quinta-feira, 4 de julho de 2019

[0666] Poemas de José Falconi



José Amador Falconi nasceu em Tuxtla Gutiérrez, Chiapas, México, em 1953. Poeta, narrador y periodista. Foi Prémio Iberoamericano de Poesía Carlos Pellicer em 1978 e Prémio Estatal de Poesía em 1979


EL GRAN TONTO
               A don Ramón Martínez Ocaranza. En su estilo y una sola coma

A plena luz
Caen flores que vomita un perro muerto
Por el silencio y su pupila ciega
Por el absurdo tránsito del sueño
Un violín hace ladrar sus cascabeles
En humo y aceites malditos
Y el Gran Tonto
Tendido sobre la gangrena
De los pastos
Calienta el mitín de sus huesos
Bloque de hielo en llamarada
Él viene del sueño
Y como aquello que se nombra y no se nombra
Me dicta estas palabras, oscuras brasas
En sus malabarismos:
“De erizados cristales
Traigo herido mi cuerpo
Por la sombra eleva su canto”


NO ESTÁ ILUMINADA POR EL SOL NI LA LUNA, NI POR LA ELECTRICIDAD

Antes de evaporarme,
ceniza acumulada en la demencia,
antes de convertirme en granizo,
en sombra amarga de un jardín,
debo surcar el espacio sideral,
recorrer su cubierta
y penetrarla hasta el abrevadero
que apagará mi sed.
Ya me crece por dentro una yerba
inmaterial,
se detiene en mis huesos
y no está iluminada
por el Sol ni la Luna,
ni por la electricidad.
¡Ya del todo mi luz se me nublaba!


SONETO

Las noches del amor en sus rodillas
guarda la niña olor de yerbabuena,
sus breves senos en la noche buena
edulcoradas mentas amarillas.

Con sus delirios y sus ironías,
sin vencedor porque los dos perdemos
en un juego amoroso en que sabemos
el dulce gusto de las sodomías.

Y la noche nos tiene desvelados:
te vienes sin piedad sobre mi boca,
en mis nerviosos labios acallados.

Y la sombra al pasar nos repetía:
«En el amor hay una loba loca
que se asombra y padece en alegría».

quarta-feira, 3 de julho de 2019

[0665] O regresso de José Pascoal ao Ibn Mucana


José Pascoal regressa a Ibn Mucana que está sempre pronta a acolhê-lo.


DÉDALO

A noite traz os barcos,
As últimas notícias,
Os vagabundos.

Descemos
Ao subsolo secreto
E desmemorizado.

Olhamos para dentro
Do labirinto em que perdemos
Os nossos passos inseguros.


PÁGINA EM BRANCO

O murmúrio dos muros,
A hera dos sentidos,
Quando te amo nua
Em noite branca e pura.

O lume das palavras
No limiar dos lábios
Ilumina os sinais
Do nosso desvario.

Nesta página em branco,
Neste passo cercado
Por sedento silêncio
Descobrimos o mundo.


LÂMPADA ACESA

Que faz iluminar o medo
Das palavras? Que silêncio
Cala a boca da memória?
Estamos sós neste mundo.
Estamos sós na voragem
E na vertigem dos dias.
Estamos perto de todas
As partidas. Conhecemos
Só a sílaba de luz
Que ilumina este desejo
De falecer sem feridas,
De partir sem despedidas.

[0664] Novo livro de José Luís Hopffer Almada sai em Lisboa

CONVITE

No âmbito da realização da sua Semana de Arte Integrada, a Associação Caboverdeana de Lisboa (ACV) e a Sociedade Cabo-Verdiana de Autores (SOCA) têm a honra e o prazer de o (a) convidar a participar na apresentação pública do livro GERMINAÇÕES E OUTRAS RESTITUIÇÕES DE MARÇO, de JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA (SOCA-Edições), a ter lugar a partir das 18h30 do próximo dia 4 de Julho (quinta-feira), nas instalações da ACV, sitas na Rua Duque de Palmela, nº 2, oitavo andar, ao Marquês de Pombal.

A apresentação do livro estará a cargo do escritor Adolfo Maria e dos Doutores Hans-Peter (Lonha) Heilmair, Anabela Almeida e Maria Raquel Álvares e será abrilhantada com uma sessão musical com George Tavares, Txunin de Fusão, Carla Correia, Heloísa Monteiro e Tonecas Lima e declamação de poesia baseada na obra a ser apresentada.  

No final, será servido um beberete.

Saudações cordiais

terça-feira, 2 de julho de 2019

[0663] Novo livro de Viale Moutinho


Será apresentado, a 4 de Julho pelas 17h30, no Espaço Tertúlia da Feira do Livro de Braga (Largo S João do Souto) o livro de José Viale Moutinho “Inóspita Paisagem” (Editora Labirinto).

[0662] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (28) Nuno Rebocho, o cabo-verdiano adoptivo


Do seu último livro, “Rotxa Scribida”, fica aqui um dos poemas

AS PALAVRAS SÃO A MEDIDA DO TEMPO

quando buzinam os táxis da tristeza
digo-te irmã rabidante
que é duro o pão
da solitude. falo-te das coisas
que o horizonte esconde
e o sol oculta: o sal da insularidade cresta
a pele e o corpo adoça-se na praia
da malícia; o verde queima o interior
na aurora da chuva
e a clandestinidade dos sonhos
rega a liberdade.

eu sei que as palavras morrem camaradas.

as lápides da memória adejam
como gaivotas e são as cicatrizes dos dias.
irmã rabidante
o sangue da internet percorre as artérias
deste silêncio desde o pulmão da saudade
das coisas que nunca acontecem
enquanto o bolor vigia
a doença em cada ilha e tu adormeces
como bolacha de s. vicente
no balcão da padaria:
o mercado não vende a terra longe.

eu sei que as palavras vivem companheiras.

então o som da mandioca desperta-me para ti
irmã rabidante
e eu percebo que é mais amargo o teu pão
do que a minha tristeza - o sabor
da camoca não apaga os vazios que separam
as dores diferentes: eu sofro ausências
e tu quebras os dentes na pedra dos dias.
tu contabilizas o porco
e eu filtro a paisagem
com o minucioso cuidado do sentimento
entre um golo de uísque e as melancolias.

eu sei que as palavras são a medida do tempo

segunda-feira, 1 de julho de 2019

[0661] Uma lengalenga bibliotecária, por Joaquim Saial


LENGALENGA DA BIBLIOTECA PARA GENTE DE BECA

A biblioteca
tem estantes de teca
com livros e revistas
que são ideais
para gente de beca.

Pertence ao Dr. Zeca
que vive na Charneca
e cuja esposa,
senhora sueca,
tem ar de boneca.

Chama-se Rebecca
e é ela quem limpa
o pó à biblioteca.


[0660] Nicolau Saião oferece-nos uma balada de Portalegre


ESTAÇÃO

De Portalegre? Sei onde fica...
Fui lá um dia
co'a tia Anica!
Tinha lá primos
e uma cunhada.
Conheço bem.
Vale a jornada...!

Tem coisas belas
simples, singelas
de nobre terra:
a volta à Serra,
a fonte nova
e uma grande árvore
cheia de brio
quer esteja quente
ou faça frio
lá no Rossio

Tem a Corredoura
mais o Bonfim
(e alguns fulanos
assim-assim...)

E tem o Corro
e a grande Sé
que é imponente
p'ra toda a gente
quer tenha ou não
(queira-o ou não)
a sua fé.
E tem comércio
bem aviado
mais a indústria
de fiação
com bom mercado
p'ra dar o pão
afiambrado!

Vale bem a pena
viver-se lá:
tem gente grada
bondosa, amena
(calva ou barbada)
como não há…
         
        ***

Olhe o comboio que vem chegando!
Então adeus. Tive prazer
em conversar. Céus, que está frio
neste lugar!
                                                 
Sim. Portalegre... Sei onde fica!
Fui lá um dia... Co'a Tia Anica.

Tem a Corredoura
mais o Bonfim
(e alguns malandros
assim-assim...).   

domingo, 30 de junho de 2019

[0659] Novo livro de João Rasteiro

Foi apresentado ontem no Porto, na Livraria Flâneur, o livro de poemas de João Rasteiro “Levedura”, por José Carlos Seabra Pereira, com leituras de Rui Spranger.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

[0658] "Rotxa Scribida", novo livro de Nuno Rebocho, sai em Lisboa

APRESENTAÇÃO DE “ROTXA SCRIBIDA” NA SEDE DA UCCLA

Na sede da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa - Av. da Índia, 110, Lisboa), o poeta e escritor Mário Máximo faz, em 30 de Maio às 18h00, a apresentação em Lisboa do último livro de Nuno Rebocho, “Rotxa Scribida”, edição da Rosa de Porcelana Editora.

Apesar do titulado em crioulo, o autor presta com este livro homenagem a Cabo Verde, país onde residiu largos anos.

Antes da apresentação em Lisboa, “Rotxa Scribida” foi já divulgado no arquipélago cabo-verdiano, nas cidades da Praia e de Assomada.

terça-feira, 21 de maio de 2019

[0657] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (27) Nuno Rebocho, a carta de rumos

Viajando pela ilha do Maio, Nuno Rebocho encontrou a memória dos piratas que no passado ali fundearam, convertendo-a numa espécie de “santuário” e de “nova Tortuga”. À beira da belíssima salina de Porto Inglês, o poeta construiu o poema que aqui nos traz.


na gávea desfibro o horizonte
com a alma à cintura pronta a espadeirar
coragens inglórias e frenesis de medos:
à abordagem! grito e desperto o mar
e a meninice dos poetas: eles sabem
as dores do mundo e mordem a vida
com a clarividência dos profetas
- eles sabem o que custa parir
e continuar a sorrir

e de maio parto para as ilhas dos meses
que todas com o coração se escrevem
e com a mesma chacina dos dias:
na vigia da vela que se descortina
ou na ânsia da chuva que afaga ou
de quando a esperança se reescreve
sobre o mapa de tudo recomeçar e o mundo
- levantar âncoras estimula a vontade
de valer mais que cada golpe a liberdade

confesso: já fui pirata no corso dos desejos
- o que ficou foi o imenso mar nunca alcançado
e a suspeita de outros mares e outros. fundeei
para o alimento das tabernas: só restou
a mortalha da memória e a sede
de nunca renunciar. e sobrou o mar.
eu sei que é nos tombadilhos que a noite adormece
e a água espreita o sobressalto do combate
mas não temo alguma vez naufragar

trago da salina o curativo das feridas
e as mãos curtidas pelo astro mouro. já doeu.
já não dói. mesmo que as lágrimas rasguem
as rugas outonais garanto que não dói:
icem as velas para largadas novas
e lá vou eu – para outras refregas e novas saudades
lâmina na boca e peito exposto:
a novidade nunca cansa quando a esperança é gosto
e a carta de rumos saboreia a liberdade


segunda-feira, 20 de maio de 2019

[0656] Leituras públicas do Pen Clube

O PEN Clube Portugal promove a 30 de Maio às 18h00 na Livraria Ferin (na Baixa-Chiado, Lisboa) uma sessão de Leituras Públicas com a participação de Luís Filipe Castro Mandes, Manuel Frias Martins e Teolinda Gersão.



domingo, 19 de maio de 2019

[0655] Nuno Rebocho vai ser homenageado em Santa Catarina, ilha de Santiago, Cabo Verde

A Câmara Municipal de Santa Catarina vai homenagear na próxima quarta-feira, 22, a partir das 16h00, no Centro Cultural Norberto Tavares, o escritor e jornalista Nuno Rebocho, que atualmente reside em Portugal mas viveu durante 17 anos em Cabo Verde, onde desenvolveu intensa atividade como jornalista e intelectual.

Nuno Rebocho é um grande amigo de Santa Catarina, tendo utilizado a sua influência e contactos internacionais na área da Cultura para abrir portas à autarquia e trazer grandes eventos para Assomada.

Sarau e apresentação de livro

Um Sarau de Homenagem a Nuno Rebocho, com a participação do grupo de Batucadeiras Raiz Fincado (de Nhagar), de David Rocha (guitarra e voz) e leitura de poemas do autor, constam da programação que coincide com o lançamento do último livro de Rebocho, ROTXA SCRIBIDA, que conta com a apresentação de António Alte Pinho, António Sérgio Barbosa, Inês Ramos e Tchalê Figueira.

O livro de poemas, levado à estampa pela Rosa de Porcelana Editora, é uma viagem pelos dezassete anos de passagem de Nuno Rebocho por Cabo Verde, através do arguto olhar do poeta e do jornalista, numa narrativa apaixonada e envolvente.

«Dezassete anos em Cabo Verde impregnaram-me de cabo-verdianidade. Foram usos e costumes, foram hábitos e tradições, foi toda uma cultura crioula e até mesmo o seu linguajar muito especial que em quase duas décadas moldaram o meu ânimo e espírito tal como a terrível bruma seca que, por longos períodos durante o ano, sobrevoa as ilhas e me deixou sequelas na respiração», escreve o escritor à laia de explicação.

O Autor

Jornalista, poeta e escritor, Nuno Rebocho nasceu em Queluz (Portugal), mas cresceu e estudou em Moçambique, e viveu cerca de uma década na cidade da Praia, capital de Cabo Verde.

Ex-jornalista da imprensa escrita e da rádio, tanto em Portugal como em Cabo Verde, Nuno Rebocho desempenhou funções de chefe de redação da RDP – Antena 2, foi assessor do ministro da Habitação, Obras Públicas e Transportes do VI e VII governos constitucionais de Portugal e assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago, em Cabo Verde. É, ainda, Cidadão Honorário da Cidade Velha e foi nomeado assessor lusófono da Korsang di Melaka.

Nuno Rebocho é autor de vasta obra publicada em Portugal, Cabo Verde, Brasil e Argentina.


sexta-feira, 10 de maio de 2019

[0652] O poeta-pintor Nicolau Saião "barrica-se" na Casa da Muralha em Arronches e "dispara" 24 desenhos digitais sobre papel

Palavras do poeta-pintor, por ele próprio:

Como o dia tem 24 horas, achei bem partilhar - e estão patentes na Casa da Muralha (sala grande) até dia 15 do corrente - 24 obras pela técnica digital, em papel cavalinho tamanho A3 de que, com v/ licença, vos envio cópia anexa para uns minutos de eventual contemplação com a v/ proverbial gentileza.

E como tudo é possível neste blogue, inauguramos hoje em estreia mundial a Galeria IM, aberta 24 horas, e nela reproduzimos os vinte e quatro trabalhos do artista. Veja também AQUI sobre Nicolau Saião e a sua Casa da Muralha.

A casa
Amores
Aurora
Aventura dos continentes
Cesariny
D. Quixote
Dormitório
Entardecer
Exodus
Génesis
Histórias
Imagem 1
Imagem
Images
Natureza-morta
O apelo dos séculos
O lobisomem
O verão
Passeio
Pietá
Satan
Segredo
Sinais do dia
Um pouco de Paraíso

quarta-feira, 8 de maio de 2019

[0651] "Praças", de António Pedro Correia, venceu Pémio Literário UCCLA

O vencedor da 4.ª edição do Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa foi atribuído ao livro “Praças” da autoria de António Pedro Serrano de Sousa Correia, português natural de Angola. A obra vencedora foi anunciada no dia 5 de Maio - Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP - no Mercado da Língua Portuguesa, no Mercado da Vila em Cascais.
António Pedro Serrano de Sousa Correia nasceu em Angola em 1961. É artista plástico, dedicando-se especialmente à escultura, à criação de objectos tridimensionais e à área de instalação multidisciplinar. 
O Prémio Literário é uma iniciativa conjunta da UCCLA, Editora A Bela e o Monstro e Movimento 2014, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da Comissão Temática para a Promoção da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da CPLP.


[0650]


[0649] Novo livro de Dina Salústio

No auditório do BCA, em Chã de Areia, cidade da Praia, apresentado por Elvira Reis, às 18h00 de 10 de Maio, é lançado o livro de Dina Salústio, “Veromar”.


[0648] Jorge Vicente lança "Cavalo que passa devagar"

Apresentado por Rui de Sousa na Livraria “Misturado” (Rua José Estêvão, 45, Lisboa), a 12 de Maio (domingo), 16h30, a editora Volta d’Mar, lança o novo livro de poemas de Jorge Vicente, “Cavalo que passa devagar”.

sábado, 4 de maio de 2019

[0647] Novo livro de Nuno Rebocho, prestes a sair na ilha de Santiago e, para breve, também em Lisboa

É apresentado pelo poeta Filinto Elísio e pelo também poeta e pintor Tchalé Figueira no Instituto de Língua Portuguesa (Casa Cor de Rosa), às 18h00, a 9 de Maio, quinta-feira, na cidade da Praia (ilha de Santiago, Cabo Verde), o mais recente livro de poesia de Nuno Rebocho, “Rotxa Scribida” (edição Rosa de Porcelana). O mais recente livro de Nuno Rebocho será depois apresentado na Assomada (a 22 de Maio) e em Lisboa (a 29 de Maio), por altura da Feira do Livro.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

[0646] NUNO REBOCHO, POEMAS DE TERÇA-FEIRA (26) Nuno Rebocho, o discurso do método


Habitualmente com Nuno Rebocho "on air" às terças-feiras, IM guardou o presente poema do autor para o 1.º de Maio, saindo portanto em vez de terça à quarta (o que também fica bem...).

“Discurso do Método” representou o início de uma nova caminhada do poeta. Fica aqui um dos seus poemas indicativos, uma reflexão sobre a intimidade e o discurso.


OS SONS DA ILHA


1

aliás o movimento é tudo. é a tensão entre o som
e o seu conteúdo apesar das palavras brancas
a enrolar os dias com sorrisos e hipocrisias.
e apesar dos silêncios que são a cólera da cal sobre o corpo
é no centro do cromeleque que as tensões se sentem
porque em volta estão os despojos (os sentimentos adormecidos
pela rotina dos discursos redondos
em volta) estão as desvontades e é assim
que os neurónios se dinamitam.

o movimento é tudo: o gesto e as palavras rubras
o rubor da face e o enlace dos corpos
as suas rugas - o aquecer das fugas
no exercício dos desejos. o movimento é tudo:
naufragam os marasmos no movimento do mar.
a maravilha é torcer o mar com as mãos calejadas
e trazer na boca o travo das madrugadas
e palavras azuis para beijar as namoradas.

o movimento é tudo e tudo é movimento:
o aroma e o consentimento o ódio e o comprazimento
um avião a correr na pista
um golpe de asa um golpe de vista
um golpe uma falha a casa toda e toda a tralha.
o movimento é o cerne e o que concerne
é o contexto: o texto    o pretexto é o fogo que molda o metal
é o braço a perna é o músculo
é o agudo é o grave é o esdrúxulo.

o movimento é tudo. e assim sendo
o mar espeta as orelhas e inquieta o entusiasmo.
eu pasmo.


2

o mágico governa os objectos mais do que as palavras
e dá-lhes o secreto caminho para a estranha intimidade por dentro:
são sólidos e ausentes da gordura dos nomes.
que os nomes se colam à superfície dos objectos e
designam-nos na curiosa arbitrariedade das mentes
: o objecto cadeira não necessita a palavra cadeira:
a palavra cadeira é que precisa do objecto. é
assim a estranha intimidade por fora.

assim disserto sobre este facto de estar sentado
sobre a arbitrariedade dos sons
e aconchegado na almofada das palavras.

eu sei que a mão pesada do sentimento disfarça a ambiguidade.
mas como explicar que as coisas simples acabem por ser complexas quando as vergasta a perplexidade? deixo que a magia
(da água e do ar) penetre na intensa relação do que me envolve
e agarro as perguntas com o incómodo silêncio das tardes sábias:
o que pensa e sente um objecto se as palavras lhe são alheias? bem
eu queria ser imóvel quanto eles os objectos presentes e desculpar-me:
afinal sentir é um projecto de palavras sem a solidez dos objectos.

assim disserto sobre este facto de ficar vazio no perene
sentimento da quase eternidade sobre a rasa superfície do imóvel.


3

entender é ter asas: no templo dos nomes vários fomos donos das coisas
e do
corpo
e dos sótãos e dos vocabulários.
fomos mandatários
das casas e das asas.
no jardim das palavras
as abelhas eram aforismos
e até de cada dedo
fazíamos algarismos.

muito marchámos e murchámos
através da ponte dos séculos. muito secámos a língua na mica dos olhos
e muito desfolhámos
nas coisas os seus nomes para que os choutos fossem geeira
e fossem âncoras.
então: assim aprendemos a sabedoria do mutismo
e trocámos as palavras e truncámos os gestos
e burlámos com os gestos as palavras
(actos fossem ou impactes
sem a restrição dos dias).

temos portanto os sons: agora os sons agarrados e monossilábicos
cada som preso a cada coisa e cada coisa presa
mas nem despimos as roupas da ambiguidade. sequer atalhámos
os caminhos pelos corta-fogos de esquecer
a jeira dos volfrâmios quando cessámos de garimpar
a pulcra sintonia dos olhos
já manietados pelo ritmo.



4

estes são os sons que significam a ilha: onde os silêncios
são rocha e os pressentimentos são limos
onde recomeçamos o que já conseguimos
onde inteiros somos de tantos nos repartirmos
onde desaguamos sempre que dela partimos.

os símbolos valem o que valem: a noite
não é a morte nem o ventre da criação.
é a consequência da rotação do planeta.