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Foto Nuno Portela |
FINDA
[Litania
em tempos de coronavírus]
Depois,
sim, que agora
estamos
vivos.
Depois
— quando o espirro
expirar.
Depois
— quando tiveres
pó
na goela.
Não
agora — que agora
estamos
vivos.
Antes,
sim, com os braços
portentosos.
Antes
- sim – de a fraqueza
noivar
com eles. Depois, sim,
porque
há ar no ar
e
a despedida é sem desculpa
e
sem tristeza.
Antes
não, que te falta
o
assobio e a trela,
e
a cara é sem rugas,
e
a morte concorda contigo,
e
tudo é mão de amigo
mesmo
se te espreita
o
tempo inimigo.
Depois
sim, que estar vivo
é
cedo encarquilhar-se;
não,
não agora, porque estás
no
impenetrável interior,
e
desconheces o limite ulterior,
e
não sabes pedir por favor
o
socorro amplamente publicitado.
Agora
sim,
que
é antes de toda a dor,
ainda no corpo tens
cor,
e sobe-te à boca
centos de sabores.
Mas
ainda não ao grande sim,
porque
maravilha-te estar aqui
(só
mais um instantinho),
embora
penses na mão da eternidade
ou
como é doce o despenhamento.
Antes
não
— porque
há a verdade
que
desconheces,
e
porque realmente não sabes
tudo
desejas devotamente.
Não
ainda — que os teus ossos
não
sabem a alcatrão,
nem
depois — que o esqueleto
é pertença
do patrão.
Não
depois,
mas
agora sim,
porque
tens fogo nas ventas,
mascas
pó e polenta,
e
o tempo inimigo te diz
que
tudo se há de compor.
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