segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

[0567] Vitor Oliveira Mateus, a poemasofia

Nascido em Lisboa, docente universitário e poeta, Prémio Eugénio de Andrade de 2013.


SEM TÍTULO

Nas cidades de onde venho
secam as árvores ao som das sirenes
e os pássaros, alucinados, buscam direcções
nas pupilas das crianças.
Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,
enquanto os homens, imprudentes, desaprendem
a sublime auscultação da terra;
nem sequer o coração dos outros podem ler
ou o rumor inconsolável das águas
– para eles aquilo que apenas vêem!
E com um nó no peito desatado
pintam de harmonia um novo Caos


SEM TÍTULO

Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã,
só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice,
as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso
alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde
das acácias e das palmeiras e as rosas de Jericó
alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,
as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma
janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é
o teu corpo nu, exausto, branco como um templo,
porque todos os corpos são um templo no solo
consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil
e dançante caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer


SEM TÍTULO 

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas, enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer um frágil aceno, como quem convoca, no rendilhado
das areias, a beleza de uma miragem; espécie de visão fulgurante
onde uma porta auspiciosa se firma


Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas, enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer um frágil aceno, como quem convoca, no rendilhado

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