz de um farol.)
A AVE
Um dia. O melro no meio diz: dia. Encontro a palavra, digo: palavra. E ela vem. Uso a voz, ouso-te falando. Eco é o ar que escuta. Diz a pedra: fico. Sei-lhe ser mago, e falsário. Ensino nas mãos o pássaro inicial. Seio de sabê-lo, pereço, porque não voo. Um dia. O céu de esponja encontra o verbo. Pendurado no vento, forço a alma, ácida, de almeida e nuvem. Ouvem-se ruídos e caem calendários, pesados. A ave nítida, desprendida do sono, diz: madrugada. E ela nasce.
PALAVRAS, PALAVRAS
Marítima a maneira de olhar. Fácil a tarefa das mãos, pousadas. Queres que recorde, ou quero eu que queiras tanto. Está bem. A luz molhava os movimentos. Tínhamos por detrás a cidade. Claro que era cinema e poesia. Um simples sorriso súbito e era claro aquele momento. Porque se geravam sombras e sobras de vultos naquela luz inclinada. Claro que escurecia. Era manhã como as macieiras são macieiras, antes de terem nome, mas escurecia. Não sei se a memória não me trai, quando em palavras as nuvens formavam um alfabeto denso e húmido, que as nossas vozes procuravam traduzir. Sei que a cidade nos servia de cenário e as nuvens de biombo. Porque era manhã nos teus olhos e em mais nenhuns isso se via, tão claramente. Queres que descreva os trabalhos da ave, a asa do vento? Foi um tempo de sombras medindo-se e de chumbo no céu, ameaçando gaivotas. Doce a maneira de lembrar, fácil o gesto dos ombros. Palavras, palavras.
[0516] Boas novas de António Pires Cabral no "após" Natal
De António Manuel Pires Cabral vieram alvíssaras no “sapatinho”: uma receita para o post-Natal. “Ibn Mucana” bate palmas.
BOAS NOTÍCIAS
Boas notícias. Cientistas estão em vias
de sintetizar o princípio de natal,
criar uma espécie de reforço vitamínico
para a bonomia sazonal.
A droga actua sobre os centros nervosos
onde se crê que reside a aptidão
para gerar ódio, malquerença e egoísmo,
e faz de cada homem um irmão.
Tem um contra: só actua em dezembro.
No resto do ano é inócua, não alcança.
Mas talvez seja melhor assim:
que diabo, ser sempre bonzinho também cansa.
De futuro, um mês antes, já se podem ingerir
pílulas de natal após as refeições,
de forma que,quando o dito por fim chegue,
estejam repletos de natal os corações.
Quer dizer: está ao nosso alcance
interagir pela química com o calendário.
Passarmos a tratar o espírito do natal
como se fosse uma gripe ao contrário.
Muitos torcem o nariz e dizem
que a droga é no fundo uma espécie de vacina
- e nada mais do que isso -
contra o medo de ver o fundo da latrina.
domingo, 23 de dezembro de 2018
[0515] José Luís Tavares bisa em prendas de Natal ao IM e aos seus leitores. Voltaremos na próxima semana, após a penúltima festa do ano
No seu aconchego português, o grande poeta cabo-verdiano José Luís Tavares oferece aos nossos leitores duas “prendas” natalícias. Agradecemos. Boas Festas!
UM CÁLICE À INTENÇÃO DO MENINO
Dizem-me que nasceste no distante
oriente, numa noite fria como esta.
Isto me dizem. Atentos escrutinadores
do passado atestam tua meninice
num árido país. Nisto, minha infância
foi igual à tua.
Debaixo de coruscantes céus transitei
a penúria, enquanto tu te preparavas
para desígnios bem maiores
— morrer pelos meus pecados,
dizem-me os quatro evangelistas,
apócrifos e fabulistas.
Como poderei, na conta dos desatinos,
ter mais débitos do que tu
se nem tenho o poder de fulminar
a esses que me tiram as guloseimas?
Não senhor meu, te chamarei,
embora por ti nutra tamanha admiração.
Como o fabulista portenho, o que amoeda
e burila, poderia perguntar-me: de que
me serve a mim que tenhas morrido
pregado a uma cruz, se esse teu acto
(alguns dirão que nobre) do sofrimento
me não livra?, nem do naufrágio
a esses que padecem a dominação
dos ventos mas seguem firmes
no trilho dos segredos?
Nesta noite em que na quieta
atmosfera brilham os olhos de minha
filha (milagre novo e tão antigo),
e em distantes ilhas se não suspende
a lavração da bruma, que deus não
sejas, é-me indiferente — à tua intenção
ergo este néctar decantado numa antiga
infância de fornalhas.
***
Treme o trema no cocuruto de noël .
Fora de neve o céu de dezembro,
e não essa torreira de me lembro,
tu, a quem chamo amigo novel,
chegarias de capa e botas altas desde
esse negrume a que chamam pátria? Pátria
são os lidos livros, ou o lume que se pede
quando o escuro leveda num rufar de estria.
Triste dezembro que a piedade reverdece
com o arbítrio do nevoeiro, nas moradas
engelhadas a felicidade é um touro indócil
verrumando a paz dos pátios. Pudesse,
ó piedoso, seria resignado guardião das
veredas onde cresce o teu nome fóssil.
sábado, 22 de dezembro de 2018
[0514] Nicolau Saião revisitado
Nesta quadra, “Ibn Mucana” oferece aos seus leitores este apropriado poema de Nicolau Saião. Com votos de felicidades e novo ano próspero (e com menos impostos)
NATAL 18
Quem fala de Natal perde palavras
à entrada do Inverno, na secura dos dias
no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas
tão de infância e de Agosto. O fogo
misturado: árvores, luzes, fantasmas
e as doces mãos das Avós. E ainda
um postal velho velho cheio de vento e de memórias.
Quem fala de Natal perde palavras, ganha
e perde as demais coisas que as palavras edificam.
“Quem grita no Natal? E Deus
não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos
na fria água do rio? Com seus chapéus à banda
em barcos engalanados
os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos
dizendo estranhas frases, assombrando as moradas
onde afinal não nasce o tal de Nazareth. O sal e o
pão terrenal dos que ainda não foram
pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.
Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.
Para ser do Natal é preciso possuir
uma lembrança ardente, um brinquedo estripado
e muita tristeza feita nos anos em leilão
dos retratos tombando com um nó na garganta.
Para ser do Natal é preciso morrer
e viver de seguida com o sangue nos braços
esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno
junto à porta perdida dum milagre adiado.
Ah falar de Natal! Quem o consente?
O pão e o sal
talvez
de toda a gente. E um olho de animal
pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele
abrindo a água lustral (no bem, no mal)
frente ao horror da morte
terrena e inocente.
Por isso, no Natal
os segredos demoram
e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato
para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz
uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha
dos animais inominados
e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.
No Natal treme a casa, a casa
sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.
E o inventário dá, se estiver certo:
um coração ardido todo azul
uma recordação minúscula que se guardou num bolso
um riso salutar ensanguentado
uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial
uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço
o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã
um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas
uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram
duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida
numa cruz de polo a polo
um hálito que soprado no peito nos enlouquece
um arrepio, uma agonia
uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.
Talvez o Natal seja um rosto
ou uma madrugada de outono
ou um avião nocturno
ou um verão por detrás das coisas aparentes
ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal
ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito
numa rua da cidade
no escuro muito escuro de uma cidade do universo
quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez
que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal
se resuma a filhós e azevias de um outrora
a canecas de café familiar
algures num horizonte, numa idade, num momento
no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.
E a chuva que diabo irá cobrindo tudo
no infinito Natal dos mundos desaparecidos.
[0513] Francisco José Craveiro de Carvalho, a poesia matemática
Nasceu em Alvaiázere em 1950. Matemático doutorado no Reino Unido e professor catedrático, poeta e tradutor.
TERCEIRAS IDADES
Alguma pena tenho
das pessoas que entardecem
como eu aqui penduradas.
Que se esforçam em sudokus
prevenidas
com poucas palavras.
Que se deixam arrastar
pela cozinha básica
do Henrique Sá Pessoa
mas que o preço
das tralhas mínimas
dissuade.
Em casa nas mesas
em vez de jarras
contemplam dicionários.
TRÊS HAIKU
Duas rectas paralelas
nunca se encontram
para falarem um bocadinho
*
Cabeça no ar
a circunferência perdeu o centro
e ficou uma curva uniforme
*
O interrogatório foi tão violento
que o cilindro saiu de lá
um cone.
CARRINHO DE SUPERMERCADO
Nada tingiria o seu corpo
ao sentar-se todas as manhãs
para tomar café
se não fosse o adereço
invulgar mas singelo
do carrinho do supermercado
ali mesmo ao lado.
Despovoado sempre.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
[0512] Olinda Beja, com votos de bom Natal
Para os Dezembros de qualquer ano, Olinda Beja faz chegar um poema muito próprio desta quadra.
APENAS UM SORRISO
Apenas um sorriso
aberto à flor do rosto
abelha mãe em favos de doçura
e será Natal no mês de agosto
ou em maio
ou em julho
ou em janeiro
desde que ames com ternura
desde que vivas
que sonhes
que sorrias
desde que te entregues aos outros
por inteiro
será Natal TODOS OS DIAS!
APENAS UM SORRISO
Apenas um sorriso
aberto à flor do rosto
abelha mãe em favos de doçura
e será Natal no mês de agosto
ou em maio
ou em julho
ou em janeiro
desde que ames com ternura
desde que vivas
que sonhes
que sorrias
desde que te entregues aos outros
por inteiro
será Natal TODOS OS DIAS!
[0511] Jorge Castro, uma voz livre
Nascido no Porto em 1952, poeta e animador cultural, organizou as Noites com Poesia, em S. Domingos de Rana e administra o blogue “Sete Mares”.
A PROPÓSITO DE UM DESENHO DE RAIM
ele há paços de concelhos
ele há paços de outra vida
ele há passos de coelhos
ele há passos de corrida
ele há viver de joelhos
ele há viver outra vida
e se eu me passo p'los paços
por onde passos não dou
sejam eles do paço ou Passos
por aí é que eu não vou!
AS CANÇÕES DA NOSSA LIBERDADE
- um outro poema de referências, como agradecimento a João Balula Cid e aos seus (nossos) amigos em sessão memorável das Noites com Poemas
as canções da nossa liberdade
são da cor das madrugadas da vida
no acaso tanta vez
feito vontade
por valer uma esperança enfim cumprida
são da cor de um olhar ao mar aceso
são o brilho desse olhar na noite escura
são raiz do pensamento enfim coeso
são as mãos da paz
da guerra
e da aventura
as canções da nossa liberdade
são aquelas soltas no vento que passa
alvoroço contra o medo e sem idade
de haver sempre uma candeia na desgraça
uma luz
algum farol
o olhar ardente
essa bola entre as mãos de uma criança
que saltita alegre e viva à nossa frente
e por saber ser assim livre
é cor da esperança
hão-de ser para alguns um leme inteiro
o velame que impele a nau premente
esse grito que nos rasga o nevoeiro
quando o tempo de mudança
é mais urgente
as canções da nossa liberdade
são a carne viva feita de emoções
cada nota
cada estrofe que em nós arde
incendeia aqui e agora os corações
a crescer entre o peito e a garganta
a valer de pena e espada que acontece
quando a noite se finou e amanhece
nesse querer voar que sempre se agiganta
na invenção do amor que nunca é tarde
inteiro e limpo
o dia que enfim canta
as canções da nossa liberdade
A ESPIRAL DEPRESSIVA
um BPN
um BANIF
a PPP
ah, patife!
a trapalhada
a chulice
o poleiro
a aldrabice
o lugar fixe
e o povo…
nada é novo:
- que se lixe!
um presidente
um governo
um acidente
um inferno
coligação
rés do chão
maioria em demasia
e que a tudo valha o demo!
cá nos sobra o despautério
e mais a desilusão
dos mares da corrupção
que já ninguém
leva a sério
uma troika
gasparova
sempre urgente
e homicida
a fazer de seminova
em governo
de saída
de pés p’rà cova
impotente
mas cautela, ó clientela!
também vem aí
a Europa
o FMI
o Obama
a China nova a oriente
essa tropa e essa gente
tão ingente tão ufana
que eu bem nos vi
de repente
limpando o fundo
à gamela
e de bandeira
à lapela
num venha a nós
vosso reino
mas primeiro
que em toda a cidade e vila
mesmo à má-fila
e sem treino
matemos nossos avós
que aquilo são empecilhos
e rendem bem mais
os filhos
do que os egrégios avós
assim nos vai o país
dos heróis
dos marinheiros
dos caracóis
dos dinheiros
sem apelo e sem agravo
de fados sem marceneiros
mas de grunhos
estremenhos
a não valerem um chavo
sem terem terra
também
nem pai
nem mãe
nem ninguém
que lhes prove
sem rebuço
e comprove
sem senão
qual a dimensão
de um chuço
e correr com eles a nove!
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
[0510] José Pascoal, revisitado
Para os leitores deste portal,
ficam as décimas deste poeta torrejano agora publicadas no Brasil.
LUTO ANTECIPADO
Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.
O BENEFÍCIO DA DÚVIDA
Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.
AS MÃOS DO VENTO
As mãos do vento agarram-me
pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.
EXCESSO DE VELOCIDADE
Corres para a desgraça dos
mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.
CONTAGEM DECRESCENTE
Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.
SEM TIRAR NEM PÔR
Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.
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