Joaquim Saial (Vila Viçosa, 1953) revisita-nos (ver post 0161 AQUI), desta feita oferecendo-nos uma das histórias curtas do seu livro que se encontra pronto para edição, "Contos de vida e morte" (título provisório).
Trata-se de um conjunto de trinta trabalhos onde a maior parte das vezes a morte está presente (o que não é o caso do presente texto) quase sempre caldeada por humor, ridículo ou sarcasmo.
É esta a primeira vez que "Ibn Mucana" publica prosa não poética. Mas que afinal se centra na poesia, atavés da infeliz declamadora que o autor aqui nos faz chegar.
Trata-se de um conjunto de trinta trabalhos onde a maior parte das vezes a morte está presente (o que não é o caso do presente texto) quase sempre caldeada por humor, ridículo ou sarcasmo.
É esta a primeira vez que "Ibn Mucana" publica prosa não poética. Mas que afinal se centra na poesia, atavés da infeliz declamadora que o autor aqui nos faz chegar.
A DECLAMADORA QUE LIA POEMAS SENTADA

A quarta a exercer essa função,
embora ainda nova e de aspecto maciço e vigoroso, ao contrário dos restantes
realizou-a sentada, para isso tendo pedido uma cadeira, logo disposta por mãos
solícitas junto à mesa de honra. Mais leituras houve, de outros, até que a
tarefa lhe coube de novo. Sentiu ela então necessidade de justificar a estranha
atitude, confessando que, nervosa por natureza, em ocasiões semelhantes ou
deixava cair os óculos ou o livro ou quase tombava ela própria e que por isso
se defendia de prováveis desgraças desta natureza, preferindo ler sentada.
Foi nesse momento que se ouviu
fortíssimo estalo que ecoou estranhamente no silêncio da sala. Rachara-se o
plástico da cadeira, que logo se desfez em pedaços, a leitora caiu de pernas
para o tecto, os sapatos de salto alto voaram pelos ares e todos os que estavam
nas filas da frente viram que a sua cinta era cor de salmão, que não depilava
as pernas dos joelhos para cima e que tinha um buraco no calcanhar da meia
esquerda.
Prosa também vale e estorietas deste calibre servem para (nos) equilibrar.
ResponderEliminarQuando menino ouvia dizer no meu crioulo: "Seguro morreu de velho. Preferiu dormir numa esteira para não cair da cama".
Uma revelação interessante: a veia poética do Joaquim Saial, um companheiro nosso e de um outro poeta e prosador Adriano M Lima.
ResponderEliminarVou-me introduzir à poesia do Saial.
Um conto com a mais-valia de um desfecho inesperado e desconcertante. O diabo nem sempre está atrás da porta - provérbio que ressalta da leitura do conto e que assenta na perfeição à insegura e desventurada declamadora.
ResponderEliminarFica aberto o apetite para os outros contos.