quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

[0534] João Camilo, a poesia das pequenas coisas


João Camilo dos Santos nasceu em 1943. Filólogo, escritor, tradutor e poeta, doutorado em França, foi leitor de Português em Oslo, Rennes e Aix-en-Provence e professor das Universidades de Grenoble, de Rennes e da Califórnia (Santa Bárbara), director do Center for Portuguese Studies.


E TODOS OS PÁSSAROS

Eles não tinham escrito os poemas que eu esperava escrever. Mas os livros deles, quem sabe se não faziam nas montras das livrarias o eco da minha própria voz? Assim iam e eram os tempos: fazer-se ouvir dava-nos por momentos, e às vezes durante a vida inteira, a ilusão de existir, de ter desempenhado um papel e ter encontrado a verdade, um destino. O país era o modelo perfeito e surpreendente dos vícios da raça: ambição, heroísmo, despique. Uma ausência dolorosa e mesquinha por detrás das palavras, e todos os pássaros voavam apenas para serem vistos a cortar com agilidade o azul do céu. Como eu tinha horror a vir a ser pó nesta calcinada pelo sol, noutro tempo, à sombra, no meio de outros homens.


A CORDA

Não perceberam,
não ouviram bem.
Cada um ia
na sua corda
a equilibrar-se.
Cruzaram-se e
empurraram-se.
Insultaram-se.
Traíram-se.
Amaram-se
um pouco
por angano
às vezes?
Quem sabe?
A corda partiu-se,
ficou só o vazio
para pôr os pés.


AUSÊNCIA

Tu dizes na tua última carta que as palavras
são pouca coisa e que só a circunstância o poder
tocar-me com as tuas mãos evitaria que o cavalo
cinzento da ambiguidade comece a exigir braço forte.
Mas eu sei o que tu queres dizer: que os teus seios
a linha das tuas pernas no veludo das calças
os fios loiros que no teu pescoço imitam
os quadros de Botticelli as violas de Vivaldi são
as papoilas vermelhas que deixaram de estar
no que eu digo quando falo das searas de oiro.

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