sábado, 25 de agosto de 2018

[0005] Luto por Luís Amaro


Poeta, editor e bibliógrafo, Luís Amaro foi director das revistas “Árvore” e "colóquio". O seu falecimento magoa e entristece todos os amantes da literatura portuguesa. Jorge de Sena caracterizou a poesia de Luís Amaro: “um tom muito discreto e angustiado, que não chega ao confessionalismo e se mantem numa pessoal reserva quase solipsista e desencantada, em que a amargura de um ser isolado encontra notas muito puras, de uma bela musicalidade íntima”. 

“ibn Mucana” expressa o seu pesar aos enlutados.


BIOGRAFIA

Extrair poesia duma alma
precária, qual a minha,
num corpo frágil,
eu sei… é quase heroico.

Porque cá dentro é escuro,
como falar senão da noite louca,
da morte que nos ronda
e se interpõe
entre o meu olhar e a luz do dia?

E anda um fantasma a corroer a nossa,
nossa alegria…

Como cantar as paisagens belas
se a noite é sem estrelas?

Como falar dos tempos de criança
se nunca tive infância?

E tanto que eu quisera
vibrar à luz do sol
e enleado esquecer-me no mistério
duma flor que nasce
aberta para o mundo
na manhã em que tudo é primavera!


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

[0004] Um poeta de Portugal: m. parissy


m.parissy é o pseudónimo do jornalista Mário Galego. Nascido na Nazaré, a sua poesia impressionista reflecte os pequenos momentos do seu quotidiano. Participou com outros em performances diversas, como “Cinco poetas numa garrafa à deriva no oceano” e “Escrito no xisto”, tendo participado com Jaime Rocha no ciclo de poesia “Diga 33”. É editor de “volta d’mar” (http://voltadmar.tumblr.com/)

Bibliografia poética

·       Dublin
·       pólen
·       noite dos licornes
·       língua
·       ferido
SEM TÍTULO

Na secura das paredes azuis-claro
estava escrito que nada podia
existir. Os pássaros deviam ter
morrido ou então estaria tudo
queimado.

- E o mar?

Dali só se ouvia com vento de
oeste. Subia rua augusta acima. Mas
era impossível saber dentro daquele
sufoco.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

[0003] Saudade para Pessoa, o Fernando



CARTA DE SAUDADE AO AMIGO FERNANDO PESSOA
Nuno Rebocho


meu caro fernando: ainda me lembro
do charro que bailámos no atelier
- arrastavas-te com o pesado arreganho dos cartazes
e a minha mente era tômbola até eu dizer
nunca mais. eu tinha o entusiasmo das verduras
mergulhado na tabacaria mas recusei
atirar-me da janela como vítor fez
quando te descobriu (deixou recado: já não há
mais nada para dizer). entretanto passaram
oceanos e os dias incharam de velhice
(confesso, álvaro: estou velho) mas continuei
pronto para viver olhando o mundo
embora incapaz de fazer o pino: e vieram
outros amigos (o tzara, o apollinaire,
o manuel maria, o drummond, o craveirinha, o vário)
que por aqui passaram
e agora confraternizam contigo
no lugar das coisas
- suponho que não desistiram de escrever poesia
(os poetas nunca desistem). quando eu aí chegar
quero ler esses poemas e escrever convosco
um cadáver esquisito. daqui levar-te-ei chocolates
para adoçar as bocas amargosas das vergonhas
com a metafísica da esperança e contar-te-ei
como os teus direitos autorais enricaram
familiares que te chamavam pobre diabo
e nunca te leram antes de saberem
que as gerações te amavam. depois leram-te
e fingiram perceber.
ah, fernando: rir-te-ás deste mundo.

[0002] "Canções Peripatéticas" - Nuno Rebocho (o livro)

32 páginas
16 poemas
Editora Apenas Livros, Lda., Lisboa 
Colecção literatralhas NOBELizáveis, 93
1.ª edição, Julho.2012, 250 exemplares
Dedicatória: a meus amigos poetas andaluzes que continuam a cantar / a Adrián González Costa  / a Paco Rivera

[0001] "Em nome de Goya" - Nuno Rebocho


EM NOME DE GOYA
Nuno Rebocho, in "Canções Peripatéticas", ed. apenas, Lisboa, 2012


pintava o Surdo o silêncio do sangue

(ah, charneca de amarelos touros!)
e crestava a romaria em San isidro
mais uma chusma de arrolados mouros.
pintava o Surdo a trsteza do vidro.

- de zaragoza que cores alvorotavam para as searas?
de onde roçaram os aromas infantis em bregas de pele
e morderam o pó das apressadas feiras? que bandarilhas
desfraldaram as extremas para o vício dos combates?

pintava o Surdo o negrume das chamas
(ah, charneca de rubros touros!)
e fuzilavam-se peitos sobre la moncloa
por onde se esvaiam dobras de tesouros.
pintava o Surdo o que o olhar não perdoa.

- que vim à sorte de cara lavada por lides de crestadura
que sobestava o que pimpilar não se podia. e em nome
do nome que o tempo dava, o tempo fazia a carne,
sortes de paleta nas muletas se escondiam. era em nome.

pintava o Surdo os dentes de saturno
(ah, charneca de azulíneos touros!)
quando na arena se desconjuntavam muros
pelos disparates de sacrílegos louros.
pintava o Surdo os cornos do futuro.