Ricardo Jorge Claudino nasceu a 10 de Abril de 1985 em Faro, transportado por um bando de cegonhas oriundas de Reguengos de Monsaraz. É licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Informação e Sistemas Empresariais. Em 2001 inicia a sua actividade profissional como programador informático, a qual exerce até ao presente, tendo passado por várias multinacionais portuguesas e holandesas. Com apenas 15 anos de idade escreve os seus primeiros poemas; mas ficam guardados. Só em 2019 decide acordar a sua poesia e logo participa na antologia A Vida em Poesia IV, publicada pela Helvetia Éditions. Conta também com publicações nas revistas Gazeta da Poesia Inédita e NERVO. A Cor do Tempo é a sua primeira obra publicada.
sábado, 12 de setembro de 2020
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
[0712] Dos "Poemas Alemães" de Teresa Balté, republicamos hoje "Idílio berlinense"
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| Teresa Balté |
Poema de 2008, publicado na revista "Colóquio/Letras" da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Portugal (n.º 179, Janeiro.2012, pp.145-147).
IDÍLIO BERLINENSE
1
Planear o dia à mesa do pequeno-almoço – um súbito cansaço de museus – o pátio torna-se arte, com relva húmida, flores autênticas, ávidos pardais – e a seguir, lá fora: Nolde, Kollwitz, Babilónia
2
Faz-se tarde, a flor murcha, a folhagem esmaece. Não me apresso nestes últimos tempos: tudo em verde e rosa, em harmonia – muito discreta, muito consideradamente ergue-se a chávena e bebe-se
3
As ideias reúnem-se num puzzle – já não há fio condutor, uma lógica – está chão e aberto o labirinto – existiu alguma vez algum enigma? – só a lúdica mão do jardineiro insiste ainda e vai compondo outros canteiros com os mesmos elementos
4
Saudade? sim, anseio pelo amor acontecido – também ele teve o seu tempo, a felicidade. Agora apenas sinto a chuva suave – única ternura nos cabelos, ombros, coxas – é ela agora que me empurra para baixo, para a terra tão macia – agarro em mim e fujo com as jovens que riem
5
Onde as paredes trazem as feridas das balas, pelas ruas de leste, correm desvairados os sonâmbulos – É aí que ainda me escrevo, para conseguir viver: a mão tremendo ao vento, o olhar tombando no regaço da mendiga russa – Onde florescem as tílias? onde ficámos nós? nós? Sozinho ninguém pode transpor a Ponte do Palácio, cavalgar através do Arco. Sozinho não se deve acordar
6
As graciosas lanças na mão dos tritões espicaçam os turistas apressados – para além, para além. Em volta os edifícios quadrados do poder, pedras de açúcar. Em cima os punhos das nuvens cerrando a trovoada, o céu falhado. – Respira-se em círculos na ilha. Como Sísifo tento construir o futuro enquanto a águia de Prometeu me dilacera o corpo – A eternidade esgota-se no mítico e no museológico – por agora, ainda – antes do grande final
7
Sim, não falemos de objectivos longínquos e gozemos o pálido sol na esplanada. – Dois cafés, por favor – perdão, um só. – O poema está rasgado, os farrapos pombas assustadas
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| Berlim - Pormenor escultórico da fonte Lebensalter (Idades da Vida), Wittembergplatz (Foto Joaquim Saial) |
sábado, 22 de agosto de 2020
[0711] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.
A cerimónia contará com a participação da autora do
prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.
Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na
Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar
uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.
Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado
por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e
história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de
leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que
retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
quarta-feira, 20 de maio de 2020
[0709] António Rosa e uma lengalenga "frustrante"
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| António Rosa |
João Folião
foi ao mercado comprar
um pião,
com quatro moedas
que tinha na mão.
Partiu o porquinho
e com mais um pouquinho
que deu tio João,
lá vai pelo caminho
com o seu dinheirão.
Também quer uma guita,
que seja bonita,
que faça um vistão.
Já se vê no meio
lá do quintalão,
durante o recreio
lançando o pião,
fazendo furor
entre os companheiros,
que ele é dos primeiros
em tal função.
Lançando por cima
ou até de carena,
já se vê na cena
como um campeão.
Tropeça na pedra,
quase cai no chão,
tal é sua pressa
de ter o pião.
Chegado ao mercado,
que desilusão.
Venderam o último,
instantes atrás,
a outro rapaz
lá do quarteirão.
domingo, 26 de abril de 2020
sábado, 25 de abril de 2020
[0707] Nicolau Saião volta à carga em Ibn Mucana com excepcionalíssimo poema de 1986
I
O que os meus olhos seguem nesta vida
tem mais perversidade do que manha.
Não está sempre perdida
não é sequer estranha.
É um pescoço
rodando lentamente para o lado da sombra
para o lado da barca dos primos de Cacilda
franja por franja correndo o espaço morto
tão depressa coitados como se fossem de mota
ou sobre o rio
sem margens
sem o batuque doido extremamente caligráfico
da água interior
dos nomes.
E os cabelos os cabelos do mundo
estão sobretudo aqui
nesta cadeira branca simulando o silencio
a quinhentos quilómetros a oeste do mar
equidistante gélida submissa
detendo-se de súbito na sua própria agonia
muito perto demasiado perto
do jardim diurno dos réprobos cuja candura
acende
e se dissolve
se dissolve sem mágoa
uma e outra vez e ainda uma outra vez
no colo amarelíssimo de Rosaíris.
Escuta por favor
escuta
não os enganemos nunca
A voz que me sopra junto ao tímpano
vem de muito longe vem de muito longe
tão morta como viva
e em vez de dizer arcano diz madrugada
e em vez de dizer o mundo diz fogo-fátuo
virgem montanha almofada
diz os catorze nomes que é proibido ouvir
diz o dia e a hora de todos os demónios
e um corpo que se agita por baixo das arcadas
no Alentejo da Europa dos automóveis por dentro
buscando a clareira imprecisa dos cemitérios
em Sintra na Ericeira nas ruas de Lisboa
nos locais onde canta a raparigataúde
imersa em claridade
em cuspo
em chuva.
No entanto, no entanto
é preciso sim senhor desesperar
digam lá por favor que é preciso
andar de novo ao longo da estrada de tijolo
adormecer cantando nos túneis que maçada
e defecar do alto duma árvore
para cima da moleira de Adonai
depois olhar as estrelas que surgem dessa vasa
e recuar para o sítio onde o barco dissimula
a sua rama suja do Oceano
esperando a tardinha o vento morno
a negra Primavera e o rei do bosque maldito
com barbas adejando como um estandarte louco
no seu retrato igual ao rosto do emparedado
na selva da distancia
que ninguém
nem mesmo nós
conhecemos.
II
Todavia o homem-mosca bate que bate
a a mulher-gafanhoto sopra que sopra
e o senhor-fantasma rema que rema
entraram já na casa inconquistável
e nada deixaram de pé
e eis que de repente há alguém que se interrompe
perto do braço-bandeira a oriente da aurora
e tudo fica escuro, serenamente
como colunas raras de cimento
na cauda sexual do elefante por fora
cujas presas bem limpas desfizeram o dia
levemente atmosférico
sobre a areia do universo no país onde o choro
é só até ao estômago
e alguém espera tremendo que o fresco sangue de Alceste
o outro sangue
seja a calamidade e a angústia
que não vão de avião para nenhum deserto
nenhum glaciar horrificado
nenhuma cama especiosa nenhum comboio sem lágrimas
nenhuma taberna de Alcântara onde o sarro dos anos
se descobre no salto da pantera
que galga o passeio de azeitona na boca
de axilas escurecidas
cujo suor excessivamente espesso
é bem o resultado fiel do habitante da cubata
com um diamante escondido numa ferida
o filho infiel da oração dos marinheiros de outrora
a rua do mundo que desemboca numa laje circular
em frente do lago pútrido
aguardando sem minutos desaproveitados
os que gemem os que se cobrem de negrume
os que nada querem imenso
e só sabem sonhar em termos de ave ou de horizonte
de rato semimorto encontrado num jardim
de árvore
de meio-homem de Epaminondas os sustos
duma Lisboa sem língua
de janela de um país efémero
de constelação trepa que trepa, enfim
de mancebo de pouco futuro desaparecido
de todos os barulhos da Terra.
Mas convém, ó meus amigos de infinito
que tudo seja aquilo que sabemos
e fazemos
o perfil ardente sorvendo o rio trovejante do mundo
a garganta trémula dos lobos ao longo dos carris
sob os tectos
da cidade repleta de ferrugem
e cal tocando o horizonte
ferido como o braço rasgado arrastando sangrentos
embrulhos para a campina solitária
para a babugem da praia na linha de água do mar
onde os peixes ficaram nessas pedras nesses recantos
tão conhecidos por Ahab, o capitão louco
e o seu tubarão vermelho.
Entretanto o poeta cabisbaixo os bantus e as aves
lá vão ao longo das avenidas
nesses táxis que usávamos sob um trémulo firmamento
na Praça do Intendente onde numa noite de repente
as palavras mais simples se velaram nos nossos lábios
como os de Bulgakov, como se fossem de Margarita.
E uma luz assombrada
abominável aos solavancos
crescia em todos os pontos cardeais
em todas as coisas que se divisavam
ao vicejar da treva
entre os degraus dum largo sem nome e sem lugar
na mão tremeluzente, na chave de novo achada
para trespassar todos os símbolos
quando o homem de cinzento erguia no seu chapéu
entontecido e prestes a partir
uma agonia lírica, clássica, regionalista
para todos os rostos destroçados.
NICOLAU SAIÃO
[na folha volante de Agosto.1986 do “Bureau Surrealista Lisboa Alentejo” de MC/ns]
sexta-feira, 24 de abril de 2020
[0706] Um poema "abrílico" de Nicolau Saião, em cima da data
ABRIL ANTECIPADO
Em Lisboa, na rua
do Alecrim, recordo-me como
se fosse hoje: uma casa
sombria, onde foi bom ficar
minutos e minutos entre memórias
quotidianas de velhos alfarrábios, livros
para passeios vulgares de compra e venda. Ali
parei. Como um barco, uma nuvem, uma presença
obscura de gentes para sempre perdidas, nessa
humilíssima loja me detive: o pó, o ping-pong
da conversa. E veio a esperança saltando sobre nós
como se o oceano nos tocasse nos olhos, lembranças
de Índias sem pimenta e sangue. E logo, por acaso
um estrondo lá fora. Mistério. Cumplicidade. E assim
tive tempo de Abril antecipado na fala do colega
de amargura: “Ainda não é a bernarda, caro amigo. Podes continuar
a ver os livros que aí estão. Ainda (que chatice!)
está por anos!”. Nessa tarde, numa
vendedeira de rua, comprara pêssegos. Era
em Julho. Nas caras que passavam pareceu-me distinguir
por entre o resto todo, agonia e raiva. Homens, mulheres
crianças como em todos os tempos. Senti então, enquanto
no Tejo tombava um sol devastado, que um dia
um estrondo não seria apenas o dum pneu que estoira. O coração
tivera, pobre dele, Abril antecipado e, aberto
ficava de conserva mais uns tempos, criando
talvez outras janelas para todos os lados, esperando
para todas as horas a hora enfebrecida como um sulco de lume
nas espáduas dos amantes. A hora
ardente e dura como cimento secular. Foi isto em
setenta e dois. Depois
a vida continuou, vaga e solene, tenaz e sonolenta. Tive
amores e amigos mortos, alguns suicidados, outros
feridos de pasmo e solidão. E rochedos erguidos
nos caminhos do mundo. E quando Abril chegou
com seus favos, seus deuses, suas flores
suas praias, seus bosques, sua chuva benigna
a memória da esperança não morrera. O poeta fala
no tempo. É seu o tempo imenso
dos vivos e dos mortos, dos que nunca
contemplaram face a face o seu destino. Por ser um espelho
ardido, é a palavra. O signo do instante destruído. Foi
o Abril dos ombros curvados que me deu Abril.
Mesmo que Abril nada me desse, senão
senão esta tristeza de tão pouco
Abril ter sido para uma sede de primaveras, feitas
para o pão, para o riso, para o tempo intacto
do livre Verão dos homens sob as estrelas de Agosto.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
[0705] "Relíquia", de Nicolau Saião
RELÍQUIA
Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?
Não neste braço sujo cortado
Não neste tapete espesso neste bloco de apontamentos
onde se cruzam insultos rimas
Não no pequeno perímetro das veias
- afinal tudo tudo entre nuvens de carbono
semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve
onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo
O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.
Onde em que ilha de desolação
sufocado incerto esse silêncio soberano
onde jaz cerzido por traços de faca de pedra
Não não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto
saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem
Brilhante como celofane
O silêncio que respira
Sim o silêncio morno de quem procura o vazio
ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada
da mão faminta de muitos negrumes alheios
O silêncio que se recolhe
que se desdobra
que nos relembra de momentos e perdas
O silêncio que permutamos
O silêncio para além da luz entre os olhos de uma fera morta.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
sexta-feira, 20 de março de 2020
[0703] "Despedida", tocante poema de Pepita Tristão
DESPEDIDA
Pepita Tristão
Fui ao multibanco das emoções
De onde retirei o carinho
que me restava
de toda uma vida a amar-te.
Comprei-te um bolo cheio de creme
como gostas
- a doçura faz parte do teu ADN -.
Saboreaste-o naquela esplanada
de jardim, rodeada de árvores
sob os trinados de mil e uma aves
azuis e verdes de uma moldura
ponteada de variegadas cores.
Em uníssono rimos e aplaudimos
o espectáculo da natureza
a renascer
neste Carnaval da vida.
Depois disse-te adeus
e tu sorriste, aliviado.
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| Renoir, "Les fiancés" (ou "Le ménage Sisley"), 1868 |
quinta-feira, 19 de março de 2020
[0702] Um belo poema de Nicolau Saião, o bardo de Portalegre
ANUNCIAÇÃO
Nicolau Saião
As mulheres do vento parado como um planeta extinto
as mulheres doentes as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas
entre mim e o céu
Entram pela minha boca e censuram-me docemente
Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa
Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes
Dizei-me mulheres onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais
Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar
A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã e o frio subindo até às portas como um animal
a morrer.
(Bruxelas, 1999)
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| Pablo Picasso, "Les demoiselles d'Avignon", 1907 |
quarta-feira, 18 de março de 2020
[0701] Na reabertura do IM, um poema de Joaquim Saial
A ÚNICA PREOCUPAÇÃO
Joaquim Saial
Ele não questionava a existência de Deus
nem o perigo atómico.
Muito menos, a origem dos fogos florestais,
a pesca desenfreada das baleias,
as alterações climáticas,
os parcos aumentos dos funcionários públicos,
a gentrificação de Lisboa
ou a passagem da Rua Augusta a circo.
Nem sequer o vírus maldito das muitas mortes,
a grande praga do início do século XXI.
Ora, ora, queria lá ele saber disso tudo.
O que o preocupava,
o que o afligia mesmo,
o que não o deixava dormir,
sossegar sequer um minuto,
era que lhe riscassem o carro estacionado na rua,
aquele belo espadalhão azul mate,
comprado com tanto sacrifício.
[0700] Post 700 do Ibn Mucana
Este blogue nasceu da amizade do actual administrador com o poeta, jornalista e radialista Nuno Rebocho. Juntos, fizemos a divulgação de vasto número de poemas e poetas de língua latina (lusófonos, em particular). Desaparecido o Nuno a 12 de Janeiro deste fatídico ano de 2020, o blogue entrou em alguma pausa, pois era ele quem enviava os materiais que aqui colocávamos, num bem oleado sistema de um fornece a matéria-prima e o outro a mão-de-obra. Passados dois meses, é tempo de reanimar o Ibn Mucana e para isso contamos com a maioria dos que aqui têm tido lugar. De certo modo, o poema de José Luiz Tavares inserido no post anterior já é um prenúncio disso.
Enviem-nos poemas vossos, inéditos de preferência (obviamente sem obrigatoriedade de o serem), uma fotografia, uma biografia de meia dúzia de linhas e avançaremos, honrando o passado do IM e a memória do nosso amigo.
Por vós esperamos, neste dia em que, por via deste, atingimos o post 700!
[0699] Poema de José Luiz Tavares, em período de cerco
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| Foto Nuno Portela |
FINDA
[Litania
em tempos de coronavírus]
Depois,
sim, que agora
estamos
vivos.
Depois
— quando o espirro
expirar.
Depois
— quando tiveres
pó
na goela.
Não
agora — que agora
estamos
vivos.
Antes,
sim, com os braços
portentosos.
Antes
- sim – de a fraqueza
noivar
com eles. Depois, sim,
porque
há ar no ar
e
a despedida é sem desculpa
e
sem tristeza.
Antes
não, que te falta
o
assobio e a trela,
e
a cara é sem rugas,
e
a morte concorda contigo,
e
tudo é mão de amigo
mesmo
se te espreita
o
tempo inimigo.
Depois
sim, que estar vivo
é
cedo encarquilhar-se;
não,
não agora, porque estás
no
impenetrável interior,
e
desconheces o limite ulterior,
e
não sabes pedir por favor
o
socorro amplamente publicitado.
Agora
sim,
que
é antes de toda a dor,
ainda no corpo tens
cor,
e sobe-te à boca
centos de sabores.
Mas
ainda não ao grande sim,
porque
maravilha-te estar aqui
(só
mais um instantinho),
embora
penses na mão da eternidade
ou
como é doce o despenhamento.
Antes
não
— porque
há a verdade
que
desconheces,
e
porque realmente não sabes
tudo
desejas devotamente.
Não
ainda — que os teus ossos
não
sabem a alcatrão,
nem
depois — que o esqueleto
é pertença
do patrão.
Não
depois,
mas
agora sim,
porque
tens fogo nas ventas,
mascas
pó e polenta,
e
o tempo inimigo te diz
que
tudo se há de compor.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
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