António Jacinto do Amaral Martins, nascido em Luanda em 1924 e falecido em Lisboa em 1991, foi um poeta angolano, caracterizado pelo seu nacionalismo. Fundador, com Viriato da Cruz (já aqui referido) do Partido Comunista Angolano, esteve preso, de 1962 a 1972, pelas autoridades salazaristas no Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde) devido a actividades políticas anticoloniais. Dirigiu o Centro de Instrução Revolucionária do MPLA durante o combate ao colonialismo português e, depois da independência de Angola, foi Ministro da Cultura do país. Os dois poemas que hoje oferecemos, foram musicados por Fausto Bordalo Dias (ver próximos dois posts)
CARTA DE UM CONTRATADO
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue…
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí…
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação…
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kiesa
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento…
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor…
Eu queria escrever-te uma carta…
Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu – Oh! Desespero – não sei escrever também!
CASTIGO P'RO COMBOIO MALANDRO
passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem
o comboio malandro
passa
Nas janelas muita gente
ai bô viaje
adeujo homéé
n’ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender
hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
muú muú muú
tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato
Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança
“Mulonde iá késsua uádibalé
uádibalé uádibalé…”
Esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Comboio malandro
O fogo que sai no corpo dele
Vai no capim e queima
Vai nas casas dos pretos e queima
Esse comboio malandro
Já queimou o meu milho
Se na lavra do milho tem pacacas
Eu faço armadilhas no chão,
Se na lavra tem kiombos
Eu tiro a espingarda de kimbundo
E mato neles
Mas se vai lá fogo do malandro
– Deixa!-
Ué ué ué
Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Só fica fumo,
Muito fumo mesmo.
Mas espera só
Quando esse comboio malandro descarrilar
E os brancos chamar os pretos pra empurrar
Eu vou
Mas não empurro
– Nem com chicote –
Finjo só que faço forca
Aka!
Comboio malandro
Você vai ver só o castigo
Vai dormir mesmo no meio do caminho.

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