| Em Lisboa, em 15.7.2013, na qualidade de ministro da Cultura de Cabo Verde, no funeral do cantor Bana |
Mário Lúcio Matias de Sousa Mendes nasceu em Tarrafal de Santiago em 1964.Advogado, político, músico, artista plástico, escritor e poeta. Desempenhou funções de Ministro da Cultura de Cabo Verde. Órfão desde muito novo, foi adotado pelo Estado de Cabo Verde para que pudesse receber educação, dado ser filho de pais pobres. Formou-se em Direito na Universidade de Havana.
PRELÚDIO
O prenhe barro que sustinha o mar
abriu-se como uma boca ou uma flor
e o sopro de um deus imaginário
- que já existia antes de Deus
– fez abrir um pedaço do Mundo
cuja alma já não cabia no corpo
… e nasceram as ilhas
que nadavam e nadavam.
As ilhas nascem nadando como as crianças nascem chorando,
mas no gérmen tudo é diferente:
as crianças nadam muito tempo antes de chorar
e as ilhas choram muito tempo antes de nadar
os dois prantos sob o signo de um pranto mestiço
de água e fogo
LUZ LAVA DOR
Assim será. Assim foi, creio eu:
Dez embriões num ventre
dez vozes num parto
dez ilhas no mar e
Eu assisti ao nascimento de um mundo
que gerou o fogo
e ficou elevado o umbigo da terra
ou vulcão
ou a raiz que evoca a diferença e a identidade.
Tudo passou num segundo
e depois - conceito que foi instante, logo e agora
– o deserto… o inaudível … a luz
e eu mil novecentos e sessenta e quatro anos depois atrás.
SANT’IAGO
“Yo soy viejo
como la pampa y el arroz”
Esta estranha voz chegou-me aos ouvidos
quando eu era novo, novinho ainda
recém pertúrido como o trigo e a palavra
uma voz que cantou no passado (...)
“Sejas ilha”, ordenei
E no Princípio foi a Voz
e depois
podias tu parar a boca
no fundo do vale
e recolher a altura que desprendia das montanhas
Pico Sem Nome, Monte Sem Nome, Serra Sem Nome.
Todo vento do mundo soprava em direção do mar
e cavalos vadios corriam atrás dos assobios,
a falta de criaturas em mim.
As serras serravam as nuvens e penetravam
no coração dos homens
com um beijo frio às seis da manhã
na sua boca de orvalho.
Os picos picavam a imensidade do ar
convertendo-a em finíssimas gotas de vidro
Tomei água da rocha
e sentei-me no chão
a contemplar a metamorfose das ilhas (...)
(coda)
Yo soy viejo
como la pampa y el arroz
ou tão velho como as bengalas:
fortalezas e templos
canhões e cruzes
falaram a linguagem remota
que hoje se escuta na minha voz.
A cidade mais Velha talvez tenha a minha idade
porque nada existiu nunca fora da linguagem
Comigo nasceu um mundo nasceu outro mundo
e sobreviveu outro.
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