domingo, 18 de novembro de 2018

[0423] Ruy Ventura, a voz vinda da serra


Nascido em Portalegre em 1973, Ruy Ventura é professor, investigador, ensaísta, tradutor e poeta. Foi Prémio Revelação em 2000. Tem vários livros publicados.


POEMA

o sangue dissolve a cor. o encantamento.
descreve esses olhos sem fogo. a saliva
correndo por entre os lábios.
o vidro estilhaça o cabelo. arde nesta ferida.
afoga essa alma. sob o ventre. por entre as ervas.
duas aves submergem a floresta.
esvoaçam junto do poço, tentando revelar
a corda e o desespero.
a fotografia permanece. noutro continente.
estilhaça o ventre. os lábios. essa memória.
rasga para sempre
o sono mais profundo.
as asas mudam de cor.
(a criança tenta conter a respiração.)
a terra rejeita essa seiva.
devolve sem vento a água e a garganta.
a fronteira esboroa o coração.
a cor dissolve o sangue. o óvulo
apodrece entre dois carvalhos.
a raiz agarra esse espelho.
a morte encaminha esses lábios
para o grande lago.
ao longe, a criança observa a ferida.
o braço percorre essa língua. a mão descobre
na boca a madeira.
(que cinza restará deste silêncio?
o arco quebrando a angústia?
a torre vigiando a nossa sede?)
a água condensa entre as linhas
a seiva e o desespero.
sem erva, o pórtico conserva
algumas palavras. noutra língua.
os limos desenham no tanque
esse segredo.
a viagem continua.
continua enquanto os fantasmas
revestem de morte
o crepúsculo e a madrugada.


SEGREDO

que torre espreita nesse lume que não vejo?
sem regra, o alicerce silencia o veneno –
horas e horas sem fogo. séculos e séculos
sem força para descobrir a morte
no campo que hoje não vigia.
torre – ou apenas a legenda do tempo?
verbo segurando o devir e a sombra – desta terra?
jamais subirei essa escada. escavaram o alicerce.
encheram-no de flores, de folhas mortas,
de entulho – vozes e raios de sol sobre o lado esquerdo
e um mastro com (h)eras e flamas
silvando a alegria.
torre e castelo que não vejo. facho que oiço
sem palavras, a crepitar sobre o bosque,
iluminando vestígios que não encontro.
a fonte alumia. a efígie obscurece –
mesmo escondida sob os ramos.
sobre a rocha, a memória permanece.
assim. em segredo. como a cal
– segurando essa palavra.


FORTALEZA

que fortaleza guarda a altura desta torre?
por entre as grades, ao longe,
o teu olhar vislumbra outro coração.
sem cor, sem sombra, sem sopro
de vento desalinhando os cabelos.
entre casas e árvores
desenharam rostos e palavras,
com ouro,
mas sem oiro –
silvando por dentro, na distância
entre o entulho e a memória.
uma fenda recorda-nos ruínas –
há tanto tempo sem água.
e no largo vão
por onde mal passa essa imagem
a chuva aquece a luz
desses olhos que não podemos ver –
acolhendo sob o arco a lonjura
e a respiração da carne.

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