O Congresso
Internacional “António Ramos Rosa: Escrever o Poema Universal” é o importante
evento a que o PEN Clube Português se associou. Promovido pelo Centro de
Literaturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras de Lisboa (CLEPUL), em
parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal, homenageia uma das figuras
maiores da poesia portuguesa no 60º aniversário da publicação da sua primeira
obra (“O Grito Claro”) e com ele equacionando-se “a dimensão e originalidade
deste poeta-pensador no quadro da literatura e cultura portuguesas, mas também
internacionais”.
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
[0187] João Cabral de Melo Neto, o pós-modernismo brasileiro
Um dos grandes poetas pós-modernos de língua portuguesa, o pernambucano João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife em 1920 e faleceu no Rio de Janeiro em 1999. Diplomata, foi distinguido com o Prémio Camões de 1990, o Prémio Literário Internacional Neustadt de 1992 Prémio Jabuti de 1993 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana de 1994. Diplomata, a sua poesia (caracterizada por um rigoroso estático extremo) foi influenciada pelo surrealismo. Ao encontro do sensionismo, o poeta usa uma linguagem directa, recorrendo muitas vezes aos objectos de uso comum. Acusado de comunista, foi demitido do Ministério das Relações Exteriores em 1953 pela ditadura varguista, mas readmitido em 1954.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
IMITAÇÃO DAS ÁGUAS
De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.
Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.
Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.
Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista
e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.
Uma onda que guardasse
na paria cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,
e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas
mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.
MORTE E VIDA SEVERINA
- O meu nome é Severino
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria,
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso aina diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nomes de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zavarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda e que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até na gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
[0186] Pedro Cardoso, o advento da poesia cabo-verdiana
Pedro
Monteiro Cardoso nasceu em S. Filipe, ilha do Fogo, em 1883 e faleceu na cidade da
Praia em 1942.
Poeta, jornalista e investigador cultural, foi um dos nativistas
que enformaram a literatura cabo-verdiana.
Usou o pseudónimo de “Afro”, sempre
procurando valorizar a sua essência crioula, reivindicando a identidade
cabo-verdiana e não temendo escrever na sua língua, então marginalizada.
Foi proprietário do jornal “Manduco”, editado no Fogo.
COITADO
QUEM DIXÁ SE TERA
Coitado
quem dixá se terá
Sel dixá
nel se coraçon;
El embarca
pa terá longe
Sim sabê
si al birà ó nam!
Coitado
quem p’es mar de Cristo
Cubiça tem
chumá-l, lebá,
Pôs canto
bês tem conticedo
Mute que
bai ca bolta má!
Coitado
quem nim ta drumi
Se coraçam
ta descansá:
Pa punde
el bai vos de sodade
Na obido
sta-l sa ta chorá!
Coitado
quem na terra estranho,
Sim
má, sim pá, sim jaraçom,
Si el
dijijâ bem pa se tera
Ca
achâ ninguêm pa dá`l de mom!
[0185] Hermann Bellighausen, uma voz que vem do México
Hermann Bellinghausen é médico, jornalista, ensaísta, guionista e poeta mexicano, nascido na Cidade do México. Editor da revista “Ojarasca” e defensor dos direitos dos povos indígenas e por eles se batendo, este poeta mexicano é uma das vozes da América hispânica que “Ibn Mucana” se orgulha de semanalmente revelar. Foi Prémio Nacional de Jornalismo no México em 1995.
AGUA DE PIEDRA
Estás sola
Nadie te mira
Los espejos
se olvidaron de ti
Las dalias viven
y mueren solas
igual que las rosas
que ni tan maravillosas
altivas cuando bellas
rotas cuando estorban
Comes sin hambre
del plato de las horas
ebria y sobria
Bebes
Piensas
Lloras
No dejes de escaparte
Espina la soledad
excluida del rosal
hunde la carne
en las placas del mar
Eres el agua escondida
en los huesos de un volcán
Ni líquida
ni gas
ni yelo
agua de piedra en la piedra
eres fuego
[0184] Mais uma visita de Luís Filipe Sarmento
Luís Filipe Sarmento faz o favor de revisitar este portal. Como sempre,
“Ibn Mucana” tem a honra de o acolher: a sua poesia é sempre bem-vinda. Seguem
mais quatro poemas do seu livro (em preparação) “KNK”
8.
Se inventou sinais,
criou-lhe uma teoria
para que o conhecimento
fosse completando com razão
o que autentifica o ser
e a sede de sair de si.
Entre as árvores o seu
aposento,
talvez a explicação das
folhas, das veias, da resina,
a incógnita dos céus,
sendo seu habitante.
A priori o tempo e nele
a casa habitada de interrogações,
da seara ao pão, da
paisagem ao destino da fome,
o fogo da besta, a
perversão da propriedade do espaço
e da fronteira.
Instrumentos de matar
solidificam a aridez
das memórias, o deserto da ignorância.
Exposição ao perigo, a
experiência do aventureiro
que, em território
desconhecido, se entrega
ao mistério e
imediatamente não diz
o que a reflexão
aconselha como prova de existência
na descoberta do que
entende de si.
9.
À noite, fugido ao
pássaro inquietante, o homem
atormentado esconde-se
do destino para superar
a sua condição de
existência. Amplia-se ao pensamento
e abisma-se na
perplexidade de se elevar
às questões que não
esgotam a sua curiosidade.
Caminhos obscuros, cruzamentos
de contradições
e o desejo
incomensurável de experimentar
o que a pele desconhece
condu-lo
num eterno nomadismo de
si ao ritual dos pássaros
tão perturbantes que
esperam a podridão da sua carne
para que o anonimato o
converta em desperdício.
E da metafísica passou
à televisão
como se o Olimpo se
renovasse a cores
durante um banquete de
tostas místicas.
10.
Na ordem do tempo, a
aventura de sair
para ser, do olho à
boca, a experiência do gesto,
o corpo como primeira
impressão.
Reconhece a mãe, a
madeira, o primeiro ecrã
de um mistério
incomensurável.
As estrelas ainda não
têm nome
e os mitos tardarão na
geografia dos sonhos
e dos desejos.
Expõe-se ao dilúvio de
interrogações
e sabe que os dias
terão obstáculos.
Não esquece onde está e
determina
os passos, eleva-se e
percebe o horizonte
de uma possibilidade a
haver.
Quando desperta, a
origem dá-lhe a dimensão
do caminho andado e em
si há algo que se expande
num crânio que se
adapta ao que desconhece.
A fêmea observa-o e ele
treme.
11.
Se não se vender ao
dogma
tudo o que
aparentemente conhece
foi experimentado a
partir de fontes
sem experiência.
Elabora ficções a
partir de ideias que interroga
e constata o que há
muito pressente:
o além é uma viagem sem
limites
e durante a sua jornada
a miragem do horizonte
é um estimulante de impulsos,
um voo no espaço
desconhecido do entendimento,
o vazio tão puro que o
liberta de toda a suspeita.
Expõe-se ao desejo e
ela aniquila-o com prazer.
domingo, 23 de setembro de 2018
[0182] 100 Melhores Poetas Lusófonos Contemporâneos
Em preparação nova iniciativa na poesia lusófona no Brasil: "100 Melhores Poetas Lusófonos Contemporâneos", dando direito a duas páginas para cada autor mediante o pagamento de R$300,00 reais. Em Dezembro, o livro será lançado em Ouro Preto, com entrega de diploma e troféu aos autores selecionados. Tema livre e a garantia de a edição ser repetida na Dinamarca. È uma iniciativa da Literarte - Associação Internacional de Escritores e Artistas e Mágico de Oz (link: https://goo.gl/forms/nLxrO8ryxgj7NuMH3)
[0181] Nuno Rebocho, vadio de dois mundos
Preso cinco anos pelo fascismo português devido à sua actividade política antifascistas e à sua oposição às guerras coloniais, Nuno Rebocho fez-se, por desforra, peregrino de mundos. Foi adjunto de Ministros, assessor de Secretários de Estado em Portugal e de uma Câmara Municipal em Cabo Verde. Foi nomeado assessor lusófono pela Korsang di Melaka e Cidadão Honorário de Ribeira Grande de Santiago (dita Cidade Velha, na ilha de Santiago, Cabo Verde, Património Mundial da UNESCO).
CANÇÃO DA GUARDIA CIVIL MOTORIZADA
a guardia civil motorizada
roía a estrada com olhos de coruja:
era de nuvens a montanha
era de amarelos a estrada.
corria na alcatroada a luz da uva,
ventos que vinham de andorra
com amores de olhos leves
- fia-te na virgem não corras
como correm os almocreves.
estrada abaixo estrada acima
a guardia civil vigiava
estradas que foram de guerras
estradas que foram minadas.
alfazemas molhavam as terras
os ventos ceifavam colinas
nas estradas que vinham de andorra
ebro abaixo segre acima:
ai fia-te na virgem e não corras
como correram espingardas
com azuis de lavanda
e tiros de verdes vinhas
nas estradas que vinham de andorra
por onde já machado não vinha.
mas vinham os ventos das lavras
que a guardia civil cirandava
nas estradas de quem lá anda
ai fia-te na virgem e não corras
de quem lá vive de quem lá corre
com pressas de não chegar
de quem se gasta e de quem percorre
caminhos de voltar ao mar:
ai amores que fazem estrada
pela guardia civil vigiada
- correm mortes na alcatroada
das histórias que ouvi contar
ai fia-te na virgem e não corras
estórias de espanha ventos de espanha
espadas de sangue e de lua
de toiros que morriam bravos
como a morte morre nua
nas estradas de qualquer lugar.
a guardia civil cirandava
dois a dois par a par
com jogos de artimanha
na montanha de nunca lá chegar
a guardia civil motorizada
não sabia de machado nem das vinhas
pelo ebro desencaminhadas:
passavam os carros de brasa
as águias descobriam caminhos.
assim se faziam as estradas
que vinham de andorra ao mar
por lavras de guerra cortadas
nas memórias que ouvi contar.
[0179] Virgílio de Lemos, uma voz moçambicana
Nome literário de Diogo
Virgílio de Lemos, nasceu na ilha de Ibo, Moçambique, em 1926 e faleceu em 2013
perto de Nantes, França. Um dos impulsionadores do movimento literário
moçambicano dos últimos 50 anos, foi jornalista, editor da folha de poesia
“Msaho” que teve papel crucial na cultura daquele país. Por sua intervenção,
afirmou-se uma poética em rotura com os paradigmas literários coloniais.
Acusado de desrespeito à bandeira portuguesa num poema escrito com o heterónimo
Duarte Galvão, foi julgado e absolvido em 1954. Desde então e até 1961
colaborou com a resistência moçambicana, sendo encarcerado pela PIDE. Quando
libertado, exilou-se, retirando-se para França e sendo alguns dos seus livros
apreendidos pela censura colonial-fascista. Vanguardista e bilingue, escreveu
em português e francês, aproximando-se de uma escrita fragmentária, espontânea
e surrealizante, marcada pelo onirismo. Usou também os heterónimos de Li Yang e
Bruno dos Reis, para além de Duarte Galvão.
VIAGEM PELA RUA DOS CASINOS
ao Fernando Ferreira / ao Reinaldo F.
1.
A velha rua dos casinos ri-se
velha cigana, tempo
que vai a rua para dar
um ar da sua graça:
na noite, guerras de sedução,
passeiam-se velhas e jovens
putas, marinheiros, músicos,
mangas de alpaca.
Corpos que se exibem, sexos
que ejaculam,
do solitário deserto
ao imprevisível
vulcão.
2.
E nesta babilónia de gozos
frágeis luzes e amores
Insulada e cúmplice,
a noite avança pela madrugada
e o cacimbo sustém
a ironia leve das sensações
e sonhos.
O sexo, meu Amor, escreve-se
sem cadastro, almirantes
e marinheiros, Detinhas e Júlias
de garras e dedos de suruma
suspensos entre tua savana
de indecifráveis línguas
e meu ideado fogo.
3.
Pelas tuas costas, colinas,
tuas ancas, latejam
leitosas, as asas do abandono,
A velha rua dos casinos ri-se
velha cigana, tempo
que vai a rua para dar
um ar da sua graça:
na noite, guerras de sedução,
passeiam-se velhas e jovens
putas, marinheiros, músicos,
mangas de alpaca.
Corpos que se exibem, sexos
que ejaculam,
do solitário deserto
ao imprevisível
vulcão.
2.
E nesta babilónia de gozos
frágeis luzes e amores
Insulada e cúmplice,
a noite avança pela madrugada
e o cacimbo sustém
a ironia leve das sensações
e sonhos.
O sexo, meu Amor, escreve-se
sem cadastro, almirantes
e marinheiros, Detinhas e Júlias
de garras e dedos de suruma
suspensos entre tua savana
de indecifráveis línguas
e meu ideado fogo.
3.
Pelas tuas costas, colinas,
tuas ancas, latejam
leitosas, as asas do abandono,
cessa a
vida, morre o canto
e a noite é
a cintilação dos murmúrios
a musicada vertigem
do silêncio.
e a noite é
a cintilação dos murmúrios
a musicada vertigem
do silêncio.
[0178] Eduardo Pondal, o bardo de Bergantiños
Nascido em
1835 em Ponteceso, em A Coruña, e falecido na cidade de A Coruña em 1917,
Eduardo Maria González-Pondal e Abende foi um dos vultos do Renascimento
Galego.
Médico e poeta regionalista, esteve ligado, em Santiago de Compostela,
ao movimento estudantil que propugnava pela afirmação do galeguismo.
Com
Rosalía de Castro, destaca-se na assunção do galego como língua literária.
Poeta da liberdade, conhecido pelo “bardo de Bergantiños”, cantando o suposto
passado céltico, tornou-se a voz oficial do chamado “ressurgimento galego”.
OS
PINHEIROS (HINO DA GALIZA)
Que dim os rumorosos
na costa verdecente,
ao raio transparente
do plácido luar? Que dim as
altas copas
de escuro arume harpado
co seu bem compassado
monótono fungar? Do teu verdor
cingido
e de benignos astros,
confim dos verdes castros
e valoroso clã, não dês a
esquecimento
da injúria o rude encono;
desperta do teu sono
Fogar de Breogám. Os bons e
generosos
a nossa voz entendem
e com arroubo atendem
o nosso rouco som, mas só os
ignorantes
e férridos e duros,
imbecis e obscuros
não nos entendem, não. Os
tempos são chegados
dos bardos das idades
que as vossas vaguidades
cumprido fim terão; pois, onde
quer, gigante
a nossa voz pregoa
a redenção da boa
Nação de Breogám. Teus filhos
vagorosos
em que honra só late,
a intrépido combate
dispondo o peito vão;
sê, por ti mesma, livre
de indigna servidume
e de oprobioso alcume,
região de Breogám.
À nobre Lusitânia
os braços tende amigos,
aos eidos bem antigos
com um pungente afã;
e cumpre as vaguidades
dos teus soantes pinos
duns mágicos destinos,
ó, grei de Breogám!
Amor da terra verde,
da verde terra nossa,
acende a raça briosa
de Ousinde e de Frojão;
que lá nos seus garridos
justilhos, mal constreitos,
os doces e alvos peitos
das filhas de Breogám;
que à nobre prole ensinem
fortíssimos acentos,
não mólidos conceitos
que às virgens só bem estão;
mas os robustos ecos
que, ó pátria!, bem recordas
das sonorosas cordas
das harpas de Breogám.
Estima não se alcança
com vil gemido brando;
qualquer requer rogando
com voz que esquecerão;
mas com rumor gigante,
sublime e parecido
ao intrépido sonido
das armas de Breogám.
Galegos, sede fortes,
prontos a grandes fatos;
aparelhai os peitos
a glorioso afã;
filhos dos nobres celtas,
fortes e peregrinos,
luitai pelos destinos
dos eidos de Breogám.
[0177] Fernando Aguiar revistado
Nascido em Lisboa em 1956, Fernando Aguiar dá-nos a honra de revisitar este portal. Desde 1972, dedica-se à poesia experimental e visual, organizando também performances, exposições e festivais de poesia.
SONETO DA REJEIÇÃO
entre o som que replica e ecoa
e uma ideia que lhe sobrevoa…
entre o árido processo em desenlace
e um ruborizado rumor que se salvasse…
entre o reverso que se pressente
e a repulsa que assola ausente…
entre um sussurro que nasce do orvalho
e uma acha que se acha no soalho…
entre o largo gesto que não alcança
e um odor amargo, sem esperança…
entre o fio de água que só goteja
e o infinito sem um fim que se (pre)veja…
entre o ar denso que se agita e arde
e a voz rouca que nomeia tarde…
entre o sol que emana e depois expira
e o longínquo firmamento que se retira…
entre o corpo corroído sem atitude
e um menos que sem mais se mude…
entre a estranha situação que se observa
e um falso arrependimento que já enerva…
entre o contorno da nuvem que se esvai
e a linha do horizonte que trémula cai…
entre a sombra que desgasta o sentimento
e a repulsa súbita que agita o momento…
entre os incrédulos olhos que fitam a perplexidade
e a viscosa língua que lambe a falsidade…
entre a submissão que agitada escorre
e o suspiro que se sustém e não morre…
SEGISMUNDO
O sabujo sarapinta o safado
septuagenário soluça um sorriso
sai sinónimo sem significado
sombrio sofisma de sobreaviso.
Segismundo soletra o sermão
o sintomático é seduzível
sanguessuga saboreia sedução
sacristão de sarcasmo sofrível.
A sintaxe sugere substantivo
um sarilho sequioso por o ser
silêncio é suplício subjectivo
um secreto soluço a subverter.
O sobrolho que sabe a sovaco
o sacripanta que se substancia
um safardana que sangra do sacro
sem sincronismo na sodomia.
O signatário subjuga a sebenta
a santíssima tem secreção
Safo suada é mais suculenta
sovar supõe sempre satisfação.
QUE MAIS SE PODE FAZER?
Acordar na tarde no distante anoitecer
Acontecer se arde num súbito alvorecer
Renascer em marte em parte se acontecer
Dar-te por não ter e voltar a reverter.
Adiar se for o caso no que tiver que ser
Encardir o alvo cardo e de súbito enaltecer
Arvorecer na sombra na certa sem se ver
Voltar ao que nos cerca entre o deve e o haver.
Progredir na (in)certeza o suposto engrandecer
Arredar sobre a mesa o nem sempre agradecer
Entrar pela saída e assim retroceder
Ver o há o não haver e tornar a converter.
Aprisionar o aprumo apenas por puro prazer
O tardar nos teus seios num terno entardecer
Cativar o inquieto olhar como forma de (se) poder
Padecer o que parece que mais se pode fazer ?
sábado, 22 de setembro de 2018
[0175] Ibn Mucana encerra o primeiro mês de vida com Vinícius de Moraes e um grande poema sobre a morte - o que, ao contrário do que pode parecer, nos dá ainda mais vontade para continuarmos a divulgar a poesia do mundo, sobretudo o lusófono (ver post seguinte)
VINÍCIUS DE MORAES, O CANTOR POETA
BALADA DA MOÇA DO MIRAMAR
Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.
Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há-de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.
Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.
A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.
De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.
Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.
Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!
Marcus Vinícius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1913 e aí faleceu em 1980. Jornalista, poeta, dramaturgo, diplomata, cantor e compositor, cineasta e boémio inveterado, casou-se nove vezes. Vindo do movimento integralista (de inspiração fascista), iniciou-se ainda jovem na poesia, começando por ser censor, ingressando depois na carreira diplomática, exercendo funções em Paris e Roma, aposentado por força dos “atos institucionais”. Compositor prestigiado, fez parceria com grandes músicos brasileiros, sendo um dos animadores do novo movimento musical brasileiro, a bossa nova. Em 1933 publicou o seu primeiro livro de poemas. Com uma poesia simples e sensual, cortou com o fascismo e passou a ser influenciado pelas ideias comunistas. Teve uma vida recheada de sucessos musicais que se entrecruzaram com êxitos teatrais levados à cena, que o levou a correr mundo
BALADA DA MOÇA DO MIRAMAR
Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.
Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há-de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.
Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.
A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.
De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.
Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.
Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!
[0174] Agostinho Neto, o poeta presidente
Nascido em Kaxicane, Angola, em 1992 e falecido em Moscovo em 1979, foi médico, poeta e o primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto. Filho de um pastor protestante, estudou Medicina em Coimbra, onde foi um dos fundadores da secção da Casa dos Estudantes do Império. Durante o período salazarista e ligado ao Partido Comunista Português, foi preso pela PIDE por diversas vezes. Fora (com Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e outros) fundador do Centro de Estudos Africanos, em Lisboa. Libertado das masmorras coloniais em 1957, regressou a Angola em 1959 onde foi novamente detido em 1960 e se tornou presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola. Deportado para o Algarve, foi depois internado no campo de Tarrafal em Cabo Verde, depois colocado em residência fixa em Portugal, de onde fugiu para o exílio, em Kinxassa. Entrou em choque com outros importantes nacionalistas, como Viriato da Cruz e Matias Miguéis (este foi assassinado). Obtida a independência de Angola, foi designado seu Presidente da República em 1975. Foi-lhe atribuído o Prémio Lenine da Paz, também em 1975.
Às casa, às nossas lavras,
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar
Às nossas terras
vermelhas de café,
brancas de algodão,
verdes dos milheirais
havemos de voltar
Às nossas minas de diamantes,
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar
Aos nossos rios, nossos lagos,
às montanhas, às florestas
havemos de voltar
À frescura da mulemba,
às nossas tradições,
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar
À marimba e ao quissange,
ao nosso carnaval
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
à Angola libertada,
Angola independente
[0173] Jorge Carlos Fonseca, um Presidente poeta
Nascido no Mindelo, ilha de S. Vicente, em 1950, Jorge Carlos Fonseca é poeta, ensaísta, cronista, jurista, professor universitário e Presidente da República de Cabo Verde. Foi, durante vários anos, assistente da Faculdade de Direito de Lisboa, director residente e professor em Macau, investigador no Instituto Max-Planck na Alemanha, presidente do Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais de Cabo Verde e presidente da Fundação Direito e Justiça. Perito da ONU, participou na elaboração da Constituição de Cabo Verde e na Constituição de Timor-Leste. Fundador da revista “Direito e Cidadania”, militou na clandestinidade pela independência de Cabo Verde e um dos fundadores do Movimento pela Democracia (MpD) de que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo deste partido. Lutara contra a ditadura do partido único. Membro da Associação dos Escritores Cabo-Verdianos e da Academia Cabo-Verdiana de Letras, é o único poeta de tendência surrealista Presidente de uma República. Irmão de outro grande poeta cabo-verdiano, Mário Fonseca (já falecido e já aqui referido).
À CIDADE DA PRAIA
Cidade minha, obsessão muito dolorida,
quem alguma vez te romanceou,
quem espreitou,
de alguma varanda escondida,
os seios coniformes e desprevenidos
de tuas caníngicas (de cana e esfinge) mulheres ?
Quem, até hoje, te escreveu poema que näo fosse
chato, desolado ou ranhoso?!
(Lembras-te de "Câ nhôs djobem di pâ baxu"?)
Onde se esconde o teu Ferreri, em que labirinto se deixou de ver o teu Kafka, cidade minha apetecida?
Estão a dar cabo de ti! Mas quero ser eu o único a dar cabo de ti!
Quero ser o teu rei, o teu súbdito, o teu amante, o teu poeta,
quero ser eu a cidade (tu), toda a cidade.
Dizem que não mereces umas Las Hurdes?!
Acham os teus inimigos que nunca terás um Ulysses ou uma Sistina?!
Onde está o teu Garbarek, onde está a tua Vera Zasulich, cidade minha, capital que vais ser
do império que aí vem?
Ri dos imperadores que te querem dar, tu que já tiveste
e celebraste Patchitcha, Fernando Jorge, Baíno, Valente, Grilo, Tútú, Antoninho Baratêro, Cócó di Gigante, Nezinho Brasileiro e Lindos Melhas!
Hei-de construir , para os teus heróis, os mortos e os vivos, pirâmides, castelos damasquinados, e erguer, em nome deles, catedrais, estádios e universidades reluzentes.
Onde fica o teu sexo? Qual é o teu sexo?!
Serei o teu amor singular, quero ser eu apenas a seduzir-te,
a violar-te, docemente, diariamente,
minha cidade, minha capital suficientemente leviana,
de vez em quando discreta prostituta na arte e nos sonhos.
Quero-te só para mim,
o peito alto e descoberto,
os cabelos de mar, soltos e bravios,
entrelaçados a sal e vinagre,
a vagina célere, insubmissa e com os dentes de fora, arreganhados. Uma vagina que aloje a América, toda a Guang Dong, Paris, as avenidas de Kuala Lampur, Ou Mun, para näo falar dessas capitais LP.
Uma vagina, cidade amada,
que, finalmente, junte di Nhâ Reinalda a Brubeck,
vagabundo orgasmo a gigantesco lava-loiças, onde dançaräo
cisnes dourados e peixes vermelhos ao ritmo de rag time.
(Mas deixa que te diga: nunca hei-de aceitar que teus detractores, afinal, ingratos pastores de tuas águas e veias, te chamem vagina navegável!)
Apesar das traições, grandes e pequenas (quem näo trai, a final?) ; apesar de teu mitigado pundonor quando,
soberba e de olhar fulminante,
ofereces o suave e rápido encanto de tuas partes mais íntimas, farei de teu útero um palácio visigótico, ou, se quiseres, árabe ou judio, com átrios gigantescos, centenas de corredores e jardins de orquídeas, guardado por um exército permanente e fardado a rigor.
Onde está o teu Picasso? Onde está a tua Guernica?!
As pedras de tuas ruas não têm musgo?
Afinal, lembras-te de alguma vez te chamarem grande capital, cidade eterna ou varanda de qualquer continente?!
Serei eu a dar-te os jovens que mereces, e não essas múmias, essa cachupa requentadíssima que te servem por aí.
Mereces meter essa gente toda no bolso. Que é Montreux comparado com a tua Gamboa?
Que seria do mundo sem ti, tu o Artista, o Tesouro por enquanto desconhecido, quase clandestino, a face perlada, o sorriso, eterna cenoura
de feitiços cor-de-prata?!
Não há clonagem capaz de fazer outra igual a ti! Fará Lisboa, S.Filipe, Ziguinchor, Pará ou Niamey, mas cidade como tu, nunca!
Terás uma mindelo, três assomadas, meia dúzia de sidneys,
uma vintena de mosteiros só para ti,
todos os bares de Pat Pong, e,
se o desejares,
farei de ti uma metrópole sem igual, longa, perversa, cheia de luz, a pedir sempre mais luz, como queria Goethe.
Transportarei para ti,
arrastado por uma esquadrilha de galeras de todas as cores,
erecto, cilíndrico e musculado fiorde,
que atravessará,
festivo e arrogante,
as artérias da ressuscitada Praia Negra,
e, então, cidade minha, só minha,
erguerei sobre o teu aveludado dorso
uma gigantesca bandeira com os dizeres seguintes:
Abram bem os ouvidos, poetas desta cidade!
Nunca digam que paraíso nenhum existe
ou que todos os paraísos são artificiais!
Se, por algum tosco Cláudio ou Napoleão,
à morte condenado for,
nada temas, amada minha, que farei como Arria:
"Praia, non dolet!".
Queres ser outra cidade, ter outro nome? Ser desavergonhada como Sun City?
Alguma vez desejaste ter outro esposo?
Não?! Já o adivinhava, minha cidade (só minha), cidade da Praia!
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